
CAPTULO UM
Os mortos eram o seu negcio. Ela convivia com eles, trabalhava com eles,
estudava-os; sonhava com eles. E pelo fato de que tudo isso ainda no parecia ser o
suficiente, em algum lugar profundo e secreto do corao ela os pranteava.
Seus dez anos de trabalho na polcia a tinham endurecido. Trouxeram-lhe uma
viso prxima, fria e muitas vezes cnica da morte, e suas muitas causas. Eles
faziam com que cenas como aquela  qual assistia agora, em uma noite chuvosa em
uma rua escura e imunda de tanto lixo, lhe parecessem quase que banais. Mesmo
assim, ela sentia.
Assassinatos no mais a deixavam chocada. Mas continuavam a lhe causar
nojo.
A mulher tinha sido bonita no passado. Longos tentculos de seu cabelo
dourado se espalhavam como raios sobre a calada imunda. Os olhos pareciam
espantados e estavam vidrados, com aquela expresso agoniada que a morte s
vezes deixava impressa. Tinham um tom violeta-escuro, em contraste com as
bochechas brancas, sem sangue e molhadas de chuva. Usava um conjunto caro,
que tinha a mesma cor vibrante de seus olhos. O palet estava cuidadosamente
abotoado, em contraste com a saia levantada que expunha suas coxas elegantes.
Jias brilhavam em seus dedos, nas orelhas e na lapela do palet. Uma bolsa de
couro, com fecho de ouro, estava cada, junto  mo com os dedos abertos.
Sua garganta tinha sido cruelmente cortada.
A Tenente Eve Dallas se agachou ao lado da morta e a estudou
cuidadosamente. As imagens e os cheiros eram familiares, mas a cada vez, todas
as vezes, havia algo novo. Tanto a vtima quanto o criminoso deixavam sua marca
especfica, seu estilo prprio, e transformavam o assassinato em algo pessoal.
A cena do crime j tinha sido gravada. Os sensores da polcia e uma tela
protetora haviam sido colocados para manter os curiosos afastados e preservar o
local do assassinato. Todo o trfego da rea tinha sido desviado. O trfego areo
era muito leve quela hora da noite e trazia poucos problemas. O som abafado da
msica do sex pub do outro lado da rua martelava o ar incessantemente, pontuado
pelos ocasionais urros dos frequentadores. As luzes coloridas do letreiro giratrio
pulsavam de encontro  tela de proteo, lanando raios de cores berrantes sobre o
corpo da vtima.
Eve poderia ter ordenado o fechamento do clube, mas aquilo lhe pareceu um
aborrecimento desnecessrio. Mesmo no ano de 2058, apesar do banimento das
armas, e embora os testes genticos com frequncia detectassem as caractersticas
hereditrias de violncia antes mesmo que elas pudessem se manifestar, os
assassinatos ainda existiam. E aconteciam com uma regularidade to grande que as
pessoas do outro lado da rua, em busca de diverso, ficariam indignadas com a
ideia de serem obrigadas a ir embora por causa de uma inconvenincia to pequena
como uma morte.
Um policial uniformizado continuava a fazer gravaes do local. Ao lado da
tela, um grupo de tcnicos do laboratrio de criminalstica se mantinha aconchegado
para se proteger da chuva e bater papo sobre esportes e compras. Ainda no
haviam nem se dado ao trabalho de olhar para o corpo, e ainda no a tinham
reconhecido.
Ser que era pior, se perguntou Eve, com o olhar firme enquanto olhava para a
chuva que lavava o sangue, quando a gente conhecia a vtima?
Ela tivera apenas um contato profissional com a promotora Cicely Towers, no
passado, mas foi o suficiente para que formasse uma forte opinio a respeito de
uma mulher determinada. Uma mulher bem-sucedida, pensou Eve, uma guerreira,
que sempre buscara a justia, com obstinao.
Ser que ela estava  procura de justia ali, naquela vizinhana miservel?
Dando um suspiro, Eve se aproximou e pegou a bolsa cara e elegante, para
confirmar a identificao que fizera visualmente.
- Cicely Towers - falou para o gravador. - Mulher, idade: quarenta e cinco,
divorciada. Residncia: Rua Oitenta e Trs, Oeste, nmero 2.132, apartamento 61-
B. No houve roubo. A vtima ainda est com as suas jias. Aproximadamente... - e
vasculhou a carteira - vinte dlares em cdulas, cinquenta fichas de crdito e seis
cartes de crdito, deixados na cena do crime. No h sinais aparentes de luta ou
agresso sexual.
Olhou novamente para a mulher esparramada na calada. Que diabos voc
estava fazendo aqui, Towers?, perguntou Eve mentalmente. Aqui, to longe do
centro do poder, to distante do seu sofisticado endereo?
E vestida como se fosse trabalhar, pensou. Eve conhecia o estilo autoconfiante
do trajar de Cicely Towers; j admirara isto no tribunal e na prefeitura. Cores fortes,
sempre prontas para a cmera, com acessrios combinando e um toque feminino.
Eve se levantou e esfregou distraidamente o joelho sob a cala molhada.
- Homicdio - completou de modo curto e rpido. - Podem ensac-la.
No foi surpresa para Eve que a mdia j tivesse sentido o cheiro de
assassinato e estivesse rondando por ali quando ela chegou ao brilhante prdio
onde Cicely Towers morava. Vrias cmeras e reprteres sedentos estavam
acampados na limpssima calada. O fato de que eram trs da manh e chovia a
cntaros no parecia det-los. Em seus rostos, Eve identificou os brilhantes olhos de
lobos. A histria era a presa, os pontos do ibope, o trofeu.
Podia ignorar as cmeras que balanavam em sua direo e as perguntas
atiradas como dardos certeiros. J estava quase acostumada  perda do anonimato.
O caso que investigara e desvendara no inverno anterior tinha atrado a ateno do
pblico. No s o caso, pensava ela, ao fitar com olhos de ao um reprter que
tivera a ousadia de lhe bloquear a passagem, mas tambm o seu relacionamento
com Roarke.
Tinha sido um caso de assassinato, e mortes violentas, por mais excitantes que
fossem, logo perdiam o interesse do pblico.
Roarke, no entanto, era sempre notcia.
- O que conseguiu, tenente? J tem algum suspeito? Existe um motivo?
Poderia confirmar para ns se a promotora Towers foi degolada?
Eve diminuiu o passo apressado por alguns instantes e fez o olhar desfilar
sobre a massa de reprteres encharcados e com olhar selvagem. Ela tambm
estava molhada, cansada e revoltada, mas foi cuidadosa. J aprendera que quando
voc entregava para a mdia uma parte de si mesmo, ela o espremia, torcia e
colocava para secar.
- O Departamento de Polcia no tem nenhum comentrio a fazer neste
momento, a no ser o de que a investigao da morte da promotora Towers est
seguindo o seu curso.
- A senhorita est cuidando do caso?
- Sim, fui encarregada disso - falou, de forma breve, antes de passar entre os
dois policiais que haviam se colocado de guarda na entrada do edifcio.
O saguo estava completamente florido: imensos arranjos e uma grande
quantidade de flores coloridas e perfumadas fizeram-na pensar na primavera e em
um lugar extico. A ilha onde passara trs deslumbrantes dias em companhia de
Roarke, enquanto se recuperava de um ferimento de bala e da completa exausto.
Nem teve tempo de sorrir diante da lembrana, como aconteceria se as
circunstncias fossem diferentes. Simplesmente exibiu o distintivo e caminhou sobre
os lajotes de cermica at o elevador mais prximo.
Havia outros guardas l dentro. Dois atrs da recepo, analisando o
computador da segurana, outro vigiando a entrada e outros mais ao lado dos
elevadores. Era mais gente do que seria necessrio, mas, sendo promotora, Towers
era considerada do grupo deles.
- O apartamento est protegido? - perguntou Eve ao guarda mais prximo.
- Sim, senhora. Ningum entrou ou saiu desde que a senhora fez a chamada, 
meia-noite e vinte e dois.
- Quero cpias de todos os discos e arquivos de segurana. Entrou no
elevador. - Os das ltimas vinte e quatro horas para comear. - Olhou para o nome
bordado no uniforme. - Biggs, os das ltimas seis horas vou querer com todos os
detalhes, comeando pelas sete da noite, e tambm investigaes feitas porta a
porta. Sexagsimo primeiro andar - ordenou ento, e as portas do elevador se
fecharam silenciosamente.
Eve saiu no andar que pedira e pisou no luxuoso tapete. Fazia um silncio de
museu. O corredor era estreito, como acontecia na maioria dos prdios residenciais
construdos nos ltimos cinquenta anos. As paredes eram pintadas de um branco
imaculado e revestidas de espelhos a intervalos regulares para dar a impresso de
mais espao.
Espao que no era problema dentro dos apartamentos, Eve avaliou. Havia
apenas trs em todo o andar. Ela digitou o cdigo para abrir a fechadura usando a
chave magntica do Departamento de Polcia e entrou em um ambiente de suave
elegncia.
Cicely Towers se cuidava bem, concluiu Eve. E gostava de morar com conforto
e luxo. Enquanto tirava a cmera porttil de seu kit de trabalho e a prendia no
casaco, olhou em volta de toda a sala. Reconheceu dois quadros de um
proeminente artista do incio do sculo XXI pendurados em uma parede pintada em
um suave tom de rosa ao fundo de uma ampla sala de estar em forma de U,
decorada em tons de rosa e verde. Foi o seu contato com Roarke que a ajudou a
identificar os quadros e o ar de riqueza e conforto na aparente simplicidade da
decorao e nas peas selecionadas.
Quanto ser que uma promotora pblica fatura por ano?, perguntou a si
mesma enquanto a cmera gravava tudo em volta.
Estava tudo arrumado. Meticulosamente arrumado. Tambm, refletiu Eve, pelo
que conhecia de Cicely Towers, ela era uma mulher meticulosa. Em seu modo de
vestir, em seu trabalho e na manuteno de sua privacidade.
Ento, o que  que uma mulher elegante, inteligente e meticulosa estava
fazendo em uma regio asquerosa, em uma noite detestvel?
Eve caminhou pela sala. O piso era de madeira clara e brilhava como espelho
sob os maravilhosos tapetes que acompanhavam as cores dominantes da sala.
Sobre uma mesa havia vrios hologramas emoldurados, mostrando crianas em
vrios estgios de crescimento, desde a primeira infncia at a universidade. Um
rapaz e uma moa, ambos bonitos, ambos sorrindo.
Estranho, pensou Eve. Trabalhara com a promotora Towers em inmeros
casos ao longo dos anos. Como  que Eve nunca soube que tinha filhos?
Balanando a cabea, foi at o pequeno computador embutido em uma estao de
trabalho sofisticada no canto da sala. Mais uma vez, usou sua chave magntica para
ter acesso.
 Listagem dos compromissos de Cicely Towers para o dia dois de maio, os
lbios de Eve se apertaram enquanto lia os dados. Uma hora na academia de
ginstica de um clube privado  qual se seguiu um dia cheio no tribunal e se
encerrou com um drinque s seis da tarde com um conhecido advogado. Mais tarde,
um jantar. As sobrancelhas de Eve se levantaram. Um jantar com George Hammett.
Roarke tinha negcios com Hammett, lembrou Eve. Ela j se encontrara com
ele, em duas ocasies. Sabia que era um homem charmoso e astuto, que ganhava a
vida com transportes e tinha um extraordinrio padro de vida.
George Hammett foi o ltimo compromisso de Cicely Towers naquele dia.
- Imprima - murmurou, e enfiou a cpia recm-impressa na bolsa.
Em seguida, acionou o tele-link, exigindo a relao de todas as chamadas
feitas e recebidas nas ltimas quarenta e oito horas. Provavelmente teria de cavar
mais fundo, mas, naquele momento, simplesmente ordenou a gravao de todas as
ligaes, guardou o disco e deu incio a uma longa e cuidadosa busca pelo
apartamento.
Por volta das cinco da manh, seus olhos pareciam ter areia e sua cabea
doa. A nica hora de sono que conseguira encaixar entre o sexo na noite anterior e
a chamada para investigar o assassinato estava comeando a cobrar seu preo.
- De acordo com as informaes conhecidas - disse, com voz cansada para o
gravador - a vtima morava sozinha. No h indcios do contrrio pela avaliao
inicial. Tambm no h indcios de que a vtima tenha sado do apartamento contra
a vontade, e no foi encontrado registro de nenhum compromisso que possa
explicar a ida da vtima at o local da morte. Como responsvel pela investigao,
recolhi dados do computador e do tele-link para pesquisas posteriores. O
interrogatrio porta a porta vai se basear nos eventos a partir das sete da noite e os
discos de segurana do prdio j foram recolhidos. Estou saindo da residncia da
vtima e seguindo para prosseguir com os trabalhos em seu gabinete, na prefeitura.
Aqui fala a tenente Eve Dallas. So cinco horas e oito minutos.
Desligando o udio e o vdeo, Eve fechou o seu kit de trabalho e saiu.
J passava das dez quando ela conseguiu chegar de volta  Central de Polcia.
Atendendo aos apelos de seu estmago vazio, deu uma passada na lanchonete e
ficou desapontada, embora no surpresa, ao ver que tudo que havia de bom para
comer j tinha acabado devido  hora. Resignou-se com um brioche de soja
acompanhado do lquido que a lanchonete fingia ser caf. Apesar do gosto horrvel,
engoliu tudo antes de se acomodar em sua sala.
Foi melhor assim, pois seu tele-link tocou no instante em que entrou.
- Tenente.
Eve engoliu um suspiro ao ver o rosto largo e risonho de Whitney aparecer na
tela.
- Sim, comandante.
- Venha  minha sala. Agora.
No teve tempo nem de fechar a boca antes de a tela se apagar novamente.
Ai, que droga!, pensou. Esfregou as mos sobre o rosto e a seguir passou os
dedos pelos cabelos castanhos, curtos e repicados. L se fora a chance de verificar
suas mensagens, de ligar para Roarke, a fim de comentar sobre seu novo caso, ou
do cochilo de dez minutos que ela tinha esperanas de tirar.
Levantando-se de novo, esticou os ombros para trs. Levou algum tempo para
tirar o casaco. O couro tinha protegido sua blusa, mas a cala jeans ainda estava
mida. De modo objetivo, ignorou o desconforto e reuniu os poucos dados que tinha.
Se tivesse sorte, era capaz de conseguir outra xcara de caf na sala do
comandante.
Levou apenas dez segundos para Eve descobrir que o caf ia ter de esperar.
Whitney no estava sentado atrs da mesa, como de hbito. Estava em p,
olhando para a janela que lhe proporcionava uma viso pessoal da cidade que ele
servira e protegera por mais de trinta anos. Suas mos estavam entrelaadas atrs
do corpo, mas a posio de aparente relaxamento era desmentida pelas juntas dos
dedos, que estavam brancas.
Eve avaliou rapidamente os ombros fortes, os cabelos grisalhos e as costas
largas do homem que h poucos meses recusara o cargo de Secretrio de
Segurana para permanecer no comando ali.
- Comandante.
- Parou de chover.
Os olhos de Eve comearam a se estreitar, em estranheza, mas ela teve o
cuidado de se mostrar sem emoes.
- Sim, senhor.
- No fundo, Dallas,  uma boa cidade. Daqui de cima,  fcil a gente esquecer
isso, mas esta  uma boa cidade, no fundo. Estou tentando me lembrar deste fato,
neste instante.
Eve no respondeu nada. No havia nada a dizer. Esperou.
- Eu a coloquei como investigadora principal neste caso. Tecnicamente, era a
vez de Deblinsky; portanto, eu quero tomar conhecimento se ela a atacar de algum
modo.
- Deblinsky  uma boa policial.
- Sim, ela . Mas voc  melhor.
Eve levantou as sobrancelhas ao ouvir isso e ficou feliz por Whitney ainda estar
de costas para ela.
- Agradeo a sua confiana, comandante.
- Voc a conquistou, Eve. Por motivos pessoais, passei por cima da escala dos
investigadores para colocar voc no controle deste caso. Preciso da melhor
investigadora; preciso de algum que v at o fundo, e mais alm.
- A maioria de ns conhecia a promotora Towers, comandante. No h um
policial sequer em Nova York que no iria at o fundo, e mais alm, a fim de
descobrir quem a matou.
Ele suspirou profundamente, o que fez o seu corpo pesado estremecer, antes
de se virar. Por mais um instante, ficou sem dizer nada, apenas analisando a mulher
que colocara no comando. Ela era magra, o que era quase uma decepo, pois ele
tinha muitas razes para saber que ali havia muito mais energia do que ela
aparentava, sob aquele corpo frgil e esbelto.
Notou um pouco de fadiga nela, naquele instante, pelas olheiras sob os olhos
da cor de usque e pela palidez de seu rosto magro. Mas ele no podia deixar que
isso o preocupasse, no naquele momento.
- Cicely Towers era uma amiga pessoal. Uma amiga pessoal muito chegada.
- Entendo. - Eve se perguntou se realmente entendia. Sinto muito, comandante.
- Eu a conhecia h muitos anos. Comeamos juntos, eu um policial de ronda
que comia cachorro-quente, e ela uma advogada criminalista com excesso de
entusiasmo. Minha esposa e eu somos padrinhos do filho dela. - Fez uma pausa por
um instante, como se estivesse tentando se controlar. - J comuniquei a morte aos
filhos dela. Minha esposa est a caminho para se encontrar com eles. Eles vo ficar
conosco at depois dos funerais.
Whitney pigarreou para limpar a garganta e apertou os lbios antes de
continuar.
- Cicely era uma das minhas amigas mais antigas. Acima e alm do respeito
profissional que tinha por ela, eu a amava muito. Minha mulher est arrasada; os
filhos de Cicely esto em pedaos. Tudo o que consegui dizer a eles  que ia fazer
tudo e qualquer coisa que estivesse ao meu alcance para encontrar a pessoa que
fez isso com a me deles, para dar a ela aquilo pelo qual trabalhou na maior parte
de sua vida: justia.
Neste instante, ele finalmente se sentou, no com autoridade,
mas com cansao.
- Estou lhe contando tudo isso, Dallas, para que saiba de cara que no tenho
objetividade para tratar deste caso. Nenhuma. E por no ter esta objetividade, estou
dependendo de voc.
- Agradeo a franqueza, comandante. - Eve hesitou apenas por um momento. -
Como amigo pessoal da vtima, vou ter de interrog-lo o mais breve possvel,
senhor. - Reparou que os olhos dele piscaram e por fim o seu olhar se tornou duro. -
Sua esposa tambm, comandante. Se for mais cmodo, posso ir at sua casa para
conduzir as entrevistas, em vez de fazer isto aqui.
- Sei. - E voltou a inspirar profundamente. -  por isso que eu a quero no
comando, Dallas. No disponho de muitos policiais com a coragem de tocar na
ferida to diretamente. Eu agradeceria se voc esperasse at amanh, ou talvez
mais um ou dois dias, antes de ver a minha esposa, e se puder ir at a minha casa,
posso arranjar tudo.
- Sim, senhor.
- O que conseguiu at agora?
- Fiz um reconhecimento do apartamento da vtima e de sua sala de trabalho.
Tenho os arquivos dos casos que ela tinha em aberto, e todos os que ela fechou nos
ltimos cinco anos. Preciso cruzar os nomes para ver se algum que ela mandou
para a cadeia foi libertado recentemente, estudar as famlias dos que esto presos e
suas ligaes. Especialmente os violentos. A mdia dos acusados que ela
conseguia condenar era muito alta.
- Cicely era uma leoa no tribunal. Jamais a vi deixar escapar um nico detalhe.
At agora.
- Por que motivo ela estava l, comandante, no meio da noite? O relatrio
preliminar da autpsia determinou o momento da morte  uma e dezesseis da
manh. Aquela  uma vizinhana barrapesada, onde gangues arrancam dinheiro
sob ameaa, h assaltos, prostbulos. Tem at mesmo uma famosa boca-de-fumo e
drogas qumicas a poucos quarteires do lugar em que ela foi achada.
- No sei responder, Eve. Cicely era uma mulher cuidadosa, mas ela tambm
era, como direi, arrogante. - Deu um pequeno sorriso. - Admiravelmente arrogante.
Era capaz de ficar cara a cara com aquilo de pior que a cidade tem a oferecer.
Colocar-se em risco deliberadamente, porm... no sei se ela o faria.
- Ela estava com um novo caso. O acusado se chama Fluentes. Assassinato
em segundo grau. Estrangulamento da namorada. O advogado dele est alegando
crime passional, mas o que se ouve falar  que Towers estava pretendendo acabar
com ele. Estou investigando.
- Ele est nas ruas ou est preso?
- Nas ruas. Como era ru primrio, a fiana foi baixa demais. Sendo um caso
de assassinato, ele foi obrigado a usar uma pulseira de rastreamento, mas isto no
significa nada para qualquer um que saiba um pouco de eletrnica. Ser que ela foi
se encontrar com ele?
- Absolutamente, no. Encontrar-se com um ru fora do tribunal iria corromper
o processo. - Pensando em Cicely, lembrando de Cicely, Whitney balanou a
cabea. - Isso ela jamais ia querer pr em risco. Mas ele pode ter usado de outros
meios para atra-la quele local.
- Como eu disse, comandante, estou averiguando. Ela teve um encontro para
jantar na noite passada com George Hammett. O senhor o conhece?
- Socialmente. Eles se encontravam ocasionalmente. No era nada srio,
segundo minha mulher. Ela estava sempre tentando achar o homem perfeito para
Cicely.
- Comandante,  melhor eu perguntar logo, extra-oficialmente. O senhor estava
envolvido sexualmente com a vtima?
Um dos msculos de seu rosto se contraiu, mas os olhos ficaram firmes.
- No, no estava. Tnhamos uma grande amizade, uma amizade muito
valiosa. Basicamente, ela era parte da famlia. Voc no conseguiria compreender o
conceito de famlia, Dallas.
- No. - A voz dela estava fraca. - Imagino que no.
- Desculpe-me pelo que acabei de falar. - Fechando os olhos bem apertado,
Whitney passou as mos sobre o rosto. - No teve nada a ver, e foi injusto. Sua
pergunta era relevante. - Abaixou as mos. - Voc jamais perdeu algum prximo,
no , Dallas?
- No que eu me lembre.
- Isso deixa a pessoa despedaada.
Ela imaginava que sim. Nos dez anos em que conhecia Whitney, Eve j o vira
furioso, impaciente, e at mesmo cruel e frio. Mas jamais o tinha visto arrasado.
Se ter algum prximo e perd-lo fazia aquilo com um homem forte, Eve achou
que era melhor continuar como estava. No havia ningum da famlia que pudesse
perder, e tinha apenas poucas lembranas, algumas terrveis, de sua infncia. Sua
vida, como ela a conhecia agora, comeara aos oito anos, quando foi encontrada,
surrada e abandonada, no Texas. O que acontecera antes daquele dia no
importava. Ela repetia para si mesma o tempo todo que no importava. Ela
transformara a si mesma no que era, em quem era. Tinha poucos amigos com os
quais se importava, ou nos quais confiava. E para algo mais do que amizade, havia
Roarke. Ele tinha forado a barra com ela at conseguir que ela lhe desse aquele
algo mais. Um algo mais que era o bastante para deix-la assustada nos momentos
mais estranhos. Porque sabia que ele no ficaria satisfeito at conseguir tudo.
E se ela lhe entregasse tudo e depois o perdesse, no ficaria tambm em
pedaos?
Em vez de ficar remoendo essa ideia, Eve se serviu de caf e comeu os restos
de uma barra de chocolate que descobriu em sua mesa. A perspectiva de almoar
era uma fantasia to grande quanto a de passar uma semana nos trpicos. Sorveu o
caf e mastigou o chocolate enquanto analisava o relatrio final da autpsia no
monitor.
O momento da morte estava confirmado. A causa era uma jugular cortada e a
perda macia de sangue e oxignio. A vtima fez uma refeio de frutos do mar
acompanhada de aspargos verdes, vinho, caf verdadeiro e frutas frescas com
creme batido. A ingesto ocorrera aproximadamente cinco horas antes da morte.
O alarme foi bem rpido. Cicely Towers estava morta h apenas dez minutos
quando um motorista de txi corajoso, ou desesperado o bastante para trabalhar na
rea, avistou o corpo e chamou a polcia. A primeira patrulha chegou ao local em
trs minutos.
O assassino escapara bem depressa, calculou Eve. Tambm, era bem fcil
desaparecer em uma vizinhana como aquela, ou se enfiar em um carro, entrar por
uma porta, uma boate. A chuva tinha sido uma aliada, lavando o sangue das mos
do assassino.
Ela ia ter de vasculhar a rea com pente fino e fazer perguntas que dificilmente
resultariam em algum tipo de resposta vivel. Apesar disso, o suborno funcionava
melhor nos lugares em que os procedimentos normais ou as ameaas no
adiantavam.
Estava estudando a foto de Cicely Towers com sua gargantilha de sangue
quando seu tele-link tocou.
- Aqui fala Dallas, da Homicdios.
Um rosto apareceu bem iluminado na tela. Era jovem, sorridente e manhoso.
- Ol, tenente. Tem algum lance para mim?
Eve no xingou, embora tivesse vontade de fazer isto. Seu conceito a respeito
de reprteres no era dos mais altos, mas C. J. Morse estava no ponto mais baixo
de sua escala.
- Voc no ia gostar de saber qual  o lance que eu daria por voc, Morse.
- Qual , Dallas? - Seu rosto redondo se iluminou em um sorriso. - O pblico
tem o direito de saber, lembra?
- No tenho nada para voc.
- Nada? Voc quer que eu v para o ar dizendo que a tenente Eve Dallas, a
mais conceituada policial de Nova York, est de mos vazias em plena investigao
do assassinato de uma das mais respeitadas, destacadas e conhecidas figuras
pblicas da cidade? Eu bem que podia fazer isso, Dallas - continuou ele, estalando a
lngua. Bem que poderia, mas no ia ser muito bom para a sua imagem.
- E voc deve achar que eu me importo com isso. - Seu sorriso era fino e
penetrante como o laser, e seu dedo fez meno de desligar o tele-link. - Pois achou
errado.
- Talvez no importe para voc, pessoalmente, mas isso ia refletir em todo o
departamento. - Seus olhos, com clios muito compridos, quase femininos, piscaram.
- Ia refletir sobre o comandante Whitney, que mexeu os pauzinhos para colocar voc
no comando das investigaes. E ia acabar respingando em Roarke.
O dedo de Eve parou no ar, coando, para afinal se recolher na palma da mo.
- O assassinato de Cicely Towers  a prioridade do departamento tanto para o
comandante Whitney quanto para mim.
- Vou repetir suas palavras no noticirio. Cretino, sem-vergonha!
- E o meu trabalho na polcia no tem nada a ver com Roarke.
- Ei, olhos castanhos, voc sabe que qualquer coisa que diga respeito a voc
tambm diz respeito a Roarke, e vice-versa. Alm do mais, o fato de que o seu
namorado tinha negcios com a falecida, com o ex-marido e tambm com o atual
namorado dela cria um quadro muito legal.
Os punhos de Eve se fecharam, formando uma bola de frustrao.
- Roarke tem inmeros negcios com um monte de gente. Eu no sabia que
voc estava de volta na seo de fofocas, C. J.
Isto serviu para apagar o sorrisinho ordinrio do rosto do reprter. No havia
nada que C. J. Morse detestasse mais do que ser lembrado das suas razes nos
programas de fofocas e notas sociais da TV. Especialmente agora que ele
conseguira abrir o caminho para o noticirio policial.
-  que eu tenho contatos, Dallas.
- Sei, e tem tambm uma espinha enorme bem no meio da testa. Se eu fosse
voc, ia tratar disto. - Com esse golpe baixo, mas satisfatrio, Eve cortou a ligao.
Levantando-se, comeou a caminhar em volta de sua pequena sala, enfiando e
tirando as mos dos bolsos. Que droga! Por que  que o nome de Roarke tinha de
aparecer todas as vezes, em conexo com o caso? E at que ponto ele estava
envolvido com os negcios de Cicely Towers e seus scios?
Eve se deixou cair na cadeira e olhou de cara amarrada para os relatrios que
estavam sobre a sua mesa. Ela ia ter de descobrir, e depressa.
Pelo menos desta vez, com este assassinato, ela sabia que Roarke tinha um
libi. No momento em que Cicely Towers estava tendo a sua garganta cortada,
Roarke estava transando loucamente com a policial que estava  frente das
investigaes.
CAPTULO DOIS
Eve preferia voltar para o apartamento que ainda mantinha, apesar de passar a
maioria das noites na casa de Roarke. Em sua prpria casa, ela poderia remoer as
ideias e os pensamentos, poderia dormir e conseguiria reconstruir o ltimo dia da
vida de Cicely Towers, por completo. Em vez de fazer isto, porm, foi direto para a
casa de Roarke.
Estava cansada o bastante para desistir da direo e deixar o piloto automtico
manobrar o carro pelo trfego do final de tarde. Comida era a primeira coisa de que
precisava, resolveu. E se conseguisse dez minutos para ficar sozinha, a fim de
clarear as ideias, melhor ainda.
A primavera resolvera dar o ar de sua graa lindamente. Era uma tentao
para Eve abrir as janelas do carro, ignorar os sons do trfego agitado, o zumbido
dos maxi-nibus, as reclamaes dos pedestres e o assobio constante do trfego
areo por cima de sua cabea.
A fim de escapar do eco da voz dos guias que conduziam os pequenos
dirigveis para turistas, ela fez um desvio e pegou a Dcima Avenida. Seguir direto
pelo Centro e depois cortar por dentro do parque teria sido bem mais rpido, mas ela
teria de aguentar a montona declamao dos guias, falando das atraes de Nova
York, da histria e da tradio da Broadway, da exuberncia dos museus e da
variedade de lojas, alm do luminoso que convidaria os passageiros para uma visita
 loja de presentes que pertencia  prpria concessionria dos dirigveis.
Como a rota do dirigvel passava bem em frente ao seu apartamento, ela j
ouvira toda aquela ladainha inmeras vezes. S no se importava de ser lembrada
da convenincia das passarelas deslizantes que conectavam as lojas de moda das
mais famosas grifes da Quinta Avenida com a Madison, ou a mais nova calada
area construda ao lado do Empire State.
Uma pequena reteno do trfego, na altura da Rua Cinquenta e Dois, deu-lhe
a oportunidade de apreciar um cartaz, no qual um homem e uma mulher muito
bonitos trocavam um beijo apaixonado, adocicado, conforme eles exclamavam cada
vez que separavam os lbios em busca de ar, pelo aromatizador de hlito Riacho da
Montanha.
Quando seus veculos esbarraram na lateral um do outro, dois motoristas de
txi comearam a trocar criativos insultos. Um maxinibus transbordando de
passageiros comeou a buzinar sem parar, adicionando  cena um som agudo de
arrebentar os tmpanos, o que fez com que os pedestres das rampas prximas e das
caladas balanassem a cabea ou os punhos.
Uma aeronave do controle de trfego mergulhou bem baixo, trombeteando o
aviso-padro para que os txis seguissem em frente ou seriam multados. E o trfego
se arrastava para o norte, cidade acima, cheio de rudos e nervos  flor da pele.
A paisagem da cidade mudou  medida que Eve saa do Centro em direo s
regies mais afastadas. Ali era o lugar que os ricos e privilegiados escolhiam para
morar. As ruas eram mais largas, mais limpas e cheias de rvores em pequenos
parques, que pareciam ilhas verdejantes. Ali os veculos se aquietavam, produzindo
apenas um sussurro, e os que caminhavam pelas ruas faziam isto envergando
roupas bem cortadas e sapatos finos.
Eve passou por um pedestre que estava levando dois ces de caa de plos
dourados para passear, com o autocontrole e a firmeza tpicos de um andride
qualificado.
Ao chegar aos portes da residncia de Roarke, seu carro ficou  espera de
que a segurana automtica a deixasse entrar. As rvores da propriedade estavam
florindo. Grandes cachos de flores brancas e rosadas se alternavam com outras
mais fortes, vermelhas e azuis, e tudo estava acarpetado por uma grande extenso
de grama da cor de esmeralda.
A casa propriamente dita sobressaa contra o fundo do cu que escurecia e os
vidros refletiam o sol que se punha e iluminava o revestimento de pedra solene e
acinzentado. J fazia meses desde que Eve a vira pela primeira vez, e mesmo assim
ela jamais conseguira se acostumar com o tamanho, a suntuosidade, a riqueza em
estado simples e puro. Ela tinha de parar de se perguntar o que estava fazendo ali
com ele.
Deixou o carro ao p da escadaria de granito e subiu por ela. No bateu na
porta. Era uma questo de orgulho e teimosia. O mordomo de Roarke a desprezava,
e no se preocupava em esconder isto.
Como era de esperar, Summerset surgiu no saguo como uma nuvem sbita
de fumaa negra, com os cabelos prateados brilhando e um franzir de desaprovao
j pronto no rosto comprido.
- Tenente. - Seus olhos a revistaram, fazendo-a perceber que estava usando
as mesmas roupas com as quais sara na vspera, e a esta altura
consideravelmente amarrotadas. - No sabamos a que horas a senhorita ia voltar,
nem, na verdade, se pretendia mesmo voltar.
- No sabamos? - Ela encolheu os ombros, e por saber que isto o ofendia,
despiu o surrado casaco de couro e o colocou nas mos elegantes do empregado. -
Roarke est em casa?
- Ele est s voltas com uma transmisso interespacial.
- A respeito do Olympus Resort?
A boca de Summerset se enrugou como uma ameixa.
- No me cabe investigar os assuntos de Roarke - respondeu. Voc sabe
exatamente tudo o que ele faz, e quando, pensou ela,
mas se virou e seguiu pelo saguo amplo e reluzente, em direo  larga base
da escadaria.
- Vou subir. Preciso de um banho - e olhou para trs, por cima do ombro. - Por
favor, avise a Roarke onde estou quando ele acabar o que est fazendo.
Subiu at a sute principal. Tal como Roarke, Eve raramente usava os
elevadores. No momento em que fechou a porta atrs de si, comeou a se despir,
deixando pelo cho uma trilha de botas, jeans, blusa e roupas ntimas, a caminho do
banheiro.
Ordenou que a gua sasse a 39 graus, e logo em seguida se lembrou de jogar
alguns dos sais de banho que Roarke trouxera para ela do satlite Silas Trs. Eles
cobriram a gua com uma espuma verde-mar que recendia a um bosque encantado.
Espalhando-se na banheira de mrmore tamanho gigante, s faltou chorar de
prazer quando o calor envolveu seus msculos doloridos. Inspirando com fora,
submergiu e prendeu a respirao por trinta segundos, para afinal subir de volta com
um suspiro de pura sensualidade. Manteve os olhos fechados e se deixou fluir.
Foi assim que ele a encontrou.
A maioria das pessoas diria que ela estava relaxada. Por outro lado, pensou
Roarke, a maioria das pessoas no conhecia de verdade, e certamente no
compreenderia Eve Dallas. Ele tinha mais intimidade com ela e se sentia mais
prximo de seus pensamentos e de seu corao do que jamais estivera com outra
mulher. No entanto, nela ainda havia pores que ele precisava explorar.
Eve era, sempre, uma fascinante experincia. Um aprendizado.
Estava nua, submersa at o queixo na gua vaporosa, entre bolhas
perfumadas. Seu rosto estava vermelho devido ao calor, e seus olhos estavam
fechados, mas ela no estava relaxada. Dava para ver a tenso na mo que
segurava a lateral da banheira e no leve sulco que havia entre seus olhos.
No, Eve estava pensando, avaliou. E estava preocupada. E planejava algo.
Ele se moveu silenciosamente, como aprendera a fazer enquanto crescia nos becos
de Dublin, ao longo do cais e nas ruas fedorentas de cidades em toda parte. Quando
se sentou na borda para observ-la, ela no se moveu por vrios minutos. Roarke
sentiu o instante exato em que ela pressentiu que ele estava atrs dela.
Seus olhos se abriram e ele sentiu as ris castanho-douradas ficarem lmpidas
e em estado de alerta enquanto se encontravam com as dele, de um azul forte e
com ar divertido. Como sempre, a simples viso dele provocou um rpido
sobressalto dentro dela. O rosto de Roarke parecia uma pintura, a representao
perfeita, feita a leo, de algum anjo cado. A beleza em estado bruto dele,
emoldurada por todo aquele cabelo preto e encorpado, era sempre uma surpresa
para ela. Eve levantou uma sobrancelha e jogou a cabea de lado, dizendo:
- Seu tarado!
-  a minha banheira. - Ainda olhando para ela, ele deixou a mo elegante
deslizar atravs das bolhas at alcanar a gua, e acariciou a lateral do seu seio. -
Voc vai cozinhar a dentro.
- Gosto da gua bem quente. Preciso dela bem quente.
- Teve um dia difcil.
Ele percebeu logo, pensou ela, lutando para no se ressentir com isso. Ele
sabia de tudo. Simplesmente movimentou os ombros enquanto ele se levantou e foi
at o bar automtico, embutido nos azulejos. O motor zumbiu suavemente enquanto
o aparelho enchia dois clices de cristal lapidado com vinho at a boca.
Voltou, sentou-se sobre a borda novamente e entregou um dos clices a ela.
- Voc no dormiu; e tambm no comeu.
- So os ossos do ofcio. - O vinho parecia ouro lquido.
- Mesmo assim voc me deixa preocupado, tenente.
- Voc se preocupa com muita facilidade.
- Eu amo voc.
Ela ficou confusa por ouvi-lo dizer aquilo com aquela voz maravilhosa que tinha
um trao leve de sotaque irlands, e por saber que de algum modo, incrivelmente,
era verdade. J que ela no tinha nenhuma resposta para dar a ele, franziu o rosto e
o enfiou no vinho. Ele no disse nada at conseguir afastar a irritao pela falta de
reao dela, e ento perguntou:
- Voc pode me contar o que aconteceu com Cicely Towers?
- Voc a conhecia - foi a reao de Eve.
- No muito bem. Apenas um contato social, alguns negcios em comum, a
maior parte atravs do ex-marido dela. - Tomou um pouco de vinho e ficou olhando
o vapor que subia da banheira.
- Eu a achava uma mulher admirvel, sensata e perigosa.
- Perigosa? Para voc? - Eve se levantou um pouco at que a gua comeou a
bater na parte alta dos seus seios.
- No diretamente. - Seus lbios se curvaram levemente, antes que ele levasse
de novo o vinho de encontro a eles. - Era perigosa para os praticantes de atos
nefastos, coisas ilegais, pequenas ou grandes, e para a mente criminosa em geral.
Com relao a isto, ela era muito parecida com voc.  uma sorte que eu tenha
corrigido os meus maus hbitos.
Eve no estava totalmente convencida disso, mas deixou passar, e perguntou:
- Atravs de seus assuntos de negcios e contatos sociais, voc sabe de
algum que a queria ver morta?
- Isto  um interrogatrio, tenente? - Tomou mais vinho, um gole maior desta
vez.
- Pode ser - respondeu ela, de modo breve. Foi a alegria que sentiu na voz dele
que a incomodou.
- Como quiser. - Ele se levantou, colocou o clice de lado e comeou a
desabotoar a camisa.
- O que est fazendo?
- Vou dar um mergulho, por assim dizer. - Jogou a camisa longe e abriu as
calas. - J que vou ser interrogado por uma policial nua, dentro da minha prpria
banheira, o mnimo que posso fazer  me juntar a ela.
- Droga, Roarke! Estamos falando de um assassinato! Ele fez uma careta
quando a gua quente o escaldou.
- Voc  quem est me contando - e olhou para ela atravs do mar de espuma.
- O que h em mim de to perverso que sempre consegue incomodar voc? - e
continuou, antes que ela pudesse emitir sua opinio direta. - E o que h em voc
que me atrai tanto, mesmo quando est sentada a com um distintivo invisvel
pregado em seu seio adorvel? - E passou a mo por baixo dela, ao longo dos
quadris, pela barriga da perna, at chegar ao ponto que ele sabia que a deixava
mole, na parte de trs do joelho. - Eu quero voc - murmurou ele. - Neste instante.
A mo dela ficou sem foras segurando a base do clice, mas ela conseguiu se
recompor e pediu:
- Fale comigo a respeito de Cicely Towers.
Pensativo, Roarke se recostou. No tinha inteno de deix-la sair da banheira
at que tivesse terminado; portanto, dava para ter um pouco de pacincia.
- Ela - comeou ele - o ex-marido e George Hammett estavam  frente de uma
das minhas empresas. Era a Mercury, que recebeu este nome em homenagem ao
deus da velocidade.  uma firma de importao e exportao, basicamente. Trata de
remessas, entregas e transportes rpidos.
- Eu sei o que a Mercury faz - respondeu ela com impacincia, tentando lidar
com o aborrecimento de no saber que aquela, tambm, era uma das muitas
companhias dele.
- Era uma empresa com organizao deficiente e muito decadente quando eu a
adquiri h uns dez anos. Marco Angelini, o ex de Cicely, investiu nela, bem como a
mulher. Eles ainda eram casados na poca, eu acho, ou tinham acabado de se
divorciar. Aparentemente o fim do casamento correu de modo amigvel, como essas
coisas devem ser. Hammett tambm era um investidor. Acho que ele no se
envolveu pessoalmente com Cicely, at alguns anos depois.
- E esse tringulo, Angelini, Towers e Hammett, tambm era amigvel?
- Parecia que sim. - De modo distrado, Roarke deu uma batida em um dos
azulejos. Quando ele girou, revelando um painel escondido, ele programou um
pouco de msica. Algo leve e romntico. - Se voc est preocupada com a minha
parte na histria, saiba que eram apenas negcios, muito lucrativos por sinal.
- Quanto de contrabando a Mercury negocia?
- Ora, tenente - deu um grande sorriso.
- No brinque comigo, Roarke. - A gua se agitou quando ela se sentou reta.
- Eve, a minha maior vontade neste instante  fazer exatamente isso.
Ela rangeu os dentes e chutou a mo que subia por suas pernas acima.
- Cicely Towers tinha fama de ser uma promotora que no gostava de
brincadeiras, era dedicada e limpa. Se ela descobrisse que algum dos negcios da
Mercury estava indo contra a lei, ela teria voado em cima de voc, com tudo - disse
ela.
- Sei. Ento ela descobriu tudo sobre meus negcios prfidos. Eu a atra at
uma regio perigosa e cortei a garganta dela. - Os olhos dele estavam no mesmo
nvel dos dela, e totalmente afveis.
-  isso o que acha, tenente?
- No, droga, voc sabe que no, mas...
- Outros podem achar - concluiu ele. - O que colocaria voc em uma situao
delicada.
- No estou preocupada com isso. - Naquele momento ela s estava
preocupada com ele. - Roarke, eu tenho de saber. Preciso que voc me conte a
respeito de alguma coisa, qualquer coisa que possa envolv-lo nesta investigao.
- E se houver?
- Vou ter de entregar o caso a outro investigador - e sentiu frio por dentro.
- J no passamos por isso antes?
- Agora no  como o caso DeBlass. No  nada desse tipo. Voc no 
suspeito. - Quando ele levantou uma sobrancelha, ela lutou para ponderar sobre
aquilo em vez de deixar transparecer irritao na voz. Por que tudo era to
complicado quando atingia Roarke? - Eu no acho que voc tenha alguma coisa a
ver com o assassinato de Cicely Towers. Est bem claro assim?
- Voc no terminou o pensamento.
- Tudo bem. Sou uma policial. Existem perguntas que eu tenho de fazer. Tenho
de faz-las a voc, ou a qualquer pessoa que, mesmo remotamente, tenha conexo
com a vtima. No posso mudar isto.
- O quanto voc confia em mim?
- No tem nada a ver com confiar em voc.
- Isso no responde  pergunta. - Seu olhar ficou frio, distante, e ela notou que
dera o passo errado. - Se voc no confia em mim at agora, e ainda no acredita
em mim, ento no temos nada alm de episdios fascinantes de sexo.
- Voc est distorcendo as coisas. - Ela lutava para ficar calma, porque ele a
estava assustando. - No estou acusando voc de nada. Se eu tivesse recebido
este caso para investigar sem conhecer voc, ou me importar com voc, o teria
colocado na lista de suspeitos, a princpio. Mas conheo voc, e no  disso que
estamos tratando aqui. Ai, que inferno!
Ela fechou os olhos e esfregou as mos molhadas sobre o rosto. Era terrvel
para ela tentar explicar os sentimentos.
- Roarke, eu estou tentando conseguir respostas que possam ajudar a mant-lo
to longe disto quanto eu puder, porque eu me importo. Ao mesmo tempo, no paro
de tentar achar meios de usar voc, pela sua conexo com a vtima, e tambm pelos
seus contatos. Ponto final.  difcil para mim fazer as duas coisas.
- No deveria ser to difcil simplesmente dizer essas palavras,
- murmurou ele, e ento balanou a cabea. - A Mercury  uma empresa
totalmente dentro da lei, agora, porque no h necessidade de ser de outra forma.
Ela caminha bem e produz lucros aceitveis.
Embora voc possa achar que sou arrogante o suficiente para me envolver em
atos criminosos tendo uma promotora pblica na diretoria, deveria tambm saber
que eu no sou to burro a ponto de fazer isto.
- Certo. - Por acreditar nele, o aperto que sentia no peito h horas se desfez. -
Mesmo assim vai haver perguntas - disse. - E a mdia j fez a ligao entre vocs.
- Eu sei. Sinto muito. Eles esto tornando as coisas muito difceis para voc?
- Ainda nem comearam. - E em uma de suas raras demonstraes de afeto,
pegou a mo dele e a apertou. - Eu sinto muito tambm. Parece que acabamos de
entrar em outro caso complicado.
- Eu posso ajudar. - E se deixou escorregar para junto dela, trazendo as mos
entrelaadas at os lbios. Quando a viu sorrir, sabia que ela estava finalmente
pronta para relaxar. - No h necessidade de voc me manter a salvo de coisa
alguma. Eu mesmo posso lidar com isso. E tambm no  preciso se sentir culpada,
ou desconfortvel, por achar que eu posso ser til na investigao.
- Eu conto quando descobrir como posso usar voc. - Desta vez ela
simplesmente arqueou as sobrancelhas quando a outra mo dele comeou a
deslizar por sua coxa. - E se voc vai tentar continuar com isso aqui dentro, vamos
precisar de equipamento de mergulho.
Ele levantou o corpo e se colocou por cima dela, provocando uma ondulao
que quase fez a gua transbordar pelas bordas da banheira.
- Bem, acho que a gente consegue se arranjar por conta prpria. E cobriu a
boca sorridente com a dele, para provar.
Mais tarde, naquela noite, enquanto ela dormia ao lado dele, Roarke estava
acordado, olhando as estrelas brilharem acima da clarabia do teto em cima da
cama. Uma preocupao que ele no permitira que ela visse estava estampada em
seus olhos, naquele momento.
Seus destinos estavam entrelaados, em nvel pessoal e profissional. Tinha
sido um assassinato o que os colocara juntos, e era um assassinato que ia continuar
a enfiar o dedo em suas vidas. A mulher ao seu lado defendia os mortos.
Como Cicely Towers tantas vezes fizera, pensou ele, e se perguntou se foi isto
que lhe custara a vida.
Ele fazia questo de no se preocupar demais, nem com muita frequncia,
sobre o modo pelo qual Eve ganhava a vida. Sua carreira a definia. Ele sabia muito
bem disso.
Ambos haviam construdo a si prprios, ou reconstrudo, a partir do pouco ou
do nada que tinham sido. Ele era um homem que comprava e vendia, que controlava
as coisas e que gostava do poder que disso advinha. E dos lucros.
Mas, de repente, ocorreu-lhe que havia certas partes de seus negcios que
poderiam trazer problemas para ela se sassem das sombras e fossem trazidos para
a luz. Era totalmente verdadeiro que a Mercury era uma empresa limpa, mas nem
sempre havia sido assim. E ele tinha outros conglomerados, outros interesses que
lidavam com as reas sombrias. Afinal, ele fora criado nas pores mais escuras
dessas reas. Tinha uma queda por elas.
Contrabando, tanto terrestre quanto interestelar, era um negcio interessante e
lucrativo. Os vinhos inigualveis de Taurus Cinco, os diamantes estonteantemente
azuis retirados das cavernas de Refini e a preciosa loua fina transparente que era
fabricada na Colnia de Artes, em Marte.
Era verdade que ele no precisava mais ludibriar a lei para viver, e viver bem.
S que os vcios antigos so os mais difceis de largar.
O problema permanecia. E se ele ainda no tivesse convertido a Mercury em
uma companhia com operaes legtimas? O que para ele era uma inofensiva
diversificao nos negcios poderia ter o peso de uma pedra sobre Eve.
Isto tudo aliado ao simples fato de que, apesar do que eles tinham comeado a
construir juntos, ela estava longe de se sentir segura a respeito dele.
Ela murmurou alguma coisa e se virou. Mesmo dormindo, ela hesitava antes de
se virar para ele. Ele estava tendo muita dificuldade para aceitar isto. Mudanas iam
ter de ser feitas, e logo, para ambos.
Por ora, ele ia lidar com o que conseguia controlar. Seria muito fcil para ele
dar alguns telefonemas e fazer algumas perguntas relacionadas com Cicely Towers.
Seria bem menos simples e levaria um pouco mais de tempo para poder trazer todas
aquelas reas sombrias, que o preocupavam, para a luz.
Ele olhou para baixo, para analis-la. Ela estava dormindo bem, sua mo
estava aberta e relaxada sobre o travesseiro. Ele sabia que, s vezes, ela tinha
pesadelos. Naquela noite, porm, sua mente estava calma. Confiando que ia
permanecer assim, ele deslizou para fora da cama, a fim de comear.
Eve acordou com o cheiro do caf. Caf genuno e forte, modo de gros
cultivados nas fazendas de Roarke na Amrica do Sul. O luxo daquilo era, Eve
estava disposta a admitir, uma das primeiras coisas com as quais ela se
acostumara, e na verdade j esperava e confiava quando se tratava de ficar na casa
de Roarke.
Seus lbios se curvaram antes mesmo de abrir os olhos.
- Ai, Deus, o paraso no pode ser melhor do que isso!
- Fico feliz por pensar assim.
Seus olhos ainda estavam embaados, mas ela conseguiu foclos nele. Ele j
estava completamente vestido, com um daqueles ternos escuros que o faziam
parecer tanto competente quanto perigoso. Na pequena sala de estar que ficava um
pouco abaixo da plataforma onde a cama estava instalada, ele parecia estar
aproveitando o caf e a rpida olhada no noticirio em seu monitor.
O gato cinzento que ela batizara de Galahad estava esparramado como uma
lesma gorda sobre o brao da poltrona, e estudava o prato de Roarke com seus
olhos bicolores e vorazes.
- Que horas so? - ela quis saber, e o relgio ao lado da cama murmurou a
resposta: seis horas em ponto. - Caramba, h quanto tempo voc j acordou?
- Levantei-me h pouco. Voc no me disse a que horas ia para o trabalho.
Ela passou a mo no rosto, e depois pelos cabelos.
- Ainda tenho umas duas horas. - Como demorava a acordar de todo, rastejou
para fora da cama e olhou em volta, meio tonta,  procura de alguma coisa para
vestir.
Roarke parou para observ-la por um momento. Era sempre um prazer olhar
para Eve de manh cedo, quando ela ainda estava nua e com os olhos vidrados.
Apontou para o robe que o andride do quarto havia recolhido do cho e colocado
cuidadosamente aos ps da cama. Eve tateou at ele, sentindo-se ainda muito
sonolenta para estranhar o toque da seda sobre a pele.
Roarke serviu-lhe uma xcara de caf e esperou at que ela se acomodasse na
cadeira em frente a ele e o saboreasse. O gato, achando que sua sorte poderia
mudar, pulou pesadamente sobre o colo dela, e com tanta fora que a fez dar um
gemido.
- Parece que voc dormiu bem.
- Dormi. - Ingeriu o caf como se fosse ar e fez uma pequena careta quando
Galahad girou em volta de si mesmo, no colo dela, e massageou as suas coxas com
as unhas pontudas. - Estou me sentindo quase humana novamente.
- Est com fome?
Ela gemeu de novo. Eve j sabia que a cozinha da casa estava cheia de
artistas da gastronomia. Pegou um bolinho que tinha formato de cisne numa bandeja
de prata, e o devorou com trs dentadas entusiasmadas. Quando esticou o brao
para pegar o bule, j estava com os olhos totalmente abertos e claros. Sentindo-se
generosa, partiu a cabea de outro cisne e ofereceu a Galahad.
-  sempre um prazer ver voc acordar, sabia? - comentou ele. - S que s
vezes eu fico pensando se voc no me quer apenas por causa do meu caf.
- Bem... - Ela sorriu para ele e tomou mais um gole. - Eu gosto muito da comida
tambm. E o sexo, at que no  mau.
- Voc pareceu toler-lo muito bem a noite passada. Tenho de ir at a Austrlia
hoje. Pode ser que eu no volte at amanh, ou depois de amanh.
- Oh!
- Gostaria que voc ficasse aqui enquanto eu estiver fora.
- J conversamos a respeito disso. Eu no me sinto  vontade.
- Talvez se sentisse se considerasse esta a sua casa, tanto quanto a minha.
Eve... - e colocou a mo sobre a dela antes que ela pudesse falar. - Quando  que
voc vai aceitar o que eu sinto por voc?
- Olhe, eu simplesmente me sinto mais confortvel no meu prprio canto
quando voc est fora. E tambm estou cheia de trabalho no momento.
- Voc no respondeu  minha pergunta - murmurou ele.
- Deixa pra l. Eu aviso quando estiver de volta. - Sua voz estava curta agora,
mais fria, e ele virou o monitor na direo dela. - Por falar no seu trabalho, voc deve
estar interessada em saber o que a mdia anda dizendo dele.
Eve leu a primeira manchete com ar cansado, como uma espcie de
resignao. Sentindo a boca amarga, passava de um jornal para outro. As notcias
eram todas similares. Renomada promotora de Nova York tinha sido assassinada. A
polcia estava aturdida. Havia fotos de Cicely Towers,  claro. Dentro da sala de
audincia, fora do tribunal. Imagens de seus filhos, comentrios e citaes.
Eve rugiu ao ver a prpria foto estampada, e o texto sob a foto a rotulava como
a mais importante investigadora criminal da cidade.
- Isso ainda vai me trazer problemas - murmurou ela. Havia mais, naturalmente.
Vrios jornais apresentavam um breve resumo do caso que ela resolvera no inverno
anterior, envolvendo um importante senador americano e trs prostitutas mortas.
Como era de esperar, seu relacionamento com Roarke era mencionado em todas as
edies.
- Mas que diabos importa para o pblico quem sou eu ou com quem me
encontro?
- Voc pulou em uma arena pblica, tenente. Agora seu nome rende notcias
na mdia.
- Sou uma policial e no uma socialite. - Enfurecida, ela girou o corpo na
direo da elaborada grade que ficava na parede do fundo do quarto. - Abra o telo!
- ordenou ela - canal 75.
A grade se abriu, revelando a tela. Os sons do noticirio matinal encheram o
aposento. Os olhos de Eve se estreitaram e seus dentes se trincaram.
- L est ele, o covarde cara de fuinha com dentes pontudos.
Divertido com aquilo, Roarke tomou um pouco de caf enquanto assistia a C. J.
Morse apresentar sua reportagem das seis horas. Sabia muito bem que o desprezo
que Eve sentia pela mdia tinha se transformado em total ojeriza, nos dois meses
anteriores. Uma averso que surgira a partir do simples fato de que ela agora tinha
de lidar com eles a cada passo de sua vida profissional e pessoal. Mesmo sem levar
tudo isso em conta, Roarke achava que no podia culp-la por desprezar Morse.
...E assim, uma grande carreira foi cortada de modo cruel e violento. Uma
mulher de convices fortes, dedicao e integridade foi assassinada nas ruas desta
grande cidade, e abandonada sangrando debaixo da chuva. Cicely Towers no ser
esquecida, e ser sempre lembrada como uma mulher que lutava por justia em um
mundo que anseia por isso. Nem mesmo a morte poder diminuir o brilho de seu
legado.
No entanto, ser que o seu assassino ser trazido s barras da Justia, pela
qual a vtima passou toda a vida lutando? A Secretaria de Segurana e a Polcia de
Nova York ainda no nos oferecem esperana. A policial encarregada da
investigao, tenente Eve Dallas, a menina-dos-olhos do seu departamento, se
mostra incapaz de responder a esta pergunta.
Eve s faltou rosnar quando sua imagem tomou toda a tela. A voz de Morse
continuava:
Quando tentamos entrar em contato com ela pelo tele-link, a tenente Dallas se
recusou a comentar sobre o assassinato e o progresso das investigaes. Tambm
no negou a especulao de que uma operao esteja a caminho para encobrir o
caso.
- Mas que canalha ordinrio! Ele no conversou nada comigo sobre encobrir o
caso. Como assim, encobrir? - O tapa forte que ela deu na perna fez Galahad dar
um salto  procura de um local mais seguro. - Eu peguei o caso h menos de trinta
horas!
- Shh... - disse Roarke, baixinho, enquanto a deixava e comeava a andar de
um lado para outro no quarto.
...a longa lista de nomes importantes que esto ligados  promotora Cicely
Towers, entre eles o comandante Whitney, chefe da tenente Dallas. O comandante
recentemente recusou o cargo de secretrio de Segurana. Trata-se de um amigo
antigo e ntimo da vtima, e...
- Ento  isso! - Furiosa, Eve desligou a tela manualmente com um tapa. - Vou
fatiar esse verme! Onde, diabos, est Nadine Furst? J que ns somos obrigados a
ter um reprter colado em nossa bunda, pelo menos ela tem mais considerao.
- Acho que ela est na Estao Penal mega, fazendo uma reportagem sobre a
reforma do sistema penitencirio.  melhor considerar a ideia de marcar uma
entrevista coletiva, Eve. A maneira mais simples de lidar com esse tipo de presso 
atirar uma tora de lenha bem escolhida para as chamas.
- Ah, que se dane! Que tipo de matria foi aquela, afinal? Uma reportagem ou
um editorial?
- Existe pouca diferena entre os dois, desde que a reviso das leis que
regulavam a mdia foi aprovada, h trinta anos. Um reprter tem todo o direito de dar
um toque pessoal  histria emitindo a sua opinio, desde que seja expressa como
tal.
- Eu conheo a porcaria da lei. - O robe com cores brilhantes drapejou em volta
de suas pernas quando ela se virou. - Ele no vai escapar dessa insinuao de que
estamos encobrindo alguma coisa. Whitney administra um departamento limpo. Eu
estou  frente de uma investigao limpa. E ele no vai escapar ileso por usar o seu
nome, Roarke, a fim de manch-lo tambm - continuou ela. - Era isso que ele estava
insinuando com aquela desculpa pela falta de notcias.  isso o que vem por a.
- Ele no me preocupa, Eve. No devia preocupar voc tambm.
- Ele no me preocupa. Simplesmente me deixa revoltada. Fechou os olhos e
respirou fundo para se acalmar. Ento, lentamente, com um ar de maldade, abriu um
sorriso. - J tenho o troco certo para ele. -Abriu os olhos de novo. - Como  que
voc acha que o pequeno canalha ia se sentir se eu entrasse em contato com
Nadine Furst e lhe oferecesse uma entrevista exclusiva?
Roarke colocou a xcara de lado.
- Venha at aqui - falou.
- Por qu?
- Esquece... - Ele se levantou e foi at ela. Prendendo seu queixo com as
mos, deu-lhe um beijo profundo. - Sou louco por voc.
- Vou considerar isso como um sinal de que  uma ideia muito boa.
- Meu falecido pai, de quem no sinto falta, me ensinou uma lio valiosa.
Garoto, dizia ele com aquele sotaque irlands pesado de um campeo de bebidas,
a nica maneira de lutar  lutar sujo. O nico lugar para acertar o golpe  abaixo da
cintura. Tenho a impresso de que Morse vai estar colocando uma compressa no
saco antes de este dia terminar.
- No, ele no vai estar fazendo isso no. - Deliciada consigo mesma, Eve o
beijou de volta. - Porque at l eu vou ter arrancado o saco dele fora!
Roarke fingiu que estremecia.
- Mulheres cruis so to atraentes! Voc disse que ainda tinha umas duas
horas?
- Agora no tenho mais.
- Era o que eu temia. - Deu um passo para trs, tirando um disco do bolso. -
Pode ser que voc ache isto til.
- E o que tem a dentro?
- Alguns dados que eu coletei para voc, sobre o ex-marido de Cicely Towers,
sobre Hammett. Alguns dos arquivos da Mercury.
Os dedos dela ficaram frios quando ela apertou o disco.
- Roarke, eu no pedi a voc para fazer isso.
- No, no pediu. Voc teria acesso a esses dados de qualquer modo, mas ia
levar muito mais tempo, e voc j sabe que se precisar do meu equipamento
eletrnico ele est  sua disposio.
Ela compreendeu que ele estava falando a respeito da sala que ele tinha e do
equipamento no registrado que nem mesmo os sensores do programa
Compuguard, da polcia, conseguiam detectar.
- Por agora, Roarke, prefiro seguir os canais apropriados.
- Como quiser. Se mudar de ideia enquanto eu estiver fora, Summerset sabe
que voc tem acesso  sala.
- Summerset gostaria que eu tivesse acesso ao inferno - murmurou ela.
- O que  que voc disse?
- Nada. Tenho de me vestir. - E se virou, parando logo em seguida. - Roarke,
eu estou tentando.
- Tentando o qu?
- Aceitar o que voc parece sentir por mim.
- Ento tente com mais fora - sugeriu ele, levantando a sobrancelha.
CAPTULO TRS
Eve no perdeu tempo. Sua primeira providncia quando chegou em sua sala
na Central de Polcia foi entrar em contato com Nadine Furst. O tele-link fez um
zumbido e estalou ao acessar o canal galctico. As manchas solares, a interferncia
de algum satlite ou simplesmente a idade avanada do equipamento fizeram com
que a conexo demorasse vrios minutos. Finalmente, uma imagem trepidou na
tela, para afinal aparecer em foco.
Eve teve o prazer de ver o rosto plido e sonolento de Nadine. Ela se
esquecera da diferena de horrio.
- Dallas. - A voz normalmente fluida de Nadine estava arranhada e fraca. - Meu
Deus, aqui ainda  de madrugada!
- Desculpe. J est bem acordada, Nadine?
- O suficiente para odiar voc.
- Voc tem recebido notcias da Terra a em cima?
- Tenho andado meio ocupada. - Nadine ajeitou o cabelo desarrumado e pegou
um cigarro.
- Quando foi que voc comeou a fumar?
Contraindo o rosto, Nadine puxou a primeira tragada e disse:
- Se vocs, policiais terrestres, viessem at aqui em cima, iam querer
experimentar tabaco. At um mata-rato como esse d para comprar nesse buraco. E
qualquer outra coisa d para conseguir por aqui.  uma vergonha - e tragou mais
fumaa. - Ficam trs pessoas em cada cela, a maioria doidona, cheia de drogas
qumicas contrabandeadas. As instalaes mdicas se parecem com algo sado do
sculo XX. Por aqui eles ainda esto costurando as pessoas com linha.
- E os presos ainda tm restries para o acesso s transmisses em vdeo -
completou Eve. - Imagine s tratar assassinos como se fossem criminosos. Estou
morrendo de pena!
- No se consegue nem mesmo uma refeio decente em toda a colnia -
reclamou Nadine. - Que diabos voc quer comigo, a esta hora?
- Quero faz-la sorrir, Nadine. Em quanto tempo voc pode terminar o que est
fazendo e voltar para a Terra?
- Depende. - Enquanto comeava a acordar de todo, os sentidos de Nadine se
aguaram. - Voc tem alguma coisa para mim?
A promotora pblica Cicely Towers foi assassinada h umas trinta horas. -
Ignorando o grito de Nadine, Eve continuou, a toda velocidade. - Sua garganta foi
cortada e seu corpo foi encontrado na calada da Rua 144, entre a Nona e a Dcima
Avenidas.
- Cicely Towers. Por Deus! Estive com ela h uns dois meses, depois do caso
DeBlass. Rua 144? - seu crebro j estava trabalhando. - Foi assalto?
- No. Ela ficou com as jias e todas as fichas de crdito. Um assaltante
daquela regio no teria deixado para trs nem os sapatos dela.
- No. - Nadine fechou os olhos por um instante. - Maldio! Ela era uma
tremenda mulher. Voc est encarregada do caso?
- Logo de cara.
- Tudo bem. - Nadine soltou um longo suspiro. - Ento, por que a encarregada
da investigao do caso que vai ser o mais importante do pas est me procurando?
- Por causa de uma peste que voc conhece, Nadine. Seu ilustre colega,
Morse, est pegando no meu p.
- Babaca - murmurou Nadine, apagando a ponta do cigarro com golpes rpidos
e repetidos. - Foi por isso que eu no soube de nada. Ele deve ter me bloqueado.
- Se voc jogar limpo comigo, Nadine, eu jogo limpo com voc.
- Uma exclusiva? - Os olhos de Nadine brilharam e suas narinas s faltaram
tremer.
- Vamos discutir isso quando voc voltar. Que seja rpido.
- J estou praticamente de volta  Terra.
Eve sorriu para a tela que se apagou. Essa vai ficar entalada na sua garganta
esfomeada, C. J., refletiu. Estava cantarolando quando se levantou da mesa.
Precisava ir ver algumas pessoas.
Quando deu nove horas da manh, Eve j estava a postos na luxuosa sala de
estar do apartamento de George Hammett, em uma rea elegante da cidade. O
gosto dele pendia para o dramtico, notou. Imensos lajotes vermelhos e brancos
pareciam frios debaixo de suas botas. A msica tilintante de gua caindo sobre
pedras vinha do holograma que ocupava uma das paredes, de ponta a ponta, com
imagens dos trpicos. Os almofades prateados sobre o sof muito comprido
brilhavam, e quando Eve colocou o dedo sobre um deles, o tecido afundou como
uma pele sedosa.
Resolveu continuar em p.
Objetos de arte estavam colocados de forma seletiva em volta da sala. Havia
uma torre entalhada que se parecia com as runas de algum castelo antigo; uma
mscara que lembrava o rosto de uma mulher encerrada em um bloco de vidro
rosado, translcido; algo com a forma de uma garrafa e que cintilava com cores
vivas, que se modificavam sob o calor da mo.
Quando Hammett entrou, vindo de um cmodo adjacente, Eve concluiu que ele
era to dramtico quanto os objetos que o cercavam.
Estava plido, tinha os olhos pesados, mas isto s servia para ressaltar sua
aparncia atraente. Era alto e elegantemente esbelto. Seu rosto era poeticamente
cavado nas laterais. Ao contrrio de muitos de seus contemporneos, e Eve sabia
que ele j estava na casa dos sessenta anos, George Hammett optara por deixar
seu cabelo embranquecer naturalmente. Uma escolha excelente para ele, Eve
pensou, ao ver que a sua juba cheia e prateada brilhava tanto quanto um dos
castiais em estilo georgiano de Roarke.
Seus olhos tinham um tom de cinza que se destacava, embora estivessem
embotados naquele instante por algo que poderia ser cansao ou pesar.
Ele atravessou a sala at ela e envolveu-lhe a mo, colocando-a entre as suas.
- Eve. - Quando seus lbios a beijaram no rosto, rapidamente ela recuou um
pouco. Ele estava tornando aquele contato muito pessoal, e ela imaginou naquele
instante que ambos sabiam disso.
- George - comeou ela de repente, afastando-se ainda mais - agradeo pelo
seu tempo.
- Ora, que tolice. Eu  que me desculpo por faz-la esperar. Havia uma ligao
que eu precisava fazer. - Com um gesto, apontou para o sof. As mangas de sua
camisa larga e confortvel balanaram com o movimento. Eve, resignada, se sentou.
- Quer tomar alguma coisa?
- No quero nada, obrigada.
- Caf? - Sorriu ligeiramente. - Eu me lembro de que voc gosta muito de caf.
Tenho um pouco, e da marca que Roarke usa.
- Apertou um boto no brao do sof. A pequena tela de um monitor surgiu. -
Um bule de caf Ouro Argentino - ordenou ele - e duas xcaras. Em seguida, com
aquele sorriso fraco e discreto ainda nos lbios, se voltou para ela. - Isso vai me
ajudar a relaxar um pouco - explicou. - No estou surpreso por encontr-la aqui logo
de manh, Eve. Ou talvez devesse estar tratando voc de tenente Dallas, diante das
circunstncias.
- Ento voc entendeu o motivo de eu estar aqui.
-  claro. Cicely. No consigo me acostumar com a ideia. Sua voz sedosa e
envolvente estremeceu um pouco. - J ouvi a notcia vezes sem conta nos
noticirios. Conversei com os filhos dela e com Marco. S que no consigo aceitar o
fato de que ela se foi.
- Voc a viu na noite em que ela foi morta.
- Sim. - Um msculo em seu rosto se repuxou. - Jantamos juntos. Fazamos
isto com frequncia, quando nossas agendas permitiam. Pelo menos uma vez por
semana. Mais, quando conseguamos. ramos muito chegados.
Ele parou de falar quando um pequeno rob domstico surgiu deslizando,
trazendo o caf. O prprio Hammett serviu uma xcara, concentrando-se na pequena
tarefa de forma quase intensa.
- Quanto ns ramos chegados? - murmurou, e Eve notou que sua mo no
estava muito firme quando ele levantou a xcara.
- ramos ntimos. Fomos amantes, exclusivamente um do outro, durante vrios
anos. Eu a amava muito.
- Vocs mantinham residncias separadas.
- Sim, ela... Ns dois preferamos que fosse desse modo. Nossos gostos,
esteticamente falando, eram muito diferentes, e a verdade pura e simples  que os
dois gostavam de ter a prpria independncia, e um espao pessoal. Acho que
curtamos mais um ao outro mantendo uma certa distncia. - Respirou
pesadamente. No era segredo, porm, que tnhamos um relacionamento; pelo
menos os familiares e amigos sabiam. - Soltou a respirao. Publicamente,
preferamos manter nossa vida pessoal o mais reservado que consegussemos.
Acredito que, agora, isso no vai mais ser possvel.
- Duvido muito.
- Mas no importa - e balanou a cabea. - O que importa  encontrar quem fez
isso com ela. Nada pode mudar o fato de que ela morreu. Cicely foi... - e falou
pausadamente - a mulher mais admirvel que j conheci.
Todos os instintos, pessoais e profissionais, diziam-lhe que diante dela estava
um homem em profundo estado de pesar, mas Eve sabia que at mesmo os
assassinos podiam demonstrar dor pelos seus mortos.
- George, preciso que voc me diga a que horas a viu pela ltima vez. Estou
gravando esta conversa.
- Sim, claro. Foi por volta de dez da noite. Jantamos no Roberts, na Dcima
Segunda Avenida, Leste. Depois, dividimos um txi. Ela saltou primeiro, mais ou
menos s dez - repetiu. - Sei disso porque cheguei em casa mais ou menos s dez e
quinze, e encontrei vrios recados me esperando.
- Qual era a rotina de vocs, normalmente?
- Como? Ah... - Ele pareceu se trazer de volta, repentinamente, de algum
mundo interior. - No tnhamos uma rotina, na verdade. s vezes, vnhamos para c,
ou ento para o apartamento dela. De vez em quando, quando estvamos com
esprito de aventura, pegvamos uma sute no Palace para passar a noite. - Parou
de falar, seus olhos ficaram subitamente vazios, arrasados, e ele se levantou de
repente do macio sof prateado. - Oh, meu Deus, meu Deus!
- Sinto muito, George. - Falar aquilo era intil diante da dor, ela sabia. -
Realmente, eu sinto muito.
- Estou comeando a acreditar no que aconteceu - explicou ele com uma voz
pesada e baixa. -  pior, imagino, quando a gente comea a acreditar. Ela riu na
hora em que saiu do txi, e me atirou um beijo com as pontas dos dedos. Tinha
mos lindssimas. Eu cheguei em casa e me esqueci dela, porque tinha mensagens
a responder. Estava na cama por volta de meia-noite. Tomei um tranquilizante leve,
porque tinha uma reunio logo cedo. E enquanto eu estava na cama, a salvo, ela
estava jogada morta, na chuva. No sei se consigo suportar isso. - Virou-se para
trs, com a face plida j sem sangue, naquela hora. - No sei se vou conseguir
suportar.
Ela no podia ajud-lo. Mesmo sentindo que a dor dele era to palpvel que
dava para sentir, Eve no podia ajud-lo.
- Eu gostaria de fazer isso em outra hora, para lhe dar tempo, George, s que
no posso. Pelo que sabemos, voc foi a ltima pessoa que a viu com vida.
- Tirando o assassino - e se esticou. - A no ser,  claro, que tenha sido eu a
pessoa que a assassinou.
- Seria melhor para todos se eu eliminasse essa possibilidade com rapidez.
- Sim, naturalmente que seria... tenente.
Eve aceitou a amargura na voz dele e fez o seu trabalho, prosseguindo:
- Se voc puder, gostaria que me informasse o nome da empresa do txi que
vocs pegaram, para que eu possa confirmar seus movimentos.
- Foi o restaurante que chamou o txi. Acho que foi um carro da Rpido.
- Voc viu, ou falou com algum, entre meia-noite e duas da manh?
-J lhe disse, tomei um remdio para dormir e fui direto para a cama,  meianoite.
Sozinho.
Eve poderia verificar isto analisando as gravaes nos discos e arquivos de
segurana do prdio, embora ela tivesse razes para saber que essas coisas eram
fceis de ser adulteradas.
- Pode me dizer como estava o estado de esprito dela, quando a deixou?
- Estava um pouco distrada, por causa do caso em que estava trabalhando.
Parecia otimista em relao a ele. Conversamos um pouco sobre as crianas,
especialmente a filha dela. Mirina est planejando se casar agora, no outono. Cicely
adorava a ideia e estava empolgada porque Mirina queria um casamento bem
grande e tradicional, com todos aqueles aparatos que j esto fora de moda.
- Ela mencionou alguma coisa que a estivesse afetando? Algo ou algum com
quem ela estivesse preocupada?
- Nada que se enquadre nisso. O vestido de noiva certo, as flores. As
esperanas que ela tinha de conseguir pena mxima no caso atual.
- Ela mencionou algum tipo de ameaa, alguma transmisso diferente que
tivesse recebido, mensagens ou contatos?
- No. - Ele colocou a mo sobre os olhos rapidamente, e a deixou cair em
seguida para o lado do corpo. - Ento voc acha que eu no teria lhe contado de
cara se tivesse a mnima pista do motivo de isto ter ocorrido?
- Por que razo ela iria  parte alta do West Side, quela hora da noite?
- No fao ideia.
- Cicely tinha o hbito de se encontrar com informantes, ou fontes?
- No sei - disse ele em um murmrio, abrindo a boca e fechando-a em
seguida, atingido pela ideia. - Eu jamais teria pensado nisso... Mas ela era to
teimosa, to segura de si.
- E o relacionamento dela com o ex-marido, como o descreveria?
- Amigvel. Um pouco reservado, mas afvel. Os dois eram muito devotados
aos filhos, e isto os unia. Ele ficou um pouco aborrecido quando eu e Cicely nos
tornamos ntimos, mas... Hammett parou de repente e olhou para Eve. - No 
possvel que voc esteja achando que... - e soltando o que poderia passar por uma
gargalhada, cobriu o rosto. - Marco Angelini esgueirando-se furtivamente em uma
regio como aquela, com uma faca, planejando matar a ex-mulher? No, tenente. -
Baixou as mos novamente.
- Marco tem seus defeitos, mas jamais magoaria Cicely. E s a viso do
sangue j ofenderia o seu senso do que  apropriado. Ele  frio demais, e muito
conservador para apelar para a violncia. E no tinha motivo algum, nenhuma razo
que fosse, para desejar mal a ela.
Isso, pensou Eve, cabia a ela decidir.
Ela pulou de um mundo para outro completamente diferente ao deixar o
apartamento de Hammett e ir para o West Side. Ali, ela no ia encontrar nenhum
almofado prateado, nem cascatas tilintantes. Em vez disso, o que havia eram
caladas com rachaduras, ignoradas pela mais recente campanha de
embelezamento da cidade, edifcios completamente pichados que convidavam os
transeuntes a se engajarem em atos de todo tipo, humanos e bestiais. A parte da
frente das lojas era coberta de grades de segurana, que eram muito mais baratas,
embora menos eficientes do que os campos de fora usados em reas mais
sofisticadas.
Ela no ficaria surpresa se visse alguns ratos ignorados pelos gatos andrides
que circulavam pelos becos.
Quanto aos ratos humanos, ela viu muitos. Um traficante de drogas qumicas
mostrou um sorriso sem dentes para ela e coou a parte da frente das calas, com
orgulho. Um camelo a avaliou de cima a baixo, reconheceu de modo preciso que
Eve era uma policial e escondeu o rosto no meio da abundante penugem que
circundava um cabelo cor de fcsia, chispando logo em seguida em busca de
paragens mais seguras.
Havia uma pequena lista de drogas que ainda eram consideradas ilegais.
Alguns policiais, na verdade, se davam ao trabalho de prestar ateno a isso.
Naquele momento Eve no era um deles. A no ser que um pouco de presso
se mostrasse til para conseguir respostas.
A chuva havia lavado a maior parte do sangue. O pessoal do laboratrio
responsvel pela varredura eletrnica j tinha sugado qualquer coisa em volta do
local do crime que pudesse ser esmiuada para ser usada como prova. Mesmo
assim, Eve ficou em p por um momento, junto do ponto exato em que Cicely
Towers havia morrido, e no teve problemas para visualizar a cena.
Agora, era preciso trabalhar a imagem de trs para a frente. Ser que ela havia
ficado em p ali naquele lugar, especulou Eve, olhando para o assassino?
Provavelmente. Ser que viu a faca antes que ela fosse enfiada em sua garganta?
Era possvel. Mas no foi rpida o bastante para reagir, e s conseguiu pular para
trs e soltar um breve gemido.
Levantando a cabea, Eve olhou em volta, avaliando a rua. Sentiu a pele se
arrepiar, mas ignorou os olhares dos que estavam encostados nas paredes dos
prdios ou vagando em torno dos carros enferrujados.
Cicely Towers tinha vindo do Centro da cidade. No viera de txi. No havia
registro de uma corrida para aquele local no relatrio de nenhuma das companhias
oficiais. Eve duvidava que ela fosse tola o suficiente para pegar um transporte pirata.
O metro, deduziu. Era rpido, vigiado pelos policiais robticos e bem
monitorado, seguro como uma igreja, pelo menos at a pessoa alcanar a rua. Eve
avistou a placa que anunciava uma estao a menos de um quarteiro dali.
Foi o metro, decidiu. Talvez ela estivesse com pressa? Aborrecida por ser
arrastada at ali em uma noite chuvosa. Segura de si mesma, como Hammett
dissera, ela viria at ali sem medo. Saiu do vago, marchou pelas escadas do metro
acima at alcanar a rua, vestida com seu terninho marcante e os sapatos caros.
Ela...
Parando, Eve franziu o cenho. Sem guarda-chuva? Onde estava a droga do
guarda-chuva? Uma mulher meticulosa, prtica e organizada no saa na chuva
semproteo. Com um gesto rpido, Eve pegou o equipamento e gravou uma
mensagem para si mesma, para se lembrar de investigar aquilo.
Ser que o assassino estava  espera dela na rua? Ou em um lugar fechado?
Analisou os edifcios decadentes, revestidos em tijolinho e necessitados de uma
reforma. Talvez um bar? Um daqueles inferninhos?
- Ei, branquela.
Com o cenho ainda franzido, Eve se virou na direo da voz. O homem tinha a
altura de uma casa, e pela sua silhueta corpulenta era o tipo do negro bem escuro.
Usava, como muitos naquela parte da cidade, algumas penas espetadas no cabelo.
Exibia uma tatuagem na bochecha, em tom de verde forte, com o formato de uma
caveira. Trajava uma camiseta vermelha, com calas da mesma cor e to apertadas
que moldavam a sua anatomia entre as pernas.
- Oi, pretinho - respondeu Eve, no mesmo tom de insulto casual.
Ele abriu um sorriso largo e cheio de dentes em meio a um rosto
inacreditavelmente feio.
- Est em busca de um pouco de ao? - Esticou o pescoo na direo do
cartaz espalhafatoso que anunciava um clube de striptease do outro lado da rua. -
Voc  meio magrinha, mas eles esto contratando. No conseguem muitas
branquelas como voc por aqui. A maioria das danarinas  mulata. - Coou
embaixo do queixo, com dedos que tinham a largura de salsiches de soja. Sou o
segurana da rea, e posso indicar voc.
- E por que motivo voc faria isso por mim?
- Por pura bondade do meu corao, e cinco por cento das gorjetas, favinho de
mel. Uma garota alta e branquela como voc consegue bastante grana sacudindo a
peitaria.
- Olhe, eu agradeo a dica, mas j tenho emprego. - Quase com pena, puxou o
distintivo.
- Uai, como  que pode eu no ter percebido? - e soltou um assobio por entre
os dentes. - Branquela, voc no cheira nem um pouco a policial!
- Deve ser por causa do sabonete novo que eu estou usando. Voc tem nome?
- O pessoal me chama de Crack.  o som que eles ouvem quando eu esmago
as cabeas com a mo - e abriu os dentes mais uma vez, ilustrando o nome com a
exibio das duas mos enormes se apertando. - Crack! Entendeu?
- Estou percebendo. Voc estava aqui pela rua na noite de anteontem, Crack?
- No, sinto informar que estava com um compromisso em outro lugar e perdi
toda a muvuca. Foi a minha noite de folga, e eu corri atrs de alguns eventos
culturais.
- E que eventos foram esses?
- O festival de filmes de vampiro l no Grammercy Park. Fui com a garota que
eu ando beliscando. Eu me amarro em ver aqueles chupadores de sangue. Mas ouvi
dizer que por aqui tambm teve um tremendo show. Rolou uma advogada morta no
pedao. Uma dona muito importante, arrumadona e tudo. Uma branquela tambm,
no foi? Igual a voc, favinho de mel.
- Foi isso mesmo. E o que mais voc ouviu?
- Eu? - Esfregou a ponta do dedo na frente da camiseta. A unha do indicador
estava muito comprida, afiada quase a ponto de parecer uma arma letal, e tinha sido
pintada de preto. - Sou muito educado para ficar por a prestando ateno a essa
fofocada de rua.
- Aposto que . - Sabendo das regras, Eve tirou do bolso algumas fichas, no
valor de cem crditos - E que tal eu comprar um pouco dessa boa educao?
- Bem, por esse preo d para vender um pouco dela. - A mo imensa
envolveu as fichas e as fez desaparecer. - Ouvi o pessoal falar que ela estava
circulando pelo Bar Cinco Luas, por volta de meia-noite, um pouco mais ou um
pouco menos. Parecia que ela estava ali esperando por algum, algum que no
deu as caras. Ento, ela se mandou. - Olhou para baixo, na direo da calada.
- No foi muito longe, no ?
- No, no foi. Ela perguntou por algum?
- No que eu tenha ouvido.
- Algum a viu acompanhada?
- Era uma noite do co. A maioria das pessoas no fica na rua. Um ou outro
traficante de qumicos podia at circular por a, mas os negcios deviam estar muito
devagar.
- Voc conhece algum na rea que goste de retalhar os outros?
- Muita gente carrega algumas lminas e furadores, branquela.
- Seus olhos rolaram, com um ar divertido. - Por que algum vai carregar isso
se no estiver a fim de usar?
- Algum que simplesmente goste de sair por a retalhando os outros - repetiu
ela. - Algum que no se incomoda de no marcar ponto algum na partida, porque
joga por prazer...
Ele deu um grande sorriso. A caveira tatuada na bochecha parecia concordar,
balanando com o movimento.
- Ora, branquela. Todo mundo est sempre a fim de marcar algum ponto. Voc
no  assim?
Ela aceitou aquilo.
- Algum que voc conhea, aqui da rea, saiu da priso recentemente?
Sua gargalhada ecoou como um morteiro.
- Era mais fcil voc perguntar se eu conheo algum aqui que no veio da
priso. E o seu dinheiro acabou.
- Ento est certo. - Para desapontamento dele, Eve tirou um carto do bolso,
em vez de mais fichas. - Pode ser que pinte mais alguma coisa para voc, caso
descubra algo que sirva para mim.
- Lembre-se bem. Se resolver ganhar alguma grana extra sacudindo essas
tetinhas brancas,  s falar com o Crack. - E dizendo isto atravessou a rua com
passos largos e surpreendente leveza, como se fosse uma enorme gazela negra.
Eve se virou e foi tentar a sorte no Bar Cinco Luas. O buraco talvez j tivesse
visto dias melhores, mas ela duvidava. Era basicamente um estabelecimento para a
venda de bebidas. No havia danarinas, nem teles, nem cabines de vdeo. A
clientela que frequentava o Cinco Luas no ia l para fazer contatos sociais. Pelo
cheiro que Eve sentiu assim que abriu a porta, parede de estmago flambada era o
prato do dia.
Mesmo quela hora, a pequena rea quadrada estava bem cheia. Bebedores
silenciosos se mantinham em p ao lado de mesinhas elevadas, entornando o
veneno de sua escolha. Outros se amontoavam junto ao bar para ficar mais perto
das garrafas. Eve conseguiu atrair alguns olhares quando entrou, pisando no cho
gosmento, mas logo em seguida as pessoas voltaram  tarefa de beber com
seriedade.
O barman era um andride, como na maioria dos lugares. Eve, porm,
duvidava que aquele ali tivesse sido programado para ouvir com algum interesse as
histrias tristes que os clientes contavam. Mais provavelmente era um brutamontes,
pensou, analisando-o enquanto se aproximava lentamente do balco. Os fabricantes
haviam colocado nele os olhos puxados e a pele dourada de um mestio. Diferente
da maioria dos clientes, o andride no usava penas no cabelo, nem contas no
pescoo. Vestia um simples uniforme branco sobre o corpo de pugilista.
Andrides no podiam ser subornados, lamentou. E as ameaas tinham de ser
inteligentes e lgicas.
- Bebida? - perguntou o barman. Sua voz tinha um silvo estranho, um eco
distante que indicava problemas de manuteno atrasada.
- No. - Eve queria manter a sade. Exibiu o distintivo e vrios clientes
comearam a se espalhar, em direo aos cantos do bar. -Aconteceu um
assassinato aqui, h duas noites.
- Aqui dentro no.
- Mas a vtima esteve aqui.
- Quando ela esteve aqui ainda estava viva. - Atendendo a algum sinal que Eve
no percebeu, o garom robotizado pegou o copo sebento de um dos clientes do
meio do balco, entornou nele um pouco de lquido de aspecto nocivo e o devolveu.
- Voc estava de servio.
- Sim, sou vinte e quatro por sete - explicou ele, indicando que estava
programado para operao em tempo integral, sem precisar ser desligado nem
passar por perodos de recarga.
- Voc j tinha visto a vtima, antes daquele dia, aqui nesta regio?
- No.
- Com quem ela se encontrou aqui?
- Com ningum.
- Tudo bem. - Eve tamborilou com os dedos sobre a superfcie embaada do
balco. - Olha, vamos fazer as coisas de modo bem simples. Voc me conta a que
horas ela chegou, o que fez, a que horas saiu, e como saiu.
- Ficar vigiando os clientes no  parte das minhas funes.
- Certo. - Lentamente Eve esfregou um dos dedos sobre o balco. Quando o
levantou, esgarou os lbios em uma careta diante do fedor exalado pela substncia
viscosa que manchava a ponta do dedo. - Sou da Diviso de Homicdios, mas deixar
passar violaes  Sade Pblica tambm no  parte das minhas funes. Sabe de
uma coisa? Acho que se eu chamasse o departamento sanitrio, e eles fizessem
uma fiscalizao aqui, uau! Eles iam ficar chocados. To chocados que eram
capazes at de cancelar a licena desta espelunca.
Em matria de ameaa, aquela no era particularmente inteligente, mas era
lgica. O andride levou um momento para analisar as possibilidades.
- A mulher chegou  zero hora e dezesseis minutos - respondeu. - No bebeu
nada. Saiu do bar  uma hora e doze minutos. Sozinha.
- Ela conversou com algum?
- No pronunciou uma s palavra.
- Estava  procura de algum?
- No perguntei.
- Voc a observou. - Eve estranhou. - Parecia que ela estava procurando por
algum?
- Parecia, mas ela no encontrou ningum.
- E ficou aqui por quase uma hora. O que ficou fazendo?
- Ficou em p. Olhou em volta, franziu a testa. Olhou para o relgio o tempo
inteiro. Saiu.
- Algum saiu logo atrs dela?
- No.
De modo distrado, Eve esfregou a ponta do dedo sujo na cala, perguntando:
- Ela estava com um guarda-chuva?
- Estava. - O andride pareceu to surpreso pela pergunta quanto os robs
eram capazes de parecer. - Era um guarda-chuva roxo, da mesma cor da roupa
dela.
- E ela saiu daqui com ele?
- Saiu. Estava chovendo.
Eve fez que sim com a cabea, andando em seguida por todo o bar e
interrogando clientes insatisfeitos.
Tudo o que Eve realmente queria ao voltar para a Central de Polcia era um
longo banho de chuveiro. Uma hora dentro do Cinco Luas a deixara com a sensao
de que havia uma fina camada de estrume sobre toda a sua pele. At mesmo em
volta dos dentes, pensou ela, esfregando a ponta da lngua sobre eles.
Mas o relatrio tinha prioridade. Entrou em sua sala e parou, olhando para o
homem de cabelo ralo que estava sentado  sua mesa, pegando amndoas
revestidas com uma camada doce no fundo de um saco.
- Trabalho legal esse, para quem pode - falou Eve.
Feeney cruzou os ps que estavam na ponta da mesa e respondeu:
- Tambm  bom ver voc, Dallas. Voc  uma moa muito ocupada.
- Alguns de ns, policiais, na verdade precisam trabalhar para ganhar a vida.
Outros ficam brincando no computador o dia inteiro.
- Voc devia ter seguido meus conselhos e trabalhado mais seus dotes para
informtica.
Com um gesto mais afetuoso do que irritado, ela empurrou os ps dele para
fora da mesa e encostou o traseiro no espao vazio.
- Voc est s de passagem, Feeney?
- Vim oferecer os meus servios, companheira. - Generosamente, estendeu
para ela o saco de amndoas.
Enquanto mastigava, Eve o observava. Feeney tinha um rosto com aspecto
derrotado, que ele jamais se dera ao trabalho de tentar melhorar. Olhos empapados,
o comeo de um queixo duplo, orelhas que eram ligeiramente grandes para o
tamanho da cabea. Eve gostava dele do jeito que era.
- Oferecer os seus servios por qu?
- Bem, tenho trs razes. Primeira, o comandante me fez um pedido extraoficial.
Segunda, eu tinha muita admirao pela promotora Cicely Towers.
- Whitney chamou voc?
- Extra-oficialmente - repetiu Feeney. - Ele achou que, tendo algum com as
minhas extraordinrias habilidades para trabalhar junto com voc na avaliao dos
dados, poderemos encerrar este caso mais depressa. Nunca  demais ter uma linha
direta com a Diviso de Deteco Eletrnica da Polcia.
Ela considerou o assunto e, por saber que as habilidades de Feeney eram
realmente extraordinrias, aprovou a ideia.
- Afinal, voc vai assumir o caso oficial ou extra-oficialmente?
- S depende de voc.
- Ento vamos tornar a coisa oficial, Feeney.
- Eu sabia que voc ia dizer isso. - Sorriu e deu uma piscadela.
- A primeira coisa que eu estou precisando  que voc d uma olhada nos
arquivos do tele-link da vtima. No h registros de que ela tenha recebido alguma
visita na noite em que morreu, nem em sua agenda nem nos discos de segurana
do prdio. Portanto, algum ligou para ela e combinou um encontro.
-  pra j.
- E preciso de uma lista de todo mundo que ela mandou para a cadeia.
- Todo mundo? - interrompeu ele, ligeiramente estarrecido.
- Todo mundo. - O rosto de Eve se iluminou em um grande sorriso. - Acho que
voc consegue fazer isso na metade do tempo que eu levaria. Quero os parentes,
entes queridos e scios tambm. E, finalmente, todos os casos em andamento, alm
dos ainda pendentes.
- Nossa, Dallas! - Ele movimentou os ombros e flexionou os dedos, como um
pianista prestes a executar um concerto. - Minha mulher vai sentir saudades de mim.
- Ser casada com um policial  horrvel - disse ela, dando palmadinhas no
ombro dele.
-  isso o que Roarke diz?
- Ns no somos casados - e deixou cair a mo.
Feeney simplesmente concordou, fazendo um murmrio com a garganta. Ele
gostava de ver o franzir rpido das sobrancelhas e o ar nervoso de Eve.
- E ento - perguntou - como ele vai?
- Est bem, est na Austrlia. - Suas mos foram direto para os bolsos. - Est
bem.
- H-h. Vi vocs dois no noticirio algumas semanas atrs. Estavam em um
agito elegante, no Palace. Voc fica muito bem de vestido, Dallas.
Ela trocou de posio, desconfortvel, mas logo se controlou e deu de ombros.
- No sabia que voc assistia aos canais de fofoca, Feeney.
- Eu adoro esses programas - disse ele sem arrependimento.
- Deve ser muito interessante levar a vida desse jeito sofisticado.
- , tem momentos bons - murmurou ela. - Afinal, ns vamos conversar sobre a
minha vida social, Feeney, ou investigar um assassinato?
- Temos de arrumar tempo para as duas coisas. - Levantou-se e fez um
alongamento. -  melhor eu ir logo dar uma olhada nos arquivos do tele-link da
vtima antes de mergulhar em anos e anos de criminosos que ela tirou de circulao.
Vou manter contato.
- Feeney. - Quando ele se virou, j na porta, ela voltou a cabea um pouco
para o lado. - Voc me disse que havia trs razes para querer este caso, e s me
deu duas.
- Nmero trs: senti sua falta, Dallas - e sorriu. - Pode acreditar, senti mesmo.
Ela estava sorrindo quando se sentou de volta  mesa, para trabalhar. Dava
para acreditar, porque ela tambm tinha sentido muita falta dele.
CAPTULO QUATRO
O Esquilo Azul ficava bem perto, um pouco adiante do Cinco Luas. Eve tinha
uma espcie de ligao afetuosa, ainda que cautelosa, com ele. Havia dias em que
ela gostava do barulho, da presso dos corpos e dos trajes sempre mutantes da
clientela. Basicamente, gostava do show no pequeno palco.
A cantora que se apresentava ali era uma das raras pessoas que Eve
considerava uma verdadeira amiga. A amizade, na verdade, comeou quando Eve
prendeu Mavis Freestone vrios anos antes, mas, apesar desse comeo, floresceu.
Mavis podia estar andando nos trilhos agora, mas jamais seria uma pessoa comum.
Naquela noite, a jovem magra e exuberante estava guinchando as letras das
msicas e lanando-as de encontro aos gritos dos trompetes, que eram os
instrumentos da banda composta por trs mulheres. Elas ficavam no fundo do palco,
em uma tela hologrfica. Aquilo, aliado  baixa qualidade do vinho que Eve se
arriscara a tomar, era o suficiente para fazer os seus olhos se encherem dgua.
Para o show daquela noite, o cabelo de Mavis estava em um estonteante tom
de verde-esmeralda. Eve sabia que Mavis preferia usar cores de pedras preciosas.
Continuava a cantar usando apenas um retalho brilhante da cor de safira, que lhe
cobria um dos seios e descia at o vo entre as pernas. O outro seio estava
decorado com pequenas pedrinhas cintilantes em volta de uma estrela de prata, que
fora estrategicamente colocada sobre o mamilo.
Uma s lantejoula ou pedao de pano fora do lugar e o Esquilo Azul poderia
ser multado por exceder o que estava especificado no alvar. Os proprietrios no
estavam dispostos a pagar a taxa pesada que era cobrada das casas que
apresentavam danarinas nuas.
Quando Mavis se virou de costas, Eve notou que o traseiro da cantora, que
tinha o formato de um corao, estava igualmente decorado, nas duas ndegas.
Menos um pouco, pensou Eve, e ela estaria fora dos limites determinados pela lei.
A multido a adorava. Quando desceu do palco, aps terminar a apresentao,
Mavis se misturou aos aplausos barulhentos e aos gritos de aclamao dos clientes
bbados. Os frequentadores que estavam nas cabines privativas para fumantes
batucavam entusiasticamente com os punhos nas pequenas mesas.
- Como  que voc consegue se sentar com esses troos colados na bunda? -
perguntou Eve quando Mavis chegou em sua mesa.
- Devagar, cuidadosamente e com grande desconforto - e fez uma
demonstrao, sentando-se e soltando um pequeno suspiro.
- O que achou do ltimo nmero?
- Foi de levar a multido ao delrio.
- Fui eu que compus.
- T falando srio? - Eve no havia compreendido uma palavra sequer da letra,
mas transbordou de orgulho mesmo assim. Que legal, Mavis. Estou pasma.
- Pode ser que eu consiga um contrato para gravao - e por baixo do brilho
em seu rosto, suas bochechas se ruborizaram. - E ganhei um aumento de salrio.
- Ora, vamos comemorar. - Como se estivesse brindando, Eve levantou o copo.
- Eu no sabia que voc vinha aqui hoje. - Mavis digitou o cdigo pessoal no
cardpio e pediu gua gasosa. Precisava cuidar da garganta para a prxima
apresentao.
- Vim at aqui para me encontrar com uma pessoa.
- Roarke? - Os olhos de Mavis, que naquela noite estavam verdes, brilharam. -
Ele vem aqui? Ah, ento vou ter de repetir aquele ltimo nmero!
- No, ele est na Austrlia. Vou me encontrar com Nadine Furst.
O desapontamento de Mavis ao ver que ia perder a chance de impressionar
Roarke logo foi substitudo pela surpresa.
- Eve, voc vai se encontrar com uma reprter? Deliberadamente?
- Eu confio nela - e Eve levantou um dos ombros. - Posso precisar dela.
- Se voc diz... Ei, ser que ela poderia fazer uma matria comigo?
Por nada no mundo Eve teria coragem de apagar a luz que viu nos olhos de
Mavis.
- Posso mencionar voc - respondeu.
- Excelente! Escute, amanh  minha noite de folga. Voc est a fim de jantar
fora ou ir a algum lugar?
- Se eu conseguir. Mas pensei que voc estivesse saindo com o artista
performtico, aquele que tinha um macaco de estimao.
- Dispensei - e Mavis ilustrou o fato espanando o ombro com os dedos. - Ele
era muito devagar. Agora tenho de ir. Deslizou para fora da cabine, fazendo
pequenos sons com os enfeites no traseiro, que arranharam o banco. Seus cabelos
cor de esmeralda cintilavam sob as luzes giratrias enquanto ela seguia em meio 
multido.
Eve decidiu que no queria saber o que Mavis considerava muito devagar.
Quando o comunicador tocou, Eve pegou no aparelho e digitou um cdigo. O
rosto de Roarke encheu toda a pequena tela.
A primeira reao dela, espontnea, foi dar um sorriso imenso e satisfeito.
- Tenente, eu rastreei voc.
- Estou vendo. - Em seguida tentou disfarar um pouco o sorriso. - Roarke, este
 um canal oficial da polcia.
-  mesmo? - e franziu a sobrancelha. - O barulho no me parece o de um
ambiente de trabalho. Voc est no Esquilo Azul?
- Vim aqui para me encontrar com uma pessoa. Como est a Austrlia?
- Muito cheia de gente. Se tiver sorte, estarei de volta em menos de trinta e seis
horas. Eu encontro voc.
- No vai ser difcil, obviamente - e sorriu novamente. Escute s... - e para
divertir os dois, girou o aparelho para o palco enquanto Mavis rugia na sua nova
apresentao.
- Ela  sem igual - Roarke conseguiu gritar depois de alguns acordes. - Mande
lembranas minhas para ela.
- Eu mando. Ento eu... ha... Vejo voc na volta.
- Estou contando com isso. Voc vai pensar em mim?
- Claro. Boa viagem, Roarke.
- Eve, eu amo voc.
Ela soltou um suspiro abafado quando a imagem dele se dissolveu.
- Ora, ora - Nadine Furst saiu da posio em que estava, por trs do ombro de
Eve, e se sentou no banco em frente. - Isso no foi lindo?
Dividida entre ficar aborrecida e envergonhada, Eve enfiou o comunicador de
volta no bolso.
- Nadine, eu achava que voc tinha mais classe, e que no ficava escutando s
escondidas.
- Qualquer reprter que merece o salrio que ganha escuta coisas s
escondidas, tenente. Como um bom policial tambm. Nadine se recostou na parte
de trs da cabine. - Ento, me conte como uma mulher se sente quando tem um
homem como Roarke apaixonado por ela.
Mesmo que conseguisse explicar, Eve no teria respondido a isto.
- Voc est pensando em largar o noticirio srio e trabalhar na rea
romntica, Nadine?
Nadine simplesmente levantou uma das mos e soltou um suspiro ao olhar
para o clube em volta, dizendo:
- No posso acreditar que voc escolheu se encontrar comigo aqui neste lugar
novamente. A comida  terrvel!
- Mas sinta a atmosfera, Nadine... A atmosfera. Mavis soltou um agudo e
Nadine estremeceu.
- Tudo certo, Eve, assim est bem.
- Voc voltou para a Terra bem depressa.
- Consegui pegar um transporte espacial expresso. Um daqueles que
pertencem ao rapazinho que  seu namorado.
- Roarke no  um rapazinho.
- Voc  quem sabe. Enfim... - Nadine fez um gesto para o lado com a mo.
Obviamente estava cansada e um pouco defasada, pela diferena de horrio. - Vou
ter de comer alguma coisa, mesmo que isso me mate. - Analisou o cardpio e
escolheu, com alguma reserva, o supremo de casquinhas de siri recheadas. - O que
est bebendo?
- O nmero cinquenta e quatro. Era para ser um chardonnay.
- S para testar, Eve provou mais uma vez. - Est pelo menos trs pontos
acima de mijo de cavalo. Recomendo.
- timo. - Nadine programou o pedido no cardpio e se recostou novamente. -
Consegui acessar todos os dados disponveis a respeito do assassinato de Cicely
Towers na viagem de volta para a Terra. Pelo menos tudo o que a mdia divulgou
at agora.
- Morse j sabe que voc voltou?
- Ah, ele sabe... - O sorriso de Nadine era fino e cruel. Tenho preferncia para
a cobertura dos eventos criminais. Eu entrei e ele caiu fora. Est revoltado.
- Ento a minha misso foi um sucesso.
- Mas ainda no est completa. Voc me prometeu uma entrevista exclusiva.
- E vou cumprir. - Eve avaliou o prato de macarro que surgiu da abertura por
onde eram servidas as refeies. No parecia to mal. - Vai ser tudo sob as minhas
condies, Nadine. Eu passo as informaes e voc s as joga no ar quando eu der
o sinal.
- Grande novidade! - Nadine experimentou a primeira casquinha e decidiu que
estava quase comvel.
- Vou providenciar para que voc consiga mais dados, e que os consiga antes
dos outros reprteres.
- E quando encontrar um suspeito...
- Voc vai saber o nome em primeira mo.
Confiando na palavra de Eve, Nadine concordou com a cabea enquanto
experimentava outra casquinha e completou:
- Mais uma entrevista exclusiva, olho no olho, com o suspeito. E outra com
voc.
- No posso garantir a matria com o suspeito. Voc sabe que eu no posso,
Nadine - continuou Eve antes que a reprter tivesse a chance de interromper. - O
criminoso tem o direito de escolher a prpria mdia, ou at de recus-la por
completo. A nica coisa que eu posso fazer  sugerir, talvez at incentivar.
- Ento eu quero fotos. No me diga que isso voc tambm no pode garantir!
Voc pode arranjar um jeito para que eu consiga gravar o momento da priso. Quero
estar l nessa hora.
- Vou ponderar isso quando chegar o momento. Em troca, quero tudo o que
voc conseguir, todas as dicas que aparecerem, todos os rumores e pistas. No
quero surpresas ao ver o programa no ar.
- Isso eu no posso garantir - disse Nadine com suavidade, colocando um
pouco do macarro entre os lbios. - Meus colegas possuem esquemas prprios.
- O que voc descobrir, quando descobrir - disse Eve de modo direto. - E
qualquer outra coisa que surgir da espionagem entre os meios de comunicao. -
Diante da expresso de inocncia de Nadine, Eve bufou. - Emissoras espionam
emissoras e reprteres espionam reprteres. A grande jogada  jogar a histria no
ar antes do outro. Voc tem uma boa mdia de vitrias nesse jogo, Nadine, ou eu
no teria me dado ao trabalho de vir at aqui para v-la.
- Posso dizer o mesmo de voc. - Nadine provou o vinho. E na maior parte do
tempo confio em voc, apesar de no ter bom gosto para vinhos... Isto aqui quase
no tem diferena de mijo de cavalo.
Eve se jogou para trs e riu. Estava se sentindo bem, estava  vontade, e
quando Nadine riu de volta, sabia que haviam chegado a um acordo.
- Deixe-me ver o que voc tem - pediu Nadine - e eu lhe mostro o que eu
tenho.
- A maior coisa que consegui at agora - comeou Eve -  um guarda-chuva
desaparecido.
Eve se encontrou com Feeney no apartamento de Cicely Towers s dez da
manh, no dia seguinte. Uma olhada na expresso derrotada dele lhe mostrou que
as notcias no eram das melhores.
- Em que beco sem sada voc entrou?
- O beco do tele-link. - Esperou at que Eve desarmasse o dispositivo de
segurana da polcia que havia na porta, e ento a seguiu para dentro da sala. - Ela
recebeu um monte de transmisses, mantinha o aparelho no modo de gravao
automtica. O seu lacre estava no disco.
- Claro, eu o peguei como prova. O que voc est tentando me dizer  que
ningum ligou para combinar um encontro com ela no Cinco Luas?
- Estou tentando lhe dizer que no sei a resposta para isso. Desgostoso,
Feeney passou a mo pelo cabelo espetado. - A ltima chamada que ela recebeu foi
feita s onze e quarenta e trs.
- E?...
- Ela apagou a gravao. Consigo saber a hora, mas s isso. A mensagem, o
udio, o vdeo, sumiu tudo. Ela apagou - continuou ele - daqui mesmo.
- Ela apagou a ligao - murmurou Eve, e comeou a andar de um lado para
outro. - Por que motivo faria isso? Estava com o aparelho preparado para gravao
automtica. Isso  o padro para o pessoal da rea legal, mesmo no caso de
chamadas pessoais. S que ela apagou essa. Porque no queria nenhum registro
de quem tinha ligado... Por qu?... - Ela se virou para trs. - Feeney, tem certeza de
que ningum adulterou o disco depois que ele j estava conosco?
Feeney olhou para ela magoado, e a seguir se sentindo insultado.
- Dallas - foi tudo o que respondeu.
- T legal, t legal, ento ela apagou a gravao antes de sair. Isso me diz que
ela no estava com medo, pessoalmente, mas estava protegendo a si mesma, ou a
mais algum. Se fosse alguma coisa ligada a um dos casos do tribunal, ela ia querer
deixar tudo gravado. Ia querer ter certeza, absoluta de que tudo ficaria
documentado.
- Diria que sim. Se fosse a ligao de um informante, ela teria colocado uma
senha no acesso  ligao, sob o cdigo dela, mas no faria sentido apagar a
gravao.
- De qualquer modo vamos analisar todos os casos dela, at os mais antigos. -
Eve no precisava olhar para a cara de Feeney para saber que ele estava virando
os olhos para cima ao ouvir isso. Deixe-me ver - sussurrou - Cicely saiu da prefeitura
s dezenove e vinte e seis, isto est no controle eletrnico do prdio, e vrias
testemunhas a viram. Sua ltima parada foi no toalete feminino, onde ela retocou a
maquiagem para ir jantar fora e bateu papo com uma colega. Essa colega me disse
que ela estava calma, mas parecia empolgada. Tivera um dia muito bom no tribunal.
- Fluentes vai para a cadeia, ela j tinha preparado todo o terreno. Tir-la do
caminho no ia mudar nada.
- Ele pode ter pensado diferente. Temos de verificar isso. Ela no voltou para
casa. - Com o cenho franzido, Eve olhou com ateno ao redor. - Ela no teve
tempo, ento foi direto para o restaurante e se encontrou com Hammett. J estive
com ele. Sua histria e os horrios batem com as informaes dos empregados.
- Voc tem andado muito ocupada.
- O tempo est correndo. O maitre chamou um txi para eles, da Companhia
Rpido. Foram pegos s vinte e uma e quarenta e oito. Estava comeando a chover.
Eve imaginou a cena. O casal bonito no banco de trs do txi, conversando,
talvez se acariciando, enquanto o motorista seguia em direo  parte alta da
cidade, com os pingos da chuva tamborilando no teto do carro. Cicely estava com
um vestido vermelho e um bolero da mesma cor sobre ele, de acordo com os
garons. Uma cor marcante para usar no tribunal, que ela incrementou ainda mais
com prolas verdadeiras e sapatos altos prateados, para completar a noite.
- O motorista a deixou antes - continuou Eve - e ela disse para Hammett no
sair, para que se molhar? Estava rindo quando correu para a entrada do edifcio, e
ento se virou e atirou-lhe um beijo.
- Seu relatrio diz que eles eram muito ligados.
- Ele a amava. - Mais pelo hbito do que pela fome, enfiou a mo no saquinho
de amndoas que Feeney lhe estendeu. - No quer dizer que ele no a tenha
matado, mas a amava. De acordo com ele, os dois estavam satisfeitos com o
arranjo, mas... - e levantou os ombros - no caso de ele no estar, era preciso armar
um bom libi, e ele providenciou um palco romntico e acolhedor. Comigo no
funciona, mas ainda est cedo para avaliar. Ento, ela subiu. - Eve continuou, indo
em direo  porta. - Seu vestido ficou um pouco mido, ento ela foi at o quarto
para pendur-lo.
Enquanto falava, Eve seguiu a rota proposta, caminhando sobre os
maravilhosos tapetes at o quarto espaoso, com suas cores em tom pastel e a
linda cama antiga.
Ordenou que as luzes se acendessem para iluminar melhor a rea. Os
anteparos da polcia nas janelas no s frustravam os passantes que voavam perto,
mas tambm impediam que o sol entrasse.
- Foi at o closet - disse, e apertou o boto que abria as portas altas e
espelhadas. - Pendurou a roupa. - Eve apontou para o vestido vermelho e o bolero,
caprichosamente arrumados em um armrio organizado por tons e cores. - Tirou os
sapatos e colocou um robe.
Eve se virou para a cama. Os lenis em tom marfim estavam espalhados ali.
No estavam dobrados, nem cuidadosamente arrumados como o resto do quarto, e
sim amarrotados, como se tivessem sido jogados para o lado com impacincia.
- Colocou as jias no cofre, na parede lateral do closet, mas no foi para a
cama. Talvez tenha voltado para a sala, a fim de ver o noticirio ou tomar um ltimo
drinque.
Com Feeney acompanhando-a, Eve foi at a sala de estar. Uma pasta,
fechada, estava colocada sobre a mesinha, em frente ao sof, com apenas um copo
vazio ao lado.
- Ela estava relaxando, talvez relembrando a noitada ou ensaiando a estratgia
para o dia seguinte no tribunal, ou talvez pensando nos planos para o casamento da
filha. De repente, o telelink tocou. Quem quer que fosse, ou o que quer que tenha
dito, a fez sair de casa novamente. Ela j estava pronta para dormir, mas voltou at
o quarto depois de ter apagado a gravao. Tornou a se vestir. Colocou outra roupa
marcante. Estava indo para o West End. No queria se misturar, e queria transpirar
autoridade e confiana. No chamou um txi, isto  outra coisa que j foi
confirmada. Decidiu pegar o metro. Estava chovendo.
Eve foi at um closet embutido em uma parede junto da porta de entrada do
apartamento e apertou o boto para abri-lo. L dentro havia casacos, cachecis e
um sobretudo de homem, que ela imaginou que pertencia a Hammett, alm de uma
infinidade de guarda-chuvas de vrias cores.
- Ela pegou o guarda-chuva que combinava com a roupa.  uma coisa
automtica, e a sua cabea estava voltada para o encontro. No levou muito
dinheiro, portanto no se tratava de suborno.
No chamou por ningum, porque queria resolver o problema por conta
prpria. S que, ao chegar ao Cinco Luas, ningum apareceu. Ela esperou por
quase uma hora, impaciente, olhando toda hora para o relgio. Saiu de novo, logo
depois de uma da manh, de volta na chuva. Pegou o guarda-chuva e comeou a
caminhar na direo da estao do metro. Imagino que ela estava furiosa.
Uma mulher de classe vai parar em um clube suspeito daqueles para, no fim,
ningum aparecer - Feeney atirou mais uma amndoa na boca - ... furiosa tambm
seria o meu palpite.
- Ento ela foi embora. Estava chovendo muito. Seu guardachuva estava
aberto. Ela deu alguns passos. Algum estava l, provavelmente estava por perto o
tempo todo, esperando que ela sasse.
- Algum que no quis se encontrar com ela l dentro acrescentou Feeney. -
No queria ser visto.
- Certo. Eles bateram um papo por alguns minutos, de acordo com o intervalo
de tempo. Talvez tenham discutido, no exatamente uma discusso, no houve
tempo. No tinha ningum na rua, ningum que fosse prestar ateno pelo menos.
Dois minutos mais tarde, com a garganta cortada, ela j estava sangrando na
calada. Ser que ele planejava mat-la desde o incio?
- Muita gente anda com facas naquela rea. - Pensativo, Feeney coou o
queixo. - Apenas com esse fato no podemos dizer que houve premeditao. Mas,
pelo clculo do tempo, pelo arranjo todo...  isso que est me incomodando.
- A mim tambm. Um nico golpe, de lado a lado. No h feridas defensivas,
portanto ela no teve tempo de se sentir ameaada. O assassino no levou suas
jias, nem a bolsa de couro, nem os sapatos ou fichas de crdito. Pegou apenas o
guarda-chuva e foi embora.
- Por que o guarda-chuva? - Feeney tentava entender.
- Ora, droga, porque estava chovendo. Sei l, um impulso, um suvenir. At
onde eu enxergo, foi o nico erro dele. Tenho um batalho de gente por a
vasculhando por uma rea de dez quarteires para ver se ele o jogou fora.
- Se ele dispensou a lembrancinha naquela regio, deve ter algum viciado em
qumicos circulando por l com um guarda-chuva roxo.
- ... - a imagem disso quase a fez sorrir. - Como  que ele podia saber que ela
ia apagar a gravao da mensagem, Feeney? Ele tinha de ter certeza disso.
- Uma ameaa?
- Uma promotora pblica convive com ameaas. E uma profissional como
Cicely Towers, ento, ia conseguir tirar de letra.
- Isso se as ameaas fossem dirigidas a ela - concordou ele.
- Mas ela tem filhos - e acenou com a cabea para os hologramas
emoldurados. - No era apenas uma advogada. Era me, tambm.
Com a testa vincada, Eve foi at os hologramas. Curiosa, pegou um, do rapaz
e da moa juntos quando eram adolescentes. Com um movimento do dedo na parte
de trs, colocou o udio da figura para tocar.
Oi, mam-chuva. Feliz Dia das Mes. Isso aqui vai durar mais tempo do que
flores. Amamos voc.
Ligeiramente perturbada, Eve colocou a moldura de volta no lugar.
- Eles so adultos agora. No so mais crianas.
- Dallas, uma vez me, sempre me. Voc jamais termina o servio.
A me dela terminara, pensou. H muito tempo.
- Ento, minha prxima parada  Marco Angelini.
Angelini tinha escritrios no prdio de Roarke que ficava na Quinta Avenida.
Eve entrou no saguo que j se tornara familiar, com seu piso de placas imensas e
butiques caras. As vozes arrulhantes das guias computadorizadas indicavam o
caminho para os vrios locais.
Eve consultou um dos mapas mveis e, ignorando os pequenos dirigveis
acima, seguiu em frente na direo dos elevadores da ala sul.
A cabine externa e envidraada se projetou para cima, levando-a com rapidez
at o qiinquagsimo oitavo andar, abrindo as portas para um piso solene,
acarpetado na cor cinza e cercado de paredes ofuscantes de to brancas.
A empresa Angelini Exportaes utilizava um conjunto de cinco salas daquele
andar. Aps uma rpida olhada, Eve notou que aquela companhia era caf pequeno
perto das Indstrias Roarke.
Tambm, pensou com um sorriso apertado, comparado com Roarke, o que no
era?
A recepcionista no balco de acesso demonstrou respeito, e um pouco de
nervosismo, diante do distintivo de Eve. Remexeu-se tanto na cadeira e engoliu em
seco tantas vezes que Eve ficou achando que ela tinha alguma substncia ilegal na
gaveta.
Mas o medo da polcia pelo menos teve a vantagem de fazer com que ela s
faltasse empurrar Eve para dentro do escritrio de Marco Angelini. Tudo levou
menos de noventa segundos desde a sua chegada.
- Senhor Angelini, obrigado por me receber. Meus psames pela sua perda.
- Obrigado, tenente Dallas. Por favor, sente-se.
Ele no era to elegante quanto George Hammett, mas era poderoso. Um
homem pequeno e atarracado, com o cabelo preto e lustroso penteado para trs, a
partir de um bico-de-viva que apontava para o centro da testa. Sua pele dourada
estava plida, e os olhos brilhantes eram bolas de gude azuis debaixo de
sobrancelhas espessas. Possua um nariz comprido e lbios finos; um imenso
diamante brilhava em um dos dedos.
Se o ex-marido da vtima sentia algum pesar, estava conseguindo esconder
melhor do que o amante fizera.
Estava sentado atrs de uma mesa grande, lisa como cetim. O mvel estava
completamente vazio, exceto por suas mos cruzadas e imveis. Por trs dele havia
uma janela de vidro fum que bloqueava os raios ultravioleta, mas deixava entrar a
vista de Nova York.
- A senhorita veio aqui por causa de Cicely.
- Sim, tinha a esperana de que o senhor pudesse reservar um pouco do seu
tempo, agora, para me responder algumas perguntas.
- A senhorita ter a minha total cooperao, tenente. Cicely e eu estvamos
divorciados, mas ainda ramos parceiros, no s nos negcios, mas tambm na
relao com nossos filhos. Eu a admirava e respeitava.
Havia o trao de um sotaque do pas de origem em sua voz. Um trao muito
leve. Aquilo fez Eve se lembrar de que, de acordo com o dossi, Marco Angelini
passava grande parte do seu tempo na Itlia.
- Senhor Angelini, poderia me dizer quando foi a ltima vez que o senhor viu ou
falou com a promotora Towers?
- Estive com ela no dia 18 de maro ltimo, na minha casa em Long Island.
- Ela foi visit-lo?
- Sim, foi para o aniversrio de vinte e cinco anos de meu filho. Ns dois
oferecemos uma festa para ele, usando a propriedade que possuo l, pois era mais
conveniente. David, o nosso filho, quando est na Costa Leste, fica em Long Island,
e isto  frequente.
- O senhor no tornou a v-la desde essa data?
- No. Estvamos sempre ocupados, mas havamos planejado um encontro
para a semana que vem, a fim de discutirmos os planos para o casamento de Mirina,
nossa filha. - Limpou a garganta com suavidade. - Estive na Europa durante quase
todo o ms de abril.
- O senhor telefonou para a promotora Towers na noite da morte dela.
- Sim, deixei uma mensagem, para ver se podamos nos encontrar para
almoar ou tomar uns drinques,  escolha dela.
- Para conversar a respeito do casamento - completou Eve.
- Sim, era sobre o casamento de Mirina.
- O senhor falou com a promotora Towers entre o dia 18 de maro e a noite de
sua morte?
- Vrias vezes. - Ele abriu as mos e depois tornou a uni-las.
Como disse, nos considervamos parceiros. Tnhamos os filhos,
e tambm havia negcios em comum.
- Incluindo a Mercury.
- Sim. - Seus lbios se abriram ligeiramente. - A senhorita ... conhecida de
Roarke.
- Isso mesmo. O senhor e a sua ex-esposa discordavam em algum ponto com
relao s suas parcerias, em nvel pessoal ou profissional?
- Naturalmente que sim, em ambas as reas. Mas tnhamos aprendido, de uma
forma que no conseguimos alcanar enquanto estvamos casados, o valor do
compromisso.
- Senhor Angelini, quem  que herda a parte da promotora Towers na Mercury
aps a morte dela?
- Sou eu. - Sua sobrancelha se levantou. - Isso est especificado nos termos
do nosso contrato. H tambm alguns investimentos em imveis, que tambm
revertero para mim. Isto foi acertado em nosso acordo de divrcio. Com a morte de
um de ns, os interesses financeiros, lucros ou perdas, iriam direto para o outro. Ns
dois concordamos com isto, entenda, pois sabamos que, no fim, tudo o que
possuamos de valor ia ficar para nossos filhos.
- E o resto dos imveis de propriedade dela? O apartamento, as jias, o resto
das posses que no estavam especificadas no acordo?
- Iriam, acredito, direto para nossos filhos. Imagino que tambm haveria algum
legado para os amigos pessoais, ou obras de caridade.
Eve ia pesquisar a fundo para saber quanto mais a vtima havia escondido.
- Senhor Angelini, o senhor tinha conhecimento de que sua ex-mulher estava
intimamente envolvida com George Hammett?
- Naturalmente.
- E isso no representava um... problema?
- Problema. O que a senhorita quer saber, tenente,  se eu, aps quase doze
anos de divrcio, acalentava algum cime homicida pela minha ex-mulher? E se eu
cortei a garganta da me dos meus filhos e a deixei morta no meio da rua?
- Algo desse tipo.
Ele disse baixinho algumas palavras em italiano. Algo que no era, Eve
suspeitava, nem um pouco lisonjeiro.
- No, tenente. Eu no matei Cicely.
- Poderia me informar o lugar onde estava na noite da morte dela?
Eve podia ver sua mandbula tensa e reparou o esforo necessrio para que
ele relaxasse novamente, embora seus olhos sequer piscassem. Imaginou que ele
conseguiria fazer um buraco em uma chapa de ao com aquele olhar.
- Estava em casa, em minha residncia aqui na cidade, a partir das oito da
noite.
- Sozinho?
- Sim.
- Viu ou falou com algum que possa confirmar isso?
- No. Tenho dois empregados, mas ambos estavam de folga, motivo pelo qual
eu estava em casa. Queria passar uma noite calma, com privacidade.
- O senhor no fez nem recebeu nenhuma ligao durante toda a noite?
- Recebi uma ligao por volta de trs da manh, do comandante Whitney, me
informando sobre a morte de minha esposa. Estava na cama, sozinho, quando o
tele-link tocou.
- Senhor Angelini, sua ex-esposa estava em um clube suspeito do West End 
uma hora da manh. Por qu?
- No fao ideia. No fao a mnima ideia.
Pouco depois, quando Eve entrou na cabine envidraada para descer, ligou
para Feeney.
- Quero saber se Marco Angelini estava em algum tipo de aperto financeiro, e
quanto desse aperto seria aliviado pela morte sbita da ex-mulher.
- Est farejando alguma coisa, Dallas?
- Alguma coisa - murmurou. - S no sei o qu.
CAPTULO CINCO
Eve cambaleou para dentro do seu apartamento quase  uma da manh. Ela
sentia um zumbido em sua cabea. A ideia que Mavis tinha de um jantar na noite de
folga era ir para um clube concorrente. J sabendo que na manh seguinte ela ia
acabar pagando caro pela noite de diverso, Eve foi tirando a roupa a caminho do
banheiro.
Pelo menos a noite com Mavis havia empurrado o caso Towers para o fundo
de sua cabea. Eve poderia at se preocupar por no haver muita cabea de sobra,
mas estava exausta demais para pensar nisso.
Caiu nua e de barriga para baixo sobre a cama, e adormeceu em segundos.
De repente acordou, violentamente excitada.
Eram as mos de Roarke que estavam sobre ela. Eve conhecia sua textura,
seu ritmo. Seu corao martelou contra as costelas, e ento subiu para a garganta,
enquanto a boca dele cobria a dela. Era uma boca quente, insacivel, que no lhe
dava escolha, nenhuma escolha, a no ser a de ceder gentilmente. E, mesmo
enquanto ela apalpava  procura dele, aqueles dedos espertos e compridos abriam
caminho por dentro dela, mergulhando to fundo que ela se retesava como um arco
no frenesi do orgasmo.
Sua boca sobre o seio dela, sugando-o, os dentes arranhando-a de leve. As
mos elegantes dele, incansveis, de forma que seus gritos saam em espasmos de
choque e gratido. E outro clmax a fez estremecer colocando-se, como uma nova
camada, sobre o prazer anterior.
Suas mos buscavam apoio nos lenis amarrotados, mas nada seria capaz
de ancor-la. Quando ela decolou mais uma vez, agarrou-se a ele, com as unhas
arranhando-lhe as costas, e subindo at agarrar-lhe um punhado de cabelos.
- Oh, Deus! - Era a nica palavra coerente que conseguia balbuciar enquanto
ele se enterrava dentro dela, com tanta fora e to fundo que era uma surpresa se
ela no morresse de prazer com aquilo. O corpo dela corcoveava
incontrolavelmente, freneticamente, continuando a tremer mesmo depois que ele j
havia desmoronado sobre ela.
Ele soltou um suspiro longo e satisfeito e ficou preguiosamente esfregando o
nariz em sua orelha.
- Desculpe por ter acordado voc.
- Roarke? Ah, era voc? Ele a mordeu.
Ela sorriu silenciosamente no escuro.
- Achei que voc s ia voltar amanh.
- Tive sorte. Depois, foi s seguir sua trilha de roupas at o quarto.
- Eu sa com Mavis. Fomos a um lugar chamado Armagedon. S agora a minha
audio est comeando a voltar. - Acariciou as costas dele e deu um imenso
bocejo. - Ainda no  de manh, ?
- No. - Reconhecendo a fraqueza na voz dela, ele se ajeitou de lado, puxou-a
bem para junto de si e beijou-lhe a testa. - Volte a dormir, Eve.
- T bom. - Ela obedeceu em menos de dez segundos.
Ele acordou com a primeira luz da manh e a deixou enroscada no meio da
cama. Na cozinha, programou o AutoChef para preparar caf e po torrado. O po
estava velho, mas isto era de esperar. Sentindo-se em casa, sentou-se em frente ao
monitor da cozinha e deu uma olhada na seo financeira do jornal.
No conseguia se concentrar.
Estava tentando no se ressentir pelo fato de que ela escolhera a cama dela
em vez da cama deles. Ou o que ele gostava de considerar como a cama deles. No
tinha mgoas pela necessidade que ela tinha de espao pessoal; compreendia bem
a sua necessidade de privacidade. Mas a casa dele era grande o bastante para ela
se apropriar de uma ala inteira s para ela se desejasse.
Afastando-se do monitor, foi at a janela. Ele no estava habituado a este
conflito interno para equilibrar as necessidades dele com as de outra pessoa.
Crescera pensando primeiro nele, e por ltimo tambm. Teve de ser assim para que
conseguisse sobreviver e, mais tarde, ser bem-sucedido. Uma coisa era to
importante para ele quanto outra.
Aquele era um hbito difcil de largar, ou tinha sido, o de largar Eve.
Era humilhante admitir, ainda que para si mesmo, que todas as vezes que
viajava a negcios uma semente de medo germinava em seu corao, dizendo que
talvez, quando ele voltasse, ela tivesse resolvido ir embora.
O simples fato  que ele precisava da nica coisa que ela lhe negara. Um
compromisso.
Voltando-se da janela, ele veio at o monitor e se forou a ler.
- Bom-dia - disse Eve, da porta. O sorriso dela era ligeiro e brilhante, no s
pelo prazer de v-lo ali, mas tambm pelo fato de que a sua noitada no Armagedon
no tivera as consequncias que ela temia. Eve estava se sentindo tima.
- Seu po est velho.
- Mmmm - ela experimentou uma pontinha do que estava em cima da mesa. -
Voc tem razo, est mesmo. - Caf era sempre uma pedida melhor. - Tem alguma
coisa no noticirio com a qual eu deva me preocupar?
- Est interessada na compra da Renoverde?
Eve esfregou um olho com os ns dos dedos enquanto provava a primeira
xcara de caf.
- O que  Renoverde, e quem a est comprando?
- Renoverde  uma empresa de reflorestamento, da o nome to adorvel. Eu
sou a pessoa que a est comprando.
- Logo vi - e gemeu. - Estava pensando mais especificamente no caso Towers.
Os funerais de Cicely esto marcados para amanh. Ela era importante o
bastante, e catlica o bastante, para conseguir a Catedral de Saint Patrick, na
Quinta Avenida.
- Voc vai?
- Se conseguir remarcar alguns compromissos. E voc?
- Eu vou. - Pensando no assunto, Eve se encostou na bancada. - Pode ser que
o assassino esteja l.
Ela o observou enquanto ele analisava o monitor. Roarke deveria parecer
deslocado em sua cozinha, analisou, com aquele terno de linho caro, muito bem
cortado, e a exuberante juba jogada para trs do rosto marcante.
Ela vivia esperando que ele parecesse deslocado ali com ela.
- Algum problema? - murmurou, sabendo muito bem que ela estava olhando
para ele.
- No. Estou com algumas coisas na cabea. O quanto voc sabe a respeito de
Angelini?
- Marco? - Roarke franziu os olhos por causa de algo que viu no monitor, pegou
o notebook e fez uma anotao. - Nossos caminhos se cruzam com frequncia.
Normalmente ele  um homem de negcios cauteloso e um pai sempre dedicado.
Prefere passar mais tempo na Itlia, mas a base de seus negcios  aqui em Nova
York. Contribui generosamente para a Igreja Catlica.
- Ele vai sair ganhando financeiramente com a morte de Cicely Towers. Talvez
seja s uma gota no oceano, mas Feeney j est pesquisando.
- Voc poderia ter me perguntado - murmurou Roarke. Eu teria lhe contado que
Marco est em dificuldades financeiras. No entanto, no est desesperado -
emendou ao ver o olhar de Eve se aguar. - Fez algumas aquisies pouco
recomendveis no ano passado, ou pouco mais.
- Voc disse que ele era cauteloso.
- Disse que normalmente ele era cauteloso. Comprou vrios artefatos religiosos
sem t-los autenticado com o devido cuidado. O entusiasmo atrapalhou o seu tino
para os negcios. Todas as peas eram falsificadas e ele perdeu muito dinheiro.
- Muito, quanto?
- Mais de trs milhes. Posso lhe conseguir o valor exato, se for preciso. Ele
vai se recuperar - acrescentou Roarke com um desdm, pelos trs milhes de
dlares com os quais Eve sabia que jamais se acostumaria. - Ele agora vai ter de se
concentrar nos negcios, e enxugar um pouco aqui e ali. Diria que o seu orgulho
ficou mais ferido do que a carteira de ttulos.
- Quanto vale a parte de Cicely Towers na Mercury?
- Pelo valor atual de mercado? - Pegou a agenda de bolso e digitou alguns
nmeros. - Alguma coisa entre seis e sete.
- Milhes?
- Sim - respondeu Roarke com um princpio de sorriso nos cantos dos lbios. -
 claro.
- Meu bom Deus! No  de estranhar que ela vivesse como uma rainha!
- Marco fez alguns investimentos muito bons para ela. Devia querer que a me
dos filhos dele levasse uma vida confortvel.
- Voc e eu temos ideias completamente diferentes a respeito de conforto.
- Pelo jeito, sim. - Roarke guardou a agenda e se levantou para tornar a encher
a sua xcara, e a de Eve, com caf. Um nibus areo fez estrondo junto da janela,
seguido por uma frota de pequenas aeronaves particulares. - Voc est achando
que Marco a matou para recuperar as perdas?
- Dinheiro  um motivo que nunca sai de moda. Eu o interroguei ontem. Sabia
que alguma coisa no estava se encaixando. Agora est comeando a fazer sentido.
Ela pegou a xcara cheia que ele lhe estendeu, foi andando at a janela, onde o
nvel de rudo j estava aumentando, e depois voltou. Seu robe estava escorregando
do ombro. Com um gesto distrado, Roarke o recolocou no lugar. Passageiros
entediados, muitas vezes, carregavam visores de longo alcance para usar em
oportunidades como aquela.
- Depois, tem aquela histria de divrcio amigvel - continuou ela - mas de
quem foi a ideia? Divrcio  uma coisa complicada para os catlicos quando h
crianas envolvidas. Eles no precisam de algum tipo de autorizao?
- Dispensao - corrigiu Roarke. -  um negcio complicado, mas Cicely e
Marco tinham ligaes com o pessoal da alta hierarquia.
- Ele no voltou a se casar - assinalou Eve, colocando o caf de lado. - No
consegui descobrir nem um vestgio de uma acompanhante sria ou estvel para
ele. Cicely, porm, estava tendo um relacionamento longo e ntimo com George
Hammett. Como ser que Marco Angelini se sentia vendo a me de seus filhos se
aninhando nos braos de um scio?
- Se fosse comigo, eu matava o scio.
- Se fosse com voc - disse Eve, com uma olhada rpida. Imagino que voc ia
matar os dois.
- Voc me conhece to bem. - Caminhou em direo a ela e colocou as mos
em seus ombros. - Com relao ao aspecto financeiro,  melhor voc considerar o
fato de que, qualquer que fosse a parte de Cicely na Mercury, a parte de Marco era
a mesma. Eles detinham partes iguais da empresa.
- Droga! - Ela lutava com a ideia. - Mesmo assim, dinheiro  dinheiro. Tenho de
seguir essa pista at conseguir uma nova. Ele continuava parado na frente dela,
com as mos segurando-lhe os ombros e o olhar grudado no dela. - O que est
olhando?
- O brilho dos seus olhos. - Ele tocou os lbios dela com os dele, e depois
repetiu o gesto. - Tenho um pouco de afinidade com Marco, porque me lembro de
como  estar do outro lado de um olhar como o seu, com esta tenacidade.
- Voc no matou ningum - lembrou a ele. - Ultimamente.
- Ah, mas voc no tinha certeza disso naquela poca, e mesmo assim ficou...
atrada. Agora, ns estamos... - O comunicador do seu relgio de pulso tocou. -
Inferno! - Beijou-a novamente, rpido e distrado. - Vamos ter de voltar a esse
assunto mais tarde. Tenho uma reunio.
Era melhor assim, pensou Eve. Sangue quente interfere na sensatez.
- Vejo voc mais tarde, ento, Roarke.
- L em casa?
- Sim, na sua casa, claro - e balanou a xcara de caf. Uma centelha de
impacincia surgiu nos olhos dele enquanto abotoava o palet. A pequena salincia
em seu bolso o fez lembrar.
- Quase ia me esquecendo - falou. - Trouxe um presente da Austrlia para
voc.
Com uma certa relutncia, Eve aceitou a pequena caixa de ouro. Ao abri-la, a
relutncia se esfacelou. Ela no cabia em si de choque e pnico.
- Meu Deus, Roarke! Voc enlouqueceu?
Era um diamante. Ela sabia o suficiente para ter certeza. A pedra estava presa
a um cordo de ouro e brilhava como fogo. Tinha o formato de lgrima, e era to
comprida e larga quanto a articulao do polegar de um homem.
- O nome desta gema  Lgrima do Gigante - disse ele com casualidade,
enquanto a retirava da caixa, o cordo por cima da cabea de Eve. - Foi extrada h
mais ou menos cento e cinquenta anos. Por acaso, foi a leilo enquanto eu estava
em Sydney. - Deu um passo para trs e analisou os reflexos poderosos que emitia
em contraste com o simples robe azul que ela usava. - E, combina com voc. Eu
sabia que ia combinar. - Ento, olhou para ela e sorriu - Ah, estou vendo que voc
achou que o presente era um kiwi. Bem, quem sabe da prxima vez? - Quando ele
se inclinou para lhe dar um beijo de despedida, ela o impediu, dando um tapa em
seu peito. - Qual  o problema? - perguntou, surpreso.
- Isso  loucura! Voc no pode esperar que eu aceite um presente como este!
- Mas de vez em quando voc usa jias - e para provar sua tese, balanou o
dedo sobre o brinco de ouro que ela trazia pendurado na orelha.
- Sim, e eu as compro em uma barraquinha na calada da Avenida Lexington.
- Pois eu no - disse ele com naturalidade.
- Pegue isso de volta.
Eve comeou a tirar o cordo, mas ele fechou as mos sobre as dela.
- No combina com o meu terno. Eve, ganhar um presente no  motivo para
que todo o sangue do seu rosto desaparea. Subitamente exasperado, ele lhe deu
uma sacudidela. - Coloquei o olho nisso e, na hora, estava pensando em voc.
Droga, estou sempre pensando em voc! Comprei-o porque eu a amo. Cristo,
quando  que voc vai engolir isso?
- Voc no vai fazer isso comigo. - Disse a si mesma que estava calma, bem
calma. Porque estava certa, absolutamente certa. O gnio forte dele no a
preocupava, Eve j o tinha visto explodir. A pedra, porm, lhe pesava no pescoo, e
o que ela temia que a jia representasse, isto sim, a preocupava de verdade.
- No vou fazer isso com voc? Isso o qu, exatamente, Eve?
- Voc no vai me dar diamantes. - Aterrorizada e furiosa, ela se afastou dele. -
No vai me pressionar a aceitar o que eu no quero, ou ser o que no posso ser.
Voc pensa que eu no sei o que vem fazendo nos ltimos meses. Acha que sou
burra?
- No, no acho que voc seja burra - seus olhos brilhavam, duros como a
pedra que pendia entre os seios dela. - Acho que  covarde.
Ela levantou o punho automaticamente. Ah, como ela adoraria t-lo usado para
apagar aquele olhar que viu em seu rosto, um ar de desprezo de quem se considera
virtuoso! E, se ele no estivesse certo, ela o teria atingido. No entanto, ela usou
outras armas.
- Voc acha que pode me tornar dependente de voc, e pode fazer com que eu
me acostume a viver naquela sua fortaleza glorificada, desfilando em roupas de
seda. Bem, saiba que eu no ligo a mnima para nenhuma dessas coisas.
- Eu sei muito bem disso.
- No preciso da sua comida elegante, nem dos seus presentes finos, nem de
suas palavras sofisticadas. J entendi o padro, Roarke. Basta ficar repetindo eu te
amo a intervalos regulares at ela aprender a responder eu tambm, como uma
cadelinha bem treinada.
- Como uma cadelinha! - repetiu ele enquanto a fria se transformava em gelo.
- Estou vendo que estava errado... Voc  burra sim. Est realmente achando que
isto  um jogo de poder e controle? Pois faa como quiser! Estou cansado de ver
voc atirar os meus sentimentos de volta na cara. Foi um erro ter permitido, mas isso
pode ser consertado.
- Eu nunca...
- No, voc nunca - interrompeu, com frieza. - Nem por uma vez arriscou o
orgulho, dizendo as mesmas palavras de volta. Mantm este lugar como um alapo
para fuga, em vez de se comprometer em ficar comigo. Eu deixei que voc traasse
a linha divisria, Eve, mas agora a estou mudando de lugar. - No era apenas a
raiva que o impelia, naquele momento, e tambm no era apenas a dor. Era a
verdade. - Eu quero tudo, Eve - disse de modo direto - ou ento no quero nada.
Ela no ia entrar em pnico. Ele no ia deix-la apavorada, como um novato na
primeira ronda.
- E o qu, exatamente, voc quer dizer com isso, Roarke?
- Quero dizer que sexo no  o suficiente.
- No se trata apenas de sexo. Voc sabe que...
- No, no sei. A escolha  sua agora. Sempre foi. S que agora  voc que vai
ter de me procurar.
- Ultimatos me deixam revoltada.
- Que pena! - e lanou-lhe um ltimo olhar. - Adeus, Eve.
- Voc no pode simplesmente sair...
- Ah, posso - e no olhou mais para trs. - Posso sim.
Eve ficou de queixo cado quando o ouviu bater a porta. Por um instante ela
simplesmente ficou ali, em p, rgida, com o sol se refletindo na jia em volta do
pescoo. Ento, comeou a tremer. De raiva,  claro, disse para si mesma, e
arrancou o precioso diamante, atirando-o sobre a bancada.
Ento ele achou que ela ia sair rastejando atrs dele, implorando para que
ficasse? Bem, ele podia ficar esperando por isso at o prximo milnio. Eve Dallas
jamais rastejava, e jamais implorava.
Fechou os olhos de encontro a uma dor mais contundente do que o choque de
uma arma a laser. Afinal, quem  Eve Dallas?, ponderou. E no ser isso o ncleo
de tudo?
Ela reprimiu aquilo. Que escolha tinha? O trabalho vinha em primeiro lugar.
Tinha de vir. Se ela no fosse uma boa policial, no era nada. Ia se sentir vazia e
indefesa como a criana que fora, abandonada, traumatizada e com um brao
quebrado, em um beco escuro de Dallas.
Ela poderia se enterrar no trabalho. Nas exigncias e presses dele. Quando
estava diante do comandante Whitney, em sua sala, era apenas uma detetive com
um assassinato nas mos.
- Cicely tinha muitos inimigos, comandante.
- E todos ns no temos? - Seus olhos estavam novamente claros, atentos. O
luto no podia ter um peso maior do que a responsabilidade.
- Feeney fez uma lista dos condenados por ela. Estamos dissecando cada um
deles, nos concentrando primeiro nos que pegaram priso perptua, seus amigos e
pessoas ligadas. Algum que ela tenha enjaulado para sempre deve ter o maior
desejo de vingana. A seguir, pela ordem, vm as pessoas com desvios de
comportamento no corrigidos. Estas, s vezes, escapam pelas frestas. Ela colocou
muitas delas em instituies para tratamento mental, e  possvel que algumas
tenham conseguido receber alta.
- Isso d um bocado de trabalho, e muita pesquisa de computador, Dallas.
Este era um aviso sutil a respeito das restries oramentrias, mas ela
preferiu ignorar.
- Agradeo muito que o senhor tenha colocado Feeney neste caso comigo. No
conseguiria analisar todos esses dados sem ele. Comandante, esses passos so o
procedimento-padro, mas eu no acho que este tenha sido um ataque com
motivao profissional contra a promotora.
Ele se recostou e inclinou a cabea, aguardando.
- Creio, senhor, que foi algo pessoal. Ela estava escondendo alguma coisa.
Para proteg-la, ou a outra pessoa. Ela apagou a gravao da ltima ligao do telelink.
- Li seu relatrio, tenente. Est me dizendo que acredita que a promotora
Towers estava envolvida em algo ilegal?
- Est me perguntando isso na condio de meu amigo ou como meu
comandante?
Ele rangeu os dentes antes de conseguir se controlar. Aps uma breve luta
interna, concordou com a cabea.
- Bem colocado, tenente. A pergunta foi feita pelo comandante.
- No sei se era ilegal. Na minha opinio, a esta altura da investigao, havia
algo na gravao que a vtima queria que permanecesse confidencial. E foi
importante o suficiente para faz-la se vestir e sair novamente, na chuva, para se
encontrar com algum. Quem quer que fosse, tinha certeza de que ela viria sozinha,
e no deixaria nenhum registro do contato. Comandante, preciso conversar com o
resto dos familiares da vtima, seus amigos mais chegados, sua esposa.
Ele j havia aceitado este fato, ou pelo menos tentara. Durante toda a sua
carreira, ele trabalhara duro para manter seus entes queridos longe do asqueroso ar
que rodeava o seu trabalho. Agora, ia ter de exp-los.
- Voc tem meu endereo, tenente. Vou entrar em contato com minha esposa
agora e dizer que ela deve aguard-la.
- Sim, senhor. Obrigada.
Anna Whitney tinha construdo um belo lar na casa de dois andares que ficava
na rua tranquila do elegante bairro de White Plains, ao norte da cidade. Ela criara os
filhos ali, e os criara bem, escolhendo a profisso de me em vez da carreira de
professora. No foi o salrio que o Estado pagava s mes em tempo integral que a
convencera a isto, e sim a emoo de estar presente em cada estgio do
desenvolvimento das crianas.
Fez por merecer o salrio. Agora, com os filhos crescidos, fazia jus ao salrio
de aposentada, usando a mesma dedicao para cuidar da casa, do marido e da
sua reputao como anfitri impecvel. Sempre que podia, enchia a casa com os
netos. E,  noite, promovia jantares animados.
Anna Whitney detestava a solido.
Estava sozinha, porm, quando Eve chegou. Como sempre, estava muito bem
arrumada; a maquiagem tinha sido aplicada de modo cuidadoso e profissional, e
seus cabelos louro-plidos estavam presos em um coque elegante, que combinava
com o rosto atraente.
Usava um vestido de algodo americano de boa qualidade e estendeu a mo,
adornada apenas com a aliana de casamento, para receber Eve.
- Tenente Dallas, meu marido avisou que a senhorita viria.
- Desculpe a intromisso, senhora Whitney.
- No se desculpe. Sou esposa de um policial. Entre. Preparei uma limonada.
Infelizmente,  artificial. Frutas frescas ou congeladas so difceis de conseguir, e
est um pouco cedo para limonada, mas senti vontade de tomar um pouco, pela
manh.
Eve deixou Anna conversar  vontade enquanto caminhavam para a sala de
estar em estilo formal, com suas cadeiras de encosto duro e sof de quinas
delineadas. A limonada estava tima e Eve a elogiou aps beber o primeiro gole.
- A senhorita j sabe, tenente, que a cerimnia do funeral est marcada para
amanh, s dez da manh.
- Sim, senhora. Estarei l.
- J chegaram tantas flores... Fizemos acertos para que elas sejam distribudas
depois do... Ora, mas no  para isso que a senhorita veio at aqui.
- A promotora Towers era uma boa amiga da senhora.
- Era uma boa amiga, minha e de meu marido.
- Os filhos dela esto com a senhora?
- Sim, eles... acabaram de sair, com Marco, para conversar com o arcebispo a
respeito da cerimnia.
- So muito ligados ao pai.
- Sim.
- Senhora Whitney, por que eles esto hospedados aqui, em vez de ficar com o
pai?
- Ns todos achamos melhor. A casa, quer dizer, a casa de Marco, tem tantas
lembranas! Cicely morou l, quando as crianas eram pequenas. Depois, tem a
mdia. Eles no tm o nosso endereo, e queramos manter as crianas longe dos
reprteres. Eles esto esmagando o pobre Marco. Amanh ser diferente,  claro.
As mos bem-cuidadas puxaram a barra do vestido, na altura do joelho, e a
seguir se aquietaram novamente.
- Eles vo ter de encarar isso. Ainda esto em estado de choque. At mesmo
Randall. Estou falando de Randall Slade, noivo de Mirina. Ele era muito chegado a
Cicely.
- Ele tambm est aqui.
- Sim, jamais abandonaria Mirina em um momento como esse. Ela  uma
jovem muito forte, tenente, mas mesmo as mulheres fortes necessitam de um ombro
para se recostar de vez em quando.
Eve bloqueou a imagem de Roarke que surgiu em sua cabea. Como resultado
do esforo, sua voz ficou um pouco mais formal do que normalmente quando
conduziu Anna pelas perguntas de praxe.
- Tenho me perguntado o tempo todo, tenente, o que poderia t-la feito ir at
uma regio como aquela - concluiu Anna. Cicely era teimosa, e certamente muito
determinada, mas raramente era impulsiva, e jamais tola.
- Ela conversava com a senhora, trocava confidncias.
- ramos como irms.
- Ser que ela teria lhe contado se estivesse com problemas de algum tipo? Ou
se algum prximo a ela estivesse com problemas?
- Penso que sim. Ia lidar com aquilo por conta prpria, a princpio, ou pelo
menos tentaria. - Seus olhos ficaram cheios dgua, mas as lgrimas no caram. -
Mais cedo ou mais tarde, porm, acabaria se abrindo comigo.
Se tivesse tempo para isso, pensou Eve.
- A senhora consegue se lembrar de alguma coisa que estivesse preocupando
a sua amiga?
- Nada importante. O casamento da filha; ficar mais velha. Costumvamos
brincar a respeito de ela estar prxima de se transformar em av. No - continuou
Anna com uma risada, ao reconhecer o olhar de Eve - Mirina no est grvida,
embora isso fosse trazer alegria  sua me. Cicely estava sempre preocupada
tambm com David: ser que ele vai se estabilizar? Ser que ele est feliz?
- E ele est?
Outra nuvem se formou em seus olhos antes que ela os baixasse.
- David  muito parecido com o pai, tenente. Gosta de se meter em esquemas
comerciais e polticos. Viaja muito a negcios,sempre procurando novos mercados,
novas oportunidades. No h dvida de que  ele que vai assumir a empresa, se, e
quando, Marco resolver passar o timo.
Hesitou um pouco, como se estivesse a ponto de acrescentar alguma coisa,
mas ento, sutilmente, mudou de assunto.
- Mirina, por outro lado, prefere morar sempre no mesmo local. Administra uma
butique em Roma. Foi onde ela conheceu Randall. Ele  um estilista. A loja dela,
agora, s trabalha com a linha dele. Randall  muito talentoso. Esta roupa foi feita
por ele,
- completou, indicando o vestido esbelto que estava usando.
-  lindo. Ento, at onde a senhora sabe, a promotora Towers no tinha
motivos para se preocupar com os filhos. No h nada que a fizesse se sentir na
obrigao de consertar ou acobertar?
- Acobertar? No, claro que no! Os filhos so pessoas brilhantes e bemsucedidas.
- E o ex-marido? Est com dificuldades financeiras?
- Marco? Est? -Anna colocou a ideia de lado. - Estou certa de que ele vai
fazer com que tudo se arranje. Jamais compartilhei o interesse de Cicely pelos
negcios.
- Ento ela estava envolvida em negcios. Diretamente?
- Claro. Cicely insistia em saber exatamente o que estava acontecendo, e
queria ter voz ativa. Jamais entendi como  que ela podia manter tantas coisas na
cabea. Se Marco estivesse em dificuldades ela saberia, e provavelmente ia sugerir
meia dzia de ideias para ajustar as coisas. Era simplesmente brilhante. - Quando a
voz falhou, Anna levou a mo aos lbios, pressionando-os.
- Sinto muito, senhora Whitney.
- No, est tudo bem. J estou melhor. Ficar com as crianas aqui ajudou
muito. Sinto que posso apoi-la estando com eles aqui. No posso fazer o que a
senhorita faz, e sair em busca do assassino, mas posso apoi-la ficando com as
crianas.
- Eles tm muita sorte por terem algum como a senhora murmurou Eve,
surpresa consigo mesma por se ouvir dizer isso com tanta sinceridade. Era estranho,
pois Eve sempre considerara Anna Whitney ligeiramente chata. - Senhora Whitney,
poderia me falar a respeito do relacionamento entre a promotora Towers e George
Hammett?
Anna adotou uma postura impassvel.
- Eles eram bons amigos, muito chegados.
- O senhor Hammett me afirmou que eles eram amantes. Anna bufou baixinho.
Era uma mulher tradicional, e no tinha vergonha disso.
- Muito bem, tenente,  verdade. Mas ele no era o homem certo para Cicely.
- Por qu?
- George quer as coisas sempre ao jeito dele. Eu gosto de George, e ele era
uma tima companhia para Cicely. Mas uma mulher no pode ser completamente
feliz quando volta para um apartamento vazio na maior parte das noites para dormir
em uma cama tambm vazia. Ela precisava de um companheiro. George queria ter
as duas coisas, e Cicely se iludia, achando que tambm queria isso.
- E ela no queria.
- No devia querer. - Anna estalou a lngua, obviamente por estar entrando em
uma antiga discusso. - Trabalho no  o bastante, como eu me cansei de dizer
para ela. Ela simplesmente no se sentia envolvida o bastante com George para
arriscar.
- Arriscar?
- Estou falando de risco emocional - disse Anna, impaciente. - Vocs, policiais,
levam tudo ao p da letra. Cicely queria sua vida organizada, em vez da confuso de
um relacionamento de tempo integral.
- Eu tive a impresso de que o senhor Hammett se ressentia disso, e que a
amava muito.
- Se a amava, por que no forou a situao? - quis saber Anna, e as lgrimas
ameaaram rolar. - Cicely no teria morrido sozinha, no ? No estaria sozinha
naquele momento.
Eve estava saindo do bairro sossegado e, por impulso, estacionou o carro junto
do meio-fio, recostando-se no banco. Precisava pensar. No a respeito de Roarke,
assegurou a si mesma. No havia nada a pensar. J estava tudo resolvido.
Seguindo um palpite, conectou-se ao computador em sua sala e o colocou para
pesquisar sobre David Angelini. Se ele era como o pai, talvez tambm tivesse feito
alguns maus investimentos. J que estava conectada, ordenou uma busca em
Randall Slade e na butique em Roma.
Se no surgisse nada, ela daria uma olhada nos voos da Europa para Nova
York.
Droga, uma mulher que no tinha nada a temer no abandonava um
apartamento seco e quentinho no meio da noite.
Teimosa, Eve refez todos os passos de cabea. Enquanto pensava nisso,
olhou em volta, para a vizinhana. rvores antigas espalhavam suas sombras sobre
jardins de carto-postal e casas de um e dois andares construdas em centro de
terreno.
Como ser que algum se sentia sendo criado em uma comunidade bonita e
arrumada? Ser que isto fazia a pessoa se sentir segura e confiante, da mesma
forma que ser levada de um lugar imundo para outro, e de uma rua fedorenta para
outra a tornariam tensa e sombria?
Talvez ali tambm houvesse pais que entrassem sorrateiramente no quarto das
filhas  noite. Mas isto era difcil de acreditar. Os pais dali no fediam a bebida
barata e suor, nem tinham dedos grossos que violavam carne inocente.
Eve se viu balanando para a frente e para trs no banco, e engoliu um soluo.
Ela no ia passar por aquilo. No ia se lembrar. No ia permitir que aquele
rosto se formasse e se avolumasse no escuro, nem lembrar o gosto daquela mo
grudada na sua boca para abafar os gritos.
Ela no faria isso. Era algo que acontecera com outra pessoa, uma garotinha
cujo nome ela nem conseguia se lembrar. Se ela tentasse, se permitisse a si mesma
se lembrar de tudo, ela se tornaria aquela criana indefesa novamente e perderia
Eve.
Recostou a cabea no banco e procurou se acalmar. Se no estivesse
submersa em autopiedade, teria notado a mulher que quebrou a janela lateral da
casa de um s pavimento, no outro lado da rua, antes mesmo de o primeiro caco
cair no cho.
Diante daquilo, Eve olhou de cara feia e se perguntou por que parara
justamente naquele lugar. Ficou pensando se ia mesmo querer o aborrecimento de
encarar a papelada por atuar fora de sua jurisdio.
Ento, pensou na boa famlia que chegaria em casa, mais tarde, para verificar
que suas coisas tinham sido roubadas.
Soltando um suspiro longo e sentido, saiu do carro.
A mulher j estava com metade do corpo do lado de dentro quando Eve a
alcanou. O painel da segurana tinha sido desativado por um misturador de sinais
barato, encontrado em qualquer loja de eletrnicos. Balanando a cabea enquanto
pensava na ingenuidade das pessoas em um bairro como aquele, Eve agarrou com
fora a ladra pelo traseiro, que j estava se remexendo para conseguir passar pela
abertura.
- Esqueceu o seu cdigo de entrada, dona?
A resposta que obteve foi um coice bem dado no ombro esquerdo, ao estilo de
uma mula. Eve se considerou com sorte pelo chute no ter atingido seu rosto.
Mesmo assim, perdeu o equilbrio e acabou caindo em cima de alguns brotos de
tulipas. A suspeita puxou o corpo, voando para trs como uma rolha de champanhe,
e saiu correndo pelo gramado.
Se o ombro no estivesse doendo, Eve poderia at t-la deixado escapar. Mas
correu e alcanou sua presa com um voo que acabou atirando as duas longe,
esparramadas sobre um canteiro de amoresperfeitos amarelos.
- Tira as mos de cima de mim, seno eu te mato! - disse a mulher.
Eve pensou rapidamente que aquela era uma possibilidade real. A mulher era
uns dez quilos mais pesada do que ela. Para ter certeza de que isso no ia
acontecer, deu-lhe uma cotovelada na traquia e puxou o distintivo.
- Voc est presa.
A mulher virou os olhos para cima, desgostosa.
- Que diabos uma policial da cidade est fazendo aqui? No sabe onde fica
Manhattan, sua idiota?
- Acho que estou meio perdida. - Eve continuou com o cotovelo no pescoo
dela, colocando um pouco mais de presso para sua prpria satisfao, enquanto
pegava o comunicador e requisitava a patrulha mais prxima.
CAPTULO SEIS
Na manh seguinte, seu ombro estava latejando to violentamente que parecia
Mavis quando danava a msica final de seu show. Eve reconhecia que as horas
extras que passara com Feeney, seguidas de uma noite agitada, rolando sozinha
entre os lenis, no ajudaram em nada. No gostava de ingerir coisa alguma que
fosse mais forte do que um analgsico simples, e tomou uma dose mnima antes de
se vestir para ir  cerimnia fnebre.
Ela e Feeney tinham topado com uma informao apetitosa. David Angelini
fizera trs retiradas vultosas de suas contas, nos seis meses anteriores, at atingir a
considervel soma de um milho, seiscentos e trinta e dois dlares americanos.
Isso representava mais de dois teros de sua poupana pessoal, e ele fizera as
retiradas em fichas de crdito annimas e dinheiro vivo.
Ainda estavam investigando Randall Slade e Mirina, mas at aquele momento
os dois pareciam limpos. Apenas um casal jovem s vsperas do matrimnio.
S Deus sabia como  que algum poderia estar feliz  beira de um passo
como aquele, pensou Eve enquanto tentava achar o blazer cinza.
Aquela droga de boto do palet ainda estava faltando, notou enquanto o
fechava. E ento se lembrou de que o boto estava com Roarke, que o carregava
para cima e para baixo como uma espcie de talism. Ela estava vestindo aquele
mesmo blazer da primeira vez em que eles tinham se encontrado, tambm em um
funeral.
Apressadamente, passou o pente pelos cabelos e fugiu do apartamento e das
lembranas.
A Catedral de Saint Patrick j estava transbordando de gente na hora em que
ela chegou. Policiais com uniforme de gala tinham interditado trs quarteires da
Quinta Avenida. Formavam uma espcie de guarda de honra, analisou Eve, em
homenagem a uma advogada que todos os policiais da cidade respeitavam. Tanto o
trfego de rua quanto o areo tinham sido desviados da avenida normalmente
engarrafada, e a mdia estava amontoada, formando um desfile movimentado do
outro lado da larga avenida.
Depois que o terceiro policial a parou, Eve resolveu pregar o distintivo no palet
e continuou, sem outros obstculos, at a antiga catedral e o som dos cnticos
fnebres.
Ela no ligava muito para igrejas. Elas a faziam se sentir culpada, por motivos
que no fazia questo de explorar. O aroma de cera de velas e de incenso estava
forte. Alguns rituais, pensou, enquanto entrava em um dos bancos laterais, eram to
imemoriais quanto a lua. Desistiu de qualquer esperana que pudesse acalentar em
relao a falar diretamente com algum dos membros da famlia de Cicely Towers
naquela manh, e se acomodou para assistir ao show.
Os ritos catlicos haviam voltado a ser celebrados em latim, em algum
momento da dcada anterior. Eve imaginava que aquilo adicionava uma espcie de
misticismo, e era um fator de unidade. A lngua morta, para ela, certamente parecia
apropriada para uma missa de falecimento.
A voz do padre ressoou, alcanando os locais mais elevados da estrutura, e as
respostas da congregao ecoaram logo em seguida.
Calada e observando tudo, Eve olhava devagar pela multido. Dignitrios e
polticos sentavam-se, com as cabeas baixas. Ela se posicionara prxima o
bastante para conseguir olhar mais de perto a famlia. Quando Feeney chegou e se
colocou ao lado dela, Eve inclinou a cabea.
- Aquele  Marco Angelini - murmurou - e aquela moa ao lado deve ser a filha.
- Acompanhada do noivo,  direita dela.
- Hum-humm. - Eve analisou o casal: jovem e atraente. A moa tinha
constituio frgil, com cabelos dourados como os da me. O vestido preto sbrio
que usava descia a partir do pescoo alto, cobria os braos at os punhos e
continuava at os tornozelos. No usava vu, nem culos escuros para esconder os
olhos avermelhados e inchados. Pesar, puro e simples, em estado bruto, parecia
rode-la.
Ao seu lado estava Randall Slade, alto, com o brao comprido amparando-a
pelos ombros. Tinha um rosto marcante, quase primitivamente bonito, que Eve se
lembrava bem da imagem que gerara na tela do seu computador: maxilar muito
largo, nariz comprido, olhos contrados. Parecia grande e rgido, mas o brao em
volta da jovem repousava carinhosamente.
Do outro lado de Marco Angelini estava o seu filho. David estava ligeiramente
afastado do pai. Aquele tipo de linguagem corporal indicava atrito. Olhava direto
para a frente, com o rosto sem expresso. Era um pouco mais baixo do que o pai, e
to moreno quanto a irm era loura. E estava s, pensou Eve. Muito s.
O banco da famlia estava completo com a presena de George Hammett.
No banco de trs estava o comandante, a esposa e o resto da famlia.
Eve sabia que Roarke estava l. J o tinha avistado rapidamente na ponta de
um banco, ao lado de uma loura chorosa. Naquele momento, enquanto Eve
arriscava uma nova olhada, viu que ele se inclinou na direo da mulher e murmurou
algo em seu ouvido que a fez apoiar a cabea no ombro dele.
Furiosa por causa da rpida fisgada de cime, Eve olhou novamente a multido
ao seu redor. Deu de cara com C. J. Morse.
- Como foi que aquele pequeno canalha conseguiu entrar? Feeney, como bom
catlico, franziu a testa diante do uso de palavras rudes na igreja.
- Quem? - perguntou.
- Morse, na direo do ponteiro das oito horas. Fazendo o olhar circular,
Feeney avistou o reprter.
- Em uma multido como esta, alguns dos mais escorregadios sempre
conseguem furar a segurana.
Eve estava resolvendo se deveria arrast-lo para fora, s pela satisfao de
fazer isto. Decidiu, afinal, que um tumulto como aquele s serviria para dar a ele o
tipo de ateno que buscava.
- Ah, ele que se dane!
Feeney fez um som agudo de quem acaba de levar um belisco.
- Por Cristo, Dallas, voc est dentro da Catedral de Saint Patrick!
- J que Deus criou uma peste manhosa como Morse, agora tem de ouvir
algumas reclamaes.
- Mostre um pouco de respeito.
Eve olhou mais uma vez para Mirina, que naquele instante levava a mo at o
rosto.
- J mostrei muito respeito por aqui - murmurou. Muito. - Dizendo isto, passou
por trs de Feeney e saiu pela lateral, em direo  rua.
No instante em que ele conseguiu alcan-la, ela estava acabando de dar
algumas instrues a um dos policiais.
- Qual foi o problema, Eve?
- Precisava tomar um pouco de ar. - Igrejas, para ela, sempre pareciam ter o
cheiro de pessoas agonizantes ou mortas. - E tambm queria dar uma dura naquele
peste. - Sorrindo, se virou para Feeney. - Mandei os policiais  procura dele. Vo
confiscar qualquer aparelho de comunicao que ele estiver carregando. Lei da
privacidade.
- Voc vai deix-lo revoltado.
- Que bom. Ele tambm me deixa revoltada. - Soltou um longo suspiro, olhando
para a mdia do outro lado da avenida. Quero ser mico de circo se o pblico tem o
direito de saber de tudo. Pelo menos aqueles reprteres l esto jogando de acordo
com as regras, e demonstrando um pouco daquele respeito pela famlia que voc
estava invocando h pouco.
- Estou vendo que voc j encerrou aqui, por agora.
- No h nada que eu possa fazer ficando aqui.
- Achei que voc ia se sentar ao lado de Roarke.
- No.
Feeney concordou com a cabea e quase enfiou a mo no bolso em busca do
saquinho de amndoas, antes de se lembrar que no era o momento adequado.
- Foi aquilo, ento, que a deixou injuriada, garota?
- No sei do que voc est falando. - Comeou a andar sem nenhum destino
em mente, ento parou e se virou para trs. Quem era aquela loura que estava
agarrada nele?
- No sei - e sugou o ar por entre os dentes- mas era muito bonita. Quer que eu
fique de olho nele, para voc?
- Ah, cale a boca! - Enfiou as mos nos bolsos. - A mulher do comandante me
falou que haveria uma pequena cerimnia particular depois da igreja, na casa deles.
Quanto tempo mais voc acha que este espetculo vai levar?
- No mnimo, mais uma hora.
- Ento vou dar uma passada na Central de Polcia. Encontro voc na casa do
comandante daqui a duas horas.
- Voc  quem manda.
Uma cerimnia pequena e particular queria dizer que havia pelo menos cem
pessoas se acotovelando na elegante casa do comandante. Havia comida para
consolar os vivos e bebidas para aliviar a dor dos enlutados. Anfitri perfeita, Anna
Whitney veio correndo assim que avistou Eve. Manteve a voz em tom baixo, com
uma expresso cuidadosa no olhar.
- Tenente,  mesmo necessrio que a senhorita faa isso aqui, e agora?
- Senhora Whitney, serei o mais discreta possvel. Quanto mais cedo eu
terminar a fase dos interrogatrios, mais depressa poderemos encontrar o assassino
da promotora Towers.
- Seus filhos esto arrasados. A pobre Mirina mal consegue se manter em p.
Seria mais apropriado se a senhorita...
- Anna. - O comandante Whitney colocou a mo sobre o ombro de sua mulher.
- Deixe que a tenente Dallas faa o seu trabalho.
Anna no disse nada, simplesmente se virou e saiu, tensa.
- Tenente, ns dissemos adeus a uma amiga muito querida hoje.
- Eu compreendo, comandante. Vou terminar aqui o mais rpido que puder.
- Seja cuidadosa com Mirina, Dallas. No momento ela est muito frgil.
- Sim, senhor. Talvez eu pudesse falar com ela primeiro, em particular.
- Vou providenciar isso.
Quando ele a deixou, Eve voltou at o saguo e se voltou na direo de
Roarke.
- Tenente.
- Roarke - e olhou para o clice de vinho que ele trazia na mo. - Estou de
servio.
- Eu sei. Este vinho no era para voc.
Eve seguiu o olhar dele at a loura, que estava sentada em um canto.
- Certo. - De repente ela comeou a se sentir como se estivesse morrendo de
tanta inveja at a medula. - Voc se movimenta bem depressa.
Antes que tivesse a chance de se retirar, ele colocou a mo sobre o brao dela.
Sua voz, assim como seus olhos, estavam cuidadosamente neutros.
- Eve, Suzanna  uma amiga comum, minha e de Cicely.  tambm a viva de
um policial, morto no cumprimento do dever. Foi Cicely quem mandou o assassino
do marido dela para a cadeia.
- Suzanna Kimball - reconheceu Eve, tentando conter o sentimento de
vergonha. - O marido dela era um bom policial.
- Foi o que me informaram. - Com um leve trao de divertimento
transparecendo em sua boca, Roarke deu uma olhada na roupa de Eve. - Eu tinha a
esperana de que voc tivesse colocado fogo neste blazer. Cinza no cai bem em
voc, tenente.
- Eu no vim aqui para desfilar. Agora, se voc me der licena...
- Voc podia dar uma olhada nos problemas de Randall Slade com o jogo - os
dedos que seguravam seu brao o apertaram um pouco mais. - Ele deve elevadas
somas de dinheiro a vrias pessoas. Da mesma forma que David Angelini.
- Isso  verdade?
- Absoluta verdade. Eu sou uma dessas pessoas.
- E de repente voc decidiu que eu poderia estar interessada.
- Seu olhar endureceu.
- Estou apenas cuidando dos meus prprios interesses. Ele se enrolou em uma
dvida impressionante em um dos meus cassinos em Las Vegas II. E h tambm a
histria de um pequeno escndalo, que aconteceu h alguns anos, envolvendo a
roleta, uma ruiva e uma fatalidade, em um obscuro satlite-cassino localizado no
Setor 38.
- Que escndalo?
- Voc  a policial aqui - encerrou ele. - Descubra. Deixou Eve para ir at a
viva do policial, e segurou a sua mo.
- Mirina j est  sua espera em meu escritrio - murmurou Whitney no ouvido
de Eve. - Prometi que voc no vai segur-la por muito tempo.
- No, no vou. - Lutando para alisar os plos que Roarke havia acabado de
encrespar dentro dela, Eve seguiu as largas costas do comandante atravs da sala.
Embora o escritrio domstico no fosse to espartano quanto a sua sala na
Central de Polcia, era bvio que Whitney mantinha o gosto exuberante e feminino
de sua mulher do lado de fora, ali, naquele espao. As paredes eram pintadas de
bege-claro, o tapete era um pouco mais escuro e as poltronas eram largas, em um
prtico tom castanho.
Sua mesa de trabalho e um balco ficavam no centro do aposento. Em um
canto, ao lado da janela, Mirina Angelini estava  espera, em seu longo vestido
fechado, preto. Whitney foi at ela antes, conversou baixinho e apertou
carinhosamente sua mo. Lanando um olhar de advertncia para Eve, deixou-as a
ss.
- Senhorita Angelini - comeou Eve - eu conhecia a sua me, trabalhei com ela
e a admirava. Estou muito sentida com a sua perda.
- Todos esto - respondeu Mirina com uma voz to frgil e plida quanto seu
rosto sem cor. Os olhos eram escuros, quase pretos, e estavam vidrados. - Com
exceo da pessoa que a matou, imagino. Quero me desculpar por antecedncia,
tenente Dallas, para o caso de ser de pouca ajuda para as investigaes. No resisti
 presso e tive de me colocar sob o efeito de tranquilizantes. Como todos podero
confirmar, estou absolutamente inconformada.
- A senhorita e sua me eram muito chegadas?
- Ela era a mulher mais maravilhosa que eu j conheci. Por que razo eu
deveria estar calma e controlada depois de a ter perdido dessa forma?
Eve chegou mais perto e se sentou em uma das largas poltronas.
- No posso imaginar nenhuma razo para a senhorita manter a calma.
- Meu pai quer uma demonstrao pblica de fora e resistncia. - Mirina virou
o rosto para a janela. - Eu o estou decepcionando. As aparncias so muito
importantes para o meu pai.
- E a sua me, era importante para ele?
- Sim. Suas vidas pessoais e profissionais estavam entrelaadas. O divrcio
no mudou isso. Ele est sofrendo - e inspirou profundamente, de modo
entrecortado. - Ele no vai deixar transparecer porque  muito orgulhoso, mas est
sofrendo. Ele a amava. Todos ns a amvamos.
- Senhorita Angelini, conte-me a respeito do estado de esprito da sua me,
sobre o que conversaram e de quem falaram na ltima vez em que tiveram contato.
- Na vspera de sua morte, estivemos no tele-link por uma hora, talvez mais.
Planos para o casamento. - As lgrimas surgiram e transbordaram sobre as faces
plidas. - Ns duas estvamos cheias de planos para a cerimnia. Eu lhe enviara
algumas transmisses com modelos de vestidos: vestidos de noiva e conjuntos para
mes de noivas. Randall estava criando os figurinos. Conversamos a respeito de
roupas. No parece ftil, tenente, que a ltima conversa que eu tive com a minha
me tenha sido sobre moda?
- No, no me parece ftil. Parece amigvel. Amoroso.
- Acha mesmo? - Mirina pressionou os dedos sobre os lbios.
- Sim, acho.
- Sobre o que conversa com sua me, tenente?
- No tenho me. Nunca tive.
- Isso  estranho. - Mirina piscou, e ento focou o olhar em Eve de novo. -
Como se sente a respeito disso?
- Eu... - No havia modo de descrever algo que simplesmente estava ali. - Voc
no conseguiria compreender, senhorita Angelini - respondeu Eve com delicadeza. -
Quando estava conversando com sua me, ela mencionou alguma coisa, ou
algum, que a estivesse preocupando?
- No. Se est pensando a respeito do trabalho dela, minha me raramente
conversava sobre isso. Eu no tinha muito interesse pelas leis. Ela estava feliz,
empolgada por eu estar chegando para passar alguns dias. Rimos muito. Sei que
ela tinha esta imagem, a sua imagem profissional, mas comigo, com a famlia, ela
era... Mais terna, mais solta. Eu brinquei com ela a respeito de George. Disse que, j
que Randy estava confeccionando meu vestido de noiva, podia aproveitar para
preparar o dela tambm.
- E qual foi a reao dela?
- Simplesmente rimos com a ideia. Mame gostava muito de rir - disse, com ar
um pouco sonhador, agora que o tranquilizante estava comeando a fazer efeito. -
Ela me disse que estava se divertindo muito fazendo o papel de me da noiva, e que
no queria estragar isto com as dores-de-cabea de ser ela prpria uma noiva.
Gostava muito de George, e acho que eles ficavam bem juntos. S que eu no
acredito que ela o amasse.
- No?
- Bem, no. - Havia um leve sorriso em seus lbios, e um brilho vitrificado nos
olhos. - Quando voc ama algum, quer ficar o tempo todo com essa pessoa, no
? Quer ser parte da sua vida, e quer que ela seja parte da sua. Minha me no
estava  procura disso com George. Nem com ningum.
- E o senhor Hammett, estava  procura disso com ela?
- No sei. Se ele estava, parecia feliz o bastante para deixar o relacionamento
rolar. Eu me sinto rolando tambm neste instante
- murmurou. -  como se eu simplesmente no estivesse aqui.
Como precisava que Mirina permanecesse alerta por mais algum tempo, Eve
se levantou para pegar gua sobre o console. Trazendo o copo de volta, colocou-o
nas mos da moa.
- Esse relacionamento causava algum problema entre ele e seu pai? Ou entre
o seu pai e a sua me?
- Era... esquisito, mas no desconfortvel. - Mirina sorriu novamente. Estava
sonolenta naquele momento, to relaxada que poderia cruzar os braos sobre o
peitoril da janela e se deixar ficar ali. - Isso parece contraditrio. Para compreender,
a senhorita teria de conhecer o meu pai. Ele se recusaria a deixar que isso o
aborrecesse, ou no mnimo no permitiria que isso o afetasse. Ele ainda mantm um
relacionamento amigvel com George.
Piscou os olhos ao olhar para o copo em sua mo, como se s naquele
instante tivesse percebido que o estava segurando, e tomou um gole com
delicadeza.
- No sei o que meu pai sentiria se eles tivessem resolvido se casar, mas, bem,
isso no vem ao caso agora.
- Est envolvida com os negcios do seu pai, senhorita Angelini?
- Na rea de moda. Fao todas as compras para as lojas de Roma e Milo, dou
a ltima palavra sobre o que vai ser exportado para nossas lojas de Paris e Nova
York, e assim por diante. Viajo um pouco para ir a feiras de moda e desfiles, embora
no ligue muito para viagens. Odeio sair do planeta. A senhorita gosta?
- Eu jamais viajei para fora do planeta. - Eve percebeu que a estava perdendo.
- Ai,  horrendo! Randy gosta. Diz que  uma aventura. Mas sobre o que eu
estava falando mesmo? - passou a mo pelos lindos cabelos dourados e Eve pegou
o copo antes que ela o deixasse cair no cho. - Ah, sobre as compras! Adoro
comprar as roupas para as lojas. Os outros aspectos do negcio nunca me
interessaram.
- Seus pais e o senhor Hammett eram todos scios de uma empresa chamada
Mercury.
- Claro. Usamos exclusivamente a Mercury para nossas necessidades de envio
de mercadorias. - As plpebras comearam a cair.
-  rpida e confivel.
- No havia nenhum problema que a senhorita tenha conhecimento neste ou
em algum outro negcio da sua famlia?
- No, nenhum.
Era o momento de tentar uma ttica diferente.
- Sua me tinha conhecimento das dvidas de jogo de Randall Slade, o seu
noivo?
Pela primeira vez, Mirina exibiu um lampejo de vida, e um brilho de raiva surgiu
em seus olhos apticos. Era como se ela de repente tivesse acordado.
- As dvidas de Randall no diziam respeito  minha me, apenas a ele e a
mim. Estamos lidando com elas.
- Voc no contou  sua me?
- No havia motivos para deix-la preocupada por algo que j estava sendo
solucionado. Randall tem um problema com jogo, mas j procurou ajuda. No joga
mais a dinheiro.
- E as dvidas so muito altas?
- Elas esto sendo pagas - disse Mirina secamente. -J fizemos acordos para
quit-las.
- Sua me era uma mulher rica, por mrito prprio. A senhorita vai herdar uma
larga poro dos seus bens.
Os tranquilizantes, ou ento o pesar, afetaram a sagacidade de Mirina. Ela
pareceu no ter percebido as implicaes do que ouvira.
- Sim, vou herdar, mas no vou ter a minha me comigo, no ? No momento
em que eu me casar com Randall, ela no vai estar l. No vai estar l - repetiu, e
comeou a chorar baixinho.
David Angelini no era frgil. Suas emoes se apresentavam sob a forma de
impacincia rgida, com influncias sutis de raiva reprimida. Para todos os efeitos, ali
estava um homem que se sentia insultado diante da simples ideia de conversar com
uma policial.
Quando Eve se sentou diante dele no escritrio de Whitney, David respondeu
s perguntas laconicamente, em um tom de voz curto e elaborado.
- Obviamente, foi algum dos manacos que ela mandou para a cadeia que fez
isso com ela - declarou. - Seu trabalho a deixava prxima demais da violncia.
- O senhor fazia objees ao trabalho dela?
- No conseguia compreender por que ela o amava tanto. Ou por que
precisava dele. - Levantou o copo que trouxera consigo e tomou um gole. - Mas o
fato  que o fazia e, no fim, foi isso que a matou.
- Quando a viu pela ltima vez?
- No dia 18 de maro. Meu aniversrio.
- Teve algum contato com ela depois desse dia?
- Falei com ela mais ou menos uma semana antes de ela morrer. Foi uma
ligao comum, de famlia. Nunca passvamos mais de uma semana sem nos
falarmos.
- Como descreveria o seu estado de esprito nesse dia?
- Obcecada... com o casamento de Mirina. Minha me jamais fazia as coisas
pela metade. Estava planejando este casamento da mesma forma que planejava um
dos seus casos criminais. Achava que isso poderia me influenciar.
- O que poderia influenci-lo?
- A febre do casamento. Minha me era uma mulher romntica debaixo da
armadura de promotora. Tinha esperana de que eu conseguisse o par certo e
constitusse famlia. Eu lhe disse que ia deixar esse encargo para Mirina e Randy, e
continuaria casado com os negcios por mais algum tempo.
- O senhor tem envolvimento ativo com a Angelini Exportaes. Deve estar a
par dos problemas financeiros.
- So pedrinhas, tenente. - Seu rosto se fechou. - Pequenos solavancos da
estrada. Nada mais.
- Minhas informaes mostram que existem problemas mais srios do que
pedrinhas e solavancos.
- A Angelini Exportaes  uma empresa slida. Estamos apenas com uma
necessidade de reorganizao, um pouco de diversificao, o que j est sendo
feito. - Abanou a mo com dedos elegantes que reluziam com o ouro. - Algumas
pessoas importantes da companhia cometeram alguns erros infelizes, e que podem
ser corrigidos. E isto no tem nada a ver com o caso de minha me.
- Minha funo  explorar todos os ngulos, senhor Angelini. Os bens da sua
me somam um valor substancial. Seu pai vai receber muitos bens e propriedades,
e o senhor tambm.
- A senhorita est falando da minha me. - David ficou em p. - Se est
suspeitando que algum em minha famlia poderia fazer algum mal a ela, ento o
comandante Whitney cometeu um monstruoso erro de julgamento ao coloc-la como
responsvel pelas investigaes.
- O senhor tem todo o direito a uma opinio prpria. Costuma jogar a dinheiro,
senhor Angelini?
- Em que isso  da sua conta?
J que ele ia ficar em p, Eve se levantou para encar-lo.
-  uma pergunta simples.
- Sim - respondeu ele. - Eu jogo, ocasionalmente, como inmeras outras
pessoas. Acho uma atividade relaxante.
- Quanto o senhor deve?
Os dedos dele apertaram o copo.
- Acho que, ao chegarmos a esse ponto, minha me teria me aconselhado a
no falar mais nada at consultar um advogado.
- Isso, certamente,  um direito seu. No o estou acusando de nada, senhor
Angelini. Sei perfeitamente que o senhor estava em Paris na noite em que sua me
foi morta. - Da mesma forma que sabia que havia aeronaves cruzando o Atlntico de
hora em hora.
-  minha funo montar um quadro claro, limpo e completo. O senhor no tem
nenhuma obrigao de responder a esta pergunta. Mas eu posso, com muita
facilidade, ter acesso a essa informao.
Os msculos do rosto dele se contraram por um momento.
- Eu devo oitocentos mil dlares, um pouco mais ou um pouco menos.
- Est sem condies de saldar a dvida?
- No fujo do pagamento de minhas apostas, tenente Dallas, e tambm no
sou um mendigo - disse ele com rispidez. - A dvida pode e ser paga em breve.
- Sua me estava a par dessa situao?
- Tambm no sou uma criana, tenente, que tem de correr para pedir socorro
 me sempre que rala o joelho.
- O senhor e Randall Slade jogavam juntos?
- Jogvamos. Minha irm no gostava disso, ento Randy desistiu do hobby.
- No antes de fazer dvidas prprias.
- No saberia informar a respeito disso. - Seus olhos, muito parecidos com os
do pai, se tornaram glidos. - E tambm no discutiria os negcios dele com a
senhorita.
Ah, discutiria, discutiria sim, pensou Eve, mas deixou a coisa passar, por ora.
- E a respeito do problema que aconteceu no Setor 38, alguns anos atrs? O
senhor estava l?
- Setor 38? - Ele pareceu convincentemente alheio ao assunto.
- Trata-se de um satlite-cassino.
- Vou com frequncia a Las Vegas II, para um rpido fim de semana, mas no
me recordo de ter alguma vez frequentado algum cassino nesse quadrante. E no
sei a que problema a senhorita est se referindo.
- O senhor aposta na roleta?
- No,  um jogo para tolos. Randy  que gosta de roleta. Eu prefiro vinte-e-um.
Randall Slade no tinha o aspecto de um tolo. Para Eve, ele pareceu um
homem capaz de tirar qualquer pessoa do caminho sem diminuir o passo. Tambm
no tinha a imagem que ela fazia de um estilista. Vestia com simplicidade um terno
preto que no estava enfeitado com os botes forrados e tranas em estilo militar
to na moda. Suas mos largas pareciam mais as de um trabalhador do que as de
um artista.
- Espero que a senhorita seja breve - disse ele no tom de voz de algum
acostumado a dar ordens. - Mirina est no andar de cima, descansando um pouco.
No quero ficar longe dela por muito tempo.
- Ento serei breve. - Eve no reclamou quando ele pegou um pequeno estojo
de ouro com dez cigarros longos, pretos. Tecnicamente, poderia, mas esperou at
que ele o acendesse. Como era seu relacionamento com a promotora Towers?
- Amigvel. Ela estava para se tornar minha sogra. Dividamos um profundo
amor por Mirina.
- Ela aprovava o senhor.
- No tenho motivos para acreditar no contrrio.
- Sua carreira se beneficiou muito graas  sua associao com a Angelini
Exportaes.
-  verdade. - Soltou uma nuvem de fumaa que tinha um leve aroma de limo
e menta. - Gosto de pensar que os Angelini tambm se beneficiaram muito graas 
sua associao comigo. Neste ponto, inspecionou o blazer cinza de Eve. - O feitio
de sua roupa e esta cor so incrivelmente desfavorveis  sua figura. A senhorita
deveria dar uma olhada na minha coleo de pronta entrega aqui em Nova York.
- Vou me lembrar disso, obrigada.
- Detesto ver mulheres atraentes usando roupas feias. Sorriu e surpreendeu
Eve com um cintilar de charme. - A senhorita deveria usar cores arrojadas, cortes
mais insinuantes. Uma roupa assim cairia muito melhor em uma mulher com as suas
formas.
- J me disseram - murmurou, pensando em Roarke. - O senhor est de
casamento marcado com uma mulher muito rica.
- Estou de casamento marcado com uma mulher que amo muito.
-  uma feliz coincidncia que ela seja rica.
- .
- E dinheiro  uma coisa da qual o senhor precisa muito.
- E no precisamos todos ns? - Estava tranquilo, sem se ofender, e
novamente com um ar divertido.
- O senhor tem dvidas, senhor Slade. Dvidas altas, importantes, e em uma
rea que pode trazer muitos problemas com o processo de cobrana.
-  verdade. - Deu uma tragada no cigarro, mais uma vez.
- Sou viciado em jogo, tenente. Mas estou me recuperando. Com a ajuda e o
apoio de Mirina, j estou em tratamento. No fiz uma aposta sequer nos ltimos dois
meses e cinco dias.
- Roleta, no era?
- Infelizmente.
- E quanto o senhor deve em nmeros redondos?
- Quinhentos mil dlares.
- E qual o montante da herana de sua noiva?
- Provavelmente o triplo desse valor, em nmeros redondos. Mais, se
considerarmos as aes e os bens que no seriam convertidos em fichas de crdito
ou dinheiro vivo. Matar a me de minha noiva certamente teria sido uma sada para
resolver meus problemas financeiros - e apagou a ponta do cigarro, com ar
pensativo. Por outro lado, o contrato que acabei de assinar para a minha coleo de
outono tambm serve como sada. Dinheiro no  to importante para mim, a ponto
de matar para consegui-lo.
- E o jogo, era importante o bastante para isso?
- O jogo, para mim, era como uma mulher maravilhosa. Desejvel, excitante,
caprichosa. Tive de fazer uma escolha entre essa rival e Mirina. No h nada no
mundo que eu no fizesse para ficar com Mirina.
- Nada?
Ele compreendeu, e inclinou a cabea, respondendo:
- Nada mesmo.
- Ela sabe a respeito do escndalo que aconteceu no Setor 38? Sua expresso
ligeiramente presunosa e com ar divertido desapareceu e ele ficou plido.
- Isso foi h quase dez anos. No tem nada a ver com Mirina. Nada a ver com
coisa alguma.
- O senhor no contou a ela.
- Eu ainda no a conhecia. Era jovem, tolo, e paguei pelo meu erro.
- Por que no explica para mim, ento, senhor Slade, como foi que veio a
cometer tal erro?
- Aquilo no tem nada a ver com este caso.
- Satisfaa a minha curiosidade.
- Droga, foi uma nica noite em toda a minha vida. Uma noite. Tinha bebido
demais, e fui burro o bastante para misturar bebida com drogas qumicas. A mulher
se matou. Ficou provado que a overdose foi auto-aplicada.
Interessante, pensou Eve.
- Mas o senhor estava l - provocou.
- Estava em estado alterado. Perdi mais dinheiro do que podia me permitir na
roleta, e fizemos uma cena em pblico, ns dois. Como lhe disse, eu era muito novo.
Joguei a culpa pela minha m sorte em cima dela. Talvez a tenha at ameaado.
No me lembro. Sim, ns brigamos em pblico, ela bateu em mim e eu bati nela, de
volta. No me orgulho disso. Depois, do resto eu no me lembro.
- No se lembra, senhor Slade?
- Conforme o meu depoimento, a nica coisa de que me lembro depois daquilo
foi o momento em que acordei, em um quartinho imundo. Estvamos na cama, nus.
E ela estava morta. Eu ainda estava zonzo. Os guardas da segurana entraram.
Devo t-los chamado. Eles tiraram fotos. Asseguraram-me que as fotos foram
destrudas depois que o caso foi encerrado e eu fui inocentado. Eu mal conhecia a
mulher - continuou, agora mais perturbado. - Eu a tinha apanhado em um bar, ou
imagino que sim. Meu advogado descobriu que ela era uma acompanhante
profissional, sem licena, que trabalhava nos cassinos.
Fechou os olhos e terminou:
- Acha que quero que Mirina descubra que eu fui, ainda que por pouco tempo,
acusado de matar uma prostituta ilegal?
- No - disse Eve baixinho. Imagino que no queira. E como o senhor mesmo
disse, senhor Slade, no h nada no mundo que no fizesse para ficar com ela.
Nada mesmo.
George Hammett estava aguardando por ela no momento em que Eve saiu do
escritrio do comandante. Seu rosto estava ainda mais encovado, e sua pele mais
acinzentada.
- Eu gostaria de trocar umas palavrinhas, tenente... Eve.
Ela fez um gesto indicando a porta atrs de si, e o deixou entrar discretamente
no escritrio, antes dela. Ento, fechou a porta, deixando os murmrios de conversa
do lado de fora.
- Este  um dia muito difcil para voc, George.
- Sim, muito difcil. Eu queria perguntar, precisava saber... H mais alguma
coisa? Algo novo?
- A investigao est avanando. No h nada de novo que eu possa lhe
contar que voc j no tenha ouvido pelos noticirios.
- Tem de haver mais. - Sua voz se elevou antes que pudesse control-la. -
Alguma coisa a mais.
Eve sentia pena dele, mesmo sabendo que havia suspeita.
- Tudo o que poderia ser feito est sendo feito.
- Voc j interrogou Marco, seus filhos, at mesmo Randy. Se h algo que eles
sabiam, alguma coisa que possam ter dito e que vai servir de ajuda, eu tenho o
direito de saber.
Nervos?, refletiu ela. Ou pesar?
- No - disse baixinho. - Voc no tem esse direito. No posso lhe fornecer
nenhuma informao que tenha sido conseguida durante um interrogatrio, ou
atravs dos procedimentos da investigao.
- Estamos falando da mulher que eu amava! - explodiu ele, com o rosto plido
se tornando vermelho-escuro. - Ns poderamos estar casados.
- Voc estava planejando se casar, George?
- Ns conversvamos a respeito - e passou a mo sobre o rosto, uma mo que
tremia levemente. - Conversvamos a respeito - repetiu, e a cor tornou a
desaparecer de sua pele. - Havia sempre um novo caso, ou um resumo para
preparar. Devia haver tempo suficiente.
Com as mos tensas, os punhos cerrados, ele se virou para o outro lado.
- Desculpe-me por ter gritado com voc, Eve. Estou fora do meu normal.
- Est tudo bem, George. Eu sinto muito.
- Ela se foi - disse ele bem baixo, de modo entrecortado. Ela se foi.
No havia nada que Eve pudesse fazer a no ser dar-lhe um pouco de
privacidade. Fechou a porta atrs de si e ento esfregou a mo na nuca, onde a
tenso parecia ter-se alojado.
Na sada, fez um sinal para Feeney.
- Preciso que voc desenterre uma histria para mim - disse enquanto
caminhavam para fora da casa. - Um caso antigo, tem mais ou menos dez anos.
Aconteceu em um daqueles inferninhos para jogo no Setor 38.
- O que voc j tem a respeito, Dallas?
- Sexo, escndalo e provvel suicdio. Acidental.
- Caramba! - exclamou Feeney com tom de pesar. - E eu estava planejando
assistir um jogo no telo l de casa hoje  noite.
- Isso deve ser to divertido quanto o jogo. - Ficou olhando Roarke, que estava
abrindo a porta do seu carro para a loura entrar. Hesitou, mas acabou mudando de
direo e foi at ele. - Obrigada pela dica, Roarke.
- Estou s suas ordens, tenente. At logo, Feeney - acrescentou com um aceno
rpido de cabea antes de entrar no carro.
- Ei - disse Feeney assim que o carro se afastou. - Ele est realmente pau da
vida com voc.
- Pois me pareceu que ele estava timo - resmungou Eve, escancarando a
porta do carro com fora.
Feeney deu uma gargalhada de deboche.
- Tremenda detetive, voc , hein, colega?
- V desenterrar aquele caso, Feeney. Randall Slade  o acusado. Bateu a
porta do carro e fez cara de emburrada.
CAPTULO SETE
Feeney sabia que Eve no ia gostar dos dados que desencavara. Antevendo a
sua reao, e sendo esperto como era, enviou-os pelo computador em vez de
entregar a ela pessoalmente.
- J estou com os resultados do incidente com Slade - disse ele assim que seu
rosto cansado apareceu no monitor dela. - Estou enviando. Eu, ha... vou ficar por
aqui, durante mais algum tempo. S eliminei uns vinte por cento da lista dos
condenados pela promotora Towers. Est indo devagar.
- Tente acelerar isso, Feeney. Temos de estreitar a faixa de suspeitos.
- Certo. Estou pronto para transmitir. - Seu rosto sumiu. Em seu lugar surgiu o
relatrio policial sobre o Setor 38.
Eve franziu o cenho enquanto os dados rolavam na tela. Havia pouco mais do
que aquilo que Randall j contara. Morte suspeita, overdose. O nome da vtima era
Carolle Lee, de vinte e quatro anos, nascida na colnia de Nova Chicago,
desempregada. A imagem mostrava uma mulher jovem de cabelos pretos que
descendia de raas misturadas, com olhos exticos e pele em um tom escuro de
caf. Randall estava plido, com os olhos vidrados, em sua foto da ficha policial.
Eve pesquisou tudo com ateno, buscando algum detalhe que Randall
pudesse ter deixado de relatar. Do jeito que estava, j era ruim o bastante, refletiu
Eve. As acusaes de homicdio haviam sido retiradas, mas ele respondeu a um
processo por utilizao dos servios de uma acompanhante no legalizada, posse
de drogas qumicas ilegais e contribuio para a ocorrncia de uma fatalidade.
Ele teve muita sorte, decidiu Eve, pelo fato de o incidente ter acontecido em um
setor to obscuro, e em um buraco afastado que no atraa muita ateno. S que
se algum, qualquer pessoa, tivesse descoberto os detalhes, tivesse ameaado de
levar tudo ao conhecimento de sua linda e frgil noiva, isso faria um tremendo
estrago.
Ser que Cicely Towers descobrira tudo?, refletiu Eve. Esta era a grande
pergunta. E se isto aconteceu, como ser que ela teria encarado a histria? A
promotora teria analisado os fatos, ponderado e dispensado o assunto como coisa j
resolvida.
Mas e a me? Ser que a me amorosa que batia papo com a filha por mais de
uma hora a respeito de moda, a me devotada que arranjava tempo para ajudar a
planejar a festa de casamento perfeita, teria aceitado o escndalo como parte das
loucuras de mocidade de um homem tolo? Ou teria se colocado como uma barricada
entre o homem agora mais velho, menos tolo e tudo o que ele mais queria?
Eve franziu o cenho e continuou a analisar o documento. Ento, parou de
repente quando o nome de Roarke pulou da tela sobre ela.
- Mas que filho da me! - balbuciou, dando um soco na mesa. - Filho da me!
Em menos de quinze minutos j estava atravessando o piso de lajotes
vitrificados do saguo do prdio de Roarke, no Centro da cidade. Seu maxilar estava
rgido quando ela digitou o cdigo e espalmou a mo sobre a placa identificadora do
seu elevador privativo. Ela nem se dera ao trabalho de ligar para ele e deixou a fria
de sua integridade subir por dentro dela, junto com o elevador, at o ltimo andar.
A recepcionista que ficava na elegante parte externa do escritrio esboou um
sorriso de saudao. Um olhar para Eve, no entanto, e ela piscou.
- Tenente Dallas.
- Diga a ele que eu estou aqui, e quero v-lo neste instante, aqui mesmo, ou l
na Central de Polcia.
- Mas ele... ele est em uma reunio.
- Agora!
- Vou cham-lo. - Girou a cadeira e apertou o boto do comunicador privado.
Murmurou a mensagem e pediu desculpas, enquanto Eve continuava em p na
frente dela, fumegando.
- Se quiser aguardar por um instante dentro do escritrio, tenente... - a
recepcionista falou e se levantou.
- Eu conheo o caminho - falou Eve de modo brusco e j caminhando pelo
tapete felpudo, atravs das portas altas, e entrando no santurio de Roarke em
Nova York.
Houve um tempo em que ela teria se servido de uma xcara de caf ou
circulado pela sala, admirando a vista do alto dos cento e cinquenta andares.
Naquele dia, porm, permaneceu parada, em p, com cada nervo tremendo de
raiva. E por baixo de tudo um pouco de medo.
O painel da parede leste deslizou para o lado silenciosamente e ele entrou.
Ainda estava usando o terno escuro que escolhera para ir  cerimnia fnebre.
Quando o painel atrs dele voltou a se fechar, apalpou o boto que estava em seu
bolso e pertencia ao velho blazer de Eve.
- Voc foi rpida - disse ele, descontrado. - Pensei que fosse conseguir
terminar a minha reunio com os diretores antes de voc aparecer.
- Voc acha que  esperto - respondeu ela - entregando o suficiente para eu
comear a cavar. Droga, Roarke, voc est bem no meio disso!
- Estou? - Sem parecer preocupado, foi at uma poltrona, sentou-se e esticou
as pernas. - Como assim, tenente?
- Voc era o dono do maldito cassino onde Slade estava jogando. Voc era o
dono do hotel pulguento onde a mulher morreu. Voc tinha uma prostituta no
legalizada trabalhando em seu inferninho.
- Prostitutas no legalizadas no Setor 38? - e sorriu ligeiramente. - Ora, estou
chocado!
- No se faa de engraadinho comigo. Voc tem ligao com esse caso. A
Mercury j era ruim o bastante, mas isso ainda  mais grave. Suas declaraes
esto registradas.
- Naturalmente.
- Por que voc est tornando to difcil manter o seu nome fora disso?
- No estou preocupado em tornar nada mais fcil ou mais difcil para voc,
tenente.
- Muito bem, ento. timo. - Se ele conseguia se manter frio, ela tambm podia
conseguir. - Ento, vamos logo tirar as perguntas e respostas do caminho para
seguir em frente! Voc conhecia Slade.
- Na verdade, no. No pessoalmente. Para falar a verdade, tinha me
esquecido por completo desse caso, e dele, at fazer uma pesquisa por conta
prpria. Quer um pouco de caf?
- Voc se esqueceu que esteve envolvido em uma investigao de
assassinato?
- Sim. - Vagarosamente, uniu as duas mos para cima. Aquele no foi o meu
primeiro contato com a polcia, e pelo jeito no vai ser o ltimo. Analisando a
situao de longe, tenente, o fato  que nada daquilo me dizia respeito.
- No lhe dizia respeito - repetiu ela. - Voc expulsou Slade do cassino.
- Acredito que o gerente do cassino tenha cuidado disso.
- Voc estava l.
- Sim, estava l, pelo menos nas dependncias do cassino, em algum lugar.
Clientes insatisfeitos, frequentemente, causam tumultos. No dei muita importncia
ao assunto na poca.
Eve respirou fundo.
- Se aquilo significou to pouco, e todo o ocorrido escapou da sua lembrana,
por que motivo voc vendeu o cassino, o hotel e tudo o mais que voc possua no
Setor 38, menos de quarenta e oito horas depois do assassinato de Cicely Towers?
Roarke permaneceu calado por um momento, com os olhos grudados nela.
- Por motivos pessoais - respondeu por fim.
- Roarke, conte-me as razes para que eu possa colocar de lado todas as suas
conexes com o caso. Eu sei que a venda no teve nada a ver com o assassinato
de Towers, mas isto  muito vago. Por motivos pessoais no  motivo suficiente.
- Para mim foi naquele dia. Diga-me, tenente, est achando que eu resolvi
chantagear Cicely por causa da leviandade dos tempos de juventude do futuro genro
dela, mandei algum capanga atra-la at West End para, j que ela no cooperou,
cortar-lhe a garganta?
Ela queria odi-lo por coloc-la em uma posio em que teria de responder.
- J lhe disse, Roarke, que eu acho que voc no teve nada a ver com a morte
dela, e estou sendo sincera. S que voc me colocou um novo cenrio sobre o qual
vamos ter de trabalhar. Uma situao que vai me tomar tempo e fora de trabalho
para investigar, tempo esse que poderia estar sendo usado para encontrar o
assassino.
- Droga, Eve - disse, baixinho, e com tanta calma que a garganta dela chegou a
queimar.
- O que quer de mim, Roarke? Voc me falou que ia ajudar, que eu poderia
usar os seus contatos. Agora, por estar pau da vida com alguma coisa, est me
bloqueando.
- Mudei de ideia. - Seu tom de voz era o de quem est dispensando alguma
coisa, e ele se levantou e foi para trs da mesa. A respeito de vrias coisas -
acrescentou, voltando-se para ela com um olhar que penetrou como uma faca em
seu corao.
- Se pelo menos voc me contasse por que vendeu tudo to depressa! A
coincidncia disso no pode ser ignorada.
Ele considerou por um momento a sua deciso de reorganizar alguns dos seus
negcios um pouco menos legais e se livrar daqueles outros que no dava para
limpar.
- No - murmurou ele - acho que no posso contar.
- Por que est me colocando nesta posio? - ela quis saber.
-  algum tipo de punio?
- Se quiser ver deste modo... - Sentando-se, ele se recostou na cadeira e uniu
os dedos.
- Voc vai acabar sendo arrastado para dentro desse caso, exatamente como
da outra vez. No h necessidade disso. - Vencida pela frustrao, ela espalmou as
mos sobre a mesa. - No consegue enxergar isso?
Ele olhou para o rosto dela, seus olhos sombrios e preocupados, o cabelo
ridiculamente picotado.
- Eu sei o que estou fazendo - e esperava que soubesse mesmo.
- Roarke, no compreende que no  o suficiente saber que voc no teve
nada a ver com o crime? Agora, eu vou ter de provar isso.
Ele queria toc-la, queria tanto que seus dedos chegavam a doer. Mais do que
qualquer outra coisa, naquele momento, ele gostaria de conseguir odi-la por isso.
- Voc sabe mesmo, Eve?
Ela se esticou e deixou os braos penderem para os lados do corpo.
- No importa - disse virando as costas e saindo da sala. Mas importava muito,
pensou ele. Naquele instante, era tudo o que realmente importava. Abalado, ele se
lanou para a frente. Podia amaldio-la, agora que aqueles imensos olhos da cor
de usque maltado j no o estavam encarando. Podia amaldio-la por coloc-lo
em um nvel to baixo que ele estava quase chegando a ponto de implorar por
qualquer migalha da vida dela que estivesse disposta a compartilhar com ele.
E se ele implorasse, se ele se acomodasse com aquela situao,
provavelmente ia acabar odiando-a tanto quanto a si prprio.
Ele sabia como esperar durante mais tempo do que um rival, sabia como
manobrar um oponente. Certamente sabia como lutar pelo que queria ou pretendia
obter. Mas j no estava to certo de que sabia esperar mais, manobrar ou lutar por
Eve.
Pegando o boto que estava em seu bolso, ficou brincando com ele,
estudando-o, como se fosse uma charada complicada que precisava ser decifrada.
Ele era um idiota, compreendeu. Era humilhante admitir que o amor pudesse
transformar um homem em um completo idiota. Levantando-se, colocou o boto de
volta no bolso. Tinha uma reunio em andamento para encerrar e muitos negcios a
tratar.
E tambm, pensou, tinha de fazer algumas pesquisas para saber se algum
outro detalhe da priso de Slade tinha sado do Setor 38. E se tinha, como e por
qu.
Eve no podia adiar o seu encontro com Nadine. A necessidade daquilo a
deixava irritada, bem como o fato de que ela tinha de encaixar o seu horrio entre as
duas apresentaes ao vivo de Nadine, uma no incio da noite e outra no noticirio
do fim do dia.
Deixou-se cair sobre a cadeira ao lado de uma mesa em um pequeno caf que
se chamava Imagens, e ficava prximo ao Canal
75. Com seus recantos calmos e rvores frondosas, o lugar estava muitos
pontos acima do Esquilo Azul. Eve estranhou os preos altos do cardpio.
Reprteres recebiam um salrio muito mais alto do que policiais. Acabou escolhendo
uma Pepsi Classic.
- Voc devia experimentar os brioches - disse Nadine. Este lugar  famoso por
causa deles.
- Aposto que sim - e, quando viu o preo de cinco dlares por um bolinho de
frutas, inventou uma desculpa - s que no estou com muito tempo.
- Nem eu. - A maquiagem especial para aparecer na TV, que Nadine usava
ainda estava impecvel. Eve se espantava com o fato de algum conseguir aguentar
os poros completamente tapados por horas a fio.
- Voc comea - disse  reprter.
- Certo. - Nadine abriu um dos brioches e o vapor que saiu era maravilhoso. -
Obviamente o funeral foi a grande notcia do dia. Quem compareceu, quem disse o
qu. Um monte de histrias paralelas sobre a famlia, focadas basicamente na filha
chorosa e no seu noivo.
- Por qu?
- Interesse humano, Dallas. Os grandes planos para uma festa de casamento
grandiosa, interrompidos por um violento assassinato. H rumores de que a
cerimnia vai ser adiada para o primeiro semestre do ano que vem.
Nadine deu uma mordida no brioche. Eve ignorou a reao de inveja de seu
suco gstrico.
- No so fofocas que eu estou procurando, Nadine.
- Mas elas do um pouco de cor  coisa. Olhe, a histria est com jeito de ter
sido plantada, no foi algo que vazou para a imprensa. Algum queria que a mdia
soubesse que o casamento ia ser adiado. Sendo assim, fico imaginando se vai
mesmo haver um casamento, afinal. Sinto cheiro de problemas no paraso. Por que
Mirina iria se afastar de Slade em um momento como este? Para mim, o certo seria
uma cerimnia discreta e privada, e ele ficaria junto dela para confort-la.
- Talvez seja exatamente esse o plano, e esto afastando os reprteres da
pista.
-  possvel. De qualquer modo, sem Cicely Towers entre eles as especulaes
so de que Marco Angelini e George Hammett vo dissolver a sociedade. Eles
estavam muito frios um com o outro e no se falaram durante todo o funeral, nem
antes nem depois.
- Como  que voc sabe?
Nadine sorriu com um jeito felino e satisfeito.
- Tenho minhas fontes. Marco Angelini est precisando de grana, e depressa.
Roarke lhe fez uma oferta pela parte dele na Mercury, que agora tambm inclui a
parte de Cicely.
-  mesmo?
- U, voc no sabia? Interessante. - Manhosa como uma gata, Nadine lambeu
um pouco das migalhas da ponta do dedo. Achei muito interessante, tambm, que
voc no tenha comparecido ao funeral em companhia de Roarke.
- Eu estava l em funo oficial - disse Eve. - No fuja do assunto.
- Mais problemas no paraso - murmurou Nadine, e ento seu olhar ficou srio.
- Olhe, Dallas, eu gosto de voc. No sei por qu, mas gosto. Se voc e Roarke
esto com problemas, sinto muito.
Troca de confidncias era uma coisa com a qual Eve jamais se sentiu
confortvel. Remexeu-se na cadeira, surpresa por se sentir, ainda que por um
instante, tentada a se abrir. Ento, atribuiu isso ao talento de Nadine como reprter.
- Vamos ao ponto - repetiu.
- Tudo bem. - Nadine movimentou um dos ombros e deu outra mordida no
brioche. - Ningum sabe xongas - disse de modo rpido. - Temos s especulaes.
Os problemas financeiros de Marco Angelini, o vcio de jogo do filho, o caso
Fluentes.
- Pode esquecer o caso Fluentes - interrompeu Eve. - Ele vai ser condenado.
Tanto ele quanto o advogado sabem disso, as provas so claras. Tirar a promotora
do caminho no ia mudar nada.
- Ele pode ter ficado muito aborrecido.
- Talvez, mas ele  peixe pequeno. No tem contatos, nem dinheiro para
conseguir um servio desse tamanho. No bate. Estamos investigando todo mundo
que ela mandou para a priso. At agora no conseguimos nadinha.
- Voc desistiu da teoria de vingana ento?
- Desisti. Acho que foi algum mais chegado.
- Algum nome em particular?
- No. - Eve balanou a cabea enquanto Nadine a observava. - No - repetiu -
no tenho nada slido. H uma coisa na qual eu queria que voc desse uma olhada,
mas preciso ter certeza de que no vai para o ar at ficar bem esclarecido.
- O trato foi esse.
Resumidamente, Eve contou a Nadine o incidente do Setor 38.
- Caramba, isso  matria quente! E  um registro de acesso pblico, Eve.
- Pode ser, mas voc no saberia onde procurar, a no ser que eu desse a
dica. Portanto, mantenha o trato, Nadine. Deixe o tema fora do ar e cave em volta.
Veja se descobre se mais algum sabe ou se se interessa pelo assunto. Se houver
uma ligao com o crime, entrego tudo na sua mo. Se no houver, acho que vai
depender da sua conscincia tornar pblico um fato que pode arruinar a reputao
de um homem e seu relacionamento com a noiva.
- Golpe baixo, Dallas!
- Depende da posio em que voc est. Mantenha o bico fechado, Nadine.
- Hum-hum... - Sua mente estava trabalhando. - Slade estava em So
Francisco na noite do assassinato - e esperou um segundo. - No estava?
-  o que os registros mostram.
- E h dezenas de voos rpidos de costa a costa, pblicos e particulares,
decolando de hora em hora, para l e para c.
- Exatamente. contato, - disse Eve enquanto se levantava - e lembre-se, bico
calado.
Eve foi para a cama cedo. Quando o tele-link tocou,  uma da manh, ela
estava gritando para sair de um pesadelo. Suando e tremendo, empurrou as
cobertas que estavam agarradas nela, como se retirasse as mos que estavam
tateando o seu corpo.
Engoliu outro grito, apertou os dedos sobre os olhos e ordenou a si mesma
para no sentir enjoo. Atendeu  ligao sem acender as luzes e deixou o sistema
de vdeo bloqueado.
- Alo, Dallas falando.
- Aqui  da emergncia. Registro de voz verificado. Provvel homicdio, uma
mulher. Dirija-se  Avenida Central Park Sul, 532, nos fundos do prdio. Cdigo
amarelo.
- Entendido. - Eve encerrou a transmisso e, ainda tremendo pelos efeitos do
pesadelo, rastejou para fora da cama.
Levou vinte minutos para chegar ao local. Precisava da ajuda de um banho
quente antes de sair, nem que fosse por trinta segundos.
Aquele era o bairro da moda, povoado por pessoas que frequentavam lojas
sofisticadas, clubes privados e aspiravam subir mais um ponto na escala social e
econmica.
As ruas eram calmas ali, embora no estivessem muito longe do movimento de
txis e carros particulares. Classe mdia alta em todos os detalhes, avaliou Eve
enquanto dava a volta em direo aos fundos do reluzente edifcio todo revestido em
ao e com uma agradvel vista para o parque.
Apesar disso, assassinatos aconteciam em toda parte.
E certamente ocorrera um ali.
Os fundos do prdio no ficavam de frente para o parque, mas os
incorporadores compensaram isso com um lindo espao verde. Alm das rvores
bem-cuidadas, havia um muro de segurana que separava um prdio do outro.
No pequeno caminho pavimentado com pedras, ao lado de um canteiro de
petnias douradas, o corpo estava estendido, com o rosto para baixo.
Mulher, ela confirmou, exibindo o distintivo para os policiais que a aguardavam.
Cabelo escuro, pele morena, bem-vestida. Eve reparou no elegante sapato de salto
alto, listrado de vermelho e branco, de acordo com a ltima moda, que estava virado
com o salto para cima ao lado do corpo.
Viveu com sapatos to bonitos e morreu descala, pensou.
- Tiraram fotos?
- Sim, senhora, tenente. O legista j est a caminho.
- Quem deu o alarme?
- Um vizinho. Saiu para dar uma volta com o cachorro. Est l dentro.
- J sabemos o nome dela?
- Yvonne Metcalf, tenente. Mora no apartamento 1.126.
- Uma atriz - murmurou Eve enquanto aos poucos se lembrava do nome
conhecido. - Muito famosa, com a carreira em ascenso.
- Sim, senhora. - Um dos policiais olhou para o corpo no cho. - Ela ganhou um
Emmy no ano passado. Agora era apresentadora de talk-shows. Bem famosa.
- Agora est bem morta. Mantenha a cmera gravando. Vou ter de virar o corpo
dela.
Antes mesmo de usar o spray protetor para selar as mos, e antes de se
agachar para virar o corpo, Eve j sabia. O sangue estava em toda parte. Algum
soltou um assobio agudo quando o corpo virou com o rosto para cima, mas no foi
Eve. Ela j estava preparada.
A garganta estava cortada, e o corte era profundo. Os lindos olhos verdes de
Yvonne estavam vidrados, olhando para Eve, como dois pontos de interrogao.
- O que  que voc tinha em comum com Cicely Towers? murmurou ela. -
Mesmo modus operandi: um talho profundo na garganta, a jugular cortada. No
houve roubo, no h sinais de ataque sexual, nem de luta. - Com cuidado, Eve
levantou uma das mos inertes de Yvonne, acendeu a lanterna sobre as unhas e
examinou embaixo delas. Estavam pintadas em um tom de escarlate cintilante, com
pequenas listras brancas. E pareciam em perfeito estado. No estavam lascadas,
nem havia falhas, arranhes com pedaos de pele ou marcas de sangue por baixo.
- Toda arrumada e sem ter para onde ir - comentou Eve, olhando para o
exuberante conjunto listrado de vermelho e branco da vtima. - Vamos descobrir
onde ela estava ou para onde ia comeou Eve, e virou a cabea para trs quando
ouviu o som de passos se aproximando.
Mas no era a equipe do mdico legista, nem os tcnicos do laboratrio. Era,
ela viu com desgosto, C. J. Morse e uma equipe do Canal 75.
- Leve esta cmera para longe daqui! - Tremendo de raiva, pulou em p, na
mesma hora, instintivamente protegendo o corpo da vtima com o seu, como se
fosse um escudo. - Esta  a cena de um crime.
- Voc ainda no bloqueou nem cercou a rea - disse Morse, sorrindo
docemente. - At fazer isso, este  um local liberado para o pblico. Sherry, d um
close naquele sapato solto.
- Bloqueie e cerque toda a rea, agora! - ordenou Eve para o policial. -
Confisque a cmera e os gravadores.
- Voc no pode confiscar equipamento da mdia at que a rea esteja
completamente cercada - lembrou C. J. a ela enquanto tentava esticar o pescoo em
volta dela, para ver melhor. - Sherry, agora faa uma panormica bem lenta e depois
quero o foco no lindo rosto da tenente.
- Vou dar um chute no seu traseiro, Morse!
- Ah, eu adoraria v-la tentar isso, Dallas! - Um pouco do ressentimento
reprimido apareceu em seu olhar. - O que eu mais quero  ver voc respondendo s
minhas acusaes por seu comportamento e gravar tudo depois daquela que voc
aprontou comigo.
- Se ainda estiver neste local depois do bloqueio, voc  que vai responder s
acusaes.
Ele se limitou a sorrir novamente e recuou. Calculou que ainda tinha uns quinze
segundos de vdeo antes de se colocar em apuros.
- Sabe, tenente, o Canal 75 tem uma tima equipe de advogados.
- Detenha este homem e a sua equipe - berrou Eve, rangendo os dentes para
um policial. - Leve-os para longe da cena do crime at que eu acabe meu trabalho!
- Interferir na mdia...
- Ora, v lamber as botas de algum por a, Morse!
- Aposto que as suas botas so mais saborosas - e continuou a sorrir enquanto
era levado para longe dali.
Quando Eve terminou e deu a volta at a frente do edifcio, ele j estava em p
diante da cmera, fazendo um relatrio frio sobre o recente homicdio. Sem perder o
ritmo, virou-se para Eve quando ela passou.
- Tenente Dallas, a senhorita pode nos confirmar a informao de que Yvonne
Metcalf, a estrela do programa Fique Ligado, acaba de ser assassinada?
- O Departamento de Polcia no tem nada a declarar, neste momento.
-  verdade que a senhorita Metcalf morava neste prdio, e seu corpo foi
descoberto esta madrugada, cado no ptio dos fundos? Sua garganta foi cortada?
- Nada a declarar.
- Nossos espectadores esto  espera, tenente. Duas mulheres importantes
foram violentamente assassinadas pelo mesmo mtodo, provavelmente pela mesma
pessoa, com pouco mais de uma semana entre os dois crimes, e a senhorita no
tem nada a declarar?
- Ao contrrio de alguns reprteres irresponsveis, a polcia  mais cuidadosa e
se preocupa mais com os fatos do que com especulaes.
- Ou ser, tenente, que a polcia  simplesmente incapaz de resolver esses
crimes? - Movendo-se com rapidez para o lado, ele ficou de frente para ela mais
uma vez. - A senhorita no est preocupada com a sua reputao, tenente, e a
ligao que existe entre as duas vtimas e o seu amigo chegado, Roarke?
- A minha reputao no est em foco aqui. A investigao sim.
Morse se virou novamente para a cmera, dizendo:
- Neste momento a investigao comandada pela tenente Eve Dallas est
aparentemente em um beco sem sada. Outro assassinato aconteceu a menos de
cem metros de onde estou falando. Uma mulher jovem, talentosa, linda e promissora
acaba de ter a sua vida ceifada pelo movimento violento de uma faca. Da mesma
forma que, h apenas uma semana, a respeitada e dedicada promotora Cicely
Towers viu sua vida chegar ao fim. Talvez a pergunta principal no seja quando o
assassino ser pego, e sim que mulher proeminente ser a prxima vtima? Aqui
fala C. J. Morse para o Canal
75, transmitindo ao vivo do Central Park Sul.
Acenou com a cabea para o operador da cmera antes de se virar e sorrir
para Eve.
- Viu s, se voc cooperasse comigo, Dallas, eu seria at capaz de ajud-la
junto  opinio pblica.
- Ah! V arranjar uma mulher por a, Morse!
- Bem, se voc me pedir com jeitinho... - Seu sorriso no cedeu nem mesmo
quando ela o agarrou pela parte da frente da camisa. - Olhe, cuidado, no toque em
mim, a menos que voc queira, mesmo.
Eve era quase um palmo mais alta do que ele, e pensou seriamente em
golpe-lo ali mesmo, na calada.
- Olhe o que eu gostaria de saber, Morse. Como  que um reprter de quinta
categoria aparece na cena de um crime, acompanhado de uma equipe, dez minutos
depois da polcia?
Ele alisou a frente da camisa.
- Possuo fontes, tenente, as quais, como sabe, no tenho obrigao de
identificar para voc. - Seu sorriso se transformou em escrnio. - E a esta altura eu
diria que estamos diante  de uma investigadora de quinta categoria. Voc estaria
mais bem servida se colasse em mim em vez de Nadine. Aquilo foi uma sujeira
muito grande, ajud-la a me colocar para fora da cobertura do caso Towers.
- Foi mesmo? Bem, fico satisfeita de ouvir isso, C. J., porque simplesmente eu
no vou com a sua cara. Aposto que voc no se importou nem um pouco de ir l
atrs, com a cmera gravando, para transmitir imagens daquela mulher. Garanto
que no pensou no direito dela de merecer um pouco de dignidade, ou no fato de
que algum que a amava poderia ainda no ter sido informado sobre a sua morte. A
famlia dela, por exemplo.
- Ei, voc faz o seu trabalho e eu fao o meu. Voc no me pareceu muito
abalada quando a estava apalpando.
- A que horas deram o aviso para voc? - perguntou Eve de modo rpido.
Ele hesitou, avaliando a pergunta.
- Acho que no vai fazer mal se eu lhe contar. Ligaram para a minha linha
particular  meia-noite e meia.
- De onde?
- No. Protejo minhas fontes. Liguei correndo para a emissora e convoquei
uma equipe. No foi, Sherry?
- Foi. - O operador de cmera moveu os ombros. - A equipe noturna mandou
que vissemos encontrar C. J. aqui. O show tem de continuar.
- Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para confiscar suas imagens,
Morse, trazer voc para interrogatrio e transformar a sua vida em um inferno.
- Ah, eu espero que sim! - Seu rosto redondo se iluminou.
- Voc vai duplicar o meu tempo no ar e colocar a minha popularidade nas
nuvens. E sabe o que vai ser mais divertido? A matria paralela que vou preparar
sobre Roarke e seu aconchegante relacionamento com Yvonne Metcalf.
Eve sentiu um calafrio no estmago, mas manteve a voz afvel:
- Cuidado onde pisa, C. J., porque Roarke no  nem um pouco bonzinho
como eu. E mantenha a sua equipe longe da cena do crime - avisou. - Tente colocar
a pontinha do p l dentro e eu confisco todo o equipamento.
Virou o corpo e se afastou dele. Quando j estava a uma distncia segura,
pegou o comunicador. O que ela ia fazer estava fora do procedimento usual, e havia
o risco de uma reprimenda, ou pior. Mas tinha de ser feito.
- Ora, tenente, que surpresa! - exclamou Roarke.
- Tenho apenas um minuto. Conte-me sobre o seu relacionamento com Yvonne
Metcalf.
- Somos amigos - e levantou uma sobrancelha. - Por algum tempo fomos
ntimos.
- Eram amantes.
- Sim, por um curto espao de tempo. Por qu?
- Porque ela est morta, Roarke. Seu leve sorriso desapareceu.
- Oh, meu Deus! Como?
- Teve a garganta cortada. Mantenha-se ao nosso alcance.
- Esta  uma solicitao oficial, tenente? - perguntou, e sua voz estava dura
como uma pedra.
- Tem de ser. Roarke... - e hesitou. - Eu sinto muito.
- Eu tambm - e encerrou a transmisso.
CAPTULO OITO
Eve no teve dificuldades para fazer uma lista das vrias ligaes que havia
entre Cicely Towers e Yvonne Metcalf. A primeira era o assassinato. O mtodo e o
autor. Ambas tinham sido mulheres conhecidas pelo pblico, respeitadas, e de quem
todos gostavam. Eram bem-sucedidas em seus campos de atuao e dedicadas ao
trabalho. As duas tinham famlias que amavam e que choravam por elas.
No entanto, haviam trabalhado e frequentado crculos sociais e profissionais
radicalmente diferentes. Os amigos de Yvonne eram artistas, atores e msicos,
enquanto Cicely participara de atividades sociais em companhia de advogados,
empresrios e polticos.
Cicely era uma mulher com a carreira organizada e um bom gosto impecvel,
que preservara a privacidade de forma feroz.
Yvonne era descontrada e desorganizada, uma atriz com a vida no limite do
catico, que cortejava os holofotes.
Mas algum as conhecera bem o bastante e tinha mgoas contra ambas, o
bastante para mat-las.
O nico nome que Eve encontrou tanto no livro de endereos bem-estruturado
de Cicely quanto na agenda desorganizada de Yvonne foi o de Roarke.Pela terceira
vez, em menos de uma hora, Eve comparou as duas listas, usando o computador,
tentando achar coisas em comum. Um nome que batesse com outro, um endereo,
uma profisso, um interesse pessoal. As poucas ligaes que apareceram eram to
fracamente conectadas que quase no justificavam ir adiante para marcar um
interrogatrio.
Mas ela tinha de tentar tudo, porque a alternativa era Roarke.
Enquanto o computador pesquisava a pequena lista, Eve deu outra passada de
olhos pela agenda eletrnica de Yvonne.
- Por que diabos ela no colocava nomes nas anotaes? resmungou Eve.
Havia horrios, datas, s vezes iniciais, e muitas notinhas laterais ou smbolos,
conforme o seu humor no momento.
1:00 - Almoo no Salo da Coroa, com B. C. Viva! No se atrase, Yvonne, e
vista a, blusa verde com a saia curta. Ele gosta de mulheres pontuais e com as
pernas de fora.
Dia da Beleza no Salo Paradise. Graas a Deus. 10:00. Melhor tentar marcar
ginstica s 8 na Academia Palace. Argh!
Almoos elegantes, avaliou Eve. Ela se paparicava no salo mais caro da
cidade. Antes, suava um pouco na academia mais luxuosa. Considerando tudo, at
que a vida dela no era m. Quem ia querer acabar com ela?
Analisou com cuidado a pgina do dia do assassinato.
8:00 - Caf da manh poderoso. Usar terninho azul com sapatos combinando.
PAREA PROFISSIONAL, PELO AMOR DE DEUS, YVONNE!
11:00 - Sala do P. P. para discutir as negociaes do contrato. Talvez d para
fazer umas comprinhas antes. LIQUIDAO DE SAPATOS NA SAKS. Dica quente.
Almoo - Dispense a sobremesa. Talvez. Diga ao gatinho que ele estava
maravilhoso no show. No  pecado mentir um pouco para os colegas a respeito da
sua atuao. Nossa, ele no estava horrvel?
Ligar para casa.
Passar na Saks, se no tiver ido antes.
Happy Hour. Tome s gua mineral, garota. Voc fala demais quando fica alta.
Parea inteligente, brilhe. Force a barra com o Fique Ligado! Muito. No se
esquea de levar o book com as fotos amanh de manh, e fique longe do vinho. V
para casa e tire um cochilo.
Encontro  meia-noite. Pode ser coisa quente. Use o conjunto listrado vermelho
e branco e sorria, sorria, sorria. So guas passadas, coloque uma pedra em cima,
certo? Nunca feche uma porta. Diga que mundo pequeno e assim por diante. Que
babaca!
Ento ela deixara documentado o encontro  meia-noite. Mas no escreveu
quem, nem onde, nem para qu, mas queria estar bem-vestida para ele. Algum que
ela conheceu no passado, teve alguma coisa com ele. guas passadas. Talvez um
problema antigo?
Um amante?, ponderou Eve. Achava que no. Yvonne no desenhara
coraezinhos em volta da anotao, nem se aconselhara a parecer sexy, sexy,
sexy. Eve achou que estava comeando a compreender a vtima. Yvonne era uma
mulher que se divertia consigo mesma, estava sempre pronta para a alegria, curtia
seu estilo de vida. E era ambiciosa.
Se ela se mandou sorrir, sorrir, sorrir, no seria o caso de uma oportunidade
profissional? Um bom papel, uma promoo no jornal, um novo texto, um j
influente?
O que ser que ela teria escrito se o encontro fosse com Roarke? meditou Eve.
Muito provavelmente ela teria anotado o nome dele com uma letra R maiscula, bem
destacada. Teria colocado coraes em volta do nome, ou cifres, ou carinhos
sorridentes. Como tinha feito dezoito meses antes de sua morte.
Eve no precisou olhar nos dirios antigos de Yvonne. Lembrava-se
perfeitamente da ltima anotao que fizera citando o nome de Roarke.
Jantar com R, s 8:30.  de dar gua na boca. Usar o vestido de cetim branco,
que vai bem com a combinao. Prepare-se, pode ser que voc se d bem. O cara
tem um corpo maravilhoso, s queria saber como  a sua cabea. Enfim, seja bem
sexy para ver o que acontece.
Eve no fazia questo de saber se Yvonne havia se dado bem. Evidentemente,
eles tinham sido amantes, o prprio Roarke dissera isto. Ento, por que ela no
anotara mais nenhum encontro com ele depois do vestido de cetim branco?
Era uma coisa que ela imaginou que teria de descobrir s por causa da
investigao.
Nesse meio-tempo, ela ia fazer outra visita ao apartamento de Yvonne, para
tentar mais uma vez reconstituir o ltimo dia de sua vida. Havia interrogatrios para
marcar. E, como os pais de Yvonne ligavam procurando por ela pelo menos uma vez
por dia, Eve sabia que teria de conversar novamente com eles, e se fortalecer para
enfrentar o terrvel pesar e o pasmo que sentiam.
Ela no se importava com os dias de quatorze e at dezesseis horas de
trabalho contnuos. Na verdade, a esta altura de sua vida ela at gostava.
Quatro dias aps o assassinato de Yvonne Metcalf, Eve continuava na estaca
zero. Interrogara de modo intensivo mais de trinta pessoas, at  exausto. No s
fora incapaz de descobrir um nico motivo que fosse vivel, como tambm no
achou ningum que no adorasse a vtima.
No havia sequer a pista de algum f obcecado. A pilha de e-mails de Yvonne
era gigantesca, e Feeney ainda estava pesquisando toda a correspondncia com o
auxlio do computador. Nas primeiras avaliaes, porm, no havia ameaas,
veladas ou abertas, nem propostas e sugestes esquisitas, ou de gosto duvidoso.
Havia uma quantidade substancial de propostas de casamento e outros
convites. Eve analisava todas atentamente, mas com pouco entusiasmo ou
esperana. Ainda havia a possibilidade de algum ter escrito para Yvonne e tambm
entrado em contato com Cicely.  medida que o tempo passava, porm, esta chance
diminua.
Eve fez tudo o que era de esperar nos casos de homicdios mltiplos, e tudo o
que os procedimentos do departamento exigiam do profissional a esta altura de uma
investigao. Marcou uma consulta com a psiquiatra.
Enquanto esperava, Eve lutava com os sentimentos divididos que tinha pela
doutora Mira. Ela era uma mulher brilhante, com grande sensibilidade e dona de
uma calma eficincia, alm da compaixo.
Eram esses os motivos que faziam Eve se forar a ir v-la. Tinha de lembrar a
si mesma, novamente, que no tinha ido at ali por motivos pessoais, ou porque o
departamento a estava mandando fazer terapia. No estava tambm ali para se
submeter a nenhuma das rotineiras baterias de testes, nem ia discutir seus
pensamentos, sentimentos ou lembranas.
Elas iam dissecar a mente de um assassino.
Mesmo assim, ela tinha de se concentrar em manter o ritmo constante do
corao e as mos firmes e secas. Quando a mandaram entrar no consultrio de
Mira, Eve disse a si mesma que suas pernas estavam tremendo devido ao cansao,
nada alm disso.
- Como vai, tenente Dallas? - Os olhos em um tom de azul plido fitaram o
rosto de Eve e notaram fadiga neles. - Sinto muito faz-la esperar.
- Tudo bem. - Embora preferisse ficar em p, Eve sentou-se numa cadeira azul
em forma de concha, ao lado da de Mira. Obrigada, doutora, por ter recebido o caso
to depressa.
- Todos ns fazemos nosso trabalho da melhor maneira possvel - explicou
Mira com sua voz macia. - Alm disto eu tinha grande respeito e afeio por Cicely
Towers.
- A senhora a conhecia?
- Tnhamos mais ou menos a mesma idade, e ela me consultava sobre muitos
dos casos em que trabalhava. Testemunhava para a promotoria com frequncia,
assim como para a defesa tambm acrescentou sorrindo ligeiramente. - Mas voc j
sabia disso.
- Estou s puxando assunto.
- Eu tambm admirava o talento de Yvonne Metcalf. Ela trouxe muita alegria
para o mundo. Vai deixar saudades.
- H algum que no vai sentir saudades de nenhuma das duas.
-  verdade. - Com seu jeito gracioso e leve, Mira programou seu AutoChef
para preparar ch. - Imagino que voc esteja um pouco pressionada por causa do
tempo, mas eu trabalho melhor com um pouco de estimulante no sistema. E voc?
Parece que est precisando de um pouco disso tambm.
- Estou bem.
Reconhecendo o tom de hostilidade fortemente controlada na voz de Eve, Mira
simplesmente levantou a sobrancelha.
- Anda trabalhando demais, como sempre. Isso  comum com as pessoas que
so muito boas no que fazem - e ofereceu a Eve um pouco de ch, servido em uma
de suas lindas xcaras de porcelana.
- Muito bem, eu j li todos os seus relatrios, as provas que voc reuniu e suas
teorias. Com relao ao perfil psiquitrico que eu tracei -- disse, batendo levemente
com a mo em um disco lacrado que estava sobre a mesa entre elas.
- A senhora j completou o perfil? - Eve no se deu ao trabalho de esconder a
irritao. - Poderia ter me transmitido os dados diretamente e me poupado a viagem.
- Poderia sim, mas preferi discuti-lo com voc, frente a frente. Eve, voc est
lidando com alguma coisa, com algum extremamente perigoso.
- Acho que j deu para eu perceber isso, doutora. Duas mulheres tiveram a
garganta cortada de um lado a outro.
- Duas mulheres, at agora. - Mira disse baixinho e se recostou. - Estou com
muito medo de que haver mais. E logo.
Por tambm pensar assim, Eve ignorou o calafrio que lhe correu pela espinha.
- Por que diz isso, doutora?
- Porque foi to fcil. E to simples. Um trabalho bem-feito. Existe satisfao
nisso. H tambm o fator da ateno. Ele, ou ela, quem quer que tenha cometido os
assassinatos pode agora se sentar confortavelmente em casa e apreciar o show. As
reportagens, os editoriais, o pesar coletivo, os funerais, a esfera pblica de toda a
investigao.
Fez uma pausa para saborear o ch e continuou:
- Voc j formou uma teoria, Eve. Veio at aqui para que eu possa corrobor-la
ou contra-argumentar as suas ideias.
- Tenho vrias teorias.
- Mas acredita apenas em uma. - Mira deu aquele seu sorriso sbio, j sabendo
que ele fazia Eve se encrespar. - Fama. O que mais as duas mulheres tinham em
comum alm da proeminncia pblica? Elas no frequentavam o mesmo crculo
social, nem profissional. Conheciam poucas pessoas em comum, mesmo em nvel
casual. No frequentavam as mesmas lojas, academias ou sales de beleza. A
nica coisa que compartilhavam era a fama, o interesse do pblico e uma espcie
de poder.
- E isso era uma coisa que o assassino invejava.
- Eu diria exatamente isso. Ressentia-se com isso tambm e esperava que,
matando-as, pudesse aproveitar um pouco da ateno que refletiria nele. Os crimes
propriamente ditos foram muito cruis e limpos, de uma forma incomum. Seus rostos
no ficaram desfigurados, nem seus corpos. Um rpido golpe na garganta, de
acordo com o relatrio do legista, de um lado a outro do pescoo. Uma lmina  uma
arma muito pessoal, uma extenso da mo. No  distante, como uma arma a laser,
nem sem envolvimento, como um veneno. Seu assassino queria ter a sensao de
matar, a viso do sangue, o cheiro dele. A experincia completa que faz com que
ele, ou ela, apreciasse o exerccio do controle, seguindo fielmente um plano,
- A senhora no acredita que tenham sido crimes encomendados.
- Sempre existe essa possibilidade, Eve, mas estou mais inclinada a ver o
assassino como um participante ativo do que como um prestador de servios. E
temos tambm os suvenires.
- O guarda-chuva de Cicely Towers?
- E o sapato direito de Yvonne Metcalf. Voc conseguiu manter esta informao
longe da imprensa.
- Por pouco - disse Eve com uma cara feia ao se lembrar de Morse e a sua
equipe invadindo a cena do crime. - Um assassino profissional no guardaria um
suvenir, e as mortes foram muito bem planejadas para terem sido decididas na hora
em um ataque de rua.
- Concordo. Voc est lidando com uma pessoa que tem a mente organizada e
 ambiciosa. Seu assassino tambm est curtindo o trabalho dele, razo pela qual
eu acho que vai haver mais.
- O trabalho dele, ou dela - completou Eve. - O fator da inveja pode nos levar a
uma mulher. Talvez essas duas mulheres fossem tudo o que ela desejava ser.
Lindas, bem-sucedidas, admiradas, famosas, fortes. Muitas vezes so os fracos que
matam.
- Com frequncia. No, realmente no  possvel determinar o sexo do
assassino a partir dos dados que temos a esta altura. S podemos  trabalhar com a
forte probabilidade de que o assassino tem como alvo mulheres que atingiram um
alto grau de reconhecimento pblico.
- E o que eu devo fazer, ento, a respeito de tudo isso, doutora Mira? Colocar
um alarme em todas as mulheres importantes, conhecidas e bem-sucedidas da
cidade, incluindo a senhora?
- Engraado. Eu estava pensando mais era em voc.
- Eu? - Eve balanou o ch, que nem sequer tinha provado, e o colocou sobre
a mesa, com um estalo. - Isso  ridculo.
- Acho que no. Voc se tornou um rosto familiar para o pblico, Eve. Devido
ao seu trabalho, certamente, mais especificamente desde o caso que resolveu no
inverno passado.  muito respeitada em seu campo de atuao. E... - continuou
antes que Eve tivesse a chance de interromper - voc tambm tem mais uma
ligao importante, com ambas as vtimas. Todas vocs tiveram um relacionamento
com Roarke.
Eve sentiu o sangue desaparecer por completo de seu rosto. Era algo que ela
no podia controlar. Mas fez de tudo para manter a voz firme e dura.
- Doutora, Roarke teve um relacionamento de negcios, um contato
relativamente pequeno com Cicely Towers. No caso de Yvonne Metcalf, a parte
ntima do relacionamento entre eles j acabou h algum tempo.
- Mesmo assim voc sente essa necessidade de defend-lo junto a mim.
- Eu no o estou defendendo - reagiu Eve. - Estou citando fatos. Roarke  mais
do que capaz de se defender.
- Sem dvida.  um homem forte, com vitalidade e astcia. Mesmo assim voc
se preocupa com ele.
- Na sua opinio profissional, Roarke  o assassino?
- No, absolutamente.  claro que no tenho dvidas de que, se tivesse a
chance de analis-lo, ia encontrar um instinto assassino bastante desenvolvido. - A
verdade  que Mira teria adorado a oportunidade de estudar a mente de Roarke. -
Apesar disso, sua motivao teria de estar bem delineada. Um grande amor ou um
grande dio. Duvido que haja muita coisa a mais que o faria ultrapassar a linha.
Pode relaxar, Eve - disse Mira baixando a voz. Voc no est apaixonada por um
assassino.
- No estou apaixonada por ningum. Alm do mais, meus sentimentos
pessoais no vm ao caso.
- Pelo contrrio, o estado mental de uma investigadora  sempre fator
importante. E, se me pedirem para dar uma opinio a seu respeito, vou ter de dizer
que a achei  beira da exausto, emocionalmente arrasada e com srios problemas.
Eve pegou o disco com o perfil psicolgico e se levantou.
- Ento,  uma sorte que a senhora no seja solicitada a externar a sua
opinio. Sou perfeitamente capaz de fazer o meu trabalho.
- No duvido desse fato, nem por um momento. Mas e quanto ao custo disso
para voc mesma?
- O custo seria ainda mais alto se eu no o fizesse. Vou achar quem matou
aquelas mulheres. Depois vai depender de algum como Cicely Towers para afastar
essa pessoa da sociedade. - Eve enfiou o disco na bolsa. - Tem mais uma conexo
que a senhora deixou de fora, doutora Mira. Uma coisa que aquelas duas mulheres
tinham em comum. - O olhar de Eve era duro e frio. - A famlia. Ambas tinham
famlias muito chegadas, que formavam uma parte ampla e importante de suas
vidas. Eu diria que isso me deixa livre da possibilidade de ser um alvo, a senhora
no acha?
- Talvez. Voc anda pensando muito em sua famlia, Eve?
- No brinque comigo.
- Foi voc que mencionou - assinalou Mira. - Voc sempre tem muito cuidado
com o que me diz, ento s me resta imaginar que o tema famlia est em sua
cabea.
- Eu no tenho famlia - reagiu Eve. - E o tema que tenho na cabea 
assassinato. Se a senhora quiser colocar no relatrio que me acha inadequada para
a tarefa, por mim tudo bem.
- Quando  que voc vai confiar em mim? - Havia um pouco de impacincia na
voz calma da psiquiatra pela primeira vez desde que Eve se lembrava. - Ser que 
to impossvel voc acreditar que me importo muito com voc? Pois saiba que eu
me importo -continuou Mira, enquanto Eve piscava, surpresa. - E a compreendo
melhor do que voc quer admitir.
- No preciso que a senhora me compreenda. - Havia um tom nervoso na voz
de Eve agora. Ela mesma sentiu. - No estou aqui fazendo uma bateria de testes,
nem em sesso de terapia pessoal.
- No h nenhum gravador ligado, Eve. - Mira colocou a xcara sobre a mesa
com tanta fora que Eve enfiou as mos nos bolsos. - Voc acha que foi a nica
criana no mundo que conviveu com o horror e o abuso? A nica mulher no mundo
que lutou para superar isso?
- Eu no tenho de superar nada. Eu nem me lembro...
- Meu padrasto me estuprou repetidamente desde que eu tinha doze anos, at
completar quinze - disse Mira, calmamente, e isto interrompeu os frios protestos de
Eve. - Durante aqueles trs anos eu vivi sem jamais saber quando aquilo ia voltar a
acontecer, s sabia que aconteceria. E no havia ningum que me desse ouvidos.
Abalada, tremendo, Eve cruzou os braos com fora sobre o peito.
- No quero saber de nada, no quero ouvir. Por que est me contando isso?
- Porque eu olho dentro dos seus olhos e vejo a mim mesma. S que voc tem
algum que pode ouvi-la, Eve.
- Por que o seu problema acabou? - Eve ficou em p onde estava,
umedecendo os lbios secos.
- Porque eu finalmente tomei coragem de procurar um centro de proteo
contra abuso, contei tudo  conselheira e me submeti aos exames fsicos e
psiquitricos. O terror de tudo isso e a humilhao j no me pareciam to fortes
quanto a alternativa.
- E que motivos eu teria para ficar me lembrando de tudo? perguntou Eve. - J
acabou.
- E por que voc no est dormindo bem?
- A investigao...
- Eve...
O tom de voz gentil e suave fez com que Eve fechasse os olhos. Era to difcil,
to irritante lutar contra aquela calma compaixo!
- Imagens do passado - murmurou, detestando-se pela demonstrao de
fraqueza. - Pesadelos.
- De antes do momento em que voc foi encontrada, no Texas?
- Apenas flashes, pedaos.
- Eu posso ajud-la a juntar esses pedaos.
- E por que razo eu ia querer junt-los?
- Voc j no comeou a fazer isso? - Agora era Mira que estava em p. - Voc
consegue fazer o seu trabalho, com isso assombrando o subconsciente. Venho
observando voc h anos. S que a felicidade a deixa esquiva, e vai continuar
sendo assim at voc se convencer de que a merece.
- No foi culpa minha.
- No. - Mira colocou a mo sobre o brao de Eve com carinho. - No, no foi
culpa sua.
As lgrimas estavam ameaando cair, e aquilo era um choque e um embarao.
- No posso falar sobre isso, doutora.
- Minha cara, voc j comeou a fazer isso. E eu estarei aqui  sua disposio,
sempre que estiver disposta a faz-lo de novo. Esperou at Eve chegar  porta. -
Posso lhe fazer uma pergunta?
- A senhora sempre faz perguntas.
- Por que parar agora? - e Mira sorriu. - Roarke faz voc se sentir feliz?
- s vezes. - Eve apertou os olhos com fora e xingou baixinho. - Sim, sim, ele
me faz feliz. S que tambm est me tornando miservel.
- Isso  adorvel. Estou muito satisfeita, por ambos. Tente dormir um pouco,
Eve. Sei que voc no gosta de usar produtos qumicos, mas tente a visualizao
simples.
- Vou me lembrar disso. - Eve abriu a porta, mas continuou de costas. -
Obrigada, doutora.
- De nada.
A visualizao no ia ajudar muito, decidiu Eve. No depois de ver os relatrios
detalhados da autpsia.
O apartamento estava muito quieto e muito vazio. Ela estava arrependida de
ter deixado o gato com Roarke. Pelo menos Galahad serviria para lhe fazer
companhia.
Como seus olhos estavam ardendo de tanto analisar dados, ela se afastou da
mesa. Estava se sentindo sem energia para procurar por Mavis, e achou maantes
as opes de vdeo que apareceram na tela.
Pediu msica, ouviu por trinta segundos e ento mandou desligar.
Comida normalmente funcionava, mas quando foi olhar na cozinha, Eve se
lembrou de que no reabastecia o AutoChef h semanas. As opes eram poucas e
ela no estava com tanta fome a ponto de pedir comida de fora.
Decidida a relaxar, tentou os culos de realidade virtual que Mavis lhe dera no
Natal. Como a prpria Mavis tinha sido a ltima a us-los, eles estavam
configurados para a opo Danceteria, com o volume no mximo. Depois de um
ajuste apressado e uma grande quantidade de palavres, Eve o programou para
Praia nos Trpicos.
Ela podia sentir os gros da areia branca e quente debaixo dos ps, o calor do
sol sobre a pele e a brisa suave do oceano. Era maravilhoso estar ali, junto das
ondas, olhando o movimento das gaivotas e tomar um gole do drinque gelado que
tinha gosto de rum e frutas.
Havia mos em seus ombros nus, massageando-a. Suspirando, ela se deixou
relaxar de encontro a elas e sentiu a presena marcante de um homem encostado
s suas costas. Ao longe, sobre o mar azul, um veleiro branco seguia na direo do
horizonte.
Era fcil se virar e se deixar envolver pelos braos que a esperavam, e levantar
a boca para encontrar os lbios que queria. E depois deitar sobre a areia quente
com aquele corpo que se encaixava de forma to perfeita ao dela.
A excitao era to doce quanto a paz que sentia. O ritmo era to antigo
quanto as ondas que lambiam sua pele. Ela se deixou ser possuda, e estremeceu
enquanto suas necessidades iam de encontro  realizao total. O hlito dele estava
sobre o rosto dela, e o corpo dele unido ao dela no instante em que ela gemeu o seu
nome.
Roarke.
Furiosa consigo mesma, Eve arrancou os culos e os atirou para o lado. Ele
no tinha o direito de se intrometer ali, dentro de sua cabea. No tinha o direito de
trazer dor e prazer quando tudo o que ela queria era privacidade.
Ah, sim, ele sabia o que estava fazendo, pensou enquanto se punha em p e
comeava a andar de um lado para outro. Ele sabia exatamente o que estava
fazendo. E eles iam ter de acertar aquilo de uma vez por todas.
Bateu a porta do apartamento com fora, atrs de si. No lhe ocorreu, at
entrar pelos portes de segurana da casa de Roarke, que era possvel que ele no
estivesse sozinho.
Esta ideia era to irritante, to devastadora, que ela subiu os degraus de dois
em dois e bateu na porta com uma violenta exploso de energia.
Summerset estava  espera dela.
- Tenente, j  uma e vinte da manh.
- Eu sei que horas so - e rangeu os dentes quando ele se colocou na frente
dela para bloquear-lhe a escadaria. - Olhe, vamos deixar uma coisa bem clara, meu
chapa. Voc me odeia e eu odeio voc. A diferena  que eu tenho um distintivo.
Agora tire o rabo do caminho, seno eu vou rebocar a sua bunda magra at a
delegacia por obstruir a passagem de uma policial.
O mordomo se cobriu de uma dignidade que lhe caa como seda.
- Com isso, imagino que a senhorita queira dizer que est aqui, a esta hora, em
misso oficial, tenente?
- Imagine o que quiser. Onde ele est?
- Se a senhorita especificar o que deseja, ficarei feliz em localizar onde Roarke
se encontra neste instante, para verificar se ele est disponvel para receb-la.
Sem pacincia, Eve deu-lhe uma cotovelada na barriga e passou ao largo de
sua figura ofegante.
- Pode deixar que eu mesma descubro - afirmou, j subindo a escada.
Ele no estava na cama, nem sozinho nem acompanhado. Eve no sabia
exatamente como se sentiu com relao a isso ou o que teria feito se o encontrasse
enroscado em alguma loura. Recusando-se a pensar naquilo, girou o corpo e
marchou em direo ao escritrio, com Summerset colado atrs dela.
- Eu pretendo apresentar uma queixa contra a senhorita.
- Pode apresentar - disse ela por trs dos ombros.
- A senhorita no tem o direito de invadir uma propriedade particular no meio
da noite. No vai perturbar Roarke - e espalmou a mo na porta quando ela chegou
l. - No vou permitir.
Para surpresa de Eve, ele estava sem flego e com o rosto vermelho. Seus
olhos estavam saltando das rbitas. Aquilo era mais emoo, decidiu, do que ela
achou que ele fosse capaz de ter.
- Isso realmente deixa voc pau da vida, no ?
Antes que conseguisse impedir, ela apertou o mecanismo e a porta se abriu
para o lado.
Summerset a segurou, e Roarke, que estava voltado para a janela, observando
a cidade, se virou e teve a curiosa surpresa de ver os dois agarrados.
- Torne a colocar a mo em mim, seu filho da me de bunda apertada, e eu
ponho voc a nocaute - e levantou o punho para demonstrar. - A satisfao disso
bem que vale o meu distintivo.
- Summerset - disse Roarke com suavidade - acho que ela est falando srio.
Por favor, deixe-nos a ss.
- Ela abusou da autoridade...
- Deixe-nos a ss - repetiu Roarke. - Eu tomo conta disso.
- Como quiser. - Summerset colocou o palet no lugar e saiu, com passos
largos, mancando ligeiramente.
- Se voc quiser me deixar do lado de fora - atirou Eve enquanto marchava em
direo  mesa - vai ter de arrumar algum melhor do que esse co de guarda
desbundado.
Roarke simplesmente cruzou os dedos sobre a mesa.
- Se eu quisesse mant-la fora daqui, voc no conseguiria nem ter passado
pela segurana do porto l de fora. - Deliberadamente, deu uma olhada no relgio.
- Est meio tarde para interrogatrios oficiais.
- J estou cansada de pessoas me dizendo que horas so.
- Muito bem, ento - e se recostou na cadeira. - O que posso fazer por voc?
CAPTULO NOVE
Atacar era a escolha emocional. Eve podia justificar isto como o caminho lgico
tambm.
- Voc esteve envolvido com Yvonne Metcalf.
- Como j contei a voc, ramos amigos. - Roarke abriu uma caixa antiga de
prata que estava sobre a mesa e pegou um cigarro. - Durante algum tempo, amigos
ntimos.
- Quem  que mudou o aspecto do relacionamento, e quando?
- Quem? Hummm... - Roarke ficou pensando sobre o assunto enquanto
acendia o cigarro e soprou uma leve nuvem de fumaa. - Acho que foi uma deciso
mtua. A carreira dela estava decolando rapidamente, provocando muita demanda
em termos de tempo e energia. Poderamos dizer que ns nos afastamos.
- Vocs brigaram?
- Acredito que no. Yvonne raramente era briguenta. Achava a vida muito...
divertida. Quer um pouco de conhaque?
- Estou de servio.
- Sim,  claro que est. Mas eu no estou.
Quando ele se levantou, Eve viu o gato pular de seu colo. Galahad a examinou
com seus olhos bicolores antes de se sentar e comear a se lamber. Ela estava
ocupada demais, olhando de cara feia para o gato, para reparar que as mos de
Roarke no estavam to firmes quando ele estava diante do bar entalhado,
despejando conhaque da garrafa na taa.
- Bem - disse ele fazendo o copo girar levemente, com meia sala de distncia
entre eles. - Isso  tudo?
No, pensou ela, estava longe de ser tudo. Se ele no a ajudasse de livre e
espontnea vontade, ela ia bisbilhotar, espicaar e usar seu crebro astuto sem
piedade nem receio.
- A ltima anotao do dirio dela em que o seu nome aparece tem um ano e
meio.
- Tudo isso?... - murmurou Roarke. Ele lastimava, e muito, por Yvonne. Mas
tinha seus prprios problemas no momento, e o maior deles estava em p diante
dele, no outro lado da sala, observando-o com olhos turbulentos. - No pensei que j
fizesse tanto tempo.
- Essa foi a ltima vez em que a viu?
- No, tenho certeza de que no. - Olhou para o conhaque, lembrando-se dela.
- Eu me recordo que dancei com ela em uma festa, no Rveillon do ano passado.
Ela veio aqui para casa, comigo.
- Voc dormiu com ela - disse Eve em tom neutro.
- Tecnicamente, no dormi. - Sua voz mostrou uma ponta de irritao. - Fiz
sexo com ela, conversamos, tomamos um caf da manh tardio.
- Vocs reataram o antigo relacionamento?
- No. - Ele escolheu uma poltrona e ordenou a si mesmo que curtisse o
conhaque e o cigarro. De modo casual, cruzou as pernas  altura dos tornozelos. -
Poderamos ter reatado, mas estvamos muito ocupados com os prprios projetos.
Depois daquilo no ouvi mais falar dela por seis ou sete semanas.
- E?...
Ele a dispensara, lembrou naquele instante. De modo casual e descontrado.
Talvez de modo impensado.
- Eu disse a Yvonne que estava... Envolvido com algum - e examinou a brasa
brilhante na ponta do cigarro. - Por essa poca eu estava me apaixonando por outra
pessoa.
Os batimentos cardacos de Eve se aceleraram. Olhou para ele, enfiando as
mos nos bolsos.
- Roarke, eu no posso elimin-lo da lista de suspeitos, a no ser que me
ajude.
- No pode? Ento tudo bem.
- Droga, Roarke, voc  a nica pessoa que esteve envolvida com as duas
vtimas!
- E qual foi o meu motivo, tenente?
- No use esse tom de voz comigo! Odeio quando voc faz isso. Frio,
controlado, superior. - Desistindo, ela comeou a andar de um lado para outro. - Eu
sei que voc no teve nada a ver com os assassinatos, e tambm no h nenhuma
prova que possa servir de base ao seu envolvimento. S que isso no quebra a
conexo.
- E torna as coisas difceis para voc, porque o seu nome, por sua vez, est
ligado ao meu. Ou estava.
- Posso lidar com isso.
- Ento por que voc perdeu peso? - quis saber ele. - Por que o seu rosto est
com olheiras? Por que est parecendo to infeliz?
Ela pegou o gravador e o colocou com fora sobre a mesa. Uma barreira entre
eles.
- Roarke, eu preciso que me conte tudo o que sabe a respeito dessas
mulheres. Cada detalhe, mesmo que seja mnimo e insignificante. Droga, droga,
droga! Eu preciso de ajuda! Tenho de descobrir por que motivo Cicely Towers iria
at West End no meio da noite. Por que motivo Yvonne Metcalf iria se aprontar toda
para descer at o jardim dos fundos do prdio  meia-noite.
- Voc est me dando mais crdito do que eu mereo, Eve. Bateu a ponta do
cigarro e se levantou, lentamente. - No conhecia Cicely to bem assim. Tnhamos
negcios em comum e nos encontrvamos socialmente do modo mais eventual
possvel.  s voc se lembrar do meu passado e da posio dela. Quanto a
Yvonne, ramos amantes. Eu gostava dela, de sua energia, do seu pique. Sabia que
tinha ambies. Ela queria o estrelato e conseguiu, merecia aquilo. Mas no consigo
descrever a mente de nenhuma das duas.
- Voc conhece as pessoas - argumentou ela. - Possui um jeito de entrar em
suas cabeas. Nada, jamais, o pega de surpresa.
- Voc pega - murmurou. - Continuamente. Eve apenas balanou a cabea.
- Diga-me por que acha que Yvonne Metcalf saiu de casa para se encontrar
com algum no jardim.
- Por promoo, glria, empolgao, amor. - Tomou um gole do conhaque e
encolheu os ombros. - Provavelmente nessa ordem. Ela teria se vestido com
cuidado porque era vaidosa, admiravelmente vaidosa. A hora do encontro no
significaria nada para ela, pois era impulsiva, divertidamente impulsiva.
Eve soltou o ar. Era disso que ela precisava. Roarke podia ajudla a enxergar
melhor as vtimas.
- Havia outros homens?
Ele ficou pensando, ela notou, e se forou a parar, dizendo:
- Ela era adorvel, divertida, brilhante, boa de cama. Imagino que havia um
monte de homens em sua vida.
- Homens ciumentos ou zangados? Ele se mostrou surpreso.
- Voc quer dizer algum que poderia t-la matado porque ela no queria lhe
dar o que queria? Ou o que precisava? - Seus olhos se fixaram nos dela. -  uma
ideia. Um homem poderia fazer um grande estrago na vida de uma mulher por causa
disso, se a desejasse ou precisasse dela o bastante. Por outro lado, eu, por
exemplo, no matei voc. Ainda.
- Isto  uma investigao de assassinato, Roarke. No se faa de
engraadinho comigo.
- Engraadinho? - Ele surpreendeu os dois atirando a taa quase vazia do
outro lado da sala. O vidro se espatifou na parede e a bebida se espalhou em volta. -
Voc entra aqui arrebentando tudo pelo caminho, sem avisar, sem ser convidada, e
espera que eu me sente bem quietinho, cooperando com voc feito um cachorro
treinado enquanto me interroga? Fica me fazendo perguntas a respeito de Yvonne,
uma mulher por quem eu me importava, e espera que eu responda animadamente,
enquanto voc fica me imaginando na cama com ela.
Eve j vira seu gnio explodir e soltar fagulhas. Normalmente preferia isto ao
seu controle glido. Naquele instante, porm, os nervos dela haviam se rompido
junto com o copo.
- No  pessoal e no  um interrogatrio.  uma consulta junto a uma fonte
til. Estou fazendo o meu trabalho.
- Isso no tem nada a ver com o seu trabalho, e ns dois sabemos disso. Se
em voc houver uma semente de dvida sobre eu ter tido alguma coisa com o rasgo
na garganta dessas duas mulheres, ento eu cometi um erro ainda maior do que
imaginava. Se est tentando me incriminar, tenente, faa isto usando o seu tempo, e
no o meu. - Pegou o gravador em cima da mesa e o atirou na direo dela. - E da
prxima vez traga um mandado.
- Estou tentando eliminar voc por completo.
- E j no fez isso? - Voltou para trs da mesa e se sentou, cansado. - V
embora. Estou cheio de tudo isso.
Ela ficou surpresa por no tropear no caminho at a porta, pelo modo com
que seu corao estava batendo e os joelhos tremiam. Lutou para conseguir um
pouco de ar ao esticar a mo para abrir a porta. Da mesa, Roarke se xingou de tolo
e apertou o boto que trancava a fechadura. Os dois que se danassem, mas ela no
ia abandon-lo daquele jeito.
Ele estava abrindo a boca para falar quando ela se virou, a poucos centmetros
da porta. Havia fria em seu rosto agora.
- Tudo bem, droga, tudo bem. Voc venceu. Estou me sentindo podre. Era isso
o que queria? No consigo dormir, no consigo comer.  como se alguma coisa
dentro de mim tivesse se quebrado e eu mal consigo desempenhar o meu trabalho.
Est feliz agora?
Ele sentiu o primeiro sintoma de alvio e o aperto em volta do corao afrouxou
um pouco.
- Deveria estar?
- Eu estou aqui, no estou? Estou aqui porque no aguentava mais ficar longe.
- Agarrando o cordo sob a blusa, voltou pisando firme at ele. - Estou usando esta
porcaria!
Ele olhou para o diamante que ela balanou na cara dele. Ele refulgiu, cheio de
fogo e segredos.
- Como eu disse, Eve, ele combina com voc.
- , combina muito... - resmungou e girou o corpo. - Ele faz com que eu me
sinta uma idiota, mas tudo bem, vou ser idiota. Vou me mudar para c. Vou tolerar
aquele rob ofensivo que voc chama de mordomo. Vou usar diamantes. S no... -
e parou de falar, cobrindo o rosto, enquanto os soluos se apoderavam dela. - Eu
no aguento mais isso.
- No. Pelo amor de Deus, no chore!
- Estou s cansada. - E se balanou para sentir um pouco de conforto. -
Apenas cansada, s isso.
- Ento me xingue. - Ele se levantou, abalado e mais do que aterrorizado, pelo
ataque de choro. - Atire alguma coisa em cima de mim. D um soco na minha cara.
Ela recuou quando ele tentou alcan-la.
- No - respondeu ela. - Preciso s de um minuto quando estou fazendo papel
de boba.
Ignorando isso, ele a puxou para junto dele. Ela tentou se afastar duas vezes,
mas ele a trouxe de volta, com firmeza, para junto dele. Ento, em um gesto
desesperado, os braos dela o envolveram, apertando-o com fora.
- No v embora - pediu ela, apertando o rosto contra o ombro dele. - No v
embora.
- No estou indo a lugar algum. - Devagar, ele fez um carinho nas costas dela e
embalou sua cabea. Ser que havia algo mais surpreendente ou mais assustador
para um homem, meditou ele, do que uma mulher forte coberta de lgrimas? - Eu
estive aqui o tempo todo. Eu a amo, Eve, mais do que consigo suportar.
- Eu preciso de voc. No consigo evitar. No quero isso.
- Eu sei. - Ele se afastou um pouco e pegou-lhe o queixo, para levantar o rosto
dela na direo do dele. - Vamos ter de aprender a lidar com isso. - Beijou-lhe
primeiro uma das faces molhadas e depois a outra. - Eu no consigo viver sem voc.
- Voc me mandou embora.
- Mas tranquei a porta. - Seus lbios sorriram ligeiramente antes de acariciar os
dela. - Se voc tivesse esperado mais algumas horas, eu teria ido procurar por voc.
Estava aqui sentado agora  noite, tentando me convencer a no fazer isso, sem
sucesso. Foi quando voc entrou de repente. Eu estava perigosamente prximo de
me colocar de joelhos.
- Por qu? - Ela tocou o rosto dele. - Voc poderia ter qualquer mulher.
Provavelmente tem,  hora que quiser.
- Por qu? - e jogou a cabea para o lado. - Essa  difcil de responder. Ser
que  pela sua serenidade, seu jeito calmo, sua percepo impecvel das coisas
que esto na moda? - Fez bem ao seu corao ver o sorriso curto e divertido que ela
lanou. - No, s posso estar pensando em outra pessoa. Acho que  a sua
coragem, a absoluta dedicao em deixar a balana do mundo equilibrada, a sua
mente inquieta, e aquele doce recanto no corao que a impulsiona a se importar
tanto e com tanta gente.
- Essa no sou eu.
- Ah, mas  claro que  voc, minha querida Eve - e tocou os seus lbios com
os dele. - Da mesma forma que este sabor  o seu, o cheiro, o jeito, o som. Voc me
desmontou. Vamos conversar - murmurou, passando a ponta dos polegares em seu
rosto para secar-lhe as lgrimas. - Vamos descobrir um modo de fazer com que isso
funcione para ns dois.
Ela prendeu a respirao de modo entrecortado.
- Eu amo voc. - E soltou o ar. - Ah, Deus.
A emoo que o varreu por dentro foi como uma tempestade de vero, rpida,
violenta e depois pura. Pleno com esta sensao, ele uniu as sobrancelhas com as
dela.
- Voc no se engasgou quando disse isso.
- Acho que no. Talvez eu acabe me acostumando. - E talvez seu estmago
no se remexesse como uma lagoa cheia de sapos da prxima vez. Levantando a
cabea, encontrou os lbios dele.
Em um instante o beijo se tornou quente, insacivel e cheio de energia
represada. Ela sentia o sangue rugir dentro da cabea, to alto e to feroz que nem
conseguiu ouvir o momento em que repetiu as palavras, mas as sentiu, pelo jeito
com que seu corao corcoveou e se avolumou.
Sem conseguir respirar, e j se sentindo molhada, ela agarrou as calas dele.
- Agora - pediu ela. - Agora mesmo.
- Sim, neste momento - e arrancou-lhe a blusa por cima da cabea antes
mesmo de chegarem ao cho.
Rolaram, tateando um em busca do outro. Os braos e as pernas se
emaranharam. Tonta de fome, ela enterrou os dentes nos ombros dele enquanto ele
puxava seu jeans para baixo. Ele teve apenas um momento em que registrou com o
tato a pele dela sob as mos, suas formas, o calor que vinha dela, e ento tudo se
transformou em uma massa de sentidos, uma mistura de cheiros e texturas que se
friccionavam de encontro  necessidade urgente de unir os corpos.
A finesse ia ter de esperar, e a ternura tambm. O instinto animal tomou conta
dos dois, devorando-os at mesmo depois que ele j estava dentro dela,
bombeando-a loucamente. Ele podia sentir o corpo dela se agarrar ao dele e ficar
mais tenso, e ouviu o gemido longo e baixo da libertao que trepidou atravs dela.
E se esvaziou por completo, liberando corao, alma e semente.
Ela acordou na cama dele com a tnue luz do sol atravessando os filtros das
janelas. Com os olhos fechados, esticou o brao e encontrou o espao ao seu lado
ainda quente, mas vazio.
- Mas... como foi que eu vim parar aqui? - perguntou a si mesma em voz alta.
- Eu carreguei voc.
Seus olhos se abriram de repente e ela viu a imagem de Roarke entrar em
foco. Ele estava sentado, nu, com as pernas cruzadas  altura dos joelhos,
observando-a.
- Voc me carregou?
- Voc pegou no sono, no cho - e se inclinou para passar a ponta do polegar
sobre a bochecha de Eve. - Voc no devia trabalhar assim, at a exausto, Eve.
- Voc me carregou - repetiu ela, muito grogue para decidir se estava com
vergonha ou no. - Acho que estou com pena por ter perdido isso.
- Temos bastante tempo para repetir a cena. Estou preocupado com voc.
- Eu estou bem. Estou s... - e olhou as horas no relgio ao lado da cama. -
Meu Deus, j so dez horas! Dez da manh?
Ele usou uma das mos para empurr-la de volta para a cama quando ela
comeou a se mexer para levantar.
- Hoje  domingo, Eve - informou.
- Domingo? - Completamente desorientada, esfregou os olhos para clare-los. -
Perdi a noo do dia! - Ela no estava de servio, lembrou, mas, mesmo assim...
- Voc precisa dormir um pouco - disse ele, lendo a sua mente. - E precisa de
combustvel, algo mais alm de cafena. Pegou o copo na mesinha e estendeu o
brao para ela.
- Que  isso? - perguntou ela, desconfiada, ao observar o lquido cor-de-rosa
claro.
- Uma coisa boa para voc. Beba. - Para ter certeza de que ela ia beber, levou
o copo at os seus lbios. Ele poderia ter dado o indutor energtico sob a forma de
plula, mas sabia que ela no gostava de nada que lembrasse droga. -  uma
coisinha que os meus laboratrios esto desenvolvendo. Devemos colocar no
mercado dentro de seis meses.
-  experimental? - Ela franziu o cenho.
-  completamente seguro. - Ele sorriu e colocou o copo vazio de volta na
mesinha. - At agora quase ningum morreu.
- R-r... - Ela se sentou novamente, sentindo-se surpreendentemente
relaxada e incrivelmente alerta. - Tenho de ir para a Central de Polcia, para
trabalhar um pouco nos outros casos que esto em minha mesa.
- Voc precisa de um tempo de folga - e levantou a mo antes que ela tivesse
tempo de argumentar. - Um dia. Pelo menos uma tarde. Gostaria que voc passasse
esse tempo comigo, mas mesmo que voc fique sozinha, precisa do descanso.
- Bem, acho que posso tirar umas duas horas. - Sentou-se e envolveu-lhe o
pescoo com os braos. - O que est pensando em fazer?
Sorrindo, ele rolou com ela sobre a cama. Desta vez houve finesse, e houve
ternura.
Eve no ficou surpresa ao ver a pilha de mensagens que esperava por ela. O
domingo deixara de ser um dia de descanso h dcadas. Seu disco de mensagens
apitava o tempo todo, informando mensagens recebidas de Nadine Furst, do
arrogante e astuto Morse, outra dos pais de Yvonne Metcalf, que a deixou
massageando os olhos, e uma mensagem curta de Mirina Angelini.
- Voc no pode livr-los da dor, Eve - disse Roarke por trs dela.
- O qu?
- Os Metcalf. Posso ver em seu rosto.
- Sou tudo o que eles tm para se agarrar - e acessou o sistema de correio
eletrnico, para acusar a recepo das mensagens. Eles precisam saber que existe
algum que est cuidando da filha.
- Gostaria de dizer uma coisa.
Eve olhou para cima, preparando-se para ouvir um sermo sobre a importncia
do descanso, da objetividade e do distanciamento profissional.
- Desembuche logo para eu poder voltar ao trabalho.
- J lidei com muitos policiais na vida. J fugi deles, j os subornei, j consegui
super-los estrategicamente, ou simplesmente os deixei para trs.
Com um olhar divertido, ela encostou o quadril na quina da mesa, dizendo:
- No sei se voc deveria estar me contando essas coisas. Seus registros na
polcia so estranhamente limpos.
- Claro que so. - Em um impulso, beijou-lhe a ponta do nariz. - Eu paguei para
isso.
- Escute, Roarke - e franziu o cenho - o que eu no sei a seu respeito no pode
prejudic-lo.
- O que eu quero dizer  - continuou ele, suavemente que eu j lidei com
muitos policiais ao longo dos anos. Voc  a melhor.
- Ora, eu... - Pega completamente de surpresa, ela piscou.
- Voc vai sempre defender os mortos e os que sofrem. Fico comovido com
voc.
- Ah, corta essa, Roarke! - Terrivelmente envergonhada, mudou de posio. -
Estou falando srio.
- Voc pode usar essa fora quando responder  mensagem de Morse e tiver
de enfrentar a sua vozinha irritante.
- Eu no vou responder a ele.
- Mas j deu incio  resposta das transmisses.
- Apaguei a primeira mensagem - e sorriu. - Opa, foi sem querer!
Com uma gargalhada, ele a pegou no colo, levantando-a da mesa.
- Gosto do seu estilo, tenente.
Ela se deixou entregue quele momento, passando os dedos pelos cabelos
dele antes de tentar se soltar.
- S que neste instante voc est me tolhendo. Chegue para trs enquanto eu
vejo o que Mirina Angelini quer. Afastando-o do campo de viso do aparelho, ela se
conectou ao nmero e esperou.
Foi a prpria Mirina que atendeu, com o rosto plido e tenso aparecendo na
tela.
- Sim? Oh, tenente Dallas. Obrigada por dar retorno to depressa. Achava que
a senhorita s ia responder amanh.
- Em que posso ajud-la, senhorita Angelini?
- Precisamos conversar, e o mais rpido possvel. No quero que isso acontea
atravs do comandante, tenente. Ele j fez muito por mim e pela minha famlia.
-  algo relacionado com a investigao?
- Sim, pelo menos eu acho que sim.
Eve fez um sinal com a mo para que Roarke sasse do escritrio. Ele
simplesmente ficou encostado em uma parede. Ela rangeu os dentes para ele, e
ento tornou a olhar para a tela.
- Ficarei feliz em encontr-la, senhorita Angelini, quando for mais conveniente.
-  disso que se trata, tenente, realmente vai ter de ser quando me for
conveniente. Meus mdicos no querem que eu torne a viajar por agora. Preciso
que a senhorita venha at aqui.
- Quer que eu v at Roma? Senhorita Angelini, mesmo que o departamento
autorizasse a viagem, eu preciso de algo concreto para justificar o tempo e as
despesas.
- Eu levo voc at l - disse Roarke, com descontrao.
- Fique quieto!
- Quem est ao seu lado? Tem mais algum a? - A voz de Mirina estremeceu.
-  Roarke que est comigo - respondeu Eve, falando entre dentes. - Senhorita
Angelini...
- Ah, tudo bem. Eu estava mesmo tentando localiz-lo. Ser que os dois
podiam vir juntos? Sei que isto parece uma imposio, tenente. Estou evitando usar
pistolo, mas farei isso se for necessrio. O comandante poderia autorizar a sua
viagem.
- Estou certa de que ele dar permisso - Eve falou em voz baixa. - Vou
encontr-la assim que isso acontecer. Manteremos contato - e encerrou a
transmisso. - Esses riquinhos mimados me deixam profundamente irritada!
- O pesar e a preocupao desconhecem limites financeiros,
- explicou Roarke.
- Ah, cale a boca! - Ela bufou de raiva e chutou, mal-humorada, a perna da
mesa.
- Voc vai gostar de Roma, querida - disse Roarke, e sorriu.
Eve realmente gostou de Roma. Pelo menos achou que sim, pelo pouco que
viu durante a rpida viagem do aeroporto at o apartamento dos Angelini que ficava
de frente para a escadaria da Piazza di Spagna: havia fontes, trfego e runas
antigas demais para ela poder acreditar.
Do banco de trs da limusine particular, Eve observava, com uma espcie de
pasmo desconcertante, os pedestres que desfilavam a ltima moda. Mantas
esvoaantes pareciam ser o forte da estao. Tecidos aderentes, transparentes ou
encorpados, em cores que iam de um tom plido, quase branco, at o bronze mais
escuro. Cintos enfeitados com jias pendiam das cinturas, combinando com sapatos
de salto baixo incrustados com pedras, e pequenas bolsas tambm com pedrarias,
usadas igualmente por homens e mulheres. Todo mundo parecia fazer parte da
realeza.
Roarke no imaginou que Eve fosse capaz de ostentar aquele olhar
abobalhado. Deu-lhe um enorme prazer notar que ela era capaz de esquecer sua
misso por algum tempo para olhar para tudo extasiada. Era uma pena, pensou, que
eles no pudessem ficar ali mais um ou dois dias, para que ele tivesse a
oportunidade de mostrar a cidade a ela, a sua grandeza e impossvel continuidade.
Ele chegou a ficar com pena quando o carro parou bruscamente junto ao meiofio
e a trouxe de volta  realidade.
-  bom que isto tudo valha a pena. - Sem esperar pelo motorista, ela saiu e
bateu a porta do carro. Quando Roarke a segurou pelo cotovelo, a fim de indicar-lhe
a entrada do prdio, ela virou a cabea para ele e franziu o cenho.
- Voc no fica nem um pouco chateado por ser intimado e ter de atravessar
um oceano inteiro s para ter uma conversa?
- Querida, eu costumo ir a lugares muito mais distantes por menos do que isso.
E sem uma companhia to agradvel.
Ela bufou e j ia tirando o distintivo para exibi-lo ao andride da segurana,
antes de se lembrar onde estava.
- Eve Dallas e Roarke. Viemos ver a senhorita Mirina Angelini.
- Os senhores so aguardados, Eve Dallas e Roarke. - O andride foi
deslizando at um elevador com grade dourada e digitou um cdigo.
- Voc bem que podia arrumar um desses - Eve apontou com a cabea na
direo do andride, antes de as portas se fecharem
- e dispensar o Summerset.
- Summerset tem um charme prprio.
- ... Pode apostar - e bufou outra vez, mais alto.
As portas se abriram diante de um saguo revestido de ouro e marfim, onde
uma pequena fonte em forma de sereia tilintava.
- Meu Deus! - sussurrou Eve, analisando as palmeiras e as pinturas. - Eu
nunca pensei que mais algum, alm de voc, vivesse assim.
- Bem-vindos a Roma. - Randall Slade entrou. - Obrigado por virem. Por favor,
entrem. Mirina est na sala de estar.
- Ela no mencionou que o senhor estaria aqui, senhor Slade.
- Tomamos juntos a deciso de cham-los.
Aguardando a hora de fazer perguntas, Eve entrou, passando  frente dele. A
parede da frente da sala de estar era totalmente feita de vidro transparente. Como o
prdio tinha apenas seis andares, Eve imaginou que o material era transparente s
de dentro para fora. Apesar da altura relativamente pequena, dava para ter uma
vista fulgurante da cidade.
Mirina estava sentada de modo recatado sobre uma poltrona curva, segurando
uma xcara de ch com mos que tremiam ligeiramente.
Parecia ainda mais plida, se  que era possvel, e mais frgil do que antes,
vestindo uma tnica azul-claro, muito na moda. Seus ps estavam descalos, e as
unhas estavam pintadas em um tom que combinava com a tnica. Arrumara o
cabelo com um coque severo, preso por um pente cravejado de pedrarias. Eve
achou que ela se parecia com uma daquelas deusas da Roma antiga, mas seus
conhecimentos de mitologia eram muito precrios para identificar qual.
Mirina no se levantou, nem sorriu, mas pousou a xcara e pegou um elegante
bule branco para servir duas xcaras a mais.
- Espero que me acompanhem no ch.
- No vim aqui para festejar, senhorita Angelini.
- No, mas o fato  que veio, e fico-lhe grata.
- Espere, deixe que eu sirvo. - Com uma graa leve, que quase mascarava o
barulho que as xcaras faziam nas mos trmulas de Mirina, Slade as tomou de suas
mos. - Por favor, sentem-se convidou. - No vamos prend-los aqui mais do que o
necessrio, mas gostaramos que estivessem confortveis.
- Eu no tenho jurisdio alguma aqui - comeou Eve enquanto se sentava em
uma cadeira acolchoada, de costas baixas - mas gostaria de gravar esta reunio,
com a permisso de vocs.
Mirina olhou para Slade e mordeu o lbio.
- Sim,  claro - e limpou a garganta quando Eve pegou o gravador e o colocou
sobre a mesa que havia entre eles. - A senhorita j sabe a respeito das...
dificuldades que Randy teve, vrios anos atrs, no Setor 38.
- Eu sei - confirmou Eve - mas me disseram que a senhorita no sabia.
- Randy me contou tudo ontem. - Mirina esticou a mo sem olhar para o noivo,
e mais que depressa ele a segurou. - A senhorita  uma mulher forte e confiante,
tenente. Deve ser difcil para algum assim compreender aquelas de ns que no
possuem essa fora. Randy no tinha me contado antes porque temia que eu no
conseguisse lidar muito bem com o caso. So os meus nervos
- e moveu os ombros frgeis. - Crises nos negcios me deixam energizada.
Crises pessoais me deixam arrasada. Os mdicos dizem que isso  uma tendncia
escapista. Acham que eu prefiro no enfrentar os problemas.
-  que voc  delicada - afirmou Slade, apertando-lhe a mgo. - No h nada
de vergonhoso nisso.
- De qualquer modo, isso  algo que eu preciso enfrentar. Voc estava l -
disse, virando-se para Roarke - durante o incidente.
- Sim, estava na estao, provavelmente no cassino.
- E a segurana do hotel, os guardas que Randy chamou, tambm eram seus.
-  verdade. Todos possuem equipes de segurana privada. Os casos
criminais so transferidos para a magistratura, a no ser que possam ser resolvidos
em mbito particular.
- Voc quer dizer atravs de propinas.
- Naturalmente.
- Randy poderia ter subornado a segurana, mas no fez isso.
- Mirina - ele a acalmou com outro aperto em sua mo - eu no os subornei
porque no estava pensando de forma clara o bastante para fazer isso. Se
estivesse, no teria havido registros do caso e no estaramos conversando sobre
isso agora.
- As acusaes mais pesadas foram retiradas - lembrou Eve.
- O senhor recebeu a pena mnima pelas que restaram.
- E me asseguraram de que todo aquele assunto permaneceria enterrado. Isto
no aconteceu. Gostaria de tomar algo mais forte do que ch. Aceita, Roarke?
- Usque, se houver, dois dedinhos.
- Conte a eles, Randy - sussurrou Mirina enquanto ele programava dois
usques no bar embutido.
Ele fez que sim com a cabea, trouxe o copo de Roarke e ento entornou o seu
de uma vez s.
- Cicely ligou para mim na noite em que foi assassinada. Eve levantou a
cabea como um perdigueiro que sente o cheiro de sangue.
- No h registro dessa ligao no tele-link dela. No houve nenhuma ligao
para fora.
- Ela ligou de um telefone pblico. No sei de onde. Passava um pouco da
meia-noite, pelo seu horrio. Ela estava agitada, zangada.
- Senhor Slade, o senhor me disse durante o interrogatrio oficial que no teve
contato com a promotora Towers naquela noite.
- Eu menti. Tive medo.
- E agora quer retificar sua declarao anterior.
- Gostaria de revis-la. Mesmo sem o benefcio da presena de um advogado,
tenente, e ciente da punio por ter dado uma declarao falsa durante uma
investigao policial. Estou lhe afirmando agora que ela entrou em contato comigo
pouco antes de ser morta. Isto,  claro, me d um libi, se quiser ver por esse lado.
Seria quase impossvel eu conseguir viajar esta distncia e mat-la dentro do
espao de tempo que tinha. A senhorita pode,  claro, averiguar os registros das
ligaes que recebi.
- Esteja certo de que farei isso. O que foi que ela queria?
- Ela me perguntou se era verdade. Apenas isso, a princpio. Eu estava
distrado, trabalhando. Levei um momento para notar o quanto ela estava aborrecida
e depois, quando ela foi mais direta, demorou um pouco mais para eu compreender
que ela estava falando do Setor 38. Entrei em pnico, dei algumas desculpas. Mas
era impossvel mentir para Cicely. Ela me encostou na parede. Eu fiquei zangado,
tambm, enquanto discutamos.
Ele parou de falar, lanando um olhar para Mirina. Ele olhava para ela, pensou
Eve, como se estivesse esperando que ela se estilhaasse como vidro a qualquer
momento.
- Vocs discutiram, senhor Slade? - perguntou Eve.
- Sim. Sobre o que acontecera e por qu. Eu queria saber como foi que ela
havia descoberto, mas ela me cortou. Tenente, ela estava furiosa. Disse-me que eu
ia ter de resolver aquilo, pelo bem da filha dela. Depois, ento, ela ia resolver tudo
comigo. Terminou a ligao de forma abrupta, e eu procurei me estabilizar para
pensar naquilo, e para beber.
Ele foi novamente at Mirina, pousou a mo sobre o seu ombro e o acariciou.
- Era de manh bem cedo - continuou - pouco antes de amanhecer, quando
ouvi no noticirio que ela estava morta.
- Ela jamais conversara com o senhor sobre o incidente at aquela noite?
- No. Tnhamos um excelente relacionamento. Ela sabia a respeito do meu
vcio de jogo, e desaprovava aquilo, mas de forma leve. Ela estava acostumada com
David. Acho que ela nunca soube o quanto ns ramos amigos.
- Soube sim - corrigiu Roarke. - Ela me pediu para afastar vocs dois.
- Ah. - Slade sorriu para o copo vazio. - Isso explica o porqu de eu no ter
conseguido entrar no seu cassino, em Las Vegas II.
- Exatamente.
- E por que agora? - perguntou Eve. - Por que razo o senhor resolveu revisar
a sua declarao anterior?
- Comecei a me sentir acuado. Sabia o quanto Mirina ficaria magoada se
soubesse da histria por outra pessoa. Precisava contar a ela. Foi deciso dela
entrar em contato com a senhorita.
- Deciso nossa. - Mirina estendeu a mo novamente. No posso trazer minha
me de volta, e sei o quanto meu pai vai ficar abalado quando contarmos que Randy
foi usado para atingila. So coisas com as quais eu vou ser obrigada a conviver.
Consigo superar isso se souber que, quem quer que tenha usado Randy e a mim,
vai pagar por isso. Ela jamais teria sado de casa, jamais teria ido at l se no fosse
para me proteger.
Quando estavam novamente voando para oeste, Eve ficou andando de um
lado para outro dentro da confortvel cabine.
- Famlias. - Enfiou os polegares nos bolsos. - Voc alguma vez pensa nisso,
Roarke?
- Ocasionalmente. - J que ela estava disposta a conversar, ele desligou o
noticirio econmico que acompanhava em seu monitor pessoal.
- Se seguirmos esta teoria, Cicely Towers saiu naquela noite chuvosa como
me. Algum estava ameaando a felicidade de sua filha. Ela ia resolver o
problema. Mesmo que estivesse disposta a mandar Slade para escanteio, ela ia
consertar as coisas antes.
-  isso que imaginamos ser o instinto natural de um pai ou uma me.
- Ns sabemos que no  bem assim - Eve lanou um rpido olhar para ele.
- Eu no diria que as nossas experincias servem como norma, Eve.
- Tudo bem. - Pensativa, ela se sentou no brao da poltrona dele. - Ento, se 
to normal para uma me pular para proteger sua filha de qualquer problema, Cicely
Towers fez exatamente o que o assassino esperava. Ele a compreendia, sabia julgar
bem o seu carter.
- De modo perfeito, eu diria.
- Ela era tambm uma serva da lei. Seria obrigao sua, e certamente seu
instinto, notificar as autoridades, relatar qualquer ameaa ou tentativa de
chantagem.
- O amor de me  mais forte do que a lei.
- O dela era, e quem quer que a tenha matado sabia disso. Quem a conhecia
to bem? O amante, o ex-marido, o filho, a filha, Slade.
- E outros, Eve. Ela era uma voz forte e atuante, apoiava a maternidade
profissional, os direitos de famlia. Foram feitas dezenas de matrias sobre ela nos
ltimos anos, destacando seu compromisso pessoal com a famlia.
- Isso  arriscar muito, se guiar pela imprensa. A mdia pode ser, e ,
influencivel, ou deturpa uma histria para atingir os prprios objetivos. Eu diria que
o assassino dela sabia, no s supunha. Ele sabia. Deve ter havido contato pessoal
ou uma pesquisa muito extensa.
- Isso no ajuda a diminuir a lista de suspeitos. Eve descartou com um aceno
de mo.
- O mesmo vale para Yvonne Metcalf. Um encontro  marcado, mas no vai ser
especificamente documentado em seu dirio. Como  que o assassino sabia disso?
Porque conhecia os hbitos dela. Meu trabalho  descobrir os hbitos dele, ou dela.
Porque vai acontecer mais um crime.
- Est to certa disso?
- Estou, e a doutora Mira confirmou.
- Voc foi falar com ela ento. Inquieta, Eve se levantou novamente.
- Ele... fica mais fcil dizer ele, tem inveja, ressentimentos, e  fascinado por
mulheres poderosas. Mulheres que so conhecidas pelo pblico, mulheres que
deixam uma marca. A doutora Mira acha que as mortes podem ser motivadas pela
nsia de ter controle, mas eu duvido. Talvez pensar assim seria dar crdito demais
ao assassino. Talvez seja s pela emoo. O assdio, o fato de atrair a vtima com
uma isca, o planejamento. De quem ele estar  espreita agora?
- J se olhou no espelho?
- Hein?
- Voc tem noo da frequncia com que seu rosto tem aparecido nas telas,
nos jornais? - Lutando contra o prprio medo, ele se levantou, colocou as mos nos
ombros de Eve e leu o seu rosto.
- Voc j pensou nisso?
- Eu at gostaria que fosse assim - corrigiu ela - porque estaria bem preparada.
- Voc me assusta - conseguiu ele dizer.
- Voc me disse que eu era a melhor. - Riu e deu um tapinha na bochecha
dele. - Relaxe, Roarke, eu no vou fazer nenhuma burrice.
- Ah, agora vou dormir melhor.
- Falta quanto tempo para aterrissarmos? - Impaciente, ela se virou e foi at a
tela.
- Trinta minutos mais ou menos, imagino.
- Preciso encontrar Nadine.
- O que est planejando, Eve?
- Eu? Ah, estou planejando conseguir muitas matrias na imprensa - e enfiou
os dedos pelos cabelos em desalinho. - Voc no tem umas festas bem pomposas,
daquele tipo que a mdia adora cobrir e s quais a gente possa ir?
- Acho que posso conseguir uma ou outra - e soltou um suspiro.
- timo! Vamos marcar algumas dessas. - Eve se jogou em uma poltrona e
batucou com os dedos no joelho dele. - Acho que vou at mesmo aceitar algumas
daquelas roupas novas.
- Acima e alm. - Ele a levantou e a colocou sentada em seu colo. - Mas eu vou
ficar colado em voc, tenente.
- No trabalho com civis.
- Eu estava falando sobre fazer compras.
Os olhos de Eve se estreitaram enquanto a mo dele deslizava por baixo da
blusa dela.
- Isso  uma sondagem? -.
- Tudo bem. - Ela se virou e afastou as pernas. - S para saber.
CAPTULO DEZ
- Primeiro, vou gravar a minha introduo. - Nadine olhou em volta da sala de
Eve e ergueu uma sobrancelha. - No parece um santurio.
- Como disse?
- At agora voc vinha guardando esta sala como se fosse solo sagrado. - Com
casualidade, Nadine ajustava o ngulo do monitor de Eve. - Eu esperava mais do
que um closet apertado, com uma mesa de trabalho e duas cadeiras to gastas.
- Meu corao se sente em casa aqui - respondeu Eve calmamente e se
recostou em uma das cadeiras gastas.
Nadine jamais se considerara claustrofbica, mas achou que o bege das
paredes as fazia parecerem terrivelmente prximas, e achou que devia reavaliar a
sua fobia de lugares fechados. A nica janela da sala era minscula, e embora, sem
dvida, fosse  prova de balas, no tinha pelcula protetora e oferecia uma viso
estreita do movimentado trfego acima de uma estao de nibus areos.
A pequena sala, avaliou Nadine, parecia apinhada de gente.
- Eu achei que, depois que resolveu o caso DeBlass no inverno passado, voc
ganharia uma sala mais tchan, com uma janela de verdade, e talvez um tapete.
- Voc veio aqui para redecorar o ambiente ou para gravar uma matria?
- E o seu equipamento, Eve,  pattico. - Divertindo-se com aquilo, Nadine
estalou a lngua e balanou a cabea ao olhar para os aparelhos de Eve. - L no
estdio, relquias como estas so relegadas aos empregados do baixo escalo, ou,
o que  mais provvel, doadas em caridade para algum centro de reabilitao.
Eve disse a si mesma que no ia fazer cara feia e comentou:
- Ento, na prxima rodada de doaes lembre-se de mandar alguma coisa
para o Fundo do Departamento de Polcia e Segurana Pblica.
- L no Canal 75 - sorriu Nadine, encostando-se  mesa at mesmo a ral
possui um AutoChef pessoal na sala.
- Estou aprendendo a odiar voc, Nadine.
- E eu estou s colocando voc em ponto de bala para a entrevista. Sabe o que
eu queria, Dallas, j que voc est a fim de ganhar espao na mdia? Uma entrevista
pessoal e exclusiva, uma matria em profundidade, mostrando a mulher por trs do
distintivo. A vida e os amores de Eve Dallas, tenente do Departamento de Polcia da
Cidade de Nova York. O lado pessoal de uma servidora pblica.
Eve no resistiu e acabou fazendo cara feia, afinal.
- No abuse da sorte, Nadine.
- Ora, mas abusar da sorte  o que eu sei fazer de melhor. Nadine se atirou em
uma das cadeiras e a arrastou para o lado. Como est o ngulo, Pete?
O operador da cmera segurou uma pequena tela sem fio na palma da mo e a
levantou at a altura do rosto.
- Legal - respondeu ele.
- Pete  um homem de poucas palavras - comentou Nadine.
-  assim que eu gosto deles. Quer ajeitar o cabelo?
Eve se segurou e por pouco no passou os dedos pelo cabelo em desalinho.
Ela detestava estar diante de uma cmera. Odiava aquilo.
- No - respondeu.
- Voc  quem sabe. - Nadine pegou um pequeno estojo de maquiagem em
sua bolsa imensa, aplicou algo sobre os olhos e inspecionou os dentes para ver se
no havia manchas de batom. Tudo bem. - Jogou o estojo de volta na bolsa, cruzou
as pernas com elegncia, provocando um pequeno farfalhar de seda deslizando
sobre seda, e se virou de frente para a cmera. - Pode gravar.
- Gravando!
Seu rosto se modificou. Eve achou interessante olhar a transformao. No
momento em que a luz vermelha da cmera se acendeu, as feies de Nadine se
iluminaram e ganharam intensidade. Sua voz, que at aquele instante era rpida e
leve, ficou mais pausada e profunda, exigindo ateno.
- Eu sou Nadine Furst, falando direto da sala da tenente Eve Dallas, na Diviso
de Homicdios da Central de Polcia. Esta entrevista exclusiva tem como tema os
assassinatos violentos, e ainda no solucionados, da promotora Cicely Towers e da
premiada atriz Yvonne Metcalf. Tenente, os dois crimes tm ligao um com o
outro?
- As provas indicam essa possibilidade. Podemos confirmar, a partir do relatrio
do mdico legista, que as duas vtimas foram mortas pela mesma arma e pela
mesma mo.
- No h dvida quanto a isso?
- Nenhuma. Ambas foram assassinadas por uma lmina fina de corte reto, com
quase vinte centmetros de comprimento, que vai se estreitando do cabo at a
ponta, e  extremamente afiada. Nos dois casos, a vtima foi atacada de frente, com
um golpe firme da lmina que rasgou a garganta, da direita para a esquerda, em um
ngulo ligeiramente elevado.
Eve pegou uma caneta comprida em cima da mesa, fazendo Nadine se
encolher e piscar de susto quando a arrastou a poucos milmetros da garganta da
reprter, explicando:
- Foi desse jeito.
- Entendo.
- O golpe - continuou Eve - cortou a veia jugular, provocando uma volumosa e
instantnea perda de sangue, incapacitando a vtima de imediato e evitando que ela
gritasse por socorro ou tentasse se defender de algum modo. A morte ocorreu em
poucos segundos.
- Em outras palavras, o criminoso tinha pouco tempo a perder. Um ataque
frontal, tenente, no indicaria que as vtimas conheciam o assassino?
- No necessariamente, mas h outra prova que leva  concluso de que as
vtimas conheciam a pessoa que as atacou, ou estavam esperando para se
encontrar com algum. A ausncia de quaisquer feridas defensivas, por exemplo. Se
eu atacasse voc de forma inesperada... - Eve novamente esticou a mo com a
caneta e Nadine no mesmo instante levantou a mo para proteger a garganta. Como
v, a defesa  automtica.
- Isso  interessante - comentou Nadine, fazendo fora para manter o rosto
impassvel. - Temos os detalhes dos assassinatos em si, mas no dos motivos por
trs deles, nem do assassino. O que h em comum que sirva de ligao entre a
promotora Towers e Yvonne Metcalf?
- Estamos seguindo vrias linhas de investigao.
- A promotora Towers foi assassinada h trs semanas, tenente, e ainda no
h nem um suspeito sequer?
- Ainda no temos provas suficientes para efetuar uma priso no momento.
- Ento existem suspeitos?
- As investigaes esto prosseguindo com a maior rapidez possvel.
- E quanto aos motivos?
- As pessoas se matam umas s outras, Nadine, por uma infinidade de
motivos. Isso vem acontecendo desde que viemos do barro.
- Falando em termos bblicos - completou Nadine - assassinato  o crime mais
antigo que existe.
- Podemos dizer que tem uma longa tradio. Podemos filtrar certas tendncias
indesejveis por meio de pesquisas genticas e tratamentos qumicos; temos
mapeamentos cerebrais e isolamos indivduos em colnias penais tirando-lhes a
liberdade. A natureza humana, no entanto, permanece a mesma.
- So os motivos bsicos para a violncia que a sociedade no consegue filtrar:
amor, dio, ganncia, inveja, raiva.
- So eles que nos diferenciam dos andrides, no  mesmo?
- E nos tornam suscetveis a alegrias, pesares e paixes. Este seria um debate
para os cientistas e intelectuais. Qual desses motivos, no entanto, matou Cicely
Towers e Yvonne Metcalf?
- Sabemos apenas que uma pessoa as matou, Nadine. O propsito dele, ou
dela, permanece oculto.
- A polcia j traou um perfil psicolgico do assassino,  claro.
- Traamos - confirmou Eve. - E vamos us-lo, bem como todas as ferramentas
que estiverem ao nosso alcance, para encontrarmos o criminoso. Eu vou ach-lo -
disse Eve, deliberadamente virando os olhos para a cmera. - E depois que a porta
da cela estiver trancada atrs dele, os motivos no vo mais importar. Apenas a
justia.
- Isso soa como uma promessa, tenente. Uma promessa pessoal.
- E  uma promessa.
- O povo de Nova York est confiante no cumprimento dessa promessa. Eu sou
Nadine Furst, para o Canal 75. - Esperou um segundo e depois concordou com a
cabea. - Nada mal, Dallas. Vamos reapresentar esta matria na edio das seis da
tarde, depois s onze da noite e teremos um resumo no noticirio de meia-noite.
- timo - respondeu Eve. - V dar uma volta, Pete. O operador da cmera
encolheu os ombros e saiu da sala.
- Extra-oficialmente, s entre ns duas - continuou Eve. Quanto tempo no ar
voc pode me dar, Nadine?
- Tempo no ar para qu?
- Para exposio pessoal. Quero muito espao na TV.
- Sabia que havia alguma coisa por trs desse presentinho que voc me deu. -
Nadine expirou rapidamente, quase como se fosse um suspiro. - Devo dizer que
estou desapontada com voc, Dallas. No achei que gostasse tanto de aparecer.
- Vou servir de testemunha no caso Mondell daqui a duas horas. Voc
consegue levar uma cmera para l?
- Claro. O caso Mondell no d muito ibope, mas at que vale uns flashes. - Ela
pegou a agenda e anotou o horrio.
- E vou tambm participar de uma festa hoje  noite, no Novo Astria.  um
daqueles jantares beneficentes.
- O grande baile do Astria, eu sei. - O sorriso de Nadine se tornou sarcstico. -
No trabalho na rea de eventos sociais, Dallas, mas posso dar a dica para a central
de reportagens. Voc e Roarke sempre so um prato cheio para os fofoqueiros de
planto. Voc vai com o Roarke, no vai?
- Vou avisar a voc onde me encontrar pelos prximos dias continuou Eve,
ignorando o insulto. - Vou lhe passar todas as atualizaes sobre o caso, para
colocar no ar.
- timo! - Nadine se levantou. - Talvez voc acabe tropeando no assassino
quando estiver subindo a escadaria da fama e da fortuna. J arrumou algum agente,
Eve?
Por um momento Eve no disse nada e ficou batendo na mesa com as pontas
dos dedos unidas.
- Nadine, eu achava que a sua funo era a de jogar notcias no ar e preservar
o direito que o pblico tem de saber, e no a de dar lies de moral.
- E eu achava que a sua funo era a de servir e proteger, e no a de se
promover com isso. - Nadine pegou a bolsa pela ala. - A gente se encontra na
telinha, tenente.
- Nadine. - Satisfeita, Eve se recostou na cadeira. - Voc se esqueceu de um
daqueles motivos bsicos para a violncia. Emoo.
- Vou anotar. - Nadine alcanou a maaneta, mas deixou a mo escorregar
sobre ela. Quando se virou para trs, seu rosto estava plido de choque por baixo
da leve camada de maquiagem. Voc ficou maluca? Virou isca? Voc vai bancar a
isca?
- Deixei voc revoltada, no foi? - Sorrindo, Eve se permitiu o luxo de colocar
os ps sobre a mesa. A reao de Nadine a colocou vrios pontos acima na escala
de valores de Eve. - Achar que eu estava querendo todo esse espao na mdia s
para aparecer, e ver que eu estava conseguindo, deixou voc fula da vida. E vai
deix-lo furioso tambm. Voc no consegue ouvi-lo, Nadine? Olha s aquela
tenente bundona roubando todo o meu espao da mdia para si mesma!
Nadine voltou e se sentou novamente, devagar.
- Nessa voc me pegou, Dallas. No estou querendo ensinar a voc como
realizar o seu trabalho, mas...
- Ento no me ensine.
- Deixe-me s ver se eu estou entendendo a histria direito. Voc est
deduzindo que o motivo, pelo menos um deles, foi a emoo, a necessidade de
aparecer na mdia. Mate uns dois cidados comuns e voc consegue algum espao
na imprensa, claro, mas no to grande, no to intenso e completo.
- Mate duas pessoas importantes - completou Eve - com rostos conhecidos e o
cu  o limite.
- E ento voc resolveu se transformar em alvo.
-  s um palpite. - Pensativa, Eve coou o joelho, sem notar. - Pode ser que
tudo o que eu consiga seja algumas imagens idiotas da minha cara na TV
- Ou uma faca na garganta.
- Puxa, Nadine, assim eu vou comear a achar que voc se importa comigo!
- Acho que me importo. - Ela levou um instante analisando o rosto de Eve. -
Trabalho com policiais, em volta deles e em contato com eles, e isto j faz bastante
tempo. Voc acaba desenvolvendo um instinto para saber quem  que est s
contando tempo para a aposentadoria e quem  que realmente se interessa pelos
outros. E sabe o que me preocupa, Dallas? Voc se interessa demais pelos outros.
- Eu carrego um distintivo - replicou Eve com sobriedade e isto fez Nadine rir.
- Pelo jeito voc tambm anda vendo muitos daqueles vdeos antigos. Enfim, o
pescoo  seu, literalmente. Vou fazer de tudo para mant-lo exposto.
- Obrigada. Tem mais uma coisa - acrescentou Eve quando Nadine se levantou
novamente. - Se esta teoria tem algum peso, ento os futuros alvos vo continuar
sendo mulheres famosas e bem-sucedidas. Cuide do seu pescoo tambm, Nadine.
- Meu Deus! - Estremecendo, Nadine passou os dedos sobre a garganta. -
Obrigada pelo aviso, Dallas.
- O prazer foi todo meu, literalmente. - Eve ainda teve tempo de dar uma risada
depois que a porta se fechou, e logo depois veio a chamada convocando-a para a
sala do comandante.
Obviamente ele j soubera da reportagem.
Ela ainda estava um pouco insegura quando subiu, como um raio, as escadas
do tribunal. As cmeras estavam l como Nadine prometera. Estavam presentes 
noite tambm no Novo Astria, no momento em que ela colocou o p fora da
limusine de Roarke e fingiu que estava se divertindo.
Depois de dois dias dando de cara com alguma cmera a cada vez que dava
trs passos, Eve se sentiu surpresa por no encontrar uma no quarto dando um
zoam acima de sua cama, e comentou isto com Roarke.
- Foi voc que pediu por isso, querida.
Ela estava sentada por cima dele, usando o que sobrara do conjunto de trs
peas que usara na manso do governador. A roupa preta e dourada cintilava ao
roar suas costelas e j estava desabotoada at o umbigo.
- S que eu no tenho de gostar. Como  que voc aguenta, Roarke? Voc
convive com isso o tempo todo! No  horripilante?
- Voc aprende a ignorar - ele abriu mais um boto da blusa - e vai em frente.
Gostei do jeito que voc estava esta noite. De modo distrado, ele brincou com o
diamante que ela trazia pendurado entre os seios. -  claro que estou gostando
muito mais do jeito que est agora.
- Eu jamais vou conseguir me acostumar com isso. Toda essa trabalheira, ficar
de papo-furado nas festas, usar o cabelo todo armado. E ainda por cima as roupas
no ficam bem em mim.
- Elas podem no ficar bem na tenente, mas ficam bem na Eve. Voc pode ser
as duas. - Ele observou as pupilas dela se dilatarem quando espalmou as mos
sobre seus seios, envolvendo-os em concha. - Voc gostou da comida.
- Bem, claro, mas... - ela estremeceu e soltou um gemido quando ele esfregou
os mamilos dela com os polegares. - Acho que eu estava tentando provar uma
teoria. Jamais devo conversar com voc na cama.
- Excelente deduo. - Ele elevou o corpo e substituiu os polegares pelos
dentes.
Ela estava dormindo profundamente, um sono sem sonhos, quando ele foi
acord-la. A policial despertou antes, alerta e preparada.
- O qu? - Apesar de estar nua, ela buscou a arma ao seu lado. - O que foi?
- Desculpe! - Quando Roarke se inclinou sobre a cama para beij-la, ela sentiu
que ele estava rindo pelas vibraes do seu corpo.
- No tem graa! Se eu estivesse armada voc j estaria no cho.
- Sorte minha.
Com um gesto distrado, ela empurrou Galahad, que decidira se sentar sobre a
sua cabea.
- Por que voc est vestido? O que est havendo?
- Acabei de receber uma ligao. Esto precisando de mim na Estao
FreeStar One.
- O Olympus Resort. Luzes, diminuam - ordenou ela, e piscou para conseguir
focar o rosto dele, que se destacara contra o fundo esmaecido. Meu Deus, pensou
ela, ele parecia um anjo. Um anjo cado. Um anjo perigoso. - H algum problema na
estao?
- Pelo jeito, sim. Mas nada que no possa ser solucionado. -- Roarke pegou
Galahad no colo, fez-lhe um pouco de carinho e a seguir o soltou no cho. - S que
eu tenho de lidar com o problema pessoalmente. Pode ser que leve uns dois dias.
- Oh... - Era por estar meio tonta, disse a si mesma, que ela sentiu aquela
horrvel sensao de vazio. - Bem, ento nos vemos quando voc voltar.
- Voc vai sentir saudades? - Ele passou um dedo sobre a covinha do queixo
dela.
- Talvez. Um pouco. - Foi o sorriso rpido dele que a derrotou. - Sim.
- Tome, vista isto. - Ele jogou um robe na direo das mos dela. - H uma
coisa que eu quero lhe mostrar antes de sair.
- Voc j est indo?
- O carro j est me esperando. Que espere.
- Acho que, agora, eu deveria descer com voc e lhe dar um beijo de
despedida - murmurou ela enquanto vestia o robe s pressas.
- Isso seria legal, mas primeiro as coisas mais importantes. Ele pegou na mo
dela e a puxou para dentro do elevador. - No h necessidade alguma de voc se
sentir pouco  vontade nesta casa, enquanto eu estou longe.
- Certo.
Ele colocou as mos nos ombros dela no momento em que a cabine comeou
a descer.
- Eve, esta  a sua casa agora.
- De qualquer modo, vou estar muito ocupada. - Ela sentiu a mudana suave
quando a cabine comeou a se deslocar na horizontal. - Ns no vamos direto at l
embaixo?
- Ainda no - e colocou o brao em volta dos ombros dela quando as portas se
abriram.
Era uma sala que ela ainda no conhecia. Tambm, avaliou, havia
provavelmente dezenas de salas pelas quais ela nunca passara nos labirintos da
casa. Mas bastou apenas uma rpida olhada para ela reconhecer que aquele
ambiente era dela.
As poucas coisas em seu apartamento que ela considerava de valor estavam
ali, com algumas peas que haviam sido acrescentadas para preencher todos os
espaos, transformando o aposento em um agradvel local de trabalho. Afastando-
se de Roarke, ela ficou vagando por ali.
O piso era em madeira bem lisa, e havia um tapete tecido em tons de azulacinzentado
e verde-musgo, provavelmente vindo de uma das fbricas de Roarke no
Oriente. A mesa de trabalho de Eve, surrada devido ao uso, estava sobre o tapete
de valor inestimvel, e em cima dela todo o seu equipamento estava instalado.
Uma parede de vidro jateado separava a sala de uma pequena cozinha,
totalmente equipada, que dava para um pequeno terrao.
Havia mais,  claro. Com Roarke, sempre havia mais. Um painel interligado
permitia que ela se comunicasse com qualquer cmodo da casa. A central de
entretenimento oferecia msica, vdeo, uma tela hologrfica com dezenas de opes
de visualizao. Um pequeno jardim interno estava florindo com todo o vigor debaixo
de uma janela em arco por onde se via o dia que estava nascendo.
- Voc pode mudar o que no estiver do seu agrado - disse ele enquanto
passava a mo sobre a parte de trs de uma espreguiadeira. - Tudo aqui foi
programado para atender ao seu comando de voz e s impresses de sua mo.
- Muito eficiente - disse ela, e limpou a garganta. - Muito legal.
Surpreso consigo mesmo por notar que estava um feixe de nervos, Roarke
enfiou as mos nos bolsos.
- O seu trabalho exige um espao prprio. Eu compreendo isso. Voc quer seu
prprio espao e privacidade. O meu escritrio fica aqui do lado, atrs do painel
oeste. Mas a porta tem trinco pelos dois lados.
- Entendo.
Agora ele sentia um pouco de raiva cobrindo a sensao de nervoso.
- Se voc no conseguir se sentir  vontade na casa durante a minha ausncia,
pode se entrincheirar aqui neste apartamento. Pode at mesmo se entrincheirar
aqui, mesmo que eu esteja em casa. S depende de voc.
- Sim, eu sei. - Ela respirou fundo e se virou para ele. Voc fez isso por mim.
Com ar aborrecido, ele inclinou a cabea.
- Acho que no existe muita coisa que eu no fizesse por voc.
- E eu acho que s agora essa noo est comeando a calar fundo dentro de
mim. - Ningum, ela compreendia, jamais lhe oferecera algo to perfeito. - Isso me
transforma em uma mulher de sorte, no ?
Ele abriu a boca, mas desistiu de falar algo que ia ser particularmente
desagradvel.
- Ao diabo com isso - decidiu ele. - Tenho de ir.
- Roarke, s mais uma coisa. - Ela foi at ele sabendo perfeitamente que ele s
faltava ranger os dentes de raiva. - Eu ainda no dei um beijo de despedida em voc
- murmurou, e o beijou de forma to arrebatadora que o fez balanar-se para trs
sobre os calcanhares. - Obrigada... - E antes que ele conseguisse falar, beijou-o
mais uma vez. - Por sempre saber o que  importante para mim.
- De nada - e, de forma possessiva, ele passou a mo sobre os cabelos
desarrumados dela. - Sinta saudades de mim.
- J estou sentindo.
- E no se arrisque sem necessidade. - As mos dele agarraram os cabelos
dela com um pouco mais de fora por alguns instantes. - Sei que no adianta pedir
para que voc no corra os riscos necessrios.
- Ento no pea. - O corao dela trepidou quando ele beijou sua mo. - Faa
uma boa viagem - disse-lhe quando ele entrou no elevador. Ela era novata nesses
assuntos. Ento, esperou at que as portas estivessem quase fechadas e
acrescentou: - Eu amo voc.
A ltima imagem que ela viu foi o brilho do sorriso dele.
- O que conseguiu, Feeney?
- Talvez alguma coisa, talvez nada.
Era cedo, oito horas da manh, logo aps Roarke ter viajado para a Estao
FreeStar One, mas Feeney j estava com aparncia cansada. Eve programou dois
cafs extrafortes no AutoChef.
- Voc aqui, a esta hora, com cara de quem passou a noite acordado, e de
terno, eu s posso deduzir que descobriu alguma coisa. E eu sou uma detetive cinco
estrelas.
- Sim. Andei explorando algumas coisas no computador, indo mais fundo na
pesquisa sobre as relaes pessoais e familiares das vtimas, como voc pediu.
- E?...
Esquivando-se do assunto, Feeney bebeu o caf, pescou uma amndoa com
cobertura doce no fundo do saco de papel e coou a orelha.
- Vi voc no noticirio ontem  noite. Foi minha mulher que viu, na verdade.
Disse que voc estava toduflash. Essa  uma daquelas grias das minhas crianas.
A gente tenta acompanhar o jeito de falar delas.
- Nesse caso, voc est me empedrando, Feeney. Essa  uma das grias das
crianas tambm. A traduo : voc no est sendo claro.
- Eu sei o que quer dizer. Merda!  que essa aqui vai pegar muito perto da
gente, Dallas. Muito perto.
- E  por isso que voc veio at aqui para me trazer a notcia, em vez de
transmitir o que descobriu por um dos canais normais. Ento vamos l.
- Certo. - Ele suspirou. - Eu estava xeretando os arquivos de David Angelini.
Basicamente os dados financeiros. J sabamos que ele andava enrascado com uns
caras duros de encarar, por causa de dvidas de jogo. Ele estava conseguindo
segurar os sujeitos dando uma migalha aqui e ali. Pode ser at que ele tenha
andado metendo a mo na gaveta da empresa, mas no consegui acessar essas
informaes. Ele se cobriu muito bem.
- Ento vamos descobri-lo. Eu posso conseguir os nomes dos capangas que o
esto pressionando - analisou ela, pensando em Roarke. - Podemos descobrir se
ele fez alguma promessa, tipo assim: Estou para ganhar uma herana. - Suas
sobrancelhas se uniram. - Se no fosse por Yvonne Metcalf, eu ia comear a
trabalhar a ideia de que algum a quem David deve dinheiro resolveu adiantar a
herana dele eliminando Cicely Towers.
- Pode ser que seja simples assim, mesmo com Yvonne Metcalf. Ela tinha um
bom p-de-meia de reserva. No encontrei ningum entre os beneficirios, que
estivesse precisando de dinheiro rpido, mas isto no quer dizer que eu no v
encontrar.
- Certo, continue nessa pista. S que esse no  o motivo de voc estar aqui,
brincando com as suas amndoas.
Ele quase conseguiu sorrir.
- Muito engraada. Tudo bem, l vai. Eu descobri coisas sobre a mulher do
comandante.
- V com calma, Feeney. Conte-me tudo bem devagar. Feeney no conseguia
ficar sentado, ento se levantou e comeou a andar de um lado para outro dentro da
pequena sala.
- David Angelini fez alguns depsitos grandes em sua conta bancria pessoal.
Quatro depsitos de cinquenta mil dlares nos ltimos quatro meses. O ltimo deles
caiu na conta duas semanas antes de a me ser executada.
- Tudo bem, ele faturou duzentos mil dlares em quatro meses e colocou no
banco, como um menino responsvel. E onde ele conseguiu essa grana?... Cacete! -
Eve, de repente, soube.
- Isso mesmo. Eu acessei as transaes eletrnicas. Rastreei toda a
movimentao. Ela transferiu o dinheiro para a conta pessoal dele aqui em Nova
York, e ele jogou o dinheiro na sua conta em um banco de Milo. Depois ele retirou
tudo, em dinheiro, em um caixa eletrnico no Cassino Espacial Las Vegas II.
- Jesus, por que ela no me contou isso? - Eve apertou as tmporas com os
punhos fechados. - Por que diabo de motivo ela nos fez procurar por isso?
- No  o caso de ela ter tentado esconder - disse Feeney, depressa. - Quando
eu acessei os registros, apareceu tudo logo de cara. Ela tem uma conta s dela,
como o comandante - e limpou a garganta quando viu o olhar de Eve. - Eu tinha de
verificar tudo, Dallas. Ele no tem feito nenhuma transao fora do normal na conta
dele, nem na conta conjunta. Mas ela deixou o saldo dela pela metade, ao fazer
essa pequena caridade para David Angelini. Puxa, Dallas, acho que ele estava
arrancando essa grana dela.
- Chantagem - especulou Eve, lutando para pensar naquilo com a cabea fria. -
Talvez eles tivessem um caso. Talvez ela estivesse presa ao canalha.
- Puxa vida, ai, meu Deus - o estmago de Feeney se contorceu
dolorosamente. - O comandante.
- Eu sei. Temos de levar esta informao a ele.
- Eu sabia que voc ia dizer isso. - Pesaroso, Feeney tirou um disco do bolso. -
Est tudo aqui. Como  que voc quer fazer?
- O que eu queria mesmo  ir at a casa deles em White Plains e sacudir o
traseiro da senhora Whitney para fora da vidinha perfeita que ela leva. Como no d
para fazer assim, vamos at o comandante e abrimos o jogo com ele.
- L no depsito ainda tem alguns daqueles antigos coletes  prova de balas -
sugeriu Feeney quando Eve se levantou.
- Boa ideia.
Eles bem que poderiam ter usado os coletes. Whitney no subiu na mesa, no
os agrediu, nem sacou sua arma de atordoar. Fez todos os danos necessrios
fuzilando-os com um olhar letal.
- Voc acessou as contas pessoais da minha mulher, Feeney.
- Sim, senhor, acessei.
- E levou todas as informaes  tenente Dallas.
- Como rezam os procedimentos, senhor.
- Como rezam os procedimentos - repetiu Whitney. Agora est trazendo os
fatos para mim.
- Para o oficial comandante - comeou Feeney, e ento deixou os olhos
baixarem. - Ah, que inferno, Jack! Ento eu deveria enterrar tudo?
- Voc poderia ter vindo falar comigo antes. Mas, tambm...
- Whitney parou de falar e desviou o olhar duro para Eve. Voc confirma tudo
isso, tenente?
- A senhora Whitney pagou a David Angelini a soma de duzentos mil dlares
em um perodo de quatro meses. Este fato no foi relatado espontaneamente por ela
durante o interrogatrio inicial nem nos que se seguiram.  necessrio para que a
investigao prossiga, que... - Ela parou de falar. - Temos de saber o porqu disso,
comandante. - Um olhar que parecia pedir desculpas estava no rosto de Eve,
querendo aparecer por trs da estampa da policial.
- Temos de saber por que esse dinheiro foi pago, porque no houve nenhum
outro pagamento depois da morte de Cicely Towers. E eu tenho de perguntar,
comandante, como investigadora principal do caso, se o senhor tinha conhecimento
dessas transaes e das razes por trs delas.
Whitney sentiu um aperto no estmago e uma queimao que era sinal de
estresse no tratado.
- Vou lhe responder isso depois de conversar com minha mulher.
- Senhor - a voz de Eve era um apelo calmo. - O senhor sabe que no
podemos permitir que o senhor consulte a senhora Whitney antes de a
interrogarmos. Esta nossa reunio j trouxe o risco de contaminar a investigao.
Desculpe, comandante.
- Voc no vai trazer a minha mulher aqui para interrogatrio.
- Jack...
- Dane-se, Feeney, ela no vai ser arrastada at aqui como uma criminosa! -
Ele apertou as mos, formando uma bola com os punhos, e lutou para manter o
controle. - Interroguem-na em casa, na presena de nossa advogada. Isso no viola
nenhuma regra dos procedimentos, certo, tenente Dallas?
- No, senhor, no viola. Com todo respeito, comandante, o senhor gostaria de
vir conosco?
- Com todo respeito, tenente - respondeu ele, com um ar amargo. - Nada no
mundo me impediria.
CAPTULO ONZE
Anna Whitney veio receb-los na porta. Suas mos estavam agitadas, e afinal
se apertaram, coladas  altura da cintura.
- Jack, o que est havendo? Linda est aqui. Ela me disse que voc ligou e
falou que eu precisava da assistncia profissional dela. - Seu olhar voou de Eve para
Feeney, e depois de volta para o marido. - Por que motivo eu precisaria de uma
advogada?
- Est tudo bem. - Ele colocou a mo de modo tenso, mas protetor, sobre o
ombro da mulher. - Vamos entrar, Anna.
- Mas eu no fiz nada! - Ela conseguiu dar uma pequena gargalhada nervosa. -
Ultimamente no recebi sequer uma multa de trnsito...
- Sente-se, querida. Linda, obrigado por ter vindo to depressa.
- No foi nada.
A advogada dos Whitney era jovem, com olhos atentos e uma pele to lisa que
chegava a brilhar. Levou alguns instantes para Eve se lembrar de que, alm disso,
ela tambm era filha do casal.
- Tenente Dallas, no ? - Linda a analisou por completo e resumiu tudo em
poucas palavras. - Eu a estou reconhecendo. Apontou para uma cadeira antes que
os pais pudessem pensar nisso.
- Por favor, sente-se.
- Eu sou o capito Feeney, da Diviso de Deteco Eletrnica.
- Sim, j ouvi meu pai falar vrias vezes a seu respeito, capito Feeney. Vamos
l - e colocou a mo sobre a da me. - Do que se trata tudo isso?
- Apareceram algumas informaes que precisam ser esclarecidas. - Eve
pegou o gravador e o ofereceu a Linda para que ela o examinasse. Tentou no
pensar no fato de que Linda se parecia muito com o pai, com sua pele cor de
caramelo e o olhar frio. Os genes e os traos familiares a deixavam fascinada, e
assustada.
- Pelo que vejo, isto vai ser um interrogatrio formal. - Com uma calma
estudada, Linda colocou o gravador de Eve sobre a mesa e pegou o seu prprio
aparelho tambm.
- Exato. - Eve recitou a data e o horrio. - Oficial entrevistadora: tenente Eve
Dallas. Tambm presentes na sala o comandante Jack Whitney, o capito Ryan
Feeney e a entrevistada, Anna Whitney, em companhia tambm da advogada que a
representa.
- Linda Whitney. Minha cliente est ciente de todos os seus direitos e concorda
com o momento e o local determinados para o interrogatrio. Como advogada,
reservo-me o direito de encerrar a entrevista quando julgar adequado ou necessrio.
Prossiga, tenente Dallas.
- Senhora Whitney - comeou Eve - a senhora conhecia a falecida senhora
Cicely Towers?
- Sim,  claro. Este assunto tem relao com Cicely? Jack... Ele simplesmente
balanou a cabea e manteve a mo sobre o ombro da mulher.
- A senhora tambm conhecia a famlia da falecida? Seu ex-marido, Marco
Angelini, seu filho, David Angelini, e sua filha, Mirina.
- Mais do que conhecia.  como se as crianas fossem parte da minha famlia.
Ora, Linda at mesmo andou namorando com...
- Mame!... - Com um sorriso repentino, Linda interrompeu. - Simplesmente
responda  pergunta. No entre em detalhes.
- Mas isso  ridculo! - Um pouco da perplexidade de Anna se transformou em
irritao. Afinal de contas, aquela era a casa dela e a famlia dela. - A tenente Dallas
j sabe as respostas para todas essas perguntas.
- Desculpe ficar batendo na mesma tecla, senhora Whitney. Como descreveria
a sua relao com David Angelini?
- David? Ora, eu sou madrinha dele. Acompanhei o seu crescimento.
- A senhora tinha conhecimento de que David Angelini estava com problemas
financeiros antes da morte de sua me?
- Sim, ele estava... - Seus olhos se arregalaram. -A senhorita no acredita
realmente que David... Isso  monstruoso! - Ela descartou a ideia e pressionou a
boca, formando com ela uma linha fina e vermelha. - Uma pergunta como essa no
merece resposta.
- Compreendo que a senhora se sinta no dever de proteger seu afilhado,
senhora Whitney. Compreendo tambm que a senhora faria qualquer coisa para
proteg-lo, no importa a despesa. Mesmo que fossem duzentos mil dlares.
O rosto de Anna empalideceu de modo visvel apesar da maquiagem
elaborada.
- No sei do que a senhorita est falando.
- Senhora Whitney, a senhora nega ter pago a David Angelini a soma de
duzentos mil dlares, em parcelas de cinquenta mil dlares, durante um perodo de
quatro meses, comeando em fevereiro deste ano e terminando em maio?
- Eu... - Ela agarrou a mo da filha e evitou a do marido. Tenho de responder a
isto, Linda?
- Peo um momento, por favor, para conversar a ss com minha cliente. - De
forma rpida, Linda passou o brao em torno da me e a levou para a sala ao lado.
- Voc  muito boa, tenente - disse Whitney, de forma rgida. - J fazia algum
tempo que eu no acompanhava um de seus interrogatrios.
- Jack. - Feeney suspirou tomando as dores de todos. - Ela est fazendo o
trabalho dela.
- Sim, est.  nisso que ela  boa. - Olhou para o lado, na direo de sua
esposa, que estava voltando para a sala.
Ela estava plida e tremendo um pouco. A queimao no estmago do
comandante aumentou.
- Podemos continuar - disse Linda. Havia um brilho de confronto quando seu
olhar se focou em Eve. - Minha cliente deseja fazer uma declarao. V em frente,
mame, est tudo bem.
- Desculpe. - Lgrimas comearam a brilhar em seus clios.
- Jack, desculpe. No pude evitar. Ele estava em dificuldades. Eu sei o que
voc havia dito, mas no pude evitar.
- Est tudo bem. - Resignado, ele pegou a mo que estava estendida em sua
direo e ficou em p ao lado da mulher. Conte toda a verdade  tenente e ns
vamos resolver isso.
- Eu dei o dinheiro a ele.
- Ele a ameaou, senhora Whitney?
- O qu? - O choque pareceu secar as lgrimas que ameaavam desabar de
seus olhos. - Oh, minha nossa!  claro que ele no me ameaou! Ele estava em
apuros - repetiu ela como se aquilo fosse o suficiente para todos. - David devia uma
quantidade muito grande de dinheiro ao tipo errado de pessoas. Seus negcios, a
parte dos negcios do pai que ele supervisionava, estavam passando por uma
turbulncia temporria. E David tinha um novo projeto que estava tentando fazer
decolar. Ele me explicou tudo - acrescentou ela com um aceno de mo. - No me
recordo exatamente o que era, nunca me preocupei muito com os negcios.
- Senhora Whitney, a senhora fez quatro pagamentos de cinquenta mil dlares
para David. E no me transmitiu esta informao nas entrevistas anteriores.
- E isso era da sua conta? - Sua coluna estava novamente ereta, fazendo-a se
sentar dura, reta e fria como uma esttua. - Era dinheiro meu, e um emprstimo
pessoal ao meu afilhado.
- Um afilhado - completou Eve, comeando a perder a pacincia - que estava
sendo investigado em um caso de assassinato.
- O assassinato da me dele. Era melhor a senhorita tambm me acusar de
mat-la junto com David.
- A senhora no ia herdar uma grande parcela do patrimnio da vtima.
- Ora, senhorita, escute-me agora. - A raiva combinava bem com ela. O rosto
de Anna rebrilhava quando ela se inclinou para a frente. -Aquele menino adorava a
me, e ela a ele. David ficou arrasado com a morte dela. Eu sei. Eu me sentei com
ele, eu o consolei.
- A senhora deu a ele duzentos mil dlares.
- O dinheiro era meu, para fazer com ele o que eu bem quisesse. - Ela mordeu
o lbio. - Ningum queria ajud-lo. Seus pais se recusaram. Eles combinaram de
recusar-lhe ajuda. Cicely era uma me maravilhosa e amava os filhos, mas
acreditava fortemente em disciplina. Estava determinada a deix-lo lidar com o
problema por conta prpria, sem ajuda dela. Sem a minha ajuda. S que no
momento em que ele me procurou, desesperado, o que eu poderia fazer? - quis
saber ela, virando-se para o marido. - Jack, eu sei que voc me mandou ficar de fora
do problema, mas ele estava aterrorizado, tinha medo de que eles o machucassem
e mutilassem, talvez at que o matassem. O que voc sentiria se isso acontecesse
com Linda, ou Steven? Voc no ia querer que algum os ajudasse?
- Anna, alimentar o problema no  ajuda.
- Ele ia me pagar tudo de volta - insistiu ela. - No estava pensando em gastar
o dinheiro em jogo. Ele me prometeu. Precisava apenas de algum tempo, eu no
podia negar isso a ele.
- Tenente Dallas - comeou Linda - minha cliente emprestou o prprio dinheiro
para um membro da famlia, em boa-f. No h crime algum nisso.
- Sua cliente no foi acusada de nenhum crime, doutora.
- A senhorita, tenente, em algum dos interrogatrios anteriores, perguntou 
minha cliente, diretamente, a respeito de sua disponibilidade de fundos? Perguntou
 minha cliente se ela tinha algum acordo financeiro com David Angelini?
- No, no perguntei.
- Ento ela no era obrigada a fornecer essa informao por livre vontade, o
que, de resto, lhe pareceu muito pessoal e sem ligao com a sua investigao.
Sem nenhuma m inteno.
- Ela  mulher de um policial - disse Eve com um ar desgastado. - O
conhecimento dela sobre assuntos como este tem de ser maior do que o da maioria
das pessoas. Senhora Whitney, a promotora Cicely Towers discutiu com o filho por
causa de dinheiro, por causa do vcio de jogo de David, por causa de suas dvidas e
da liquidao delas?
- Ela estava chateada. Naturalmente, eles brigaram. As famlias brigam. S que
ningum se machuca mutuamente.
Talvez no em seu mundinho perfeito, pensou Eve.
- Quando ocorreu o seu ltimo contato com David Angelini?
- H coisa de uma semana. Ele me ligou para saber se eu estava bem, se Jack
estava bem. Conversamos a respeito da ideia de criar uma fundao para doar
bolsas de estudo em nome da me dele. Essa foi ideia dele, tenente - disse ela com
novas lgrimas nos olhos. - David quer que a me seja sempre lembrada.
- O que a senhora sabe a respeito do relacionamento de David com Yvonne
Metcalf?
- A atriz? - Os olhos de Anna ficaram sem expresso antes que ela os
enxugasse. - David a conhecia? Ele jamais mencionou isto.
Eve tinha jogado verde para ver se colhia maduro, mas no teve sucesso.
- Obrigada, senhora Whitney. - Ela recolheu o aparelho da mesa e terminou a
entrevista. - Doutora, seria interessante avisar  sua cliente que  melhor que ela
no mencione esta entrevista, nem parte dela, a ningum que no esteja nesta sala.
- Sou a mulher de um policial - Anna quase jogou a frase de volta na cara de
Eve. - Entendo dessas coisas.
Na ltima imagem que Eve teve do comandante ao sair da casa ele estava
abraado  mulher e  filha.
Eve queria um drinque. No momento em que deu o dia por encerrado, ela
passara a maior parte da tarde em busca de David Angelini. Ele estava em reunio,
depois no podia ser localizado, estava em toda parte, menos onde ela o procurava.
Sem ter outra escolha, Eve deixara mensagens em todos os pontos possveis do
planeta e chegou  concluso de que s por um golpe de sorte ela saberia dele
antes do dia seguinte.
Nesse meio-tempo, ela estava diante de uma casa enorme e vazia e de um
mordomo que detestava at o ar que ela respirava. A ideia veio em um impulso, no
momento em que ela entrava pelos portes. Eve pegou no tele-link do carro e
ordenou o nmero de Mavis.
-  a sua noite de folga, no ? - perguntou no instante em que o rosto de
Mavis surgiu na tela.
- Pode apostar. Tenho de dar um descanso s cordas vocais.
- Tem algum plano para hoje?
- Nada que no possa ser descartado se pintar coisa melhor. O que est
pensando em fazer?
- Roarke est fora do planeta. Voc est a fim de aparecer para passar a noite
aqui e ficar bbada?
- Aparecer na casa de Roarke, passar a noite na casa de Roarke, ficar bbada
na casa de Roarke? J estou indo!
- Espere, espere. Vamos fazer a coisa em grande estilo. Vou mandar um carro
a para peg-la.
- Uma limusine? - Mavis esqueceu as cordas vocais e soltou um grito agudo. -
Meu Deus, Dallas, mande o motorista usar algo tipo um uniforme. O pessoal aqui do
prdio vai se debruar nas janelas com os olhos esbugalhados!
- Quinze minutos. - Eve encerrou a ligao e s faltou danar enquanto subia
os degraus at a porta. Summerset estava ali, como era de esperar, e ela lhe dirigiu
um aceno arrogante com a cabea. Ela andara praticando.
- Summerset, vou receber uma pessoa amiga para passar a noite aqui. Mande
um carro apanhar essa pessoa na Avenida C, nmero 28.
- Uma pessoa amiga. - Sua voz parecia cheia de suspeitas.
-- Exato, Summerset. - Eve deslizou suavemente escada acima. - Uma pessoa
muito querida e chegada. No se esquea de avisar ao cozinheiro que sero duas
pessoas para jantar.
Eve conseguiu se colocar fora do alcance dos ouvidos do mordomo antes de
se dobrar de tanto rir. Summerset estava imaginando que ia haver um encontro
amoroso, ela tinha certeza disso. S que ele ia ficar ainda mais escandalizado
quando pusesse os olhos em Mavis.
Mavis no a desapontou. Embora, em se tratando de Mavis, ela estivesse
vestida de forma at conservadora. Seu cabelo, para aquele dia, estava
razoavelmente comportado, em um tom de dourado bem brilhante, no estilo que
tinha o nome de meio balano. Um dos lados cintilantes se curvava na direo da
orelha, enquanto a outra metade descia escorrida at roar o ombro.
Ela usava tambm uma meia dzia de brincos variados, todos nas orelhas. Um
conjunto muito discreto, em se tratando de Mavis Freestone.
Ela saltou do carro debaixo de um temporal de primavera e entregou, nas mos
de um Summerset completamente sem fala, a sua capa transparente enfeitada com
luzinhas. Ento girou o corpo trs vezes. A exibio era mais, pensou Eve, devido
ao xtase que sentiu diante do saguo do que para mostrar a roupa colante
vermelha.
- Uau!
- Foi o que eu pensei - disse Eve. Ela tinha ido at a entrada e ficara
esperando, pois no queria que Mavis se encontrasse sozinha com Summerset. A
estratgia se mostrou desnecessria, porque o mordomo, que normalmente olhava
para tudo com desdm, estava com uma cara de completo idiota.
-  simplesmente demais! - disse Mavis com um tom reverente. - Realmente
demais! E voc est com essa casa inteira s para voc?
Eve lanou um olhar de esguelha para Summerset com frieza.
- Mais ou menos - replicou.
- Excelente! - Piscando com os clios compridos, Mavis esticou a mo em cuja
parte de trs se destacava a tatuagem de dois coraes entrelaados. - E voc deve
ser o Summerset. J ouvi muitas coisas a seu respeito.
Summerset tomou-lhe a mo, to abalado que por pouco no a levava aos
lbios, antes de conseguir se controlar.
- Madame - respondeu ele com rigor.
- Ah, deixe disso, me chame de Mavis! Grande lugar para se trabalhar, hein?
Voc deve faturar uma grana alta nesta casa!
Sem saber se estava estarrecido ou encantado, Summerset deu um passo
para trs, conseguiu florear uma pequena reverncia e desapareceu nos fundos da
sala, carregando a capa que gotejava.
- Um homem de poucas palavras. - Mavis piscou, soltou uma risadinha e saiu
desfilando pela sala sobre as suas plataformas de quinze centmetros de altura. Deu
um gemido sensual quando chegou ao portal da sala seguinte. - Voc tem uma
lareira de verdade, Eve.
- Deve haver umas duas dzias delas, eu acho.
- Ai, meu Deus! Vocs transam em frente  lareira? Como nos filmes antigos?
- Vou deixar essa resposta por conta da sua imaginao.
- Ah, eu bem que posso imaginar. Por Cristo, Dallas, aquele carro que voc
mandou para me apanhar! Uma limusine de verdade, uma clssica. Tinha de estar
chovendo! - Ela girou o corpo para trs, fazendo os brincos danarem. - S metade
das pessoas que eu queria impressionar me viu sair. O que vamos fazer primeiro?
- Podemos comer.
- Estou morrendo de fome, mas tenho de conhecer o lugar antes. Mostre-me
alguma coisa.
Eve refletiu. O terrao era incrvel, mas estava chovendo a cntaros. A sala de
armas estava fora de cogitao, bem como o salo de treinamento de tiro. Eve
considerava estas reas proibidas a convidados sem a presena de Roarke. Havia
muitos outros locais,  claro. Com um olhar duvidoso, Eve observou os sapatos de
Mavis.
- Voc consegue realmente andar em cima disso?
- Eles tm amortecedores a ar. Nem d para sentir que estou de sapatos.
- Tudo bem, ento. Vamos pelas escadas. Voc vai conseguir ver mais coisas
assim.
Primeiro Eve levou Mavis at o solrio, divertindo-se com a reao da amiga,
que ficou de queixo cado diante das plantas exticas, das rvores, das cascatas
espumantes e dos pssaros que cantavam. A parede de vidro curvo estava sendo
castigada pela chuva, mas atravs dela dava para ver as luzes de Nova York, que
brilhavam.
Na sala de msica, Eve programou o som de uma banda barulhenta e deixou
que Mavis a distrasse com uma pequena seleo de sucessos recentes de
arrebentar os tmpanos.
Passaram uma hora no salo de jogos lutando contra o computador, uma
contra a outra e a seguir com os oponentes hologrficos dos games Zona Livre e
Apocalipse.
Mavis soltou diversos ohs e ahs ao visitar os diversos quartos, e finalmente
escolheu a sute onde queria passar a noite.
- Posso acender a lareira se eu quiser? - Mavis passou a mo, de modo
dominador, sobre a rica superfcie do console, em lpislazli.
- Claro, mas ns estamos quase no vero...
- Nem me importo se eu cozinhar. - Com os braos abertos, ela deu alguns
passos compridos, danando sobre o piso, depois olhou para o cu, acima da
clarabia, e acabou se atirando sobre a cama gigantesca, afundando nas almofadas
cobertas de tecido espesso e prateado. - Estou me sentindo uma rainha. No, no,
uma imperatriz - e se deixou rolar de um lado para outro enquanto o colcho
ondulava suavemente por baixo de seu corpo. - Como  que voc consegue se
sentir normal em um lugar como este?
- No sei. Estou morando aqui h pouco tempo.
Ainda rolando sem parar, indo de um lado das almofadas cheias de ar at
outro, Mavis riu.
- Pois para mim basta apenas uma noite. Nunca mais vou ser a mesma. -
Arrastando-se at a cabeceira acolchoada da cama, Mavis comeou a apertar
alguns botes. Luzes se acenderam, piscaram e se apagaram, comearam a girar e
aumentaram de intensidade. Msica surgiu em ondas, pulsando. O som de gua
correndo veio do aposento ao lado.
- Que  isso?
- Voc programou o seu banho - informou Eve.
- Opa... Ainda no. - Mavis desligou o boto, tentou outro e viu o painel do
fundo da sala deslizar para o lado e revelar um telo de trs metros de altura. -
Definitivamente, excelente! Vamos comer?
Enquanto Eve se acomodava na sala de jantar, em companhia de Mavis,
curtindo a primeira noite de folga em semanas, Nadine Furst estava compenetrada,
fazendo edio e preparando a prxima apresentao.
- Quero que voc realce essa imagem, Louise, e congele em Dallas - ordenou
 tcnica de edio. - Sim, sim, pode ampliar. Ela fica muito bem diante das
cmeras.
Recostando-se na cadeira, Nadine estudou as cinco telas enquanto a tcnica
trabalhava no painel de controle. A sala de edio nmero 1 estava silenciosa, a no
ser pelo murmrio de vozes conflitantes que vinha da tela. Para Nadine, juntar as
imagens sem interromp-las, fundindo umas s outras, era to excitante quanto
sexo. A maioria dos apresentadores deixava aquele processo por conta dos
tcnicos, mas Nadine queria a prpria mo no trabalho. Em todas as etapas dele.
A sala do noticirio, um andar abaixo, devia estar em polvorosa, naquele
instante. Ela gostava daquilo tambm. A correria para ganhar da emissora
concorrente, at o ltimo sinal sonoro, at o ltimo quadro da imagem, at o ngulo
mais prximo do fato; os reprteres em volta, manejando os seus tele-links em
busca de mais uma observao para apresentar, sugando de seus computadores o
ltimo dado disponvel.
A competio acirrada no acontecia apenas do lado de fora, na Avenida das
Comunicaes. Havia muita briga ali mesmo, dentro da Diviso de Jornalismo do
Canal 75.
Todo apresentador buscava a grande histria, a melhor imagem, os maiores
ndices de audincia. Naquele momento, ela tinha tudo aquilo. E Nadine no
pretendia perder nada.
- Bem a, congele a imagem na parte em que estou em p no jardim do prdio
de Yvonne Metcalf. Certo, agora tente dividir a tela e coloque a imagem em que
apareo na calada onde Cicely Towers morreu. Isso mesmo! - Apertando os olhos,
Nadine estudou a imagem. Ela parecia bem, decidiu. Estava com um ar digno e um
olhar srio. A reprter intrpida e objetiva, revisitando as cenas dos crimes.
- Est timo. - Nadine cruzou as mos e apoiou o queixo nelas. - Agora entre
com a voz.
Duas mulheres talentosas, dedicadas, inocentes. Duas vidas brutalmente
encurtadas. A cidade em sobressalto olha por cima dos ombros e se pergunta por
qu. Famlias enlutadas choram seus entes queridos, enterram-nos e clamam por
justia. Mas h uma pessoa que est lutando para responder a este clamor, e para
atender ao pedido.
- Congele a - ordenou Nadine. - Faa a mixagem com o rosto de Dallas do
lado de fora do tribunal. Coloque o udio.
A imagem de Eve encheu as telas por completo, com Nadine atrs dela. Essa
tomada foi muito boa, Nadine, pensou. Ela dava a impresso de que as duas
estavam trabalhando juntas, que formavam uma equipe. Mal no ia fazer. Havia uma
brisa suave que fez os cabelos das duas esvoaarem. Por trs delas, o contorno do
tribunal aparecia como uma lana apontada para o cu, um monumento  Justia,
com seus elevadores apressados correndo para baixo e para cima e seus
corredores envidraados coalhados de gente.
Minha funo  encontrar um assassino, e eu levo esta funo a srio. Quando
termino o meu trabalho, a Justia comea o dela.
- Perfeito! - Nadine fechou o punho. - Simplesmente perfeito! Agora, v
escurecendo a imagem a partir deste ponto, e eu continuo a matria ao vivo. Essa
tomada tem quanto tempo?
- Trs minutos e quarenta e cinco segundos.
- Louise, eu sou genial, e voc tambm no  das piores. Pode editar.
- Pronto, j est editado. - Louise deu a volta na mesa e fez um alongamento.
Elas j trabalhavam juntas h trs anos e eram amigas. - A matria ficou muito boa,
Nadine.
- Ficou mesmo! - Nadine olhou meio de lado. - Mas?...
- Certo. - Louise soltou o rabo-de-cavalo e passou a mo por dentro dos
cabelos cheios e encaracolados. - O problema  que ns estamos chegando a ponto
de ficarmos repetindo as notcias velhas. No apareceu nada de novo nos ltimos
dias.
- Ningum mais conseguiu novidades. E eu tenho Dallas.
- Essa  grande. - Louise era uma mulher bonita, com feies suaves e olhos
brilhantes. Viera para o Canal 75 assim que sara da faculdade. Depois de menos de
um ms no emprego, Nadine a convocou para ser a sua principal editora de vdeo. O
acerto era de interesse das duas. - Ela tem uma imagem confivel e uma voz
excelente. Ainda por cima, o fator Roarke acrescenta um dado de ouro. Tudo isto
sem contar que ela tem a fama de ser uma boa policial.
- Ento?
- Ento eu andei pensando - continuou Louise - que at conseguir algum
material novo voc deveria enxertar algumas informaes do caso DeBlass. Fazer
as pessoas se lembrarem de que a nossa querida tenente resolveu um mistrio dos
grandes, e levou um tiro no cumprimento do dever. Isto serve para conquistar mais
confiana.
- No quero tirar o foco da investigao atual.
- Talvez devesse - discordou Louise. - Pelo menos at aparecer alguma nova
pista. Ou uma nova vtima.
Nadine sorriu.
- Um pouco mais de sangue bem que ia esquentar um pouco as coisas. Mais
alguns dias e ns vamos estar saindo da temporada agitada para entrarmos na
calmaria tpica de junho. Tudo bem, vou me lembrar disso. Enquanto isso, talvez
voc queira juntar um pouco desse material antigo.
- Talvez eu queira? - Louise levantou as sobrancelhas.
- E se eu usar o seu material, pode deixar que voc vai ganhar o crdito total
pela matria, sua gananciosa.
- Combinado. - Louise apalpou os bolsos do seu avental de edio e franziu a
testa. - Acho que os meus cigarros acabaram.
- Voc tem de parar com isso. Voc sabe o que o chefo acha dos funcionrios
que arriscam a sade.
- Eu s fumo aquela porcaria de cigarro feito com ervas.
- Ento est limpo. Traga uns dois para mim, quando voltar.
- Nadine teve a gentileza de parecer envergonhada. - E fique de bico calado!
Eles so mais duros com os apresentadores que fumam do que com os tcnicos.
- Voc ainda tem algum tempo antes da retrospectiva da meia-noite, Nadine.
No quer tirar o seu intervalo de folga agora?
- No, tenho umas ligaes para fazer. Alm do mais, est chovendo canivetes.
- Nadine ajeitou o cabelo, que estava perfeitamente penteado. - V voc - e apanhou
a bolsa. - Deixe que eu pago pelo cigarro.
- Est timo, j que vou ter de ir at a Segunda Avenida para achar uma loja
que tenha licena para vender fumo. - Resignada, ela se levantou. - Vou usar a sua
capa de chuva, Nadine.
- Fique  vontade. - Nadine entregou a ela um punhado de fichas de crdito. -
Coloque os meus cigarros no bolso da capa, est bem? Vou estar na sala do
noticirio.
As duas saram juntas, com Louise toda coberta pela capa azul, que estava na
ltima moda.
- Bom o tecido desta capa - comentou Louise.
- A gua no passa de jeito nenhum.
Elas atravessaram juntas a rampa interna, passando por uma srie de salas de
edio e produo, e caminharam na direo de uma esteira rolante que descia at
a parte externa do prdio. O barulho l de fora comeou a se infiltrar e Nadine teve
de falar mais alto para Louise ouvi-la.
- Voc e o Bongo ainda esto pensando em dar aquele grande passo?
- Estamos pensando tanto nisso que j at comeamos a procurar
apartamento. Vamos tomar o caminho tradicional. Resolvemos morar juntos por um
ano, e, se funcionar, a gente legaliza.
- Antes voc do que eu - disse Nadine com sinceridade. No posso imaginar
um nico argumento que consiga me explicar o porqu de uma pessoa racional se
encarcerar em companhia de outra pessoa racional.
- Amor. - Louise colocou a mo sobre o corao, dramaticamente. - Ele tem
razes que fazem a racionalidade voar pela velha janela.
- Voc  jovem e livre, Louise.
- E, se tiver sorte, vou ficar velha acorrentada ao Bongo.
- Quem, afinal de contas, ia querer ficar acorrentada a algum chamado
Bongo?
- Eu. Mais tarde a gente se v. - Com um aceno rpido, Louise continuou a
descida enquanto Nadine saltava no andar da sala do noticirio.
Pensando em Bongo, Louise ficou imaginando se ia conseguir chegar em casa
antes de uma da manh. Era a noite deles no apartamento dela. Aquela era uma
pequena inconvenincia que ia acabar assim que eles encontrassem um
apartamento adequado, em vez de ficarem passando as noites de um lado para
outro, alternando entre o quarto dele e o dela.
Distrada, ela olhou de relance para um dos muitos monitores que enchiam as
paredes da entrada exibindo o programa que estava sendo levado ao ar naquele
instante pelo Canal 75. Era uma srie popular mostrando o cotidiano de uma famlia,
o tipo de programa que sara de moda e que fora ressuscitado nos anos recentes
por talentos como o de Yvonne Metcalf.
Louise balanou a cabea ao pensar nisso e a seguir deu uma risada ao se
fixar em uma das telas e notar que o ator, em tamanho natural, olhava
descaradamente para a plateia.
Nadine podia ser casada com as notcias, mas Louise gostava mesmo era de
entretenimento puro e simples. Adorava as raras noites em que ela e Bongo podiam
se enroscar diante do telo.
No amplo saguo do Canal 75 havia mais monitores, os balces da segurana
e uma agradvel rea de espera com poltronas, cercada de hologramas das estrelas
da emissora. E,  claro, uma pequena loja de presentes cheia de suvenires,
camisetas, bons, canecas com autgrafos e hologramas dos maiores astros do
canal.
Duas vezes por dia, s dez da manh e s quatro da tarde, eram oferecidas
visitas guiadas por toda a emissora. Louise acompanhara uma dessas visitas
quando era criana, olhara para tudo aquilo completamente deslumbrada e decidira,
lembrava naquele momento com um sorriso orgulhoso, que aquela seria a sua
profisso.
Acenou para o guarda na entrada principal e desviou em direo  sada leste,
que era o caminho mais rpido para a Segunda Avenida. Ao chegar  porta lateral
que dava para a sada exclusiva dos funcionrios, colocou a palma da mo sobre a
placa de vidro, a fim de desativar a tranca. Quando a porta se abriu, ela franziu o
rosto diante do barulho ensurdecedor da chuva. Quase mudou de ideia.
Ser que um cigarro vagabundo valia uma corrida por dois quarteires debaixo
daquela gua e do frio mido e penetrante? Valia sim, pensou ela, e colocou o
capuz sobre a cabea. A capa cara e de boa qualidade a manteria seca o suficiente,
e Louise j estava presa na sala de edio com Nadine h mais de uma hora.
Encurvando os ombros, ela saiu com jeito decidido porta afora.
O vento a atingiu com tanta fora que Louise diminuiu o ritmo para apertar mais
a capa junto do corpo, na altura da cintura. Seus sapatos j estavam encharcados
antes mesmo de ela atingir o ltimo degrau na calada e, olhando para eles, ela
xingou baixinho:
- Bem, que se dane!
Essas foram as ltimas palavras que pronunciou.
Um movimento atraiu a ateno dela e Louise olhou para cima, piscando uma
vez para limpar a chuva dos olhos. Nem chegou a ver a faca, que j formava um
arco descendente, em pleno ataque, para ento cintilar ao refletir a chuva e cortarlhe
a garganta de um lado ou outro, de forma cruel.
O assassino a observou apenas por um instante, viu o sangue espirrar e o
corpo despencar no cho como uma marionete com as cordas cortadas. Houve um
momento de choque, a seguir raiva e ento um rpido e trepidante sentimento de
medo. A faca ensanguentada foi colocada de volta em um bolso fundo, e ento a
figura coberta por uma capa escura desapareceu por entre as sombras.
- Acho que eu ia conseguir viver assim. - Depois de uma refeio composta por
um valioso bife vindo de Montana, acompanhada por lagostas pescadas nas guas
da Islndia e regada a champanhe francs, Mavis estava descansando na luxuriante
piscina interna do solrio. Bocejou, completamente nua,  vontade, e s um pouco
bbada. - E voc est vivendo assim o tempo todo, Eve.
- Mais ou menos. - Como no tinha um esprito to livre quanto o de Mavis, Eve
usava um confortvel maio inteiro. Estava acomodada sobre uma bancada lisa feita
de pedra, e ainda bebia. Ela no se dava ao luxo de relaxar daquela forma h tanto
tempo que nem se lembrava. - Na verdade, Mavis, eu no tenho muito tempo para
aproveitar tudo isso.
- Invente tempo, garota. - Mavis submergiu e voltou  tona mais uma vez, com
os seios perfeitamente redondos brilhando sob as luzes azuis cintilantes que ela
programara. Preguiosamente, foi remando com as mos at uma ninfia prxima e
cheirou o vegetal.
- Meu Deus, esta planta  de verdade! Sabe o que voc tem aqui, Dallas?
- Uma piscina coberta?
- O que voc tem - comeou Mavis enquanto pulava feito um sapo na direo
da bandeja flutuante onde estava o seu copo,
-  uma fantasia do mais alto nvel. Daquele tipo que no se consegue nem
com os culos topo-de-linha para realidade virtual. Tomou um lento gole de
champanhe gelado. - Voc no vai comear a se sentir esquisita e estragar tudo,
vai?
- Do que est falando?
- Eu conheo voc. Vai comear a dissecar toda a situao, questionar tudo,
analisar. - Reparando que o copo de Eve estava vazio, Mavis bancou a anfitri e o
completou. - Bem, estou lhe dizendo, minha amiga. No faa isso.
- Eu no disseco as coisas para analisar.
- Voc  a campe das secadoras... das dissadoras... Droga, das
dissecadoras. Uau, consegui falar! Tente pronunciar esta palavra cinco vezes com a
lngua dormente. - Mavis usou o quadril para empurrar Eve para o lado e se sentou
junto dela. - Ele  louco por voc, no ?
Eve deu de ombros e bebeu.
- Ele  rico, quer dizer, podre de rico - continuou Mavis - bonito como um deus
grego, e com aquele corpo!
- O que  que voc sabe sobre o corpo dele?
- Eu tenho olhos. E os uso. D para imaginar muito bem como ele , pelado. -
Divertindo-se com o olhar cintilante de Eve, Mavis lambeu os lbios. -  claro que,
quando voc estiver a fim de me contar os detalhes que esto faltando, sou toda
ouvidos.
- Que grande amiga!
- Sou mesmo. Enfim, ele  tudo isso. Depois, tem todo aquele lance de poder.
Ele tem um tipo de poder que parece sair l do fundo dele. - E realou a afirmao
espalhando um pouco de gua. - E ele olha para as mulheres como se fosse comlas
vivas. Com aqueles olhos grandes, gulosos. Ai, acho que estou com teso!
- Ento tire as mos de mim. Mavis bufou.
- Talvez eu v l dentro para seduzir Summerset.
- Duvido que ele tenha um pinto.
- Aposto que eu consigo descobrir. - S que ela estava com muita preguia
naquele instante. - Voc est apaixonada por ele, no est?
- Por quem, pelo Summerset? Nossa, Mavis, est sendo difcil me controlar
quando eu chego perto dele!
- Olhe-me bem dentro dos olhos. Vamos l. - Para garantir que Eve a obedecia,
Mavis agarrou-lhe o queixo e o girou na direo dela at que as duas amigas
ficaram frente a frente, olho no olho. - Voc est apaixonada pelo Roarke.
- Parece que sim. No quero pensar nesse assunto.
- timo. No pense. Eu sempre achei que o seu mal  pensar demais. -
Segurando o copo acima da cabea, Mavis deslizou para a piscina novamente. -
Podemos usar aqueles jatos para fazer massagem?
- Claro. - Meio tonta por causa do champanhe, Eve demorou um pouco at
dominar os controles. Quando a gua comeou a borbulhar, saindo sob presso,
Mavis soltou um gemido alegre.
- Meu Cristo Jesus! Quem  que precisa de um homem quando a gente tem um
desses? Vamos l, Eve, aumente o som. Vamos agitar!
Atendendo ao pedido, Eve mexeu nos controles e a msica saiu duas vezes
mais alta, ecoando pelas paredes e pela gua. Os Rolling Stones, a banda preferida
de Mavis, entre os antigos grupos clssicos, soltava um lamento melodioso.
Atirando-se de volta na gua, Eve comeou a rir enquanto Mavis improvisava
passos de uma dana aqutica, e pensou em mandar o andride que servia de
garom ir buscar mais uma garrafa.
- Desculpe interromper.
- Hein? - Com a viso meio turva, Eve olhou com ateno para os sapatos
pretos e brilhantes que estavam na beira da piscina. Lentamente, e com um pouco
de curiosidade, deixou o olhar subir bem devagar pelas calas da cor de fumaa
escura e corte reto, continuar pela jaqueta curta e apertada, at chegar ao rosto de
pedra de Summerset. - Oi, quer dar uma cada?
- Venha, pule aqui dentro, Summerset. - A gua escorria em volta do colo de
Mavis e pingava sem parar da ponta de seus seios perfeitos enquanto ela acenava
para ele. - Quanto mais gente, mais divertido.
Ele fungou, com os lbios retorcidos. As palavras saam de sua boca como
cubos de gelo cheios de pontas agudas, apenas pela fora do hbito, mas seu olhar
voltava a todo instante para o corpo de Mavis que continuava a rodopiar na gua.
- Chegou uma transmisso ainda h pouco, tenente. Aparentemente a
senhorita no conseguiu ouvir as minhas repetidas tentativas de inform-la a
respeito.
- O qu? Certo, certo. - Eve deu um riso meio abafado e foi abrindo caminho
com as mos na superfcie da gua, at chegar ao tele-link que ficava na beira da
piscina. -  o Roarke?
- No, no . - Era uma afronta  sua dignidade falar aos berros, mas pedir
para baixar o som ia ofender o seu orgulho. -  do setor de emergncia da Central
de Polcia.
No instante em que Eve alcanou o tele-link, parou e xingou. Depois, afastou
para trs o cabelo que estava grudado no rosto. Msica, desligar! - gritou ela. Mick
Jagger e seus companheiros se calaram no mesmo instante. - Mavis, por favor, fique
fora do ngulo da cmera. - Eve deu um suspiro profundo e ento abriu o tele-link. -
Aqui fala a tenente Dallas.
- Emergncia, tenente Eve Dallas. O reconhecimento de sua voz foi
confirmado. Dirija-se imediatamente para a Avenida das Comunicaes, edifcio do
Canal 75. Homicdio no local, j confirmado. Cdigo amarelo.
Eve sentiu o sangue gelar. Seus dedos agarraram a borda da piscina com
fora.
- Qual  o nome da vtima? - perguntou ela.
- Esta informao ainda no est disponvel para ns at o momento. Confirme
o recebimento das ordens para se apresentar, tenente Eve Dallas.
- Confirmado. Prazo de estimativa para chegar ao local do crime, vinte minutos.
Convoque o capito Feeney, da Diviso de Deteco Eletrnica, para ir at o local.
- A convocao ser feita. Emergncia, desligando.
- Ah, meu Deus, ah, meu Deus! - Sentindo-se fraca por causa da bebida e da
culpa, Eve apoiou a cabea na beira da piscina. Eu a matei!
- Pare com isso! - Mavis nadou at junto dela e colocou a mo no ombro da
amiga. - Sem essa, Eve! - disse depressa.
- Ele pegou a isca errada. A isca errada, Mavis, e agora ela est morta. Era
para ser eu, e no ela!
- Eu disse para parar com isso. - Confusa com as palavras, mas no com os
sentimentos, Mavis a empurrou um pouco para trs e a sacudiu com vigor. - No
entre nessa, Dallas!
Sentindo-se impotente e com a sensao de que a cabea estava girando, Eve
a apertou com as mos.
- Ai, meu Cristo, e eu estou bbada! Isso  perfeito!
- D para resolver o problema. Eu tenho um vidrinho de Sober Up, aquele
remdio para curar porre, na minha bolsa. Quando viu que Eve deu um gemido,
Mavis tornou a sacudi-la. Eu sei que voc detesta plulas, Eve, mas elas retiram
todos os vestgios de lcool da sua corrente sangunea em no mximo dez minutos.
Vamos l, vou lhe dar um comprimido.
- timo, magnfico. Vou estar completamente sbria bem na hora em que tiver
de olhar para ela.
Ela comeou a subir os degraus para sair da piscina, escorregou e ficou
surpresa ao ver que o seu brao tinha sido agarrado com firmeza.
- Tenente - a voz de Summerset continuava fria, mas ele estendeu uma toalha
para ela e a ajudou a caminhar sobre a borda de pedra lisa em volta da piscina. -
Vou providenciar para que o seu carro esteja pronto na porta.
- Certo, obrigada.
CAPTULO DOZE
O antdoto de Mavis veio a calhar e funcionou como mgica. Eve ainda sentia
um gosto estranho no fundo da garganta, mas estava completamente sbria quando
chegou ao edifcio alto e brilhante, totalmente prateado, onde ficava o Canal 75.
O prdio tinha sido construdo em meados dos anos vinte do sculo XXI,
quando a prosperidade das empresas de mdia alcanara um patamar to
astronmico que os lucros gerados eram maiores do que o PIB de um pas pequeno.
Um dos edifcios mais grandiosos da Avenida das Comunicaes, ele se erguia a
partir de uma base elevada larga e lisa, abrigava vrios milhares de funcionrios,
cinco estdios de ltima gerao, incluindo o mais opulento equipamento da Costa
Leste, e gerava um sinal forte o suficiente para enviar transmisses a todos os
recantos do planeta e todas as estaes orbitais.
A ala leste, para onde Eve foi encaminhada, ficava de frente para a Terceira
Avenida, com seus imensos complexos de salas de cinema e prdios de
apartamentos especialmente projetados para a convenincia da indstria do
entretenimento.
Devido ao pesado trfego areo que notou na regio, Eve compreendeu que a
notcia j se espalhara. Controlar a rea ia representar um problema. Enquanto
rodeava o edifcio de carro, ligou para o setor de emergncia e solicitou que toda a
regio fosse isolada, tanto por ar quanto por terra, e pediu tambm reforo para
garantir a segurana nas ruas. Um homicdio bem no colo da mdia j ia ser bastante
difcil de se lidar, e no era necessrio que houvesse outros abutres sobrevoando o
local.
Sentindo-se mais firme, Eve colocou o sentimento de culpa de lado e saiu do
carro para se aproximar da cena do crime. Os policiais tinham estado ocupados, ela
notou com alvio. Tinham isolado a rea e j haviam lacrado a porta que dava para a
rua. Os reprteres e suas equipes estavam todos l,  claro. No havia como mantlos
longe. Mas pelo menos ela tinha espao para respirar.
Ela j prendera o distintivo no casaco e andou debaixo da chuva, at alcanar
o local protegido pela cobertura impermevel que alguma alma caridosa havia
colocado acima da cena do crime. Os pingos da chuva tilintavam melodiosamente
sobre o plstico transparente e rgido da cobertura.
Ela reconheceu a capa de chuva e teve de lutar desesperadamente para
superar a presso instintiva e rpida que sentiu no estmago. Perguntou se a cena
do crime j havia sido varrida eletronicamente e gravada, e ao receber uma resposta
afirmativa ela se agachou.
Suas mos estavam firmes como uma rocha no instante em que ela esticou o
brao na direo do capuz que cobria o rosto da vtima. Ignorando o sangue que
formava uma poa gosmenta em volta de suas botas, Eve conseguiu disfarar o
susto e o sobressalto que sentiu ao puxar o capuz para trs e dar de cara com o
rosto de uma estranha.
- Quem  esta mulher? - quis saber.
- A vtima foi identificada como Louise Kirski, tcnica do Departamento de
Edio do Canal 75. - A policial pegou uma agenda eletrnica no bolso de sua capa
de chuva preta e brilhante.
- Ela foi encontrada aproximadamente s onze e quinze da noite, pelo reprter
C. J. Morse. Ele vomitou todos os biscoitinhos que comeu bem ali ao lado -
continuou ela, demonstrando um leve desdm pelo excesso de sensibilidade dos
civis. - Ele entrou por esta porta berrando feito um louco. A equipe de segurana do
prdio foi verificar a histria dele, e, como era previsvel, deu o alarme. A
emergncia registrou a ligao s onze e vinte e dois. Eu cheguei aqui no local s
onze e vinte e sete.
- Voc conseguiu chegar bem depressa, policial?...
- Peabody, tenente. Estava fazendo ronda na Primeira Avenida. Confirmei o
homicdio, lacrei a porta externa e solicitei policiamento extra e um investigador.
Eve apontou com o queixo o prdio.
- Eles gravaram alguma coisa da cena do crime?
- Oficial - a boca da policial Peabody formou um trao fino - eu mandei que uma
equipe do noticirio se retirasse do local assim que cheguei. Diria que eles tiveram
bastante tempo para gravar tudo antes de interditarmos o local.
- Tudo bem. - Com os dedos envoltos pelo spray selante, Eve apalpou o corpo.
Havia algumas fichas de crdito, um pouco de troco tilintando no bolso, um caro
aparelho porttil de tele-link preso no cinto. No havia feridas defensivas, sinais de
luta, nem de assalto.
Ela gravou todas as informaes de forma profissional, com a cabea
trabalhando a mil por hora. Sim, ela estava reconhecendo a capa de chuva, e assim
que completou o exame inicial, levantou-se.
- Vou entrar. Estou aguardando a chegada do capito Feeney. Deixe-o passar.
Ela pode ser liberada para o legista.
- Sim, senhora.
- Fique aqui, Peabody - decidiu Eve. A policial tinha um estilo bom e firme. -
Mantenha os reprteres afastados. - Eve olhou por cima dos ombros, ignorando as
perguntas que estavam vindo aos berros e o brilho das lentes. - No d declaraes
nem faa comentrios.
- No tenho nada a dizer a eles.
- timo. Mantenha-se assim.
Eve tirou o lacre da porta, entrou e tornou a coloc-lo. O saguo estava quase
vazio. Peabody, ou algum como ela, j afastara todas as pessoas, com exceo
das essenciais. Eve olhou para o segurana que estava atrs do balco principal e
perguntou:
- C. J. Morse. Onde ele est?
- A sala dele fica no sexto andar, seo oito. Alguns policiais, colegas seus, o
levaram para l.
- Estou esperando por outro colega. Diga a ele para onde eu fui. - Eve se virou
e entrou no elevador.
Havia pessoas aqui e ali, algumas reunidas, outras em p, sozinhas, diante de
cenrios de fundo, e falando sem parar para as cmeras. Ela sentiu um cheiro de
caf, o fedor de p velho recm-preparado, to semelhante ao que se encontrava
nas salas apertadas da Central de Polcia. Sob outras circunstncias, aquilo a teria
feito sorrir.
O nvel do barulho estava aumentando enquanto ela subia. Ela saltou no sexto
andar e saiu no corao do zumbido frentico da sala do noticirio.
As mesas ficavam de costas umas para as outras, com pequenos corredores
de passagem entre elas. Tal como a Central de Polcia, as emissoras de TV
funcionavam vinte e quatro horas. Mesmo quela hora, havia mais de uma dzia de
estaes de trabalho em atividade.
A diferena, Eve notou, era que os policiais pareciam sobrecarregados de
trabalho, tinham o cabelo desgrenhado e viviam suados. Aquela equipe era um
primor de perfeio. As roupas eram elegantes, as jias pareciam prontas para as
cmeras e os rostos estavam cuidadosamente maquiados.
Todos pareciam ter uma tarefa a executar. Alguns falavam com muita rapidez
para as telas de seus tele-links, fornecendo notcias atualizadas para os sistemas de
satlites, Eve imaginou. Outros esbravejavam para os computadores, ou ouviam
algum esbravejar do outro lado enquanto os dados eram solicitados, acessados e
transmitidos para a fonte desejada.
Tudo parecia perfeitamente normal, com a diferena de que, misturado com o
fedor do caf de m qualidade, havia o odor pegajoso do medo.
Um ou dois funcionrios notou a passagem dela e fez meno de se levantar,
com perguntas no rosto. O olhar brutalmente frio de Eve era to eficiente quanto um
escudo de ao.
Ela se virou para a parede onde as telas estavam unidas umas s outras.
Roarke tinha um equipamento como aquele e Eve sabia que cada uma das telas
podia ser usada para transmitir uma imagem em separado ou em qualquer
combinao. Naquele instante, a parede estava totalmente tomada por uma imagem
gigantesca de Nadine Furst, transmitida do estdio de notcias. Atrs dela via-se a
familiar vista tridimensional da silhueta de Nova York.
Ela tambm parecia limpa, arrumada, perfeita. Seu olhar pareceu se encontrar
e se fixar no de Eve no instante em que ela chegou mais perto para ouvir a
transmisso.
- E mais uma vez nesta noite tivemos um assassinato sem sentido. Louise
Kirski, uma funcionria desta emissora, foi assassinada a apenas alguns passos de
distncia do prdio onde trabalhava. O mesmo prdio de onde, neste instante,
estamos transmitindo esta edio.
Eve no se deu ao trabalho de xingar quando Nadine acrescentou alguns
detalhes e passou a palavra a Morse. Ela j esperava por aquilo.
- Uma noite comum - disse Morse com sua voz forte e clara de reprter. - Uma
noite chuvosa na cidade. Uma vez mais, porm, apesar do melhor que a nossa fora
policial conseguiu nos oferecer, ocorreu um assassinato. Desta vez este reprter
que lhes fala tem condies de oferecer a voc, telespectador, uma viso em
primeira mo do horror, do choque e da sensao de desperdcio.
Ele fez uma pausa, com um sentido exato do tempo, enquanto a cmera fazia
um zoom e chegava prximo do seu rosto.
- Eu encontrei o corpo de Louise Kirski. Ele estava dobrado, sangrando, ao p
da escadaria deste prdio, onde tanto ela quanto eu trabalhamos durante muitas
noites. Sua garganta acabara de ser cortada e o seu sangue ainda escorria na
calada molhada. No tenho vergonha de dizer que fiquei gelado, me senti
revoltado, e o cheiro da morte bloqueou os meus pulmes. L estava eu, em p,
olhando para baixo, para ela, incapaz de acreditar no que via com os prprios olhos.
Como aquilo podia estar acontecendo? Uma mulher que eu conhecia, uma mulher
com quem eu frequentemente trocava palavras gentis, uma mulher com quem,
ocasionalmente, eu tinha o privilgio de trabalhar. Como era possvel que ela
estivesse jogada ali, sem vida?
A imagem de seu rosto plido e srio foi desaparecendo aos poucos, sendo
substituda por uma foto grotescamente detalhada que mostrava o cadver.
Eles no haviam perdido um segundo, pensou Eve com nojo, e se virou para o
console mais prximo, perguntando:
- Onde fica esse estdio?
- Como disse?
- Eu perguntei onde fica essa porcaria de estdio - e torceu o polegar em
direo  tela.
- Bem, ahn...
Furiosa, ela se inclinou e agarrou o funcionrio com os braos rgidos.
- Quer ver como eu fecho esta emissora em dois tempos?
- Dcimo segundo andar, estdio A.
Eve se virou no exato instante em que Feeney saiu do elevador.
- Demorou a aparecer, hein, Feeney?
- Ei, eu estava em Nova Jersey visitando parentes. - Ele nem se preocupou em
perguntar mais nada, e seguiu em frente junto dela.
- Preciso interromper aquela transmisso.
- Bem... - Ele coou a cabea enquanto subiam. - Ns podemos armar uma
cena e conseguir uma ordem para confiscar as imagens da vtima - e movimentou os
ombros quando Eve olhou para ele. - Assisti um pouco do programa no carro
enquanto vinha para c. Eles vo acabar conseguindo o material de volta, mas, de
qualquer modo, d para segurar as imagens por algumas horas.
- Caia dentro, ento. Preciso de todos os dados disponveis sobre a vtima.
Eles devem ter registros por aqui.
- Isso  bem simples de conseguir.
- Envie todo o material para a minha sala, ouviu, Feeney? Vou para l logo,
logo.
- Tudo bem. Mais alguma coisa?
Eve parou de repente e olhou com cara feia para as grossas portas brancas do
estdio A.
- Pode ser que eu precise de ajuda aqui.
- Vai ser um prazer.
As portas estavam trancadas e um aviso informando que havia um programa
no ar estava aceso. Eve lutou com a vontade forte de pegar na arma e arrebentar o
painel de segurana. Em vez disso, colou o dedo no boto de emergncia e esperou
pela resposta.
- O noticirio do Canal 75 est sendo apresentado neste instante, ao vivo -
explicou uma suave voz eletrnica. - Qual  a natureza do seu problema?
- Emergncia policial. - Eve pegou o distintivo e o levou at o sensor do
scanner.
- Um momento, tenente Dallas, enquanto sua solicitao est sendo registrada.
- No  uma solicitao - disse Eve no mesmo tom. Quero que estas portas
sejam abertas agora ou serei forada a invadir, de acordo com o Cdigo 83-B,
subpargrafo J.
Ouviu-se um zumbido suave, um chiado eletrnico, como se o computador
estivesse considerando o assunto e expressando contrariedade logo em seguida.
- Liberando as portas - informou a voz. - Por favor, permanea em silncio e
no ultrapasse a linha branca. Obrigado.
Dentro do estdio, a temperatura estava uns cinco graus mais baixa. Eve
caminhou com deciso, direto na direo de uma divisria de vidro que ficava de
frente para o cenrio, e bateu com fora suficiente para deixar o diretor do programa
completamente branco de preocupao. Ele levantou um dedo desesperado diante
dos lbios. Eve levantou o distintivo.
Com uma relutncia bvia, ele apertou o boto que abria a porta e com gestos
pediu que eles entrassem.
- Estamos ao vivo - disse, e se virou para acompanhar o programa. - Cmera
trs em Nadine. Imagem de Louise ao fundo. Marcar ngulo.
Os aparelhos robticos do estdio obedeceram com leveza. Eve olhou a
pequena cmera suspensa mudar de ngulo. No monitor de controle, o rosto de
Louise Kirski sorria alegremente.
- Devagar, Nadine. No se apresse. E voc, C. J., esteja pronto em dez
segundos.
- Jogue os comerciais - disse Eve.
- Estamos transmitindo este programa especial sem intervalos comerciais.
- Jogue os comerciais - repetiu ela - ou tiro vocs do ar. O diretor franziu o
cenho e estufou o peito.
- Olhe, escute aqui... - disse ele.
- No,  voc que me escutar, e com ateno. - Eve cutucou o peito
expandido do diretor repetidas vezes, de forma pouco gentil. - Voc est com a
minha testemunha l. Agora faa direitinho tudo o que eu mandar ou os seus
concorrentes vo colocar a audincia nas nuvens com a histria que eu vou passar
para eles, relatando como o Canal 75 interferiu na investigao policial do
assassinato de uma das suas funcionrias. - Eve levantou uma sobrancelha,
enquanto ele considerava o que ela dissera. - E talvez eu esteja at comeando a
achar que voc me parece suspeito... Voc no acha que ele tem cara de assassino,
Feeney?
- Estava pensando exatamente nisso. Talvez tenhamos de levlo para a
delegacia para uma longa conversa. Depois de tirarmos a roupa dele, para revistlo.
- Esperem a, por favor, esperem um pouco! - Ele passou a mo na boca. Que
mal ia fazer um intervalo comercial de noventa segundos? - Preparem o intervalo em
dez segundos. C. J., encerre a sua parte. Prefixo musical. Cmera um, panormica
area para trs. Marque o ngulo.
Soltou um longo suspiro e completou:
- Vou chamar os nossos advogados.
- Isso, pode chamar. - Eve saiu da cabine e foi at a comprida mesa preta que
Nadine e Morse dividiam.
- Ns temos o direito de...
- Eu vou lhe contar sobre os seus direitos - Eve interrompeu Morse. - Voc tem
o direito de ligar para o seu advogado e pedir para que ele v encontr-lo na Central
de Polcia.
Ele ficou branco como papel.
- Voc est me prendendo. Jesus Cristo, voc pirou?
- Voc  uma testemunha, babaca! E no vai dar mais nenhuma declarao
enquanto no der uma para mim. Oficialmente. Lanou um olhar pungente na
direo de Nadine. - Voc vai ter de se virar sozinha durante o resto do programa.
- Quero ir junto com vocs. - Com as pernas bambas, Nadine se levantou. A
fim de dispensar os gritos frenticos que vinham da cabine de controle, ela arrancou
o ponto eletrnico da orelha e o atirou sobre a mesa. - Provavelmente eu fui a ltima
pessoa a falar com ela.
- timo. Conversaremos sobre isso. - Eve os encaminhou para fora, fazendo
uma pausa rpida, s para soltar um risinho cruel na direo da cabine do diretor. -
Vocs podem tapar esse buraco na programao passando umas velhas reprises do
seriado Nova York contra o Crime.  um clssico.
- Muito bem, C. J., muito bem. - Por mais infeliz que estivesse se sentindo, Eve
ainda conseguia apreciar aquele momento. - Finalmente consegui colocar voc onde
eu queria. Est confortvel?
O rosto dele ainda estava meio verde, junto s narinas, mas ele conseguiu
lanar um olhar de escrnio enquanto olhava em torno, na sala de interrogatrio.
- Vocs bem que podiam contratar um decorador para embelezar as coisas por
aqui.
- Estamos tentando encaixar isso no oramento. - Eve se recostou, sentada ao
lado da mesa, que era o nico mvel da sala.
- Gravando - pediu ela. - Primeiro de junho... Nossa, como o ms de maio
passou rpido... Entrevistado, C. J. Morse, na sala de interrogatrio C. Entrevista
conduzida pela tenente Eve Dallas. Referncia: homicdio. Vtima: Louise Kirski.
Horrio: zero hora, quarenta e cinco minutos. Senhor Morse, o senhor j foi
orientado acerca dos seus direitos. Deseja a presena de seu advogado durante
esta entrevista?
Ele pegou um copo com gua e tomou um gole.
- Estou sendo acusado de alguma coisa?
- No momento, no.
- Ento vamos em frente.
- Leve-me de volta ao local do crime, C. J. Conte-me exatamente o que
aconteceu.
- Tudo bem. - Ele bebeu mais um pouco de gua, como se a sua garganta
estivesse ressecada. - Eu estava indo para a emissora. Sou o co-ncora do jornal da
meia-noite.
- A que horas voc chegou?
- Mais ou menos s onze e quinze. Usei a entrada do lado leste. Muitos de ns
usam aquela entrada, porque vai dar direto na sala do noticirio. Estava chovendo,
ento eu dei uma corrida, quando sa do carro. Foi quando eu vi alguma coisa no
cho, na base dos degraus. No consegui identificar o que era, a princpio.
Ele parou de falar, cobriu o rosto com as mos e o esfregou com fora.
- No consegui identificar - continuou - at chegar praticamente em cima dela.
Eu pensei... Nem sei o que pensei direito, na verdade achei que algum tinha
tomado um porre fenomenal.
- Voc no reconheceu a vtima?
- O... O capuz - e gesticulou vagamente e sem controle estava cobrindo o
rosto. Eu me agachei e comecei a afast-lo do rosto dela. - Neste ponto, ele tremeu
violentamente. - Foi quando eu vi o sangue, a garganta dela. O sangue - repetiu,
cobrindo os olhos.
- Voc tocou no corpo?
- No, acho que... No, no toquei. Ela estava jogada ali e a garganta estava
toda aberta. Os olhos!... No, eu no a toquei. Deixou as mos carem novamente, e
fez o que parecia um esforo hercleo para se controlar. - Eu passei mal do
estmago. Voc provavelmente no entende essa sensao, Dallas. Algumas
pessoas possuem reaes humanas bsicas. Todo aquele sangue, os olhos dela.
Deus, eu vomitei, fiquei apavorado e corri para dentro. Vi o guarda no balco e
contei para ele.
- Voc conhecia a vtima?
- Claro, eu a conhecia. Louise j tinha feito a edio de algumas matrias para
mim. Na maior parte do tempo ela trabalhava com Nadine, mas fez alguns trabalhos
para mim e para outros. Ela era boa em seu trabalho, muito boa. Tinha um olho
rpido e certeiro. Era uma das melhores. Cristo! - Ele pegou a jarra de gua sobre a
mesa. Derramou um pouco fora do copo quando se serviu.
- No havia motivo para mat-la. No havia motivo algum.
- Era costume dela sair por aquela porta, quela hora?
- No sei. Acho que ela... Ela devia estar trabalhando na sala de edio - disse
com voz furiosa.
- Vocs eram chegados, em nvel pessoal? Ele levantou a cabea e franziu o
cenho.
- Voc est tentando me comprometer nessa histria, no est, Dallas? Voc
adoraria isso!
- Apenas responda s perguntas, C. J. Voc tinha algum envolvimento com
ela?
- Ela tinha um relacionamento, falava muito sobre um cara chamado Bongo.
Ns trabalhvamos juntos, Dallas. Apenas isto.
- Voc chegou no prdio do Canal 75 s onze e quinze. E antes disso?
- Antes disso, estava em casa. Quando estou escalado para o jornal da meianoite
eu dou uma cochilada de duas horas. No tinha nenhuma matria especial
para apresentar, ento no havia muito o que preparar. Era para ser apenas uma
leitura no teleprompter, um resumo das notcias do dia. Jantei com alguns amigos
por volta das sete da noite, fui para casa s oito e tirei um cochilo.
Ele colocou os cotovelos sobre a mesa e enterrou a cabea nas mos.
- Acordei s dez e sa pouco antes das onze. Quis me garantir, saindo um
pouco mais cedo de casa, por causa do tempo. Jesus, Jesus, Jesus.
Se Eve no tivesse visto o seu relato diante das cmeras poucos minutos
depois de ter descoberto o corpo, poderia at mesmo sentir um pouco de pena dele.
- Voc viu algum no local, ou nas proximidades da cena do crime?
- Apenas Louise. No h muita gente entrando e saindo da emissora quela
hora da noite. No vi ningum. Apenas Louise. Apenas Louise.
- Ok, C. J. Isso  tudo, por ora.
Ele pousou o copo depois de beber um pouco mais, com avidez, em cima da
mesa.
- J posso ir?
- Lembre-se de que voc  uma testemunha. Se estiver me escondendo
alguma coisa, ou se lembrar de alguma coisa no revelada nesta entrevista e no
vier me contar, eu posso acus-lo de ocultar provas e dificultar a investigao. - Eve
sorriu com satisfao. - Ah, e informe os nomes daqueles seus amigos, C. J. Eu nem
pensei que voc tivesse algum.
Ela o liberou e ficou remoendo os fatos enquanto esperava que Nadine fosse
trazida. A situao era muito clara. E um sentimento de culpa bateu forte. Para
manter tudo bem vivo na cabea, ela folheou o contedo da pasta e analisou as
fotos de Louise Kirski, ampliadas. Virou-as para baixo quando a porta se abriu.
Nadine no parecia nem um pouco arrumada naquele momento. O brilho
profissional da personalidade que trabalhava ao vivo tinha dado lugar a uma mulher
plida e abalada, com os olhos inchados e a boca trmula. Sem dizer nada, Eve
apontou para a cadeira e serviu-se de um pouco de gua em outro copo.
- Voc foi bem rpida, Nadine - disse com frieza - para dar a notcia ao vivo.
- Esse  o meu trabalho. - Nadine nem tocou no copo, mas apertou as mos
uma contra a outra no colo. - Voc faz o seu trabalho, eu fao o meu.
- Certo. Estamos apenas servindo ao pblico, no ?
- No estou muito interessada no que voc est pensando a meu respeito
neste instante, Dallas.
- Que bom, porque eu no estou pensando muita coisa boa de voc no
momento. - Pela segunda vez ela ligou o gravador e forneceu todas as informaes
necessrias. - Quando foi a ltima vez em que voc viu Louise Kirski com vida?
- Ns estvamos trabalhando juntas na sala de edio, acertando as imagens e
o tempo de uma matria que ia ao ar no jornal da meia-noite. No levou tanto tempo
quanto imaginvamos para terminar. Louise era boa, muito boa. - Nadine respirou
fundo e continuou a falar, olhando para um ponto que ficava alguns centmetros
acima do ombro esquerdo de Eve. - Conversamos por alguns minutos. Ela e o rapaz
com quem estava saindo nos ltimos meses estavam procurando por um
apartamento. Iam morar juntos. Ela estava feliz. Louise era uma pessoa feliz, era
fcil de se lidar, brilhante.
Ela foi obrigada a parar de novo, teve de parar. Sua respirao estava presa.
Com cuidado e firmeza, ela ordenou a si mesma que inspirasse e expirasse. Duas
vezes.
- Enfim - continuou - ela viu que estava sem cigarros. Gostava de dar uma
fumada entre uma tarefa e outra. Todo mundo fingia que no via, mesmo quando ela
se esgueirava, entrava em um Hepsito qualquer e acendia um cigarro. Eu at pedi
que ela me trouxesse uns dois cigarros da rua, e lhe dei algumas fichas de crdito.
Ns descemos juntas e eu fiquei na sala do noticirio. Tinha umas ligaes para
fazer. Se no fosse por isso, teria ido com ela. Estaria com ela naquele instante.
- Vocs duas geralmente saam juntas antes do programa?
- No. Normalmente eu fao um intervalo de alguns minutos, saio, vou tomar
um caf tranquilo em uma pequena cafeteria na Terceira Avenida. Eu gosto de... sair
um pouco da emissora, Especialmente antes da edio de meia-noite. Temos um
restaurante, uma sala de estar e uma cafeteria dentro do prdio da emissora, mas
eu gosto de dar um tempo e tiro uns dez minutos para ficar sozinha.
- Habitualmente?
- Sim. - Nadine sentiu o olhar de Eve e desviou o rosto. Habitualmente. S que
eu precisava fazer essas ligaes, e estava chovendo, ento... Ento eu no fui.
Emprestei minha capa a Louise e ela saiu. - Seu olhar se focou de volta no de Eve.
E ele estava arrasado. - Ela foi morta no meu lugar. Eu sei disso, e voc sabe
tambm. No , Eve?
- Eu reconheci a sua capa de chuva - disse Eve, lacnica. Pensei que fosse
voc.
- Ela no fez nada, apenas deu uma sada para comprar uns cigarros. Lugar
errado, hora errada. Capa errada.
Isca errada, pensou Eve, mas no falou.
- Vamos raciocinar passo a passo, Nadine. Uma editora de TV possui uma
certa quantidade de poder, de controle.
- No. - Lenta e metodicamente, Nadine balanou a cabea para os lados. O
enjoo do estmago subira, se instalara na garganta e tinha um gosto horrvel. - A
histria que  importante, Dallas, a personalidade de quem apresenta os fatos no ar.
Ningum valoriza, nem sequer pensa no trabalho do editor, s no do reprter. Ela
no era o alvo, Dallas. Vamos parar de fingir que era.
- O que eu acho e o que eu sei so duas coisas trabalhadas de forma diferente,
Nadine. Mas vamos seguir com o que eu sei por enquanto. Acho que voc era o
alvo, e acho que o assassino confundiu Louise com voc. Vocs tm um corpo bem
diferente uma da outra, mas estava chovendo, ela estava usando a sua capa de
chuva, estava de capuz. No houve tempo, ou no houve escolha, depois que o erro
foi descoberto.
- O qu? - Confusa por ver a situao descrita to objetivamente, Nadine
tentava se concentrar no relato. - O que voc disse?
- Que tudo acabou muito depressa. Tenho o registro da hora exata em que ela
passou pelo balco da segurana. Ela acenou para o guarda. Temos Morse, que
quase tropeou nela dez minutos depois. Ou o tempo foi marcado de forma
incrivelmente exata ou o nosso assassino  um exibido. Pode apostar que ele queria
assistir a tudo no noticirio da meia-noite, antes mesmo que o corpo dela esfriasse.
- Ento ns fizemos tudo o que ele queria, no foi?
- Foi. - Eve concordou. - Voc fez.
- E voc acha que foi fcil para mim? - A voz de Nadine, rouca e spera,
explodiu. - Acha que foi moleza eu me sentar l e apresentar a notcia, sabendo que
ela ainda estava cada l fora?
- No sei - disse Eve, com suavidade. - Foi fcil?
- Ela era minha amiga. - Nadine comeou a chorar, as lgrimas transbordaram
e comearam a escorrer pelo rosto, deixando sulcos na pesada maquiagem de TV -
Eu me preocupava com ela. Droga, ela era importante para mim, no era s uma
histria! Ela no era s a porcaria de uma histria.
Lutando para administrar a prpria culpa, Eve empurrou o copo de gua na
direo de Nadine.
- Beba - ordenou. - Descanse um minuto.
Nadine teve de usar as duas mos para manter o copo precariamente firme.
Ela preferia, descobriu naquele instante, que fosse uma dose de conhaque, mas isto
ia ter de esperar.
- Eu vejo esse tipo de coisa acontecer o tempo todo, no  muito diferente do
seu caso.
- Mas voc viu o corpo - acusou Eve. - Foi correndo l fora, na cena do crime.
- Eu tinha de ver. - Com os olhos ainda cheios de lgrimas, ela olhou de volta
para Eve. - Era uma coisa pessoal, Dallas. Eu tinha que ver. No consegui acreditar
quando a notcia se espalhou.
- E como foi que a notcia se espalhou?
- Algum ouviu Morse gritando para o guarda que algum estava morto, que
uma pessoa acabara de ser assassinada bem na porta. Isto atraiu muita ateno -
explicou ela, massageando as tmporas. - As notcias voam. Ainda no tinha
terminado de dar o segundo telefonema quando ouvi o bochicho. Dispensei o papo
com a minha fonte e desci. E ento eu a vi. - Seu sorriso era sombrio e sem humor. -
Cheguei antes das cmeras, e antes da polcia.
- E voc e seus colegas se arriscaram a adulterar a cena de um crime. - Eve
passou a mo pelo cabelo. - J est feito, pacincia. Algum tocou nela? Voc viu
algum tocar nela?
- No, ningum  assim to idiota. Era bvio que ela estava morta. Dava para
ver. Dava para ver o corte, o sangue. Chamamos uma ambulncia, mesmo assim. O
primeiro carro da polcia chegou em poucos minutos, a policial mandou que
entrssemos de volta e lacrou a porta. Eu falei com o policial. Peabody, era o seu
nome - e passou os dedos sobre as tmporas, no porque estivessem doendo, mas
porque estavam dormentes. - Disse a ela que era Louise, e ento subi para me
preparar para o noticirio. E o tempo inteiro eu fiquei pensando era para ser eu. L
estava eu, viva, olhando para a cmera, e Louise estava morta. Era para ser eu.
- No era para ser ningum.
- Ns a matamos, Dallas. - A voz de Nadine estava novamente firme. - Voc e
eu.
- Acho que vamos ter de conviver com isso. - Eve deu um suspiro profundo e
se inclinou para a frente. - Vamos repassar a sequncia cronolgica dos fatos,
Nadine. Passo a passo.
CAPTULO TREZE
As vezes, pensava Eve, o trabalho duro da rotina policial compensava. Era
como uma mquina caa-nqueis, alimentada habitualmente, sem a pessoa sentir,
monotonamente, at que, quando a sorte grande caa em seu colo, provocava quase
um choque.
Foi exatamente assim que Eve se sentiu quando David Angelini caiu em seu
colo.
Ela tinha vrias dvidas a respeito de pequenos detalhes do caso Kirski. A
questo do tempo era uma delas.
Nadine deixou de tirar sua hora de folga, Louise Kirski foi para a rua no lugar
dela, passou pelo saguo aproximadamente s vinte e trs horas e quatro minutos.
Saiu na chuva e deu de cara com uma faca. Minutos depois, correndo para no se
atrasar, Morse chegou no estacionamento da emissora, quase tropeou no corpo,
vomitou e correu para dentro, para dar o alarme de um assassinato.
Tudo isto ela matutava, rpido, depressa, em poucos minutos.
Na realidade, ela analisara os discos com a gravao da guarita de segurana
do Canal 75. No era possvel saber se o assassino havia entrado com o carro por
ali, estacionado o veculo no ptio, seguido at a porta para esperar Nadine, cortado
o pescoo de Louise por engano e depois fugido de carro novamente.
O criminoso poderia simplesmente ter cortado caminho a p, a partir do terreno
que dava para a Terceira Avenida, exatamente do jeito que Louise pretendia fazer. A
guarita de segurana precisava se certificar de que sempre haveria vagas
disponveis para os funcionrios da emissora e que os convidados no seriam
prejudicados por algum motorista frustrado que, sem encontrar vaga, resolvesse
usar o estacionamento particular para tirar o seu carro ou a sua minivan area das
ruas.
Eve reviu cada um dos discos, por uma questo de rotina, e porque, admitiu
para si mesma, tinha esperana de que a histria de Morse no fosse colar. Ele teria
reconhecido a capa de chuva de Nadine e saberia do seu hbito de tirar alguns
minutos para ficar sozinha, antes da edio da meia-noite.
No havia nada que ela pudesse curtir mais, em um nvel bsico e at
primariamente pessoal, do que pregar a bunda magra dele na parede.
E foi neste instante que ela notou a imagem do elegante carro esporte italiano
de dois lugares que deslizava e entrava, brilhando, pelo porto do ptio da emissora.
Ela j vira aquele carro antes, estacionado do lado de fora da casa do comandante,
no dia do funeral de Cicely Towers.
- Pare! - ordenou, e a imagem na tela ficou congelada. Amplie do setor vinte e
trs at o trinta e coloque em tela cheia. A mquina clicou, depois fez um som
metlico abafado, provocando uma oscilao na imagem. Com um rugido
impaciente, Eve deu uma pancada na tela com a base da mo, tentando ajeitar a
imagem. - Essa droga de cortes oramentrios! - murmurou ela, e ento um sorriso
se abriu, lento e saboroso. - Ora, ora, senhor Angelini.
Respirou fundo ao ver o rosto de David encher a tela. Ele parecia impaciente,
pensou. Distrado. Nervoso.
- O que  que voc estava fazendo a - murmurou ela, desviando o olhar para o
relgio digital do canto inferior esquerdo da tela - s vinte e trs horas, dois minutos
e cinco segundos?
Recostou-se na cadeira, e comeou a mexer na gaveta com uma das mos
enquanto analisava a tela. De modo distrado, deu uma mordida em uma barra de
chocolate que ia servir de caf da manh, para ela. Eve ainda no tinha ido para
casa.
- Copie esta imagem - ordenou. - Depois, volte para a cena original e a copie
tambm. - Esperou pacientemente enquanto a mquina zumbia, atendendo  ordem.
- Agora, continue a passar o disco, na velocidade normal.
Mordiscando o caf da manh improvisado, ela olhou o carssimo carro esporte
passar diante da cmera. A imagem piscou. O Canal 75 bem que poderia pagar por
uma cmera de segurana de ltima gerao, que acompanhava os objetos atravs
de um sensor de movimento. Onze minutos haviam se passado pelo relgio no
momento em que o carro de Morse se aproximou.
- Interessante - murmurou. - Copie o arquivo, transfira a cpia para a pasta
47833-K. Homicdios. Louise Kirski. Cruzar os dados com o caso da pasta 47801-T.
Homicdios. Cicely Towers, e com o caso 47815-M. Homicdios. Yvonne Metcalf.
Virando-se para o lado, ela ativou o tele-link e chamou:
- Feeney!
- Oi, Dallas. - Ele enfiou o resto de um bolinho de canela na boca. - Estou
trabalhando no caso. Por Deus, no so nem sete horas da manh!
- Eu sei que horas so.  que surgiu um problema delicado, Feeney.
- Ai, que inferno! - Apareceram ainda mais sulcos em seu rosto j enrugado. -
Odeio quando voc fala isso!
- Descobri David Angelini no disco de gravao do porto de segurana do
Canal 75. Ele chegou uns dez minutos antes de o corpo de Louise Kirski ser achado.
- Merda, merda, merda! Quem  que vai contar isso ao comandante?
- Eu conto, depois que tiver uma conversinha com David. Preciso que voc me
d cobertura, Feeney. Vou lhe transmitir as imagens que eu tenho, excluindo
aquelas em que David aparece. Quero que voc as leve para o comandante. Diga a
ele que eu estou tirando umas duas horas do meu horrio para resolver um assunto
pessoal.
- , at parece que ele vai engolir essa.
- Feeney, agora quero que voc diga para mim que eu preciso dormir um
pouco. Diga que voc vai levar o relatrio para o comandante, e que eu devia ir para
casa tirar um cochilo de pelo menos duas horas.
Feeney deu um longo suspiro.
- Dallas, voc precisa dormir um pouco. Eu levo o relatrio para o comandante.
V para casa e tire um cochilo de pelo menos duas horas.
- Pronto! Agora voc pode dizer para ele que me falou isso encerrou ela,
desligando.
Como no caso do trabalho, o instinto de uma policial tambm compensava s
vezes. O de Eve lhe dizia que David Angelini ia se aproximar da famlia para se
proteger. Sua primeira parada foi o pequeno e aconchegante apartamento dos
Angelini, localizado em uma regio elegante do East Side.
Ali as construes de tijolinhos haviam sido erguidas h quase trinta anos, e
eram reprodues das antigas residncias tpicas do sculo XIX que foram
destrudas no incio do sculo XXI, quando a maior parte da infra-estrutura de Nova
York entrou em colapso. Muitas das casas ricas daquela rea tinham sido
condenadas e demolidas. Depois de muita polmica, a rea havia sido reconstruda
em estilo antigo, uma tradio que s os muito ricos tinham condies de usufruir.
Depois de uma busca de quase dez minutos, Eve conseguiu achar uma vaga
entre os carssimos carros americanos e europeus. Acima dela, trs minivans
areas, de propriedade particular, manobravam, circulando  procura de um lugar
livre para aterrissar.
Pelo jeito o transporte pblico no era considerado prioritrio naquela
vizinhana, e o preo dos terrenos era muito alto para ser desperdiado na
construo de garagens.
Mesmo assim, Nova York era Nova York, e ela trancou bem as portas do seu
velho carro da polcia antes de ir para a calada. Notou que um adolescente passou
deslizando perto dela em um skate voador. Ele aproveitou a oportunidade para
impressionar sua pequena plateia com algumas manobras radicais e complicadas,
terminando com uma longa cambalhota. Em vez de desapont-lo, Eve lanou-lhe um
sorriso de congratulaes.
- Grande manobra!
- Fui na boa! - respondeu o jovem com uma voz que ficava a meio caminho
entre a puberdade e a virilidade, e tinha menos segurana do que quando ele
flutuava acima da calada. - Voc sabe andar de skate
- No,  muito arriscado para mim. - Quando ela continuou a caminhar, ele
circulou em torno dela, colocando o skate quase na vertical com o movimento dos
ps.
- Eu posso lhe ensinar alguns dos movimentos bsicos em cinco minutos.
- Vou me lembrar disso. Voc sabe quem  que mora ali, no nmero 21?
- No 21? Claro, o senhor Angelini. Mas voc no  uma das gatas dele.
Ela parou.
- No sou no?
- Ora, qual ? - O menino abriu um sorriso, exibindo dentes perfeitos. - Ele
gosta de mulheres meio metidas. E mais velhas tambm - e fez um giro vertical
rpido, indo de um lado para outro. - E voc tambm no se parece com uma
empregada. De qualquer modo, ele normalmente usa andrides para o servio de
limpeza.
- Ele tem muitas gatas?
- S vi algumas delas por aqui. Elas sempre chegam em um carro particular. s
vezes ficam at o dia seguinte, mas geralmente no.
- E como  que voc sabe? Ele sorriu sem se abalar.
-  que eu moro bem ali - apontou para uma casa geminada, do outro lado da
rua. - Gosto de sacar o que est rolando.
- Certo, ento por que no me conta se algum apareceu por aqui ontem 
noite?
- Por que eu contaria? - e fez mais um giro e um movimento de rotao com o
skate.
- Porque eu sou da polcia.
Seus olhos se arregalaram enquanto ele olhava para o distintivo de Eve.
- Uau! Que legal! Ei, voc acha que foi ele que detonou a coroa? Tenho de ficar
por dentro dos lances, logo, porque daqui a pouco tenho de zoar para a escola.
- Isso no  um interrogatrio. Voc estava de olho aberto ontem  noite? Qual
 o seu nome?
-  Barry. Eu estava assim, tipo andando de skate ontem  noite, vendo um
pouco de TV, ouvindo msica. Acho que devia estar estudando para a monstruosa
prova final de computao tcnica.
- Por que no est na escola hoje?
- Ei, voc no  da Diviso Antigazeta, ? - seu riso ficou um pouco nervoso. -
Ainda  muito cedo para eu ir para a escola. De qualquer modo, estou no programa
de trs aulas por semana, e mais a escola eletrnica em casa.
- Tudo bem. E ontem  noite?
- Enquanto andava de skate, vi o senhor Angelini sair. Eram umas oito horas,
acho. Depois, mais tarde, provavelmente perto de meia-noite, chegou outro cara, em
um supercarro. No saltou por algum tempo, ficou s l dentro, sentado, tipo sem
saber o que fazer.
Barry fez um rodopio rpido, subindo por toda a extenso do skate.
- Logo depois ele entrou no apartamento. Estava andando meio engraado.
Saquei que ele estava todo molhado. Entrou direto, logo ele sabia o cdigo para
entrar. No vi o senhor Angelini voltar. Provavelmente nessa hora eu j estava todo
zzz... Voc sabe, puxando um ronco.
- Dormindo, sim. Entendi. E voc viu algum sair hoje de manh?
- No, mas o carro ainda est l.
- Sei. Obrigada.
- Ei - ele deu uma corrida atrs dela. -  legal ser policial?
- s vezes  muito legal, s vezes no. - Eve subiu os poucos degraus que
levavam  casa dos Angelini e se identificou para a voz fria do scanner, que a
cumprimentou.
- Desculpe, tenente, no h ningum em casa. Se quiser deixar uma
mensagem, ser contactada de volta, na primeira oportunidade.
Eve olhou diretamente para o scanner.
- Registre isto. Se no h ningum em casa, vou voltar at o carro, vou solicitar
uma ordem de busca e uma autorizao de entrada. Vai levar menos de dez
minutos.
Ela ficou parada e esperou menos de dois minutos, at que David Angelini
abriu a porta.
- Tenente.
- Senhor Angelini. Aqui ou na Central de Polcia? A escolha  sua.
- Entre. - Ele deu um passo para trs. - Acabei de chegar em Nova York, na
noite passada. Ainda estou com as coisas meio desorganizadas, agora de manh.
Ele a conduziu at uma sala de estar pintada em tons escuros e teto alto e com
gentileza lhe ofereceu caf, oferta que ela recusou com a mesma gentileza. Ele
usava calas de corte reto, bem estreitas nos tornozelos, que ela vira nas ruas de
Roma, e uma camisa de seda com as mangas largas, no mesmo tom de creme. A
cor dos sapatos tambm combinava e eles pareciam to macios que deviam afundar
ao toque de um dedo.
Seus olhos, porm, estavam agitados, e seus dedos tamborilavam de modo
ritmado nos braos da poltrona quando ele se sentou.
- A senhorita tem novas informaes sobre o caso de minha me?
- Voc sabe por que eu estou aqui.
Ele passou a lngua sobre os lbios e se ajeitou na poltrona. Eve descobriu o
porqu de ele se dar to mal no jogo.
- Como assim? - perguntou David.
Eve pegou no gravador e o colocou no centro da mesa, abertamente.
- Senhor David Angelini, os seus direitos so os seguintes: o senhor no tem
obrigao de declarar coisa alguma. Se optar por dizer algo, tudo ficar gravado e
poder ser usado contra o senhor em um tribunal ou em qualquer procedimento
legal. O senhor tem todo o direito  presena e  orientao de um advogado ou
representante legal.
Ela continuou a recitar os direitos, rapidamente, enquanto via a respirao dele
acelerar e se tornar bem audvel.
- Quais so as acusaes?
- O senhor ainda no est sendo acusado de nada. Compreendeu os seus
direitos?
-  claro que compreendi.
- Deseja entrar em contato com o seu advogado?
Sua boca se abriu e ele soprou o ar, estremecendo um pouco.
- Ainda no. Imagino que a senhorita vai me esclarecer qual  o motivo desta
interpelao, tenente.
- Acho que tudo vai ficar claro como gua. Senhor Angelini, onde o senhor
estava entre as onze horas da noite do dia 31 de maio e a zero hora de 19 de junho?
- Eu lhe disse, acabei de chegar na cidade. Dirigi direto do aeroporto, e vim
para c.
- O senhor veio para c direto do aeroporto?
- Exato. Tinha uma reunio de negcios ontem  noite, mas eu... cancelei. -
Abriu o ltimo boto da camisa, como se precisasse de ar. - Eu marquei a reunio
para outro dia.
- A que horas o senhor chegou ao aeroporto?
- Meu voo aterrissou por volta de dez e meia, acho.
- E o senhor veio para c.
- J disse que sim.
- Sim, disse. - Eve deixou a cabea pender para o lado. - E o senhor  um
mentiroso. E mente mal, ainda por cima. Comea a suar quando est blefando.
Sentindo a linha de suor que estava comeando a se formar em suas costas,
ele se levantou. Tentou fazer voz de ofendido, mas s conseguiu mostrar medo.
- Acho que vou entrar em contato com o meu advogado, afinal, tenente. E
tambm com o seu oficial superior.  um procedimento usual da polcia molestar
pessoas inocentes em suas prprias casas?
- Fazemos qualquer coisa que funcione - murmurou ela. Alm do mais, o
senhor no  inocente. V em frente, chame o seu advogado e vamos todos juntos
para a Central de Polcia.
Mas ele no moveu um msculo para pegar o tele-link.
- Eu no fiz nada.
- S para comear, o senhor mentiu para uma policial investigadora. Est
gravado. Chame o seu advogado.
- Espere, espere. - Passando a mo na boca, David comeou a andar pela sala
de um lado para outro. - No  necessrio. No  necessrio levar as coisas to
longe.
- A escolha  sua. Gostaria de rever a sua declarao anterior?
- Este  um assunto delicado, tenente.
- Engraado... Sempre achei que assassinato fosse um assunto abrutalhado.
Ele continuou a andar pela sala, retorcendo as mos.
- A senhorita precisa compreender que os nossos negcios esto em uma
situao muito frgil no momento. O tipo errado de publicidade poder afetar certas
transaes. Em uma semana, no mximo duas, tudo ser resolvido.
- E o senhor acha que eu deveria interromper as investigaes at o senhor
colocar seus pepinos financeiros em ordem?
- Eu estou disposto a recompens-la pelo seu tempo e sua discrio.
- Ah, ?... - Eve arregalou os olhos. - E que tipo de compensao o senhor est
sugerindo, senhor Angelini?
- Posso dispor de dez mil. - Tentou dar um sorriso. - Dobro a quantia se a
senhorita simplesmente enterrar toda esta histria para sempre.
Eve cruzou os braos.
- Que esta gravao sirva de prova que David Angelini acaba de oferecer uma
propina  investigadora da polcia, tenente Eve Dallas, e que a citada propina foi
recusada.
- Piranha! - disse ele baixinho.
- Pode apostar que sim. Por que esteve no prdio do Canal 75 ontem  noite?
- Eu jamais afirmei isto.
- Vamos direto ao assunto. O senhor foi gravado pelas cmeras de segurana
da emissora quando estava entrando no estacionamento. - Para dar mais nfase ao
que dizia, abriu a bolsa, tirou a cpia do disco, balanou-a na frente do rosto dele e
depois a jogou em cima da mesa.
- Cmeras de segurana? - Suas pernas pareceram dobrar sob o peso do
corpo e ele tateou em busca de uma poltrona. - Eu no me lembrei... Nem pensei
nisso. Entrei em pnico.
- Cortar a jugular de uma pessoa pode, mesmo, provocar isso.
- Eu nem toquei nela. No cheguei nem perto dela. Meu Deus, ser que pareo
um assassino?
- Eles vm em todos os estilos. Voc estava l. Est documentado. E cuidado
com as mos! - gritou ela enquanto levava a prpria mo em direo  arma que
trazia pendurada no ombro. Mantenha as mos longe dos bolsos.
- Em nome de Deus, ento acha que estou carregando uma faca? -
Lentamente ele pegou um leno no bolso e enxugou as sobrancelhas. - Eu nem
sequer conhecia Louise Kirski.
- Mas sabia o nome dela.
- Soube pelo noticirio - e fechou os olhos. - Vi tudo no noticirio. E vi quando
ele a matou.
Os msculos dos ombros de Eve se tensionaram, mas, ao contrrio de David,
ela era boa naquele jogo. Tanto o seu rosto quanto a sua voz se abrandaram.
- Bem, ento... Por que no me fala a respeito disso?
Ele comeou a agitar as mos de novo, juntando os dedos e torcendo-os.
Usava dois anis, um de diamante e outro de rubi, ambos incrustados em ouro
macio. Eles faziam um som musical quando se chocavam.
- A senhorita vai ter de deixar o meu nome fora disso.
- No - respondeu ela no mesmo tom. - No vou. Eu no fao acordos. Sua
me era uma promotora pblica, senhor Angelini. O senhor deveria saber que, se vai
haver algum acordo, ele tem de ser feito atravs da promotoria e no por mim. O
senhor j mentiu, e est tudo gravado. - Ela manteve o tom neutro e leve. Era
melhor assim, quando se lidava com um suspeito nervoso, a fim de deix-lo mais
calmo. - Eu estou lhe oferecendo a oportunidade de rever a sua declarao anterior,
e novamente estou lhe lembrando de que o senhor tem o direito de entrar em
contato com o seu advogado a qualquer momento, durante esta entrevista. Mas se
quer falar comigo, fale agora. E, para comear, vou tornar as coisas mais fceis para
o senhor. O que estava fazendo no Canal 75 ontem  noite?
- Tinha uma reunio marcada para bem tarde. Eu lhe disse que tinha uma
reunio profissional, e a cancelei.  verdade. Ns estvamos... Eu estava
trabalhando em um acordo de expanso dos negcios. A famlia Angelini tem
interesses na indstria do entretenimento. Temos desenvolvido alguns projetos,
programas, apresentaes para uso domstico. Carlson Young, o chefe da Diviso
de Entretenimento do Canal 75, tem feito muita coisa para que esses projetos
apresentem bons resultados. Estava indo at a emissora para me encontrar com ele,
em sua sala.
- Mas era meio tarde para tratar de negcios, no era?
- A rea do entretenimento no tem o que normalmente se chama de
expediente normal. Tanto a minha agenda quanto a dele so muito cheias, e aquele
era um horrio que servia a ns dois.
- Por que no conversaram pelo tele-linke
- Grande parte das nossas negociaes foi feita desse modo. Mas ns dois
achamos que j estava na hora de um encontro pessoal. Tnhamos a esperana...
ainda temos... de levar o primeiro programa ao ar antes do outono. J conseguimos
o texto - continuou ele, quase falando para si mesmo - a equipe de produo j est
pronta, e j assinamos o contrato com boa parte do elenco.
- Ento o senhor tinha uma reunio marcada para tarde da noite, com Carlson
Young, do Canal 75.
- Sim. O mau tempo acabou me segurando. Eu estava muito atrasado. - Sua
cabea se levantou. - Liguei para ele do carro. A senhorita pode confirmar isso
tambm. Pode confirmar. Liguei para ele poucos minutos antes das onze, quando vi
que ia me atrasar.
- Ns vamos conferir tudo, senhor Angelini. Pode contar com isso.
- Eu cheguei ao porto do estacionamento. Estava distrado, pensando em...
alguns problemas com o elenco. Fiz a curva. Deveria ter ido direto at a entrada
principal, mas estava pensando em alguma outra coisa. Parei o carro, e ento notei
que ia ser obrigado a dar r. Foi quando eu vi... - e usou o leno, passando-o na
boca
- vi algum sair por uma porta. Ento apareceu outra pessoa, que devia estar
observando do lado de fora,  espera. Ele se moveu muito depressa. Tudo
aconteceu muito depressa. Ela se virou e eu consegui ver seu rosto. Apenas por um
segundo eu vi o rosto dela, iluminado pela luz. Sua mo se esticou no ar. Foi rpido,
muito rpido. E... Ah, meu Deus! O sangue! Ele esguichou como um chafariz. Eu
no compreendi. No podia acreditar... O sangue espirrava de dentro dela. Ela caiu,
e ele comeou a fugir, saiu correndo.
- O que o senhor fez?
- Eu... Fiquei ali, sentado. No sei por quanto tempo. De repente estava
dirigindo para longe dali. Nem me lembro. Estava dirigindo, e tudo era como se fosse
um sonho. A chuva, e as luzes dos outros carros. De repente, cheguei aqui. Nem me
lembro como foi que consegui chegar. Mas sa do carro. Liguei para Carlson Young
e falei que ia me atrasar ainda mais, e que era melhor marcar para outro dia. Entrei
aqui em casa, mas no havia ningum. Tomei um calmante e fui para a cama.
Eve deixou que o silncio se estabelecesse por um momento.
- Vamos ver se eu entendi esta histria direito, senhor Angelini. O senhor
estava a caminho de uma reunio, pegou a entrada errada e viu uma mulher ser
brutalmente assassinada. Ento dirigiu para longe dali, cancelou a reunio e foi para
a cama. Esta descrio  exata?
- Sim. Sim, suponho que .
- No lhe ocorreu a ideia de sair do carro para ver se algo poderia ser feito?
Talvez usar o seu tele-link do carro para notificar as autoridades ou chamar uma
ambulncia?
- No estava raciocinando direito. Estava abalado.
- Estava abalado. Ento veio para c, tomou um remdio para dormir e foi para
a cama.
- Foi o que eu disse - rebateu ele. - Preciso de um drinque. Com as mos
suadas, ele tentava se controlar. - Vodca - ordenou. - Traga a garrafa.
Eve o deixou pensando, at que um andride de servios domsticos chegou
com uma garrafa de vodca Stoli e um copo baixo, sobre uma bandeja. Ela deixou
que ele bebesse.
- No havia nada que eu pudesse fazer - resmungou ele, estimulado, como ela
planejara, pelo seu silncio. - Aquilo no me dizia respeito.
- A sua me foi assassinada h poucas semanas, pelo mesmo mtodo que o
senhor acaba de me descrever. E isto no lhe dizia respeito?
- Isso foi parte do problema. - Ele se serviu de mais vodca e bebeu.
Estremeceu. - Eu fiquei chocado... E com medo. A violncia no faz parte da minha
vida, tenente. Fazia parte da vida da minha me, uma parte de sua vida que eu
jamais consegui compreender. Ela entendia a violncia - disse baixinho. - Ela
entendia.
- E o senhor se ressente disso, senhor Angelini? Que a sua me entendesse a
violncia, que fosse forte o bastante para enfrent-la? Para lutar contra ela?
- Eu amava a minha me. - Sua respirao era curta. Quando eu vi essa outra
mulher sendo assassinada, exatamente como a minha me, tudo o que pensei em
fazer foi fugir.
Ele fez uma pausa e tomou o ltimo gole da vodca, de uma vez s.
- Pensa que eu no sei - continuou ele - que a senhorita anda me investigando,
fazendo perguntas, cavando fatos de minha vida pessoal e profissional? Eu j sou
um suspeito. Quanto a minha situao ia piorar se eu fosse descoberto ali, bem ali,
na cena de outro assassinato?
Eve se levantou e respondeu:
- O senhor est prestes a descobrir.
CAPTULO QUATORZE
Eve o questionou novamente, no ambiente menos confortvel da sala de
interrogatrio e David finalmente aceitara o conselho de chamar representantes
legais para acompanh-lo, e trs advogados vestidos com ternos de risca-de-giz e
olhos frios colocaram-se ao lado do cliente,  mesa de reunio.
Eve os tinha apelidado, secretamente, de Moe, Larry e Curly, porque eles se
pareciam com os Trs Patetas, do velho seriado cmico.
Moe, aparentemente, era a advogada que estava  frente dos trs. Tinha uma
voz dura, muito spera. Parecia que uma tigela havia sido colocada em sua cabea
e o cabelo escuro cortado em volta, em linha reta. Foi isto que inspirou Eve a batizla.
Seus acompanhantes falavam pouco, mas exibiam um ar srio, e ocasionalmente
faziam anotaes aparentemente muito importantes nos pequenos blocos de papel
amarelo dos quais os advogados jamais se cansavam.
De vez em quando Curly, com um franzido da testa larga, apertava alguns
botes em sua agenda eletrnica e sussurrava coisas em tom conspiratrio no
ouvido de Larry.
- Tenente Dallas - Moe cruzou as mos sobre a mesa; elas exibiam unhas
afiadas e perigosas, pintadas de vermelho vivo. Meu cliente est ansioso para
colaborar.
- Antes no estava - afirmou Eve - como vocs acabam de ver por si prprios
na gravao da primeira entrevista. Depois de desistir da histria original, seu cliente
admitiu ter abandonado a cena do crime sem comunicar a ocorrncia s
autoridades.
Moe soltou um suspiro. Era um som tempestuoso que mostrava
desapontamento.
- A senhorita pode,  claro, acusar o senhor Angelini desses pequenos lapsos.
Ns vamos, do nosso lado, alegar capacidade diminuda, choque, alm do trauma
emocional causado pelo recente assassinato de sua me. Isto tudo representaria
apenas um desperdcio do tempo da Justia, e do dinheiro dos contribuintes.
- Eu no acusei o seu cliente de tais... lapsos, ainda. Estamos lidando com um
problema muito maior aqui.
Curly rabiscou algo e virou o bloco na direo de Larry, para que este lesse o
que estava escrito. Os dois murmuraram algo um para o outro e assumiram um ar
grave.
- A tenente j confirmou o compromisso que o meu cliente marcara no Canal
75.
- Sim, ele tinha um compromisso, que foi cancelado s onze e trinta e cinco da
noite.  estranho que a sua capacidade diminuda e o seu trauma emocional intenso
tenham desaparecido durante um tempo suficiente para que ele pudesse cuidar de
negcios. - Antes que Moe tivesse chance de falar de novo, Eve se virou para David
com olhar duro. - O senhor conhece Nadine Furst?
- Eu sei quem ela . J a vi no noticirio. - Ele hesitou e se inclinou para
consultar Moe. Aps um instante, concordou com a cabea. - J a encontrei
algumas vezes, socialmente, e conversei com ela rapidamente, aps a morte de
minha me.
Eve j sabia de tudo isso e cercou a sua presa.
- Tenho certeza de que o senhor j assistiu s reportagens dela. Deve ter um
interesse velado no seu trabalho, j que ela vem cobrindo os recentes assassinatos.
E o assassinato de sua me.
- Tenente, qual  a relao que existe entre o interesse do meu cliente pela
cobertura jornalstica da morte de sua me e o assassinato da senhorita Kirski?
- Estou pesquisando isso. O senhor assistiu s recentes reportagens de Nadine
Furst nas ltimas semanas, senhor Angelini?
-  claro. - Ele se recuperou o bastante para dar um sorriso de deboche. - A
senhorita conseguiu um bocado de exposio na mdia com essa histria, tenente.
- Isso incomoda o senhor?
- Acho espantoso que uma servidora pblica paga pela cidade busque
notoriedade atravs da tragdia.
- Est me parecendo que isso o deixou realmente revoltado respondeu Eve
com um gesto de indiferena. - A senhorita Furst tem conseguido muita notoriedade
com isso tambm.
-  de esperar que algum como ela use a dor alheia em benefcio prprio.
- O senhor no apreciou a cobertura dela?
- Tenente - perguntou Moe, com a pacincia obviamente diminuindo - qual  a
finalidade dessa pergunta?
- Isto no  um julgamento, ainda. No preciso de uma finalidade. O senhor se
sentiu incomodado pela cobertura, senhor Angelini? Zangado?
- Eu... - e parou de falar ao notar o olhar penetrante de Moe. - Venho de uma
famlia proeminente - continuou ele, com mais cuidado. - J estamos acostumados
com essas coisas.
- Ser que poderamos voltar ao assunto em questo? - pediu Moe.
- Esse  precisamente o assunto em questo. Louise Kirski estava usando a
capa de chuva de Nadine Furst quando foi morta. Sabe o que eu acho, senhor
Angelini? Acho que o assassino atingiu o alvo errado. Acho que ele estava
esperando por Nadine, e Louise deu o azar de escolher a hora errada para sair na
chuva  procura de cigarros.
- Isso no tem nada a ver comigo. - Os olhos dele voaram na direo dos
advogados. - Tudo isso continua sem ter nada a ver comigo. Eu vi o crime. Apenas
isto.
- O senhor disse que era um homem. Como ele se parecia?
- No sei. No o vi com clareza, ele estava de costas para mim. Tudo
aconteceu to rpido!
- Mas o senhor viu o bastante para saber que era um homem.
- Imaginei que fosse. - Ele parou de falar, tentando controlar a respirao
enquanto Moe sussurrava algo em seu ouvido. - Estava chovendo - continuou ele. E
eu estava a muitos metros de distncia, dentro do carro.
- O senhor afirmou ter visto o rosto da vtima.
- Foi a luz. A moa virou a cabea para cima, na direo da luz, quando ele, ou
ela, enfim, o assassino, a atacou.
- E esse assassino, que pode ter sido um homem, e que surgiu do nada..., ele
era alto, baixo, velho, jovem?
- No sei. Estava escuro.
- Mas o senhor disse que havia luz.
- Apenas um ponto de luz. Ele estava nas sombras. Estava de preto - disse
David em uma torrente de palavras inspiradas. Um casaco preto... E um chapu.
Um chapu de aba larga, bem enterrado na cabea.
- Isso  muito conveniente. Ele estava de preto. To original!
- Tenente, eu no posso aconselhar o meu cliente a continuar cooperando se a
senhorita persistir no sarcasmo.
- Seu cliente est em srios apuros. Meu sarcasmo  a menor das
preocupaes dele. Temos aqui trs grandes pontos. Os meios, o motivo e a
oportunidade.
- Vocs no tm nada, a no ser a admisso feita por meu cliente de que ele
testemunhou um crime. E tem mais - continuou Moe, tamborilando as unhas
perigosas sobre a mesa de reunio - vocs no tm nada para lig-lo com os outros
assassinatos. O que vocs tm, tenente,  um manaco  solta e uma necessidade
desesperada de aplacar a ira dos oficiais superiores e da opinio pblica efetuando
uma priso. S que no vai ser a do meu cliente.
- Isso  o que veremos. Agora... - Seu comunicador apitou duas vezes, um
sinal de Feeney. A adrenalina de Eve estava a mil, mas ela mascarou isto com um
sorriso leve. - Desculpem, vou levar apenas um instante.
Eve saiu da sala e foi para o corredor. Atrs dela, atravs do vidro da sala, que
dava viso apenas pelo lado de fora, a confuso se instalara.
- Traga-me boas notcias, Feeney. Eu quero enquadrar este filho da me.
- Boas notcias? - Feeney esfregou o queixo. - Bem, pode ser que voc goste
desta. Yvonne Metcalf estava em negociaes com o nosso amigo a dentro.
Negociaes secretas.
- Para qu?
- Para obter o papel principal em um filme. Eles estavam ainda na fase de
qualificao, porque a renovao do contrato dela com o Fique Ligado ainda no
tinha sado. Finalmente, consegui apertar o agente dela. Se ela conseguisse o
papel, estava disposta a abandonar o programa da TV. S que eles iam ter de
aumentar a aposta, obter a garantia de pelo menos trs filmes para ela, com
distribuio internacional e vinte e quatro horas de promoo ininterrupta no
lanamento.
- Pelo jeito, ela estava querendo muito esse papel.
- Ela o estava pressionando um pouco. Pelo que eu saquei do papo com o
agente, David precisava de Yvonne Metcalf para garantir uma parte do patrocnio,
mas eles queriam uma parcela do lucro final. Ele estava brigando para resolver tudo
e salvar o projeto.
- Ento ele a conhecia. E era ela que estava no controle.
- De acordo com o agente, David esteve pessoalmente com Yvonne Metcalf,
vrias vezes. Tiveram at mesmo alguns encontros, a ss, no apartamento dela. Ela
tambm estava contando com a colaborao dele.
- Eu adoro quando as peas comeam a se encaixar, voc no?
- Eve se virou, analisando David Angelini atravs do vidro. Conseguimos uma
conexo, Feeney. Ele conhecia as trs.
- Mas ele, supostamente, estava na Costa Oeste quando Yvonne Metcalf foi
morta.
- Quanto voc quer apostar que ele tem um avio particular? Sabe de uma
coisa que eu aprendi com Roarke, Feeney? Horrios de voo e avies de carreira no
significam nada se voc tem dinheiro ou possui meios de transporte particulares.
No, a no ser que ele aparea com dez testemunhas que juram que estavam
puxando o saco dele no momento em que Yvonne Metcalf foi assassinada, eu o
peguei. Veja como ele est suado, Feeney - murmurou ela enquanto entrava de
volta na sala de interrogatrio.
Ela se sentou, cruzou as mos sobre a mesa e fitou diretamente os olhos de
David.
- O senhor conhecia Yvonne Metcalf.
- Eu... - pego desprevenido, David se ajeitou na cadeira e enfiou o dedo no
pescoo para alargar o colarinho. - Certamente, eu... Todos a conheciam.
- O senhor tinha negcios com ela, encontrou-se pessoalmente com ela, e at
esteve em seu apartamento.
Isto tudo, obviamente, era novidade para Moe, que rangeu os dentes e
levantou a mo.
- Um momento, tenente. Eu gostaria de conversar com o meu cliente, a ss.
- Tudo bem. - Eve se levantou, solcita. Do lado de fora, assistiu a todo o show
atravs do vidro e achou que era realmente uma pena a lei impedi-la de ligar o
udio.
Mesmo assim, ela podia ver Moe despejando perguntas em cima de David e
dava para notar as suas respostas gaguejadas enquanto Larry e Curly pareciam
muito srios e rabiscavam furiosamente em seus bloquinhos.
Moe balanou a cabea para os lados diante de uma das respostas de David e
o cutucou com uma das unhas vermelhas e letais.
Eve estava sorrindo quando Moe levantou uma das mos e fez um sinal
pedindo que ela voltasse a entrar na sala.
- Meu cliente est disposto a declarar que conhecia Yvonne Metcalf, em nvel
profissional.
- H, ha... - Desta vez Eve encostou o quadril na mesa. Yvonne Metcalf o
estava deixando no maior sufoco, no estava, senhor Angelini?
- Estvamos em negociaes. - Ele juntou as mos novamente e as torceu. - 
comum, para os artistas convidados para um projeto, exigirem a lua. Ns
estvamos... chegando a um acordo.
- O senhor a encontrou no apartamento dela. Vocs brigaram?
- Ns... Eu... Ns tivemos reunies em vrios locais. A casa dela foi um desses
lugares. Ns conversamos sobre prazos e possibilidades.
- Onde o senhor estava na noite em que Yvonne Metcalf foi assassinada,
senhor Angelini?
- Eu teria de verificar na minha agenda - respondeu ele, com surpreendente
controle. - Mas acredito que estava em Nova Los Angeles, no complexo do Planet
Hollywood. Sempre me hospedo l quando estou na cidade.
- E em que lugar o senhor estava entre as sete da noite e a meia-noite, pelo
horrio da Costa Oeste?
- No sei dizer.
-  melhor o senhor saber, senhor Angelini.
- Provavelmente em meu quarto. Tinha uma grande quantidade de assuntos
para resolver. O texto precisava ser refeito.
- O texto que o senhor estava adaptando para a senhorita Metcalf.
- Sim, esse mesmo.
- E o senhor estava trabalhando sozinho?
- Prefiro ficar sozinho quando estou escrevendo. Fui eu que escrevi o texto,
entende? - Ele enrubesceu ligeiramente, como se a cor subisse do colarinho da
camisa. - Gastei muito do meu tempo e do meu esforo para preparar isso.
- O senhor possui um avio?
- Um avio? Naturalmente, do jeito que viajo, eu...
- O seu avio estava em Nova Los Angeles?
- Sim, eu... - Seus olhos se arregalaram, e depois ficaram sem expresso
quando ele compreendeu a implicao da pergunta.
- A senhorita no pode estar acreditando seriamente nisso!
- David, sente-se - disse Moe, com firmeza, quando o viu se levantar de
repente. - Voc no tem mais nada a dizer neste momento.
- Ela acha que eu as matei. Isto  insanidade! Minha prpria me, pelo amor de
Deus! Por qu? Que motivo poderia existir para
isso?
- Bem, eu tenho algumas ideias a respeito - respondeu Eve.
- Vamos ver se a psiquiatra concorda comigo.
- O meu cliente no tem obrigao alguma de se submeter a um teste
psiquitrico.
- Eu acho que a senhorita vai aconselh-lo a fazer exatamente isso.
- Esta entrevista - disse Moe com a voz entrecortada - est encerrada.
- timo. - Eve ficou em p e adorou o instante em que seu olhar encontrou o de
David. - Senhor David Angelini, o senhor est preso. Foi acusado de abandonar a
cena de um crime, obstruir a Justia e tentar subornar uma policial.
Ele voou em cima dela, indo, pensou Eve com ironia, direto para a sua
garganta. Ela esperou at que suas mos estivessem bem firmes em volta do seu
pescoo, e seus olhos latejando de fria para s ento derrub-lo.
Ignorando as ordens rspidas da advogada dele, Eve colocou o seu peso sobre
o corpo dele.
- No vamos nos dar ao trabalho de acrescentar ataque a uma policial e
resistncia  priso, porque eu acho que no vai ser necessrio. Podem fich-lo -
disse para os guardas que j haviam invadido a sala.
- Bom trabalho, Dallas - Feeney a cumprimentou, enquanto via David ser
levado dali.
- Vamos torcer para que a promotoria tambm pense dessa forma, pelo menos
para impedir a liberao dele, sob fiana. Temos de segur-lo e faz-lo suar frio.
Quero que ele seja acusado de assassinato em primeiro grau, Feeney, quero muito.
- Estamos perto disso, garota.
- Precisamos da prova fsica. Precisamos da droga da arma, de sangue, dos
suvenires. O perfil psiquitrico da doutora Mira vai ajudar, mas no d para levar as
acusaes em frente sem alguma prova fsica. - Impaciente, ela consultou o relgio.
- No deve levar muito tempo para conseguirmos um mandado de busca, mesmo
com os advogados tentando impedir.
- H quanto tempo est acordada, Eve? - perguntou ele. Voc est cheia de
olheiras.
- J estou em p h tanto tempo que mais umas duas horas no vo fazer
diferena. Que tal bebermos alguma coisa enquanto esperamos pelo mandado?
Feeney colocou a mo sobre o ombro dela, de modo paternal.
- Acho que ns dois vamos precisar de um drinque mesmo. O comandante j
soube de tudo. Ele quer nos ver, Dallas. Agora.
Ela apertou o espao entre as sobrancelhas com o dedo.
- Vamos at l juntos, ento. E vamos tomar dois drinques depois que
acabarmos.
Whitney no perdeu tempo. No momento em que Eve e Feeney colocaram os
ps em sua sala, ele lhes lanou um olhar de arrepiar.
- Vocs trouxeram David para interrogatrio.
- Eu trouxe, senhor,  verdade. - Eve deu um passo  frente para enfrentar o
que vinha. - Temos uma gravao em vdeo dele no porto do estacionamento do
Canal 75, no momento exato do assassinato de Louise Kirski. - Ela no fez nenhuma
pausa e desfiou o relatrio com voz rpida e olhando para cima.
- David disse que viu o assassino.
- Ele afirmou que viu algum, possivelmente um homem usando um casaco
preto e um chapu. Esse homem teria atacado Louise Kirski e depois teria fugido em
direo  Terceira Avenida.
- E ele entrou em pnico - acrescentou Whitney, ainda mantendo o controle.
Suas mos estavam paradas sobre a mesa - abandonou a cena do crime, sem
comunicar o incidente  polcia. - Era possvel que Whitney estivesse xingando a
situao por dentro, e talvez o seu estmago estivesse cheio de ns provocados
pela tenso, mas seu olhar estava frio, duro e firme. - Esta no  uma reao atpica
para algum que testemunha um crime violento.
- Ele negou ter estado no local - disse Eve calmamente. Tentou se encobrir,
ofereceu suborno. Ele teve a oportunidade, comandante. E tem ligao com todas
as vtimas. Ele conhecia Yvonne Metcalf, estava trabalhando com ela em um projeto,
tinha estado em seu apartamento.
A nica reao de Whitney foi a de fechar os dedos para, logo a seguir, tornar
a abri-los.
- E o motivo, tenente?
- Em primeiro lugar, dinheiro - respondeu ela. - Ele est com problemas
financeiros, que sero resolvidos assim que o testamento da me for homologado.
As vtimas, ou, no caso do terceiro crime, a pessoa que era o verdadeiro alvo, eram
todas mulheres fortes, com reconhecimento pblico. Todas elas estavam de algum
modo atormentando-o. A no ser que os advogados dele consigam impedir, a
doutora Mira vai fazer testes com ele, para determinar seu estado emocional e
mental, bem como a probabilidade de ele ter tendncias para a violncia.
Ela pensou na presso de suas mos em volta do seu pescoo e imaginava
que esta probabilidade era alta e fcil de detectar.
- Ele no estava em Nova York no momento dos dois primeiros assassinatos.
- Senhor. - Ela sentiu uma pontada de pena, mas a suprimiu. - Ele tem um
avio particular. Pode voar para onde quiser.  pateticamente simples adulterar os
registros de voo. Ainda no posso segur-lo aqui pelos assassinatos, mas quero que
ele permanea detido at conseguirmos mais provas.
- Voc vai deix-lo na cadeia por abandonar a cena de um crime e por tentativa
de suborno?
-  uma priso efetuada com boa base, comandante. Estou requisitando
mandados de busca. Quando encontrarmos as provas fsicas...
- Se encontrarem - interrompeu Whitney. Neste momento, ele se levantou, pois
no conseguiu mais permanecer sentado atrs da mesa. - Esta  uma grande
diferena, Dallas. Sem uma prova fsica, o seu caso de assassinato no tem
sustentao.
- E  por isso que ele ainda no foi acusado de assassinato. Eve colocou uma
cpia do relatrio sobre a mesa. Eve e Feeney tiveram o cuidado de dar uma
passada na sala dela, a fim de usar o computador para a avaliao da probabilidade.
- Ele conhecia as primeiras duas vtimas e tambm Nadine Furst. Tinha contato com
elas e estava na cena do ltimo crime. Suspeitamos que a promotora Towers estava
encobrindo algum quando apagou a ltima ligao de seu tele-link. Ela teria
encoberto o filho. E o relacionamento entre eles estava tenso, devido aos problemas
dele com jogo, e  posio dela de no querer ajud-lo a se livrar das dvidas. Com
todos estes dados, a probabilidade de culpa indicada pelo computador foi de 83 por
cento.
- Voc no levou em considerao que ele  incapaz desse tipo de violncia. -
Whitney colocou as mos na beira da mesa e se inclinou para a frente. - Voc no
colocou este fator na sua teoria, no , tenente? Eu conheo David Angelini, Dallas.
Conheo-o to bem quanto os meus prprios filhos. Ele no  um assassino.  um
tolo, talvez.  fraco, talvez. Mas no  um assassino frio.
- s vezes os fracos e os tolos so os que atacam. Comandante, sinto muito,
mas no posso libert-lo.
- Ser que voc faz alguma ideia do que poder fazer a um homem como ele, o
fato de ir para a cadeia? Saber que  suspeito do assassinato da prpria me? - No
havia outra escolha, na cabea de Whitney, a no ser implorar por David. - No
nego, Dallas, que ele foi mimado. O pai queria o melhor para ele e para Mirina, e fez
de tudo para que eles conseguissem. Desde a infncia ele foi acostumado a pedir
por alguma coisa e ver seu desejo lhe cair no colo de imediato. Sim, sua vida tem
sido fcil, cheia de privilgios, at mesmo indulgente. David cometeu erros, fez
julgamentos incorretos, e tudo isto sempre foi consertado para ele. Mas no h
maldade dentro dele, Dallas. No h violncia. Eu o conheo.
A voz de Whitney no se alterou, mas ecoava de emoo.
- Dallas, voc jamais vai conseguir me convencer de que David pegou em uma
faca e rasgou o pescoo da me. Estou pedindo para voc avaliar isso com ateno,
atrasar um pouco a papelada, por conta da burocracia, e recomendar a sua
liberao, sob a responsabilidade dele mesmo.
Feeney comeou a falar, mas Eve balanou a cabea. Ele podia ter uma
patente superior  dela, mas era ela a responsvel pela investigao. Era ela que
estava no comando.
- Trs mulheres esto mortas, comandante. Temos um suspeito sob custdia.
No posso fazer o que o senhor est me pedindo.
O senhor me colocou como investigadora principal porque sabia que eu jamais
cederia.
Ele se virou e olhou para fora da janela.
- Compaixo no  o seu ponto forte, certo, Dallas?
Ela franziu a testa, mas no disse nada.
- Esse  um golpe baixo, Jack - disse Feeney com a voz alterada - e se voc
vai usar isso para atingi-la, vai ter de me atingir tambm, porque eu estou
plenamente de acordo com Dallas. Temos o bastante para fich-lo com base nos
delitos pequenos e tir-lo das ruas, e  isto que estamos fazendo.
- Vocs vo arruin-lo. - Whitney se virou. - Mas isso no  problema de vocs.
Podem pegar seus mandados, e fazer as buscas necessrias. Mas, como seu oficial
comandante, eu estou ordenando que mantenham o caso em aberto. Fiquem de
olho. Quero um relatrio completo sobre a minha mesa at s quatorze horas. -
Lanou um ltimo olhar para Dallas. - Esto dispensados.
Eve saiu da sala e ficou surpresa ao notar que suas pernas pareciam feitas de
vidro, do tipo frgil que poderia ser estilhaado com um descuidado golpe da mo.
- Ele saiu da linha, Dallas - disse Feeney, segurando-a pelo brao. - Ele est
magoado e resolveu descontar, jogando sujo com voc.
- No foi assim to sujo. -A voz dela era spera e sofrida. Compaixo no  o
meu ponto forte, ento? Eu no sei nada a respeito de laos de famlia e lealdade,
no ?
Sentindo-se desconfortvel, Feeney trocou o peso do corpo de um p para
outro.
- Ora, vamos, Dallas, voc no vai levar isso para o lado pessoal, vai?
- No vou? Ele me ofereceu apoio total, uma poro de vezes. Agora, est me
pedindo para dar apoio a ele, e eu tenho de dizer desculpe, mas isso no  possvel.
 claro que  uma coisa pessoal, Feeney - e afastou a mo dele. - Vamos deixar os
drinques para outra hora. No estou me sentindo socivel.
Sem saber o que fazer, Feeney enfiou as mos nos bolsos. Eve saiu para um
lado, o comandante, do outro, permaneceu com as portas fechadas. Feeney ficou se
sentindo infeliz no meio dos dois.
Eve supervisionou pessoalmente a busca na casa de Marco Angelini. No era
necessrio que ela estivesse ali. Os tcnicos do laboratrio conheciam bem o seu
trabalho, e o equipamento que usavam era to bom quanto o oramento permitia.
Mesmo assim ela espalhou um pouco de spray protetor nas mos, cobriu as botas
com ele e se movimentou por toda a casa de trs andares em busca de alguma
coisa que pudesse amarrar o caso ou, pensando na expresso que viu no rosto de
Whitney, que pudesse desmont-lo.
Marco Angelini permaneceu no local. Tinha este direito, como dono da casa e
pai do principal suspeito. Eve ignorou a sua presena, os olhos azuis que
acompanhavam cada um dos seus movimentos, o olhar feroz que via em seu rosto e
o repuxar constante do maxilar.
Um dos tcnicos fez uma busca completa nas roupas de David utilizando um
sensor porttil, procurando manchas de sangue. Enquanto ele trabalhava, Eve,
meticulosamente, examinava o resto do quarto.
- Ele deve ter-se livrado da arma do crime, tenente - comentou o tcnico. Ele
era um veterano da polcia, um pouco dentuo, e tinha o apelido de Castor. Trazia o
sensor preso ao ombro por uma correia, e o estava passando naquele instante sobre
um casaco esportivo muito caro.
- Ele usou a mesma arma nas trs mulheres - respondeu Eve, falando mais
consigo mesma do que com Castor. - O laboratrio confirmou isto. Por que motivo
ele a jogaria fora agora?
- Talvez tenha terminado o trabalho. - O sensor mudou de tom, de um zumbido
constante para um bipe rpido. - Foi s um pouco de azeite - anunciou Castor. -
Azeite extravirgem. Pingou na linda gravata dele. Talvez ele j tenha terminado -
repetiu.
Castor admirava os detetives. No passado, tivera ambies de se tornar um
deles. O mais prximo que conseguira chegar disto foi alcanar o cargo de tcnico
de campo. Mas ele lia todas as histrias de detetive que encontrava disponveis em
disco.
- Veja s - explicou ele. - Trs  um nmero mgico. Um nmero importante. -
Seus olhos se aguaram por trs dos culos escuros no momento em que as lentes
tratadas detectaram uma minscula mancha de talco no punho de uma camisa. Foi
em frente, se empolgando com a explicao. - Ento esse cara, veja s, se fixa em
trs mulheres, mulheres que ele conhece e v o tempo todo, na TV. Talvez sinta
teso por elas.
- A primeira vtima era a me dele.
- Ei - Castor fez uma pausa longa e virou a cabea a fim de olhar para Eve. -
Nunca ouviu falar de dipo? Aquele sujeito grego, voc sabe, que tinha teso pela
me? Enfim, ele mata as trs, depois joga a arma fora e a roupa que estava usando
quando cometeu o crime. De qualquer modo, esse cara tem roupas suficientes para
vestir seis pessoas.
Franzindo o cenho, Eve caminhou por dentro do espaoso closet, olhando para
os cabides automticos e as prateleiras motorizadas.
- Ele nem sequer mora aqui.
- O cara  rico  bea, no ? - Para Castor aquilo explicava tudo. - Ele tem
uns dois ternos aqui que jamais foram estreados. Sapatos tambm. - Abaixando-se,
pegou um par de botas de cano curto e as mostrou para Eve. - Viu s? No tem
nada. - Passou o sensor pelas solas, que no apresentavam marcas de uso. - Sem
sujeira, sem poeira, sem arranhes de andar na calada, nem fibras.
- Isso o torna culpado apenas de autobenevolncia. Que droga, Castor,
consiga um pouco de sangue para mim.
- Estou tentando. Mas acho que, provavelmente, ele jogou fora a roupa que
estava usando.
- Voc  muito otimista, Castor.
Chateada, ela se virou na direo de uma escrivaninha laqueada, em forma de
U, e comeou a remexer nas gavetas. Os discos de arquivo que encontrou ela
guardaria para rodar no prprio computador. Quem sabe tinha a sorte de encontrar
algum tipo de correspondncia entre David Angelini e sua me, ou Yvonne Metcalf?
Ou, quem sabe - meditou - ela podia ter ainda mais sorte e encontrar algum dirio
perdido, com a confisso dos assassinatos?
Onde ele enfiou o guarda-chuva?, ela se perguntou. E o sapato? Ficou
imaginando se os tcnicos em Nova Los Angeles e os outros, na Europa, estavam
tendo mais sorte. S por pensar que ia ter de inspecionar e pesquisar todas as
aconchegantes casinhas e refgios escondidos de David Angelini, Eve j estava
comeando a sentir um caso srio de indigesto.
Ento, ela encontrou a faca.
Foi muito simples. Abriu a gaveta do meio da escrivaninha e l estava ela.
Comprida, estreita e letal. Tinha um cabo enfeitado, entalhado no que deveria ser
marfim genuno. Isto a transformava em uma antiguidade, ou em um crime
internacional. Extrair marfim, ou compr-lo sob qualquer forma, havia sido
transformado em atividade ilegal em todo o planeta, h mais de meio sculo, depois
que os elefantes africanos haviam sido quase extintos.
Eve no era entusiasta por antiguidades, nem especialista em crimes
ambientais, mas estudara tpicos de medicina legal e tcnicas forenses, o bastante
para saber que o formato e o comprimento da lmina eram exatos.
- Ora, ora. - Sua indigesto, uma convidada mal-vinda, foi embora. Em seu
lugar ficou a sensao clara e agradvel do sucesso.
- Talvez o trs no fosse o seu nmero de sorte, afinal.
- Ele guardou a arma? Mas que filho da me! - Desapontado, diante de um
assassino to tolo, Castor balanou a cabea. Esse cara  um idiota!
- Passe o sensor aqui - ordenou Eve, cruzando o cmodo na direo do
tcnico.
Castor girou o scanner e mudou a programao, que estava configurada para
roupas. Aps um rpido ajuste das lentes, correu a ponta do cano do sensor por
toda a faca. O aparelho comeou a apitar sem parar.
- Tem um troo aqui - murmurou Castor, com os dedos grossos teclando os
botes do controle como se fosse um pianista.
-  fibra, talvez papel. Parece um tipo de fita adesiva. H tambm impresses
digitais, no cabo. Quer um relatrio delas impresso?
- Quero.
- T legal. - O scanner cuspiu um pedao quadrado de papel, cheio de
impresses. -Agora vamos colocar a mquina de volta e... Bingo! Aqui est o sangue
que voc queria. No tem muito no. Ele franziu a testa, apertando o cano do
aparelho ao longo da lmina. - Vai ser sorte se conseguirmos material suficiente
para descobrir o tipo sanguneo. O DNA vai ser ainda mais difcil.
- Mantenha esse esprito otimista, Castor. H quanto tempo o sangue est a?
- Ah, qual , tenente? - Por trs das lentes do sensor, seus olhos pareciam
grandes e sarcsticos. - Voc sabe que no d para eu lhe informar isso s com os
dados de um aparelho porttil. Vamos ter de lev-lo para anlise. Tudo o que essa
gracinha de mquina faz  identificar. No tem pele aqui. Seria melhor se tivesse um
pouco de pele.
- Vou levar o sangue. - No momento em que estava lacrando a faca em um
plstico de guardar provas, sentiu um movimento com os cantos dos olhos. Olhou
para o lado e deu de cara com os olhos de Marco Angelini, escuros de condenao.
Ele olhou para a faca, e depois de volta para o rosto dela. Algo se movimentou
dentro dele, algo que o arrebatou e fez com que contrasse os msculos do maxilar.
- Gostaria de ter um minuto do seu tempo, tenente.
- No posso lhe dar muito mais do que isso.
- No vai levar muito tempo. - Seus olhos se voltaram para Castor e depois
para a faca, que Dallas j estava guardando na bolsa. - Em particular, por favor.
- Certo. - Ela acenou com a cabea para o guarda que estava atrs de Marco
Angelini. - Por favor, Castor, pea a um dos membros da equipe para subir at aqui
e terminar a busca manual - e seguiu Angelini para fora do quarto.
Ele se virou na direo de uma pequena escada, estreita e acarpetada, e
deixou as mos se arrastarem sobre o corrimo lustroso enquanto subia. Quando
chegou ao topo da escada, virou para a direita e entrou em uma sala.
Era um escritrio, conforme Eve descobriu. Estava fortemente iluminado pelo
brilhante sol da manh. A luz batia e refulgia na superfcie do equipamento de
comunicao, voltava e se refletia no console liso, semicircular, sbrio e pintado de
preto. A seguir, tornava a brilhar e se espalhava sobre o piso cintilante.
Como se estivesse incomodado com a intensidade da luz do sol, Marco
Angelini apertou um boto e fez com que as janelas se cobrissem com uma camada
suave da cor de mbar. Agora a sala estava cheia de sombras que envolviam
contornos dourados.
Angelini foi direto at um bar embutido na parede e ordenou um usque com
gelo. Pegou o copo quadrado e tomou um gole, bem devagar.
- A senhorita acha que o meu filho assassinou a me e mais duas mulheres.
- O seu filho foi interrogado com base nessas acusaes, senhor Angelini. Ele
 suspeito. Se tiver alguma dvida a respeito do procedimento da polcia, o senhor
deve falar com os advogados dele.
- J conversei com eles. - Ele tomou mais um gole. - Eles acham que h uma
grande possibilidade de que a senhorita possa acus-lo, mas dizem que ele no vai
ser indiciado.
- Isso vai depender do grande jri.
- A senhorita acha que ele vai ser, ento.
- Senhor Angelini, se e quando eu prender o seu filho, e fizer a acusao de
trs assassinatos em primeiro grau, ser porque eu acredito que ele ser indiciado,
julgado e condenado por essas acusaes, e que eu terei as provas suficientes para
garantir essa condenao.
Ele olhou para o saco plstico onde ela acabara de colocar uma daquelas
provas.
- Andei fazendo uma pesquisa a respeito da senhorita, tenente Dallas.
- Ah, andou?
- Gosto de saber das minhas chances - disse ele com um sorriso sem humor,
que surgiu e desapareceu em um piscar de olhos.
- O comandante Whitney a respeita. E eu o respeito. Minha ex-esposa
admirava a sua tenacidade e a sua eficincia, e ela no era tola. Ela conversava a
seu respeito, sabia disso?
- No, no sabia.
- Ela ficava impressionada com a sua cabea. Uma cabea limpa, de uma
verdadeira policial. A senhorita  boa em seu trabalho, no , tenente?
- Sim, sou boa no meu trabalho.
- Mas comete erros.
- Tento mant-los em um nvel mnimo.
- Um erro na sua profisso, mesmo que seja mnimo, pode causar dores
incrveis nas pessoas inocentes. - Seus olhos permaneceram sobre os dela. -A
senhorita achou uma faca no quarto do meu filho.
- No posso discutir isso com o senhor.
- Ele raramente usa esta casa - disse Marco Angelini, com cuidado. - Talvez
trs ou quatro vezes por ano, no mximo. Ele prefere a nossa casa de Long Island
quando est em Nova York.
- Pode ser que sim, senhor Angelini, mas ele usou esta casa na noite em que
Louise Kirski foi morta. - Com impacincia, e louca para levar a prova logo para o
laboratrio, Eve mexeu com um dos ombros. - Senhor Angelini, eu no posso
comentar um caso da promotoria com o senhor...
- Mas a senhorita est muito confiante de que a promotoria tem um caso slido
- interrompeu ele. Ao ver que ela no respondia, ele deu mais uma longa olhada no
rosto de Eve. Ento terminou o drinque, bebendo tudo de um s gole e colocando o
copo de lado. - S que a senhorita est errada, tenente. Prendeu o homem errado.
- O senhor acredita que o seu filho  inocente, senhor Angelini. Eu compreendo
isto.
- No apenas acredito, tenente. Eu sei. Meu filho no matou aquelas mulheres.
- Inspirou profundamente, como se fosse um mergulhador prestes a se atirar em
guas profundas. - Quem as matou fui eu.
CAPTULO QUINZE
Eve no teve escolha. Levou-o com ela e o colocou atrs das grades. Depois
de uma hora, tudo o que conseguiu foi uma dor de cabea terrvel e a declarao
calma e inabalvel de Marco Angelini de que ele assassinara trs mulheres.
Ele recusou a presena dos advogados e tambm se recusou, ou no
conseguiu, explicar a histria com detalhes.
A cada vez que Eve lhe perguntava por que motivo matara, ele a encarava
direto nos olhos e afirmava que tinha sido por impulso. Ele estava chateado com a
mulher, afirmara. Sentia-se pessoalmente envergonhado pela intimidade pblica da
ex-mulher com um scio. Ele a matou porque no conseguira t-la de volta. Ento
tomou gosto pela coisa.
Tudo era muito simples e, na opinio de Eve, muito ensaiado. Dava para v-lo
repetindo e melhorando o texto mentalmente antes de falar.
- Isso  mentira! - disse ela abruptamente, e se afastou da mesa de
interrogatrio. - O senhor no matou ningum.
- J disse que matei. - Sua voz era assustadoramente calma.
- A senhorita tem a gravao da minha confisso.
- Ento conte-me mais uma vez. - Inclinando-se para a frente, ela espalmou as
mos na mesa. - Por que o senhor pediu  sua mulher que fosse encontr-lo no Bar
Cinco Luas?
- Queria que tudo acontecesse fora de nosso meio. Achei que ia escapar sem
ser pego, entende? Disse a ela que havia problemas com Randy. Ela no sabia por
completo do seu problema com o jogo. Eu sabia. Sendo assim,  claro que ela veio.
- E o senhor cortou a garganta dela.
- Sim. - Sua pele empalideceu ligeiramente. - Foi tudo muito rpido.
- O que o senhor fez, ento?
- Fui para casa.
- Como?
- Fui dirigindo. - Ele piscou. - Tinha deixado o meu carro estacionado a poucos
quarteires dali.
- E quanto ao sangue? - Ela fixou o olhar dentro dos olhos dele, analisando as
suas pupilas. - Deve ter havido muito sangue. Ela deve ter espirrado muito sangue
em cima do senhor.
As pupilas dele se dilataram, mas sua voz se manteve firme.
- Eu estava usando um casaco comprido, impermevel. Joguei-o fora ao sair
dali. - Ele sorriu ligeiramente. - Imagino que algum transeunte o encontrou e o pegou
para seu uso.
- O que foi que o senhor levou consigo da cena do crime?
- A faca,  claro.
- No levou nada que pertencesse a ela? - Esperou um instante. - Nada que
pudesse fazer com que parecesse um assalto, ou um roubo?
Ele hesitou. Eve quase podia ver sua mente trabalhando por trs do olhar.
- Eu estava abalado. No esperava que aquilo fosse to desagradvel.
Planejara levar a bolsa dela, suas jias, mas esqueci disso e simplesmente corri.
- O senhor fugiu sem levar nada, mas foi esperto o bastante para se livrar do
casaco respingado de sangue.
- Isso mesmo.
- E ento o senhor foi atrs de Yvonne Metcalf.
- No caso dela, foi um impulso. Eu ficava sonhando sobre como tinha sido, e
queria fazer de novo. Ela foi fcil. - Sua respirao desacelerou e suas mos ficaram
paradas sobre a mesa. - Ela era ambiciosa e muito ingnua. Eu sabia que David
escrevera um roteiro com ela na cabea. Ele estava determinado a levar esse
projeto at o fim, e isso era uma coisa em que discordvamos. Isso me deixava
chateado, e ia custar muito caro para a companhia, que, no momento, est com
algumas dificuldades. Decidi mat-la, e entrei em contato com ela. Evidentemente,
ela concordou em me ver.
- Que roupa ela estava usando?
- Roupa? - Ele se remexeu por um momento. - No prestei ateno. No era
importante. Ela sorriu, me estendeu as duas mos enquanto eu caminhava em sua
direo. E eu a matei.
- Por que est se entregando agora?
- Como eu disse, pensei que pudesse escapar com os crimes. Talvez
conseguisse. Jamais imaginei que meu filho seria preso em meu lugar.
- Ento o senhor o est protegendo?
- Eu as matei, tenente. O que mais quer?
- Por que deixou a faca na gaveta dele, no quarto dele? Seu olhar se desviou e
voltou para ela logo em seguida.
- Como eu disse, ele quase nunca fica l. Achei que aquele era um lugar
seguro. Ento, fui avisado do mandado de busca. No tive tempo de remover a faca
de l.
- E quer que eu embarque nessa histria? O senhor acha que o est ajudando,
tornando o caso mais nebuloso, chegando com essa confisso frouxa. O senhor
acha que ele  culpado. - Ela baixou a voz, mastigando cada palavra. - O senhor
est to apavorado com a possibilidade de o seu filho ser um assassino que est
disposto a levar a culpa em vez de v-lo assumir as consequncias. Vai deixar outra
mulher morrer, senhor Angelini? Ou mais duas, ou trs, antes de cair na real?
Seus lbios tremeram um pouco e depois se firmaram.
- J lhe entreguei a minha declarao.
- J me entregou um monte de mentiras e enrolaes.
Girando nos calcanhares, Eve saiu da sala. Lutando para se acalmar, ficou do
lado de fora e acompanhou pelo vidro, com olhos incrdulos, o momento em que
Marco Angelini levou as mos ao rosto.
Ela podia desmontar a histria dele, mais tarde. S que sempre havia a
possibilidade de que a notcia vazasse, e a imprensa ia comear a gritar que havia
uma confisso de outra pessoa que no era o principal suspeito.
Ao ouvir passos, ela olhou para trs, e o seu corpo se enrijeceu como se fosse
feito de ao.
- Ol, comandante.
- Tenente. Algum progresso?
- Ele est agarrado  sua histria. Tem tantos buracos que d para passar com
um nibus areo por dentro dela. Eu dei uma dica para trazer  baila o caso dos
suvenires, nas duas primeiras mortes. Ele no mordeu a isca.
- Eu gostaria de conversar com ele. A ss, tenente, e extraoficialmente. -Antes
que ela conseguisse falar, ele levantou a mo.
- Eu sei que isso  fora das normas. Estou lhe pedindo um favor.
- E se ele incriminar a si mesmo, ou ao filho? Whitney trincou os dentes.
- Eu ainda sou um policial, Dallas. Que droga!
- Sim, senhor. - Ela destrancou a porta, e ento, depois de uma rpida
hesitao, escureceu o vidro da divisria e desligou o som. - Vou esperar em minha
sala.
- Obrigado. - Ele entrou. Lanou um ltimo olhar para ela antes de fechar a
porta e se virar para o homem que estava desabado sobre a mesa. - Marco - disse
Whitney com um longo suspiro.
- Que merda  essa que voc acha que est fazendo?
- Jack - Marco deu um sorriso fraco. - Estava imaginando quando  que voc ia
aparecer. Acabamos no jogando aquela partida de golfe.
- Fale comigo - pediu Whitney, com a voz pesada.
- Aquela sua tenente eficiente e teimosa ainda no o colocou por dentro do
caso?
- O gravador est desligado - disse Whitney, de modo brusco. - Estamos
sozinhos. Fale comigo, Marco. Ns dois sabemos que voc no matou Cicely, nem
ningum mais.
Por um momento Marco ficou olhando para o teto, como se estivesse
ponderando sobre o que falar.
- As pessoas jamais se conhecem umas s outras to bem quanto acreditam.
Nem mesmo as pessoas que amam. Eu a amava, Jack. Jamais deixei de am-la. S
que ela deixou de me amar. Uma parte de mim estava sempre  espera de que ela
comeasse a me amar novamente. Mas ela jamais faria isso.
- Droga, Marco, voc espera que eu acredite que rasgou a garganta dela
porque ela se divorciou de voc h doze anos?
- Acho que talvez ela devesse ter-se casado com George Hammett. Ele queria
isso - disse Marco, baixinho. - Dava para ver que ele queria isso. Cicely estava
indecisa. - Sua voz permanecia calma, baixa, quase nostlgica. - Ela apreciava a
prpria independncia, mas sentia ter de desapontar Hammett. Sentia tanto que ia
acabar cedendo. Ia acabar se casando com ele. Ento tudo teria realmente
acabado, no ?
- Voc matou Cicely porque ela poderia se casar com outro homem?
- Ela era a minha mulher, Jack. No importa o que a Justia ou a Igreja diga.
Whitney ficou sentado por um momento, em silncio.
- J joguei pquer com voc muitas vezes ao longo dos anos, Marco. Voc d
bandeira. - Cruzando os braos sobre a mesa, ele se inclinou. - Quando voc blefa,
fica batendo com os dedos no joelho.
Os dedos pararam de bater.
- Isso no tem nada a ver com pquer, Jack.
- Voc no vai conseguir ajudar David desse jeito. Tem de deixar o sistema
trabalhar.
- David e eu... Tem havido muitas brigas entre ns nos ltimos meses.
Diferenas de negcios, e tambm pessoais. - Pela primeira vez ele soltou um
suspiro, profundo, longo e cansado. - No deveria haver distncias entre pai e filho
por causa de motivos tolos.
- Esse no  o jeito certo de consertar as coisas, Marco.
O ao voltou aos olhos de Marco Angelini. No haveria mais suspiros.
- Deixe-me perguntar algo a voc, Jack, c entre ns. Se isso estivesse
acontecendo com um dos seus, e houvesse uma chance, uma mnima chance, de
que ele fosse condenado por assassinato, haveria alguma coisa que o impedisse de
proteg-lo?
- Voc no pode proteger David embarcando em uma confisso furada como
essa!
- Quem disse que  furada? - A gria parecia creme na voz culta de Marco
Angelini. - Eu cometi os crimes e estou confessando porque no vou poder conviver
comigo mesmo se meu prprio filho pagar pelos meus crimes. Agora me diga, Jack,
voc ficaria por trs do seu filho ou na frente dele?
- Ah, que inferno, Marco! - Foi tudo o que Whitney conseguiu falar.
Ele ficou ali por vinte minutos, mas no conseguiu nada alm disso. Por alguns
instantes ele orientou a conversa para assuntos casuais, partidas de golfe, os
resultados do time de beisebol do qual Marco tinha uma parte. Ento, rpido e astuto
como uma cobra, jogava uma pergunta direta sobre os crimes.
Mas Marco Angelini era um negociador hbil e j colocara as cartas na mesa.
No ia se mover dali.
Pesar, culpa e um princpio de medo formaram um molho estranho que no
caiu bem no estmago de Whitney quando ele entrou na sala de Eve. Ela estava
debruada sobre o computador, pesquisando dados e buscando outras informaes.
Pela primeira vez em dias, o olhar do comandante conseguiu se desviar da
prpria fadiga para os olhos dela. Eve estava plida, com os olhos cheios de
olheiras e a boca com um ar sombrio. Seus cabelos estavam eriados, como se ela
tivesse passado os dedos por eles inmeras vezes. E no momento em que ele
olhava, ela fazia isso mais uma vez, para depois apertar os dedos sobre os olhos,
como se eles estivessem ardendo.
Whitney se lembrou daquela manh em seu escritrio, a manh seguinte ao
assassinato de Cicely Towers. E a responsabilidade que ele colocara nas costas de
Eve.
- Tenente.
Os ombros dela se endireitaram, como se ela tivesse colocado suportes de ao
neles. Sua cabea se levantou, o olhar cuidadosamente vazio.
- Comandante. - Ela ficou em p.
Em posio de sentido, pensou Whitney, aborrecido pela formalidade dura e
impessoal.
- Marco est mantendo a histria. Ns podemos mant-lo preso por at
quarenta e oito horas, sem acus-lo de nada. Achei que seria melhor deix-lo atrs
das grades por algum tempo. Ele continua recusando a presena de um advogado.
Whitney entrou na sala enquanto ela ainda estava em p, e olhou em volta. Ele
quase no ia naquele setor do complexo da Central de Polcia. Eram os seus
subalternos que iam at ele. Uma prova da importncia do comando.
Ela podia ter uma sala maior. Bem que merecia. Mas parece que preferia
trabalhar em uma sala to pequena que, se trs pessoas se amontoassem nela,
estariam cometendo algum pecado.
- Ainda bem que voc no tem claustrofobia - comentou ele. Ela no respondeu
nada, apenas levantou a sobrancelha. Whitney praguejou baixinho. - Escute,
Dallas...
- Senhor. - Sua interrupo foi rpida e delicada. - O laboratrio criminal est
com a arma que foi apreendida do quarto de David Angelini. Fui informada de que
vai haver alguma demora nos resultados, porque os traos de sangue detectados
pelos sensores so em quantidade muito pequena para uma definio do tipo
sanguneo e DNA.
- Entendido, tenente.
- As impresses digitais na arma encontrada bateram com as de David
Angelini. No meu relatrio...
- Vamos chegar ao seu relatrio logo, tenente. O queixo dela se elevou.
- Sim, senhor.
- Droga, Dallas, tire esse cassetete da bunda e sente-se!
- Isto  uma ordem, comandante?
- Ah, inferno! - comeou ele.
Mirina Angelini irrompeu pela sala, com o barulho dos saltos altos batendo no
piso e o frufru de sua roupa de seda.
- Por que est tentando destruir a minha famlia? - quis saber, empurrando a
mo de Slade, que vinha atrs dela e tentava segur-la.
- Mirina, isso no vai ajudar.
Ela se desvencilhou e andou pela sala, indo em direo a Eve.
- J no  o bastante que a minha me tenha sido assassinada no meio da
rua? Assassinada porque os policiais americanos esto ocupados demais caando
sombras e preenchendo relatrios inteis em vez de protegerem os inocentes?
- Mirina - disse Whitney - venha para a minha sala. Vamos conversar.
- Conversar? - Ela se virou para ele como uma gata, dourada e astuta, com os
dentes arreganhados, querendo sangue. - Como  que eu posso conversar com o
senhor? Eu confiava no senhor. Achava que o senhor se preocupava comigo, com
David, com todos ns. Mas o senhor deixou que ela trancasse David em uma cela. E
agora o meu pai.
- Mirina, Marco veio para c por livre e espontnea vontade. Vamos conversar
sobre isso. Vou lhe explicar tudo.
- No h nada para explicar. - Ela virou as costas para ele e dirigiu a fria
abrasadora para Eve. - Eu vim para ficar na casa do meu pai. Ele queria que eu
ficasse em Roma, mas eu no podia. No quando todas as reportagens na mdia
esto emporcalhando o nome do meu irmo. Assim que chegamos, um vizinho
chegou, mais do que feliz, at mesmo realizado, para me dizer que meu pai tambm
tinha sido levado pela polcia.
- Posso providenciar para que a senhorita fale com o seu pai, senhorita
Angelini - disse Eve com frieza. - E com o seu irmo.
- Ah, com certeza voc vai providenciar. E agora! Onde est o meu pai? - Ela
empurrou Eve para trs com as duas mos antes que Whitney ou Slade pudessem
impedi-la. - O que fez com ele, sua vaca?
-  melhor tirar as mos de cima de mim! - avisou Eve. Voc acaba de me
transbordar a pacincia com os Angelini. Seu pai est preso aqui. Seu irmo est na
priso da ilha de Riker. Voc pode ver o seu pai agora. Se quiser ver o seu irmo,
podemos lev-la voando at l. - O olhar dela voou em direo a Whitney, e se fixou
nele. - Ou, j que voc tem um pistolo por aqui, pode ser que consiga que ele seja
trazido para visitao, por uma hora.
- Eu sei o que voc est fazendo. - Agora ela no parecia nenhuma florzinha
frgil. Mirina claramente estremecia de tanta energia. - Voc precisa de um bode
expiatrio. Precisa de uma priso para que a mdia largue o seu p. Est fazendo
poltica usando o meu irmo, at mesmo a minha me assassinada, para no perder
o emprego.
- Sim, um emprego e tanto! - e sorriu com amargor. - Eu jogo gente inocente na
cadeia todos os dias s para no perder os benefcios do cargo.
- Isso mantm a sua cara na tela, no ? - Mirina jogou os cabelos gloriosos
para trs. - Quanto de publicidade voc j conseguiu negociar em cima do cadver
da minha me?
- J chega, Mirina! - A voz de Whitney estalou como um chicote, em um golpe
rpido e cruel. - V para a minha sala e espere l! - Olhou por cima dos ombros dela
para Slade. - Leve-a daqui.
- Mirina, isso  intil - murmurou Slade, tentando arrast-la pelo brao. -
Vamos, agora.
- No me segure! - Mirina mastigou cada palavra como se fosse carne fibrosa,
e ento se desvencilhou dele. - Eu vou. Mas voc vai pagar pela dor que trouxe para
a minha famlia, tenente! Vai pagar cada pedacinho dessa dor.
E saiu da sala a passos largos, dando tempo apenas para Slade murmurar
umas desculpas antes de ir atrs dela.
Whitney quebrou o silncio dizendo bem baixinho:
- Voc est bem?
- J lidei com gente pior. - Eve ergueu os ombros. Por dentro ela estava se
sentindo doente, de raiva e culpa. To doente que queria ardentemente ficar
sozinha, a portas trancadas. - Se o senhor me desculpar, comandante, quero
terminar o meu relatrio.
- Dallas... Eve - Foi o cansao no tom de sua voz que a fez levantar o olhar de
modo cansado para ele. - Mirina est transtornada, e  compreensvel. Mas ela
passou dos limites, passou muito.
- Ela tinha o direito de me dar umas bordoadas. - E embora quisesse apertar as
mos sobre a cabea que latejava, ela as enfiou com negligncia nos bolsos. -
Acabei de colocar o que restava da famlia dela na priso. Em quem mais ela vai
descontar? Eu posso aguentar isso. - Seu olhar permaneceu frio como ao. -
Sentimentos no so o meu ponto forte.
Ele concordou com a cabea, lentamente.
- Essa eu mereci. Coloquei voc nesse caso, Dallas, porque voc  a melhor
que eu tenho. Sua cabea  boa, seus instintos so bons. E voc se importa. Voc
se importa com a vtima. - Expirando lentamente, ele passou a mo nos cabelos. -
Eu sa da linha esta manh, Dallas, na minha sala. J sa da linha vrias vezes
desde que esta confuso comeou. Eu lhe peo desculpas por isso.
- No importa.
- Gostaria que no importasse. - Ele olhou e viu a conteno rgida em seu
rosto. - Mas vejo que importa sim. Vou cuidar de Mirina e tomar as providncias para
as visitas.
- Sim, senhor. Gostaria de continuar a minha entrevista com Marco Angelini.
- Amanh - disse Whitney, e trincou os dentes quando viu que ela no
conseguiu disfarar um sorriso de desdm. - Voc est cansada, tenente, e policiais
cansados cometem erros, deixam passar detalhes. Voc pode continuar amanh. -
Foi direto para a porta, xingou mais uma vez e parou, sem olhar de novo para ela. -
V dormir um pouco, e, pelo amor de Deus, tome um comprimido contra essa dor de
cabea. Voc est com uma aparncia horrvel!
Ela resistiu  tentao de bater a porta nas costas dele. Resistiu porque seria
uma atitude de pirraa, e antiprofissional. Mas se sentou, olhou para a tela e fingiu
que a sua cabea no estava explodindo de tanta dor.
Quando uma sombra caiu sobre a sua mesa, alguns instantes depois, ela
levantou a cabea, com os olhos prontos para a batalha.
- Ora - disse Roarke, com voz suave e se inclinou para beijar a boca de Eve,
que resmungava. - Isso  que so boas-vindas! Ele apalpou o peito. - Estou
sangrando?
- Ra, r.
- Ah, a est aquele lampejo de sagacidade que tanto me fez falta! - Ele se
sentou na beira da mesa, onde poderia olhar para ela e dar uma espiada nos dados
que estavam na tela para descobrir o que colocara aquela raiva terrvel no olhar
dela. - Bem, tenente, como foi o seu dia?
- Vamos ver. Prendi o afilhado favorito de meu oficial superior por causa de
obstruo da Justia e outras acusaes variadas; encontrei o que pode ser a arma
dos crimes na gaveta de sua mesa, na casa da famlia; consegui uma confisso do
pai do principal suspeito, que afirma que foi ele que cometeu os crimes; e levei umas
patadas da irm, que acha que eu sou uma vaca que est querendo aparecer na
imprensa. - Tentou dar um leve sorriso. - Fora isso, at que as coisas esto bem
calmas por aqui. Agora, que tal as coisas com voc?
- Ganhando fortunas, perdendo fortunas - disse ele com brandura, preocupado
com ela. - Nada de to empolgante quanto o trabalho da polcia.
- Eu no tinha certeza se voc ia voltar hoje.
- Nem eu. A construo do resort est indo muito bem. Vou conseguir
coordenar as coisas por aqui durante algum tempo.
Ela tentou no parecer aliviada. Sentia-se irritada ao ver que, em poucos
meses, ela j se acostumara tanto  presena dele. Estava at mesmo dependente
dela.
- Isso  bom, eu acho - disse para ele.
- Humm... - ele a conhecia muito bem. - O que  que voc pode me contar a
respeito do caso?
- Est tudo na mdia. Escolha um canal.
- Prefiro ouvir de voc.
Ela o atualizou sobre o assunto mais ou menos do jeito que preencheria um
relatrio: em termos rpidos e eficientes, colocando muito peso nos fatos, e dando
pouca importncia a comentrios pessoais. E, descobriu, se sentiu melhor com
aquilo depois que acabou. Roarke tinha um jeito de escutar que fazia com que ela
mesma se ouvisse com mais clareza.
- Voc acredita que foi o jovem Angelini.
- Temos os meios, a oportunidade e um punhado de motivos. Se a faca bater
com os ferimentos... Enfim, vou me encontrar com a doutora Mira amanh, para
discutir os testes psicolgicos.
- E Marco? - continuou Roarke. - O que acha da confisso dele?
-  um jeito fcil de confundir as coisas, embolar a investigao. Ele  um
homem esperto e vai achar um jeito de deixar vazar tudo para a imprensa. - Ela
olhou com cara feia por cima dos ombros de Roarke. - Vai distorcer tudo por algum
tempo, vai nos custar algum tempo, e alguns problemas. Mas a gente consegue
acertar as coisas.
- Voc acha que ele confessou os assassinatos para complicar a investigao?
-  isso a. - Ela desviou o olhar para o dele e levantou uma sobrancelha. -
Voc tem outra teoria.
- A criana que est se afogando - murmurou Roarke. - O pai v que o seu filho
est quase afundando pela terceira vez e se joga na correnteza para salv-lo.  a
vida dele pela do filho.  o amor, Eve. - Ele segurou o queixo dela. - Nada detm o
amor. Marco acredita que o filho  culpado e prefere sacrificar a si mesmo a ver sua
criana pagar o preo.
- Se ele sabe, ou mesmo acredita, que David matou aquelas mulheres, seria
insano proteg-lo.
- No, seria amor. Provavelmente no h nada mais forte para um pai, ou me,
do que um filho. Voc e eu no temos experincia com esse sentimento, mas ele
existe.
- Mesmo quando a criana tem um defeito? - perguntou e depois balanou a
cabea.
- Nesse caso, talvez mais ainda. Quando eu era garoto, em Dublin, havia uma
mulher cuja filha perdera um brao em um acidente. No houve dinheiro para
reimplant-lo. Ela tinha cinco filhos, e amava a todos. Quatro eram normais, e um
era defeituoso. Ela construiu um escudo de proteo em volta daquela garota, a fim
de proteg-la dos olhares, dos sussurros e da sensao de pena. Era a criana
problemtica que ela incentivava a se superar, foi para ela que toda a famlia se
devotou. Os outros filhos no precisavam tanto dela, entenda, como aquela que
tinha problemas.
- H diferenas entre um problema fsico e um mental insistiu Eve.
- Fico imaginando se h para um pai.
- Qualquer que seja o motivo de Marco Angelini, vamos chegar  verdade no
fim.
- Sem dvida que sim. A que horas termina o seu turno?
- O qu?
- Seu turno - repetiu. - A que horas termina? Ela olhou para a tela e viu o
horrio no canto inferior.
- Mais ou menos uma hora atrs.
- timo. - Ele se levantou e estendeu a mo para ela.
- Roarke, ainda tem algumas coisas que eu tenho de fechar aqui. Quero rever a
entrevista com Marco Angelini. Pode ser que eu encontre algum furo.
Ele tinha pacincia, porque no tinha dvidas de que ia acabar sendo do jeito
que queria.
- Eve, voc est to cansada que no ia conseguir enxergar nem um buraco de
cem metros na sua frente at cair nele. - Com determinao, pegou a mo dela e a
colocou em p. - Venha comigo.
- Tudo bem, talvez eu precise mesmo de um intervalo. Resmungando um
pouco, ela ordenou ao computador que apagasse e desligasse. - Vou ter de dar uma
incerta nos tcnicos do laboratrio. Eles esto levando uma eternidade com a faca. -
A mo dela lhe provocava uma sensao boa, dentro da dele. Ela nem se
preocupou com a gozao que ia ter de aturar dos outros policiais que talvez os
vissem no hall dos elevadores. - Para onde estamos indo?
Ele levantou as mos unidas at chegar aos lbios, e sorriu para ela.
- Ainda no decidi.
Ele optou pelo Mxico. Foi um voo curto e rpido, e a sua villa na turbulenta
Costa Oeste estava sempre preparada. Ao contrrio de sua casa em Nova York, ele
a mantinha totalmente automatizada, convocando empregados domsticos s para
quando ia ficar por mais tempo.
Na cabea de Roarke os andrides e os computadores eram convenientes,
mas muito impessoais. Para os propsitos daquela visita, no entanto, estava
satisfeito por contar com eles. Ele queria Eve sozinha, a queria relaxada, e a queria
feliz.
- Meu Deus, Roarke!
Ela deu uma olhada na construo em forma de torre que fora erguida em
vrias camadas sobrepostas,  beira de um penhasco, e arregalou os olhos. Parecia
uma extenso da pedra, como se as imensas paredes envidraadas tivessem sido
polidas a partir dela. Jardins se multiplicavam sobre terraos em cores vvidas,
formas e fragrncias.
Acima deles, o cu que escurecia no apresentava nenhum trfego. Era
simplesmente azul, com uma espiral de nuvens brancas e as asas brilhantes de
pssaros. Parecia um outro mundo.
No avio ela dormira como uma pedra, s acordando no momento em que o
piloto fez um pouso rpido e elaborado, que os colocou bem na entrada de uma
escadaria de pedra, em ziguezague, que subia pelo penhasco acima. Eve ainda
estava sonolenta o bastante para apalpar o rosto, a fim de ter certeza de que no
colocara os culos de realidade virtual enquanto dormia.
- Onde  que ns estamos?
- Mxico - disse ele, simplesmente.
- Mxico? - Aturdida, ela tentou afastar o resto do sono dos olhos e a surpresa.
Roarke pensou, com afeto, que ela parecia uma criana irritada ao ser acordada de
um cochilo. - Mas no pode ser o Mxico. Eu tenho de...
- Ir de carro ou a p? - perguntou ele, empurrando-a para a frente, como um
fantoche teimoso.
- Eu tenho de...
- Ir de carro - decidiu ele. - Voc ainda est tonta.
Ela podia curtir a caminhada mais tarde, pensou, e as vrias vistas do mar e
dos penhascos. Em vez disso, ele a enfiou em um carrinho areo reluzente,
assumindo ele mesmo os controles e decolando na vertical com uma velocidade to
grande que a despertou do resto do sono que sentia.
- Cristo, no to depressa! - Seu instinto de sobrevivncia a fez se agarrar na
lateral do carro, franzindo o cenho quando viu as pedras, flores e guas que
passavam cleres. Ele estava morrendo de rir quando estacionou o pequeno carro
bem na entrada do ptio da frente.
- Acordou, querida?
Ela conseguia retomar o flego aos poucos.
- Vou mat-lo assim que confirmar que os meus rgos esto todos no lugar.
Que diabo estamos fazendo no Mxico?
- Tirando algumas horas de folga. Eu preciso disso. - Ele saltou do carro e deu
a volta at o lado dela. - No h dvidas de que voc tambm. - Vendo que ela
ainda estava agarrada na lateral do carro, com os ns dos dedos brancos, ele
esticou o brao, pegou-a no colo e a carregou por sobre as pedras recortadas de
forma irregular em direo  porta.
- Corta essa! Eu posso andar!
- Pare de reclamar! - Ele virou a cabea, encontrando com habilidade a boca
de Eve, e aprofundando o beijo at sentir que a mo dela parou de empurrar o seu
ombro e comeou a acarici-lo.
- Que droga! - exclamou ela. - Como  que voc pode sempre conseguir fazer
isso comigo?
- Apenas sorte, eu acho. Roarke, destrancar! - afirmou ele em voz alta, e as
grades decorativas que se cruzavam na entrada se abriram para os lados. Por trs
delas, portas ornadas com vidro trabalhado e jateado destrancaram-se com um
estalo e se abriram para trs, convidativas. Ele entrou. - Fechar portas - ordenou ele,
e as portas, eficientemente, tornaram a se unir enquanto Eve olhava.
Uma parede do nvel da entrada era totalmente de vidro, e atravs dela Eve
podia ver o mar. Ela jamais vira o Oceano Pacfico e se perguntava naquele instante
como foi que ele conseguira o seu nome to sereno, quando na verdade parecia to
vivo e pronto para ferver.
Eles chegaram a tempo de ver o pr-do-sol, e enquanto ela observava o
panorama, sem conseguir falar, o cu explodiu e cintilou com jorros de luz selvagem.
E o globo imenso e redondo do sol afundou lentamente, inexoravelmente, em
direo  linha azul da gua.
- Voc vai gostar daqui - murmurou ele.
Ela estava comovida pela beleza do fim do dia. Parecia que a natureza havia
esperado por ela para dar o seu show.
-  maravilhoso. Mas eu no posso ficar.
- S algumas horas - disse ele e pousou um beijo em sua testa. - S para
passar a noite, por agora. Outra hora, quando tivermos tempo, podemos voltar e
passar alguns dias.
Ainda carregando-a no colo, ele se aproximou ainda mais da parede de vidro,
at que pareceu a Eve que o mundo inteiro era feito de cores frenticas e formas
mutantes.
- Eu amo voc, Eve.
Ela desviou os olhos do sol, do mar e os fixou nos dele. Foi maravilhoso e, por
um momento, simples.
- Senti saudades de voc. - Ela aproximou o rosto junto ao dele e o segurou
com fora. - Senti muita saudade, de verdade. Peguei uma de suas camisas para
usar. - Ela conseguia rir de si mesma agora, porque ele estava ali. Ela podia cheirlo,
toc-lo. - Fui literalmente at o seu closet e roubei uma de suas camisas, uma
daquelas de seda preta, da qual voc tem s dzias. Vesti a roupa e sa
sorrateiramente dali, como um ladro, para que Summerset no me visse.
Absurdamente tocado com aquilo, ele esfregou o nariz no pescoo dela.
- De noite, eu ficava passando as suas ligaes sem parar, s para poder ficar
olhando para voc e ouvindo a sua voz.
-  mesmo? - Ela soltou uma risadinha, um som muito raro em se tratando
dela. - Nossa, Roarke, ns estamos to melosos um com o outro!
- Ento vamos fazer disso o nosso pequeno segredo.
- Combinado. - Ela afastou o rosto para olhar melhor para ele. - Tenho de lhe
perguntar uma coisa.  to tolo, mas eu tenho de perguntar.
- O que ?
- Alguma vez, para voc, foi... - querendo abafar a necessidade de perguntar,
ela franziu o cenho. - ...antes de mim, com alguma outra pessoa...
- No. - Ele tocou as sobrancelhas dela com os lbios, depois o nariz, a
covinha do queixo. - Jamais foi desse jeito, com mais ningum.
- Para mim tambm no. - Ela simplesmente deixou que o ar dele entrasse
dentro dela. - Coloque as mos em mim. Quero suas mos em mim.
- Eu consigo fazer isso.
E ele a abraou, caindo com ela sobre um monte de almofades, enquanto o
sol morria de modo esplendoroso no oceano.
CAPTULO DEZESSEIS
Tirar algumas horas de folga com Roarke no era como dar uma parada na
delicatessen para comer uma saladinha rpida, acompanhada de caf de soja. Ela
no estava certa de como ele conseguia aquilo, mas por outro lado sabia que uma
quantidade de dinheiro fala, e fala alto.
Eles jantaram uma suculenta lagosta grelhada, coberta de manteiga de
verdade, rica e cremosa. Tomaram champanhe to gelado que congelou a garganta
de Eve. Uma sinfonia de frutas estava ali apenas para ser saboreada, espcimes
hbridas que espalhavam sabores harmnicos por sobre a lngua.
Muito antes de poder admitir que o amava, Eve j aceitara o fato de que estava
totalmente viciada na comida que ele conseguia fazer surgir com um estalar de
dedos.
Ela nadou, nua, em uma pequena piscina com hidromassagem encravada
entre as palmeiras e o luar, com os msculos frouxos devido  gua aquecida e ao
sexo perfeito. Ouvia o canto de pssaros noturnos, no a simulao, mas o canto
real, que pendia do ar perfumado como se fossem lgrimas.
Por ora, por uma noite, as presses do trabalho estavam a anosluz de
distncia.
Ele conseguia fazer aquilo com ela, e para ela, Eve compreendeu. Conseguia
abrir pequenos bolses de paz em sua vida.
Roarke a olhava, satisfeito pela forma que a tenso desaparecia de seu rosto,
com um pouco de paparico. Ele adorava v-la assim, descontrada, largada ao
prazer dos sentidos, relaxada demais para se lembrar de se sentir culpada por se
entregar a isso. Da mesma forma que adorava v-la reavivada, com o pensamento
agitado e o corpo pronto para ao.
No, jamais havia sido daquele jeito para ele, antes, com ningum. De todas as
mulheres que ele conhecera, ela era a nica com a qual ele se sentia impelido a
ficar, e tinha o impulso de tocar. Tudo isto ia alm do fsico, do desejo bsico e
aparentemente insacivel que ela inspirava nele, e que era uma fascinao
constante. A sua cabea, o seu corao, os seus segredos, e as suas cicatrizes.
Roarke falara a Eve, certa vez, que eles eram duas almas perdidas. Naquele
instante, ele avaliava que aquilo era a pura verdade. Um com o outro, porm, eles
haviam encontrado algo que os fazia criar razes.
Para um homem que sempre tivera desconfiana da polcia, por toda a vida,
era perturbador sentir que a sua felicidade, agora, dependia de uma policial.
Divertido consigo mesmo, ele se deixou escorregar na piscina com ela. Eve
conseguiu juntar energia suficiente para entreabrir os olhos.
- Acho que no consigo nem me mexer.
- Ento no se mexa. - Ele lhe entregou mais uma taa de champanhe,
prendendo os dedos dela na haste.
- Estou relaxada demais para ficar bbada. - Mas conseguiu encontrar o
caminho da boca com a taa. -  uma vida muito esquisita a sua - ela tentou
desenvolver a ideia. - Quer dizer, voc pode ter tudo o que quiser, ir a qualquer
lugar, fazer de tudo. Quando quer tirar uma noite de folga, voa at o Mxico e fica
mordiscando lagostas e... qual  mesmo o nome daquele troo que a gente espalha
na torrada?
- Fgado de ganso.
Ela franziu o cenho e estremeceu.
- No foi isso que voc disse que era quando empurrou um pouco na minha
boca. O nome me pareceu mais agradvel.
- Foiegras.  a mesma coisa.
- Ah, assim  melhor. - Ela mexeu as pernas e as entrelaou com as dele. -
Enfim, a maioria das pessoas programa um vdeo para assistir, ou faz uma viagem
rpida com seus culos de realidade virtual, ou talvez gastem algumas fichas de
crdito em uma cabine de simulao em Times Square. S que voc curte a coisa
real.
- Eu prefiro a coisa real.
- Eu sei. Isso  outra coisa estranha em voc. Voc gosta de coisas antigas.
Prefere ler um livro a passar um disco com o texto pelo scanner, prefere se dar ao
trabalho de vir at aqui quando podia perfeitamente ter programado uma simulao
na sala hologrfica.
- Seus lbios se curvaram ligeiramente, com ar sonhador. Gosto disso em
voc.
- Que bom!
- Quando voc era garoto, e as coisas eram ruins, era com tudo isso que
sonhava?
- Eu sonhava com sobrevivncia, e com um jeito de escapar. Sonhava com
controle. Voc no?
- Acho que sim. - Muitos dos sonhos dela eram confusos e sombrios. - Pelo
menos depois que eu entrei para o sistema. Ento, o que eu mais queria era ser
uma policial. Uma boa policial. Uma policial esperta. O que voc queria?
- Ser rico. No sentir fome.
- Ns dois conseguimos o que queramos, mais ou menos.
- Voc teve pesadelos enquanto eu estive fora.
Ela no precisava abrir os olhos para sentir a preocupao que havia no rosto
dele. Podia sentir pela sua voz.
- Eles no so to ruins. Simplesmente esto mais regulares.
- Eve, se voc trabalhasse suas lembranas com a doutora Mira...
- No estou pronta para me lembrar daquilo. Pelo menos no de tudo. Voc
alguma vez sente as cicatrizes, as coisas que seu pai fez com voc?
Sentindo-se inquieto com as lembranas, ele se virou e mergulhou ainda mais
fundo na gua quente e espumante.
- Lembro-me de algumas surras, da crueldade descuidada. Por que tudo isso
teria importncia agora?
- Voc superou tudo aquilo. - Eve abriu os olhos e os fixou nele, que estava
pensativo. - Mas foi isso que fez voc ser o que , no foi? O que aconteceu
naquela poca construiu voc.
- Imagino que sim, de certa forma.
Ela concordou e tentou falar casualmente:
- Roarke, voc acha que, se falta alguma coisa no corao de algum, e essa
falta o faz brutalizar os filhos, como fizeram conosco, voc acha que essa falha pode
passar para ns? Voc acha que...
- No.
- Mas...
- No. - Ele envolveu a barriga da perna de Eve com a mo e a apertou. - Ns
 que construmos o nosso prprio jeito de ser, no longo prazo. Voc e eu fizemos
isso. Se isso no fosse verdade, eu estaria bbado a esta hora, em alguma favela
de Dublin,  procura de algum mais fraco para espancar. E voc, Eve, seria fria,
rgida e sem piedade.
- s vezes eu sou assim - ela fechou os olhos de novo.
- No, isso voc no , nunca. Voc  forte, tem moral, e s vezes fica doente
de tanta pena que sente dos inocentes.
Os olhos dela ardiam por trs das plpebras fechadas.
- Algum que eu admiro e respeito me pediu ajuda, pediu que eu lhe fizesse
um favor. Eu o deixei na mo. Em que isto me transforma?
- Em uma mulher que precisou fazer uma escolha.
- Roarke, a ltima mulher que foi assassinada. Louise Kirski. Isso no sai da
minha cabea. Ela tinha vinte e quatro anos, era talentosa, tinha garra, estava
apaixonada por um msico de segunda classe. Morava em um apartamento
apertado, de um s cmodo, na Rua Vinte e Seis, no lado oeste, e gostava de
comida chinesa. Tinha uma famlia no Texas, que nunca mais vai ser a mesma. Ela
era uma inocente, Roarke, e virou uma assombrao para mim.
Aliviada, Eve soltou um longo suspiro.
- No tinha conseguido contar isso para ningum - completou ela. - No tinha
certeza de que conseguiria dizer isso em voz alta.
- Fico feliz por ter conseguido me contar. Agora, escute. Ele pousou a taa na
beira da piscina, e se inclinou para a frente, para tomar o rosto dela nas mos. A
pele dela era suave e seus olhos eram uma faixa estreita da cor de mbar escuro. -
O destino  quem manda, Eve. A gente segue os prprios passos, faz planos e
trabalha. Ento, o destino entra em nossa vida, rindo, e nos faz de tolos. s vezes
conseguimos engan-lo, e lhe passamos a perna. Mas, com mais frequncia, j est
tudo escrito. Para alguns, est escrito em sangue. Isto no significa que devemos
parar, mas sim que no podemos eternamente nos confortar, sentindo culpa.
-  isso o que voc acha que eu estou fazendo? Que estou me confortando?
-  mais fcil levar a culpa do que admitir que no havia nada que voc
pudesse fazer para impedir o que aconteceu. Voc  uma mulher arrogante, Eve.
Este  apenas mais um dos aspectos de voc que eu acho atraente.  arrogncia
assumir a responsabilidade por acontecimentos que esto alm do nosso controle.
- Mas eu deveria t-los controlado.
- Ah, sim. - Ele sorriu. -  claro.
- No se trata de arrogncia - insistiu, irritada. -  o meu trabalho.
- Voc o provocou, achando que ele vinha atrs de voc. Pelo fato de que
aquele pensamento ainda o corroa por dentro, como cobras sibilando, Roarke fez
um pouco mais de presso com a mo no rosto de Eve. - Agora voc se sente
insultada porque ele no seguiu as regras que voc determinou.
- Isso  uma coisa horrvel de se dizer. Droga, voc tambm, eu no... - E
parou de falar de repente, respirando fundo. - Voc est me deixando irritada para
que eu pare de sentir pena de mim mesma.
- Pelo jeito funcionou.
- Certo. - Ela deixou os olhos se fecharem novamente. Est certo. No vou
mais pensar nisso agora. Talvez amanh eu consiga entender melhor o problema.
Voc  muito bom, Roarke, - disse ela com a sombra de um sorriso.
- Milhares concordam com voc! - murmurou ele, e apertou o mamilo dela,
suavemente, colocando-o entre o polegar e o indicador.
Aquilo provocou um efeito forte, que desceu em ondas por dentro dela, at os
ps.
- No foi isso que eu quis dizer.
- Mas foi o que eu quis dizer - e pressionou o corpo contra o dela, de modo
gentil, ouvindo quando a sua respirao parou.
- Talvez, se conseguir me arrastar daqui, eu possa aceitar a sua interessante
oferta.
- Simplesmente relaxe. - Olhando para o rosto dela, ele deixou a mo deslizar
para o espao entre as pernas dela, e o apertou.
- Deixe-me - ele conseguiu pegar a taa da mo dela, que j estava
escorregando, e a colocou de lado. - Deixe-me ter voc, Eve.
Antes que ela pudesse responder, ele a lanou em um orgasmo rpido e
devastador. Seus quadris se arquearam, bombeados de encontro  sua mo hbil, e
ento ela relaxou.
Ela no ia conseguir pensar naquele instante, ele sabia. Estaria envolta em
sensaes que vinham em camadas. Ela jamais parecia esperar por aquilo. E a sua
surpresa, a sua resposta ingnua e doce eram, como sempre, terrivelmente
excitantes. Ele seria capaz de trazer prazer a ela sem parar, s pela delcia de v-la
absorver cada toque, cada golpe.
Assim, ele se entregou ao desejo, explorando aquele corpo esguio, sugando os
seios pequenos e quentes molhados pela gua perfumada, tragando a respirao
rpida que saa, ofegante, de seus lbios.
Ela se sentiu drogada, indefesa, com o corpo e a alma sobrecarregados de
tanto prazer. Uma parte dela estava chocada, ou tentava estar. No tanto pelo que
ela deixava que ele fizesse, mas pelo fato de permitir que ele tivesse o controle total
e completo dela. Ela no conseguiria impedi-lo, no o faria, nem mesmo quando ele
a levou prximo dos gritos, bem na beirada, antes de lan-la em outro clmax
estremecedor.
- De novo! - Sedento, ele puxava a cabea dela para trs, segurando-a pelos
cabelos, e enfiava os dedos dentro dela, trabalhando incessantemente, at que as
mos dela se lanaram para os lados, largadas sobre a gua. - Nesta noite eu sou
tudo o que existe, ns somos tudo o que existe. - Ele mordeu a garganta dela com
Bviolncia enquanto procurava por sua boca, e os olhos dele eram Bcomo dois sis
ferozes e azuis. - Diga que voc me ama. Diga!
- Eu amo. Eu amo voc! - Um gemido lhe rasgou a garganta quando ele
mergulhou dentro dela, puxou-lhe os quadris mais para cima e se enterrou mais
fundo.
- Diga para mim, outra vez. - Ele sentiu os msculos dela o apertarem como se
fosse uma mo e cerrou os dentes para evitar que ele explodisse dentro dela. - Diga,
novamente! Eu amo voc! - Ainda tremendo, ela o abraou com as pernas e deixou
que ele a golpeasse para alm do delrio.
Ela acabou tendo mesmo de rastejar para sair da piscina. Sua cabea girava,
seu corpo estava todo mole.
- Acho que fiquei sem ossos.
Roarke soltou uma risada e deu-lhe uma palmadinha nas ndegas.
- Desta vez eu no vou carregar voc, querida. Ns dois amos acabar com a
cara no cho.
- Talvez eu fique s descansando, bem aqui. - Era uma dificuldade conseguir
ficar de quatro sobre o piso firme.
- Voc vai ficar com frio. - Com esforo, ele reuniu todas as foras para colocla
em p, e ento comearam a andar trpegos, como bbados.
Ela soltou um risinho abafado, batendo os dentes.
- Que diabo voc fez comigo? At parece que eu entornei duas doses de
Freebird.
Ele conseguiu segur-la pela cintura.
- Desde quando voc anda brincando com essas substncias ilegais?
-  treinamento-padro da polcia. - Ela mordeu o lbio inferior, como se para
test-lo, e viu que ele estava, na realidade, dormente. - Somos obrigados a fazer um
curso completo sobre drogas ilegais na academia. Eu trapaceei nos testes e joguei a
maior parte das minhas drogas na privada. Sua cabea est rodando?
- Pode deixar que eu aviso assim que conseguir voltar a sentir alguma coisa
acima da cintura. - Ele puxou a cabea dela para trs e a beijou levemente. - Por
que no tentamos chegar l dentro. Podemos... - e parou de falar, franzindo o
cenho, focando um ponto acima dos ombros dela.
Eve podia estar com os sentidos diminudos, mas ainda era uma policial.
Instintivamente, girou o corpo e o apertou, fazendo o seu corpo, inconscientemente,
servir de escudo para o dele.
- Qu? O que foi?
- Nada. - Ele limpou a garganta e deu um tapinha no ombro dela. - No foi nada
- repetiu. - V entrando, que eu j vou.
- Diga-me, o que foi? - ela manteve p firme, olhando em volta  procura de
problemas.
- No foi nada, na verdade.  que... Eu me esqueci de desligar a cmera de
segurana. Ela , ahn, ativada por movimento, ou pelo som de vozes. - Nu, ele
passou ao lado dela e foi em direo a uma mureta de pedra, apertou um boto e
pegou um disco.
- Uma cmera. - Eve levantou um dedo. - Durante todo o tempo em que ns
ficamos aqui fora estava tudo sendo gravado? Desviou o olhar, de relance, para a
piscina. - O tempo inteiro?
- Esse  o motivo pelo qual eu prefiro as pessoas em vez de coisas
automticas.
- Ns estamos a no disco? Est tudo a?
- Vou cuidar disso.
Ela comeou a falar novamente, e ento deu uma boa olhada no rosto dele.
- Ora, essa  boa, Roarke! Voc ficou com vergonha!
- Claro que no! - Se ele no estivesse nu em plo, teria enfiado as mos nos
bolsos. - Foi s uma distrao. J disse que vou cuidar disso.
- Vamos assistir ao disco.
Ele parou na mesma hora e proporcionou a Eve a rara satisfao de v-lo
arregalar os olhos.
- Como  que ?
- Voc ficou com vergonha. - Ela se inclinou para beij-lo, e enquanto ele
estava distrado, agarrou o disco. - Que gracinha!  mesmo uma gracinha.
- Cale a boca! D-me isso, aqui!
- Acho que no. - Deliciada, ela danou, deu um passo para trs e manteve o
disco fora do alcance dele. - Aposto que isso aqui  muito quente! Voc no est
curioso?
- No. - Ele esticou a mo com rapidez, mas ela foi mais ligeira. - Eve, me
entregue esta porcaria.
- Isto  fascinante. - Ela foi andando de costas em direo s portas do ptio,
que estavam abertas. - O sofisticado e experiente Roarke est vermelho de
vergonha.
- No estou! - Ele esperava que no. Isso seria o fim! Simplesmente! eu no
vejo razo para registrar um casal fazendo amor.  uma coisa particular.
- Mas eu no vou entregar a Nadine Furst, para passar no noticirio. Vou s
assistir a tudo novamente. Agora mesmo! - e correu para dentro enquanto ele saa
em seu encalo.
Ela entrou em sua sala s nove da manh em ponto, sentindo-se leve como
uma pluma. Seus olhos estavam claros e sem olheiras, seu organismo revigorado e
seus ombros livres de tenso. Ela s faltava cantarolar.
- Algum se deu bem - disse Feeney com um resmungo e manteve os ps em
cima da mesa dela. - Roarke est de volta ao planeta, aposto.
-  que eu tive uma boa noite de sono - retrucou ela, e empurrou os ps dele
para fora da mesa.
- Seja grata por isso - gemeu ele - porque voc no vai encontrar muita paz por
aqui. O laudo do laboratrio chegou. A droga da faca no bate.
O bom astral de Eve desapareceu.
- Como assim, no bate?
- A lmina  muito larga. Um centmetro a mais. Se fosse um metro, dava no
mesmo, droga!
- Isso pode ser devido ao ngulo das feridas, ou  fora do golpe. - A
lembrana do Mxico desfez-se como uma bolha de sabo. Pensando rpido, ela
comeou a andar de um lado para outro. - E quanto ao sangue?
Eles conseguiram arrumar uma quantidade suficiente para descobrir o tipo e o
DNA. - Seu rosto j sombrio despencou ainda mais. - Bateu com o nosso rapaz.  o
sangue de David Angelini, Dallas. O laboratrio diz que  coisa antiga, seis meses
no mnimo. Pelas fibras que conseguiram, parece que ele andou usando a faca para
abrir pacotes, provavelmente se cortou em algum momento. No  a nossa arma.
- Pronto, danou-se! - Ela deu um suspiro, recusando-se a desanimar. - Se ele
tinha uma faca, podia ter duas. Vamos esperar para saber dos outros tcnicos. -
Parando por um momento, ela esfregou o rosto com as mos. - Escute, Feeney, se
vamos continuar considerando a confisso de Marco como falsa, temos de nos
perguntar o motivo disto. Ele est salvando a pele do filho,  isso que est fazendo.
Ento,  melhor trabalharmos nele, e trabalharmos duro. Vou traz-lo para
interrogatrio, para tentar quebr-lo.
- Estou com voc nessa.
- Tenho uma sesso marcada com a doutora Mira, para daqui a duas horas.
Vamos deixar o nosso garoto em fogo brando.
- Enquanto isso, rezamos para que uma das equipes aparea com alguma
coisa.
- Rezar no vai fazer mal. E aqui vai a maior, Feeney. Se os advogados do
nosso rapaz conseguirem colocar as mos na confisso de Marco, isto vai
corromper a audincia com a testemunha, com relao s acusaes menores.
Vamos ter de torcer para conseguir uma declarao de culpa.
- Com isso, e sem prova fsica, ele vai voltar atrs, Dallas.
- ... Filho da me.
Marco Angelini parecia uma rocha concretada. No estava disposto a mudar de
posio. Duas horas de intenso interrogatrio no abalaram a sua histria. Embora,
Eve pensava, tentando se consolar, ele tambm no tivesse conseguido tapar
nenhum dos furos que havia nela. No momento ela tinha poucas esperanas, a no
ser pelo relatrio da doutora Mira.
- O que eu posso lhe dizer - disse Mira, com aquele seu jeito vagaroso -  que
David Angelini  um jovem perturbado, com um senso de proteo e autoindulgncia
altamente desenvolvido.
- Diga-me que ele  capaz de rasgar o pescoo da prpria me.
- Ah... - Mira se recostou e cruzou as mos elegantes. - O que eu posso lhe
dizer  que, na minha opinio, ele  mais capaz de fugir dos problemas do que de
enfrent-los, em qualquer nvel.
Quando combinei os dados e tirei a sua mdia, com base nas avaliaes de
Murdock-Lowell e no estudo da sinergia...
- Podemos pular essa parte tcnica, doutora? Eu posso ler sobre isso depois,
no relatrio.
- Certo. - Mira se voltou da tela onde estava trabalhando, j pronta para
apresentar as avaliaes. -- Vamos, ento, manter a histria em termos bem simples
por agora. Seu homem  um mentiroso, algum que convence a si mesmo, quase
sem esforo, de que as suas mentiras so verdadeiras, a fim de manter a autoestima.
Ele precisa causar boa impresso, necessita de elogios e est acostumado a
obt-los. E costuma ter tudo do jeito dele.
- E quando no consegue que as coisas saiam do seu jeito?
- Joga a culpa nos outros. Nada  culpa dele, nem sua responsabilidade. Seu
mundo  insular, tenente, e se resume, na maior parte do tempo, em si prprio. Ele
se considera bem-sucedido e talentoso e, quando falha,  porque outra pessoa
cometeu algum erro. Ele  viciado em jogo porque no acredita que possa perder, e
adora a emoo do risco. Perde porque acredita que est acima do jogo.
- Como reagiria diante do risco de ter os ossos esmagados por causa das
dvidas de jogo?
- Ele fugiria e se esconderia, e sendo como , anormalmente dependente dos
pais, ia esperar at que eles limpassem toda a sujeira.
- E se eles recusassem?
Mira ficou calada por um momento.
- Tenente, voc quer que eu lhe diga que ele ia reagir com violncia, atacar
algum, talvez at de forma assassina. No posso lhe dizer isto. Esta,  claro,  uma
possibilidade que no deve ser descartada em nenhum de ns. Nenhum teste,
nenhuma avaliao pode concluir de forma absoluta qual seria a reao de um
indivduo sob certas circunstncias. Porm, em todos esses testes e avaliaes, o
avaliado reagiu de forma consistente, encobrindo-se, fugindo ou jogando a culpa em
algum em vez de atacar a origem do seu problema.
- E ele poderia estar encobrindo a sua reao para distorcer a avaliao.
-  possvel, mas pouco provvel. Sinto muito.
Eve parou de andar de um lado para outro e afundou em uma cadeira.
- O que a senhora est me dizendo  que, na sua opinio, o assassino ainda
est l fora.
- Receio que sim. Isso torna o seu trabalho mais difcil.
- Se estou procurando no lugar errado - perguntou Eve quase para si mesma: -
Onde  o lugar certo? E quem  a prxima vtima?
- Infelizmente nem a cincia nem a tecnologia, mesmo hoje em dia, so
capazes de prever o futuro. Podemos programar possibilidades, at mesmo
probabilidades, mas no podemos contar com o impulso do momento ou a emoo.
J colocou Nadine Furst sob proteo?
- Na medida do possvel. - Eve bateu com o dedo no joelho.
- Ela  difcil e est arrasada por causa de Louise Kirski.
- E voc est tambm.
Eve deixou o olhar vagar e concordou com a cabea:
- ... Estou mesmo.
- Apesar disso voc me parece bem descansada nesta manh.
- Tive uma boa noite de sono.
- Sem pesadelos?
Eve mexeu com o ombro, colocou os Angelini e o caso em um canto da
cabea, de onde ela esperava que pudesse brotar alguma ideia fresca.
- Doutora, o que diria de uma mulher que parece que no consegue dormir
direito, a no ser que tenha um homem especfico na cama, com ela?
- Diria que pode ser que ela esteja apaixonada por ele, e que certamente est
ficando acostumada com a sua presena.
- No a consideraria dependente em excesso?
- Voc consegue funcionar sem ele? Acha-se capaz de tomar uma deciso
sem perguntar pela opinio dele, seu conselho ou instruo?
- Bem, claro, mas... - ela parou de falar, sentindo-se tola. Mas, afinal, se era
para se sentir tola, que lugar seria melhor do que o consultrio de uma psiquiatra? -
No outro dia, quando ele estava fora do planeta, eu usei uma das camisas dele para
trabalhar. Isso  uma coisa...
- Adorvel - completou Mira, com um sorriso leve e solto.
- E romntica. Por que o romance deixa voc preocupada, Eve?
- No deixa.  que eu... Tudo bem, isso me deixa apavorada, e eu no sei por
qu. No estou habituada a ter algum ali, a ter algum olhando para mim do jeito...
do jeito que ele me olha. s vezes  enervante.
- E por que isso?
- Porque eu no fiz nada para que ele se importe comigo tanto quanto ele se
importa. Eu sei que ele se importa.
- Eve, o seu sentimento de autovalorizao sempre esteve focado no seu
trabalho. Agora, um relacionamento forou voc a se avaliar como mulher. Tem
medo do que possa encontrar?
- Ainda no pensei sobre isso. Tudo em minha vida, sempre, tinha a ver com o
trabalho. Os altos e baixos, a correria, a monotonia. Tudo de que eu precisava
estava ali. Queimei as pestanas para conseguir chegar a tenente, e acho que posso
continuar ralando para chegar  patente de capito, talvez mais. Realizar o meu
trabalho era tudo o que havia. Era importante para mim ser a melhor, deixar uma
marca. Isto ainda  importante, mas no representa tudo agora.
- Eu diria, Eve, que voc  uma policial melhor, e uma mulher melhor, por
causa disso. Um foco nico na vida nos limita e pode, com frequncia, se tornar
obsessivo. Uma vida saudvel precisa de mais de um objetivo, de mais de uma
paixo.
- Ento acho que a minha vida est ficando mais saudvel.
O comunicador de Eve tocou, lembrando-a de que ela estava com hora, e era
sempre uma policial em primeiro lugar.
- Aqui fala a tenente Dallas.
-  melhor ligar no programa do Canal 75 - anunciou Feeney. - Depois, venha
correndo para a torre da Central de Polcia. O novo secretrio de Segurana colocou
nossas bundas a prmio.
Quando Eve desligou, Mira j tinha aberto a tela. Elas viram a reportagem de
C. J. Morse para o noticirio do meio-dia.
- ...E continuam a aparecer problemas, com a investigao dos assassinatos.
Uma fonte da Central de Polcia confirmou que, enquanto David Angelini foi acusado
de obstruo da Justia e permanece como o principal suspeito dos trs
assassinatos, Marco Angelini, o pai do acusado, j confessou os trs crimes. O
senhor Angelini, pai, presidente da firma Angelini Exportaes e ex-marido da
primeira vtima, a promotora Cicely Towers, se entregou  polcia ontem. Embora
tenha confessado os trs assassinatos, ainda no foi formalmente acusado de nada,
enquanto a polcia continua a manter David Angelini preso.
Morse fez uma pausa e virou o rosto ligeiramente para olhar uma cmera
colocada em outro ngulo. Seu rosto agradvel e jovem irradiava preocupao.
- Em outro desdobramento do caso, uma faca encontrada na casa dos Angelini,
durante uma busca da polcia, provou, atravs de testes, que no era a arma do
crime. Mirina Angelini, filha da falecida Cicely Towers, conversou com este reprter,
em uma entrevista exclusiva, gravada na manh de hoje.
A tela piscou e entrou um novo vdeo, onde aparecia o rosto adorvel e
ultrajado de Mirina.
- A polcia est perseguindo a minha famlia. J no  o bastante que a minha
me esteja morta, assassinada em plena rua. Agora, em uma tentativa desesperada
de encobrir a prpria incompetncia, eles prenderam o meu irmo, e tambm esto
mantendo o meu pai preso. No ficaria surpresa se eu mesma fosse levada,
algemada, a qualquer momento.
Eve rangeu os dentes enquanto Morse conduzia Mirina por vrias perguntas,
estimulando-a a fazer acusaes e deixando-a com lgrimas nos olhos. Quando o
programa voltou para o estdio, Morse estava franzindo o cenho, com seriedade.
- Uma famlia sob cerco policial? H rumores de que esto acobertando fatos
para complicar as investigaes. A principal investigadora do caso, tenente Eve
Dallas, no foi encontrada para fazer comentrios.
- Seu canalha! Seu canalha! - gritou Eve, e saiu da frente da tela. - Ele nem
tentou me localizar para pedir comentrios. Eu teria lhe dado um. - Furiosa, ela
pegou a bolsa e lanou um ltimo olhar para Mira. - Doutora, a senhora devia
analisar aquele ali
- disse, virando o rosto na direo da tela. - Aquele palhao tem mania de
grandeza!
CAPTULO DEZESSETE
Arrison Tibble era um veterano, j com trinta anos na fora policial. Ele galgara
seu caminho a partir do posto de guarda, trabalhando nos bairros pobres do West
Side, onde os policiais e suas presas ainda usavam revlveres. Ele at mesmo fora
atingido certa vez: levou trs tiros terrveis no abdmen, que poderiam ter matado
um homem menos corpulento, e daria ao mais comum dos policiais motivos para
considerar seriamente a escolha da carreira. Tibble, porm, estava de volta  ativa
em menos de seis semanas.
Era um homem enorme, com mais de dois metros de altura e cento e dezoito
quilos de puro msculo. Depois que as armas foram banidas, ele usara o corpanzil e
o aterrorizante sorriso de galhofa para intimidar os adversrios. Ainda tinha a cabea
de um policial de rua, e a sua ficha era to limpa quanto gua de nascente.
Tinha um rosto grande e quadrado, a pele da cor de nix polido, mos do
tamanho de uma escotilha de navio e pouca pacincia para papo-furado.
Eve gostava dele e, secretamente, admitia que tambm tinha um pouco de
medo de sua figura.
- Que monte de merda  esse em que voc se enfiou, tenente?
- Senhor - Eve olhou para ele, com Feeney e Whitney dos dois lados dela,
embora soubesse que, naquele momento, ela estava completamente sozinha. -
David Angelini estava no local do crime, na noite em que Louise Kirski foi morta.
Temos a confirmao disto. Ele no possui libis slidos para os horrios dos outros
dois assassinatos. Est devendo muito dinheiro a capangas ligados ao jogo e, com a
morte da me, enche os bolsos com uma bela herana. J foi confirmado que a me
se recusou a livrar a cara dele, desta vez.
- Procurar pelo dinheiro  uma ferramenta investigativa testada e comprovada,
tenente. Mas e quanto s outras duas vtimas?
Ele sabia de tudo aquilo, pensou Eve, enquanto lutava para no se mostrar
embaraada. Todos os fatos de todos os relatrios j tinham passado por ele.
- Ele conhecia Yvonne Metcalf, senhor, j estivera no apartamento dela,
estavam trabalhando juntos em um projeto. Ele precisava que ela se
comprometesse com ele de vez, mas ela estava se fazendo de difcil e tentava
manter as suas posies. A terceira vtima foi um erro. Acreditamos plenamente que
a vtima-alvo do crime era Nadine Furst, que por sugesto minha, e com minha
cooperao, estava colocando muita presso na histria. Ele tambm a conhecia
pessoalmente.
- At agora est tudo muito bem. - Sua cadeira estalou com o peso quando ele
se mexeu, recostando-se nela. - Muito bem mesmo. Voc o colocou em uma das
cenas dos crimes, estabeleceu os motivos, pesquisou as ligaes. Agora chegamos
na parte difcil. Voc no tem uma arma, no tem sangue algum. No tem nadinha
que possa apresentar como prova fsica.
- No momento, no.
- Voc tambm tem uma confisso, mas no do acusado.
- Essa confisso nada mais  do que uma cortina de fumaa - contribuiu
Whitney. - A tentativa de um pai para proteger o filho.
- Isso  o que voc acredita - disse Tibble, com a voz calma.
- O fato, porm,  que agora j est tudo registrado, e j  do conhecimento
pblico. O perfil psicolgico no combina, a arma no combina e, na minha opinio,
a promotoria estava vida demais para colocar os holofotes em cima do caso.
Acontece quando a vtima  um dos seus.
Ele estendeu a mo, do tamanho de uma bandeja, antes que Eve conseguisse
falar.
- Vou lhe dizer o que temos, tenente, e o que est parecendo para todas
aquelas pessoas honestas que esto assistindo  TV. Temos uma famlia enlutada
que est sendo importunada por policiais, temos provas circunstanciais e trs
mulheres com a garganta cortada.
- Nenhuma garganta mais foi cortada desde que David Angelini foi para a
cadeia. E as acusaes contra ele so vlidas.
-  verdade, mas esse fato cmodo no vai nos conseguir o apoio dos mais
humildes, no quando o jri comear a sentir pena dele e o advogado comear a
invocar capacidade diminuda.
Ele aguardou um pouco, olhando para os rostos e tamborilando com os dedos
na mesa quando viu que ningum discordava dele.
- Voc  um demnio com os nmeros, Feeney, o gnio da eletrnica. Quais
so as chances de conseguirmos o grande jri se despacharmos o nosso rapaz
amanh, por obstruo de Justia e acusaes de suborno?
- Meio a meio - respondeu Feeney, encolhendo os ombros.
- Isso, calculando bem por alto, depois do ltimo boletim daquele idiota do
Morse.
- Ento isso no  o suficiente. Libertem-no.
- Libert-lo? Mas, secretrio Tibble...
- Tudo o que vamos conseguir se continuarmos insistindo nessas acusaes 
uma imprensa hostil e a compaixo da opinio pblica pelo filho de uma servidora
pblica martirizada. Jogue-o de volta s ruas, tenente, e continue pesquisando mais
a fundo. Coloque algum colado nele - ordenou a Whitney - e no pai dele, tambm.
No quero que eles dem nem um peido sem que eu fique sabendo. E encontrem
esse maldito vazamento de informaes acrescentou, com o olhar severo. - Quero
saber qual foi o imbecil que forneceu esses dados para o idiota do Morse. - Seu
sorriso se alargou, ento, subitamente, de modo aterrorizante. - Ento, quero
conversar com ele, pessoalmente. Mantenha-se longe dos Angelini, Jack. Essa no
 hora de demonstrar amizade.
- Eu tinha esperana de conversar com Mirina. Talvez conseguisse persuadi-la
a no dar mais nenhuma entrevista.
- Agora  tarde para implantarmos um controle de danos considerou Tibble. -
Mantenha-se afastado. Trabalhei duro para desvincular este departamento da ideia
de acobertar fatos. Quero que as coisas fiquem como esto. Consigam-me uma
arma. Consigam-me algum sangue. E, pelo amor de Deus, faam isto antes de mais
algum ser retalhado. - Sua voz trovejou e seu punho golpeava a mesa enquanto ele
dava as ordens com aspereza. - Feeney, faa alguma das suas mgicas. Repasse
os nomes que estavam nas agendas das vtimas mais uma vez e cruze-os com a
agenda de Nadine Furst. Encontre-me algum que tinha interesse nessas mulheres.
E s, por enquanto, senhores. - Ele se levantou. - Tenente Dallas, gostaria de mais
um minuto do seu tempo.
- Secretrio Tibble - comeou Whitney, formalmente - quero que fique
registrado que, como oficial comandante da tenente Dallas, considero as suas
atividades no caso como exemplares. Seu trabalho est no nvel mais elevado que
se possa esperar, apesar das dificuldades provocadas pelas circunstncias
profissionais e pessoais, algumas delas causadas por mim mesmo.
Tibble franziu o cenho com suas fartas sobrancelhas.
- Estou certo de que a tenente agradece a sua avaliao, Jack.
- E no disse mais nada, esperando at que os dois homens sassem da sala. -
Eu e Jack trabalhamos juntos h muito tempo comeou, em tom de conversa. -
Agora, ele acha que, j que eu estou sentado aqui, no mesmo lugar onde aquele
corrupto sem-vergonha, o cara-de-pau do Simpson, costumava repousar o traseiro
pattico, vou usar voc como um bode expiatrio bem disponvel e lan-la
como rao aos ces da mdia - e levantou a cabea, encarando Eve com olhar
firme. -  isso o que est achando, Dallas?
- No, senhor. Mas o senhor poderia fazer isso.
- Sim. - Ele coou o lado do pescoo. - Poderia. Voc melou essa investigao,
tenente?
- Talvez tenha feito isso, senhor. - Aquilo foi duro de engolir. - Se David
Angelini for inocente...
-  o tribunal que decide a inocncia ou a culpa - interrompeu ele. - Voc
apenas recolhe as evidncias. Voc recolheu algumas evidncias consistentes, e o
panaca estava l, junto de Louise Kirski. Se ele no a matou, o canalha
testemunhou uma mulher ser assassinada e saiu de fininho. Para mim no tem
grande valor, como pessoa.
Tibble uniu e elevou os dedos, olhando por cima deles.
- Voc sabe, Dallas, em que situao eu retiraria voc do caso? Se eu achasse
que voc estava atolada demais em culpa, por causa de Louise Kirski. - Quando ela
abriu a boca para falar e tornou a fech-la, ele lhe lanou um sorriso, com os lbios
finos. - Sim,  melhor ficar calada. Voc jogou a isca, arriscou. Havia uma
possibilidade muito boa de ele vir atrs de voc. Eu teria feito a mesma coisa em
meus velhos dias de glria - acrescentou, sentindo uma ponta de tristeza por eles
terem acabado. - O problema  que ele no mordeu a isca, e uma pobre mulher,
com vcio de fumar, foi atingida por engano. Voc acha que  responsvel por isso?
Ela sentiu vontade de mentir, mas acabou desistindo e escolhendo a verdade.
- Sim.
- Pois supere isso! - disse ele com voz forte. - O problema com este caso  que
h muitas emoes envolvidas. Jack no consegue superar o pesar, voc no
consegue superar a culpa. Isto os transforma em dois inteis. Quer se sentir
culpada, quer sentir revolta? Espere at colocar as mos nele. Fui claro?
- Sim, senhor.
Satisfeito, ele se recostou na cadeira novamente.
- Assim que voc sair desta sala, a mdia vai estar em cima de voc, como um
bando de piolhos.
- Eu sei lidar com a mdia.
- Estou certo de que sabe. - E suspirou. - Eu sei lidar, tambm. Agora tenho a
porcaria de uma entrevista coletiva para encarar. Pode sair.
Havia apenas um lugar para ir, e era de volta ao comeo. Eve ficou na calada,
do lado de fora do Bar Cinco Luas, e olhava para o cho. Revivendo mentalmente a
cena, caminhou at a entrada do metro.
Estava chovendo, lembrou. Estou segurando o guarda-chuva com uma das
mos, a bolsa pendurada no ombro, segurando-a com firmeza.  uma regio
perigosa. Estou pau da vida. Caminho rpido, mas fico com um olho aberto, olhando
em volta para sacar algum que queira minha bolsa tanto quanto eu.
Ela entrou no Cinco Luas, ignorando os rpidos olhares e o rosto brando do
andride atrs do bar, enquanto tentava imaginar os pensamentos de Cicely Towers.
Lugar nojento. Sujo. S Deus sabe o que eu posso pegar na roupa s de
sentar. Olho para o relgio. Onde, diabos, ele est? Vamos acabar logo com isso.
Por que ser que ele quis que eu o encontrasse aqui? Burra, burra! Devia ter usado
o meu escritrio. Meu territrio.
E por que no fiz isso?
Porque era um assunto particular, pensou Eve, fechando os olhos. Era algo
muito pessoal. L h muita gente, haveria muitas perguntas. No  um assunto da
cidade.  um assunto dela.
Por que no em seu apartamento?
Porque ela no o queria l. Estava muito zangada... Aborrecida... Ansiosa para
brigar quando ele indicou a hora e o lugar.
No, ela estava apenas zangada, impaciente, decidiu Eve ao se lembrar da
declarao do andride que servia no bar. Ela ficou olhando para o relgio o tempo
todo, franzindo a testa, desistiu e foi embora.
Eve refez o caminho que ela tomou, lembrando-se do guardachuva e da bolsa.
Passos rpidos, com os saltos fazendo barulho no piso. Ento apareceu algum. Ela
parou. Ser que ela o viu, ser que o reconheceu? Tem de ter reconhecido, estavam
cara a cara. Talvez ela tenha dito a ele Voc est atrasado!
Ele trabalha rpido.  uma vizinhana com m fama. No h muitos carros
passando, mas nunca se sabe. As luzes de segurana so quase inexistentes, como
costuma acontecer em regies como aquela. Ningum reclama muito, porque  mais
fcil agir no escuro.
Mas algum podia sair do bar, ou do clube do outro lado da rua. Um golpe
rpido e ela est cada. Ele fica cheio de sangue. Com o corte abrupto, ele deve
estar coberto de sangue.
Ele pega o guarda-chuva dela. Um impulso, ou talvez para usar como escudo.
Sai dali andando depressa. No, o metro no! Ele est coberto de sangue. Mesmo
em uma regio como aquela, algum ia notar.
Eve andou dois quarteires nas duas direes, depois tornou a andar, fazendo
perguntas a todos que encontrava pela rua. Na maioria das vezes, a resposta era
um dar de ombros ou olhares furiosos. Policiais no eram figuras muito populares no
West End.
Observou uma mulher circulando por ali, e desconfiou que ela estava usando
mais coisas no corpo do que aquele monte de colares de contas e penas; ela veio
da esquina, passando lentamente em um pequeno skate areo motorizado. Fez cara
feia e saiu correndo atrs de Eve.
- Ei, voc j esteve por aqui antes - disse a mulher.
Eve olhou para trs, na direo dela. Era to branca que parecia quase
invisvel. Seu rosto desbotado tinha a textura de cimento branco, e os cabelos
picotados estavam to curtos que o couro cabeludo aparecia branco como cera;
seus olhos eram sem cor e sem vida, tpicos de quem tinha acabado de tomar uma
dose.
Uma doidona, pensou Eve. Dava para ver que a mulher usava a droga em
forma de tablete branco que mantinha a mente enevoada e os pigmentos do corpo
totalmente descorados.
- ... j estive por aqui sim - respondeu Eve.
- Voc  da polcia! - a drogada esticou o pescoo, com as juntas retesadas,
parecendo um andride que precisava de manuteno. Um sinal de que estava no
ltimo grau do vcio. - Eu vi voc conversando com o Crack um tempo atrs. Aquele
 um cara legal!
- ... Ele  um cara muito legal. Voc estava por aqui na noite em que
apagaram a mulher ali adiante, na rua?
- Ah, uma dona bonitona, elegante, rica, toda metida. Vi, mas s na reportagem
da TV. Eu tava na clnica de desintoxicao.
Eve engoliu a vontade de praguejar, e ento parou e voltou para trs.
- Ei, se voc estava na desintoxicao, como foi que me viu conversando com
o Crack?
- Isso foi outro dia. Talvez no dia seguinte. O tempo  relativo, certo?
- Talvez voc tenha visto a dona elegante e rica outro dia, antes de ela
aparecer morta na TV.
- No. - A mulher, que parecia albina, chupou a ponta do dedo. - No mesmo!
Eve olhou para o prdio que ficava atrs da drogada e analisou a vista que ele
oferecia de toda a rua.
-  aqui que voc mora?
- Eu moro aqui, s vezes ali... De vez em quando desabo em um quarto, l em
cima.
- Voc estava l na noite em que cortaram a garganta da dona bonitona?
- Provavelmente. Estava sem grana - e abriu o que pareceu ser um sorriso,
com dentes pequenos e arredondados. Seu hlito era podre. - No tem muita graa
ficar pelas ruas quando a gente est dura.
- Estava chovendo - Eve tentou ajudar.
- Ah, foi... Eu gosto de chuva. - Seus msculos continuavam a se retesar, mas
seu olhar adquiriu um ar sonhador. - Fico vendo a chuva, pela janela.
- Voc viu mais alguma coisa pela janela?
- As pessoas vm e vo - disse com voz cantada. - As vezes d pra gente ouvir
a msica l do clube, na esquina. Mas naquela noite no. A chuva tava muito forte.
Neguinho ficava fugindo dela. At parece que ia derreter, sei l...
- Voc viu algum correndo na chuva.
- Talvez. - Os olhos sem cor ganharam um pouco de vida.
- Quanto isso vale?
Eve enfiou a mo no bolso. Tinha poucas fichas de crdito, mas dava para
negociar. Os olhos da doidona rolaram de alegria, e ela estendeu a mo.
- Primeiro conte o que viu - disse Eve bem devagar, colocando as fichas fora
do alcance dela.
- Um cara mijando ali no beco. - E deu de ombros, com oolhar colado nas
fichas. - Talvez estivesse batendo umazinha. No d pra dizer ao certo.
- Ele trazia alguma coisa? Tinha algo na mo?
- S o pinto - e riu to alto da prpria piada que quase se desequilibrou e caiu.
Seus olhos j estavam comeando a lacrimejar, sem parar. - Ele foi embora, no meio
da chuva. Quase no tinha ningum na rua por causa da chuva. A o cara entrou no
carro.
- O mesmo cara?
- No, outro cara. Tinha estacionado o carro ali adiante - e gesticulou sem
preciso. - Ele no era daqui da rea, no.
- Por qu?
- Porque o carro era novinho. Ningum tem um carro novinho assim por aqui.
Quase ningum tem carro. Agora, o Crack, ele sim tem um... E aquele pentelho do
Reeve, do apartamento em frente, tem um tambm. S que eles no so novinhos,
no.
- Conte-me sobre o cara que entrou no carro.
- Entrou no carro e se mandou.
- Que horas eram?
- Ei, eu tenho cara de relgio? Tique-taque... - Ela deu outra risada rouca. - S
sei que tava de noite. De noite  melhor. De dia meus olhos doem - reclamou -
porque eu perdi meus culos escuros.
Eve pegou um par de protetores para os olhos no bolso. Ela nunca se lembrava
de usar aquela droga mesmo. Entregou  albina, que os agarrou na mesma hora.
- Que troo vagabundo! Equipamento da polcia, uma merda!
- Que roupa ele estava usando? O cara que entrou no carro?
- Eu, hein?... Sei l! - A doidona ficou brincando com os culos e os colocou.
Seus olhos no arderam tanto por trs das lentes tratadas. - Tava de casaco, acho.
Um casaco comprido, escuro, com as pontas balanando no vento. , ficou
balanando na hora em que ele fechou o guarda-chuva.
Eve sentiu um choque no estmago, como se tivesse levado um soco.
- Ele tinha um... guarda-chuva?
- U... Tava chovendo! Tem gente que no gosta de se molhar. Era muito
bonito, o guarda-chuva - disse, sonhando novamente.
- Tinha uma cor brilhante.
- Era de que cor?
- Brilhante - repetiu. - E a, vai ou no vai me dar as fichas?
- T, voc vai ganhar a grana. - Mas Eve agarrou o brao dela e a levou at os
degraus despedaados da entrada do edifcio, e a empurrou, forando-a a se sentar.
- S que, antes, a gente precisa conversar mais um pouquinho.
- Os peritos a deixaram passar. - Eve andava de um lado para outro em sua
sala enquanto Feeney a ouvia, recostado na cadeira.
- Ela entrou na desintoxicao um dia depois do assassinato. Eu verifiquei.
Saiu h uma semana.
- Voc arrumou uma viciada albina.
- Ela o viu, Feeney. Viu quando ele entrou no carro, viu o guarda-chuva.
- Voc sabe como funciona a viso de uma pessoa doidona, Dallas. No escuro,
debaixo de chuva, do outro lado da rua?
- Mas ela sabia do guarda-chuva. Droga, ningum mais sabia do guarda-chuva!
- E a cor era, abre aspas, brilhante. - Ele levantou as duas mos antes que Eve
conseguisse replicar. - Eu estou s tentando evitar um pouco de aporrinhao para o
seu lado. Se voc vier com a ideia de colocar os Angelini em uma fila de suspeitos
diante de uma drogada em ltimo grau, os advogados deles vo sapatear em cima
de sua cabea, garota.
Eve havia pensado nisso. E ela, tambm, rejeitara a ideia.
- Eu sei que ela no ia adiantar nada em uma sesso de identificao direta.
No sou burra. Mas era um homem, ela tinha certeza disso. Ele saiu de carro.
Estava carregando o guarda-chuva. Usava um casaco comprido e preto.
- E isso bate com a declarao de David Angelini.
- Era um carro novo. Eu arranquei isto dela. Polido, brilhante.
- De novo, a histria do brilhante.
- E da? Eles no enxergam as cores direito - replicou ela. O cara estava
sozinho, e o carro era um veculo pequeno, pessoal. A porta do motorista abria para
cima, e no para o lado, e ele teve de se abaixar e virar a cabea para entrar.
- Podia ser um Rocket, um Midas ou um Spur. Talvez um Midget, se for o
modelo antigo.
- Ela disse que era novo, e ela manja de carros. Gosta de ficar olhando.
- Tudo bem, vou pesquisar - e deu um pequeno sorriso. Voc faz alguma ideia
de quantos desses modelos foram vendidos nos ltimos dois anos s na regio da
Grande Nova York? Agora, se ela viesse com o nmero da placa, mesmo que no
estivesse inteiro...
- Pare de reclamar. Eu voltei ao prdio de Yvonne Metcalf. Tem umas duas
dzias de carros novinhos em folha na garagem dela.
- Ah, que alegria!
-  possvel que ele seja um vizinho dela - disse Eve encolhendo os ombros.
Era uma possibilidade muito remota. - Onde quer que ele more, tem de ser capaz de
entrar e sair da rea sem ser notado. Ou estar em um lugar que as pessoas no
reparem. Talvez ele deixe o casaco no carro, ou o guarde em algum lugar, para
poder levar para dentro de casa e limp-lo. Tem de haver manchas de sangue nesse
carro, Feeney, e no casaco tambm, por mais que ele o tenha lavado e esfregado.
Tenho de dar uma passada no Canal 75.
- Ficou maluca?
- Preciso conversar com Nadine. Ela est rugindo de mim.
- Jesus! Voc vai entrar bem na cova do leo!
- Ah, eu vou estar bem - e deu um sorriso cruel. - Vou levar Roarke comigo.
Eles tm medo dele.
- Foi to legal voc pedir para eu vir junto - disse Roarke enquanto estacionava
o carro na rea de visitantes do Canal 75 e sorria para ela. - Fiquei comovido.
- Tudo bem, eu lhe devo essa explicao. - Aquele homem no deixava nada
escapar, pensou Eve com indignao enquanto saltava do carro.
- E eu estou cobrando. - Ele a pegou pelo brao. - Pode comear a pagar me
contando por que quis que eu viesse at aqui com voc.
- J lhe disse, vai nos poupar tempo, j que voc quer ir nessa tal de pera.
Muito lentamente, e com todo o cuidado, ele olhou para ela de cima a baixo,
reparando nas calas empoeiradas e nas botas surradas.
- Querida Eve, embora, para mim, voc parea sempre perfeita, no vai 
pera vestida desse jeito. Ento, ia ter de passar em casa para trocar de roupa, de
qualquer modo. Vamos l, conte-me a verdade.
- Talvez eu no queira muito ir  pera.
- Eu sei, voc j me disse isso. Vrias vezes, acho. S que ns tnhamos um
trato.
Ela baixou os olhos e ficou brincando com um dos botes da camisa dele.
- Ah, Roarke,  s cantoria!
- Eu concordei em ficar sentado por duas apresentaes, no Esquilo Azul, por
causa da sua ideia de ajudar Mavis a assinar contrato com uma gravadora. E
ningum... Ningum com ouvidos, bem entendido, ia considerar aquilo cantoria de
qualquer tipo.
Ela expirou com fora. Trato era trato, afinal de contas.
- Tudo bem, est certo. J disse que eu vou.
- Agora que voc j conseguiu me desviar da pergunta, vou repeti-la. Por que
estou aqui?
Ela olhou para cima, subindo do boto para o rosto dele. Era sempre terrvel
para ela admitir que precisava de ajuda.
-  que o Feeney est enterrado em uma pesquisa eletrnica. No podia parar
agora. Eu queria outro par de olhos, ouvidos, outra impresso.
- Sei. - Seus lbios sorriram. - Isso quer dizer que eu sou a sua segunda
escolha.
- Voc  a minha primeira escolha para algum que no  da polcia. Voc
saca bem as pessoas.
- Sinto-me elogiado. E talvez, j que estou aqui mesmo, possa aproveitar e
quebrar a cara de Morse para voc.
- Eu gosto de voc, Roarke. - O sorriso dela veio rpido. - Eu gosto mesmo de
voc.
- Eu tambm gosto muito de voc. Isto significa um sinal verde? Eu adoraria
fazer isso.
Ela riu, mas, no fundo, havia uma parte dela que gostava da ideia de ter um
vingador s dela.
- Essa foi uma boa ideia, Roarke, mas eu realmente preferia partir a cara dele
eu mesma. Na hora certa e no lugar certo.
- Posso assistir?
- Claro. Mas, por ora, d para ser apenas o rico e poderoso Roarke, meu trofeu
pessoal?
- Ah, que frase machista! Fiquei excitado!
- timo. Segure o teso. Talvez a gente dispense a pera, afinal.
Eles entraram juntos pelo saguo principal e Roarke teve o prazer de v-la
bancar a policial. Eve balanou o distintivo para o segurana e deu a ele uma
sugesto enrgica para no pegar no p dela, e ento seguiu a passos largos na
direo do elevador.
- Adoro ver voc trabalhar - murmurou no ouvido dela. Voc  to... durona! -
completou, enquanto a mo descia pelas costas dela, em direo ao seu traseiro.
- Pode parar!
- Viu o que eu quis dizer? - e esfregou a barriga, no lugar que o cotovelo dela
atingira. - Bata em mim de novo. Vou acabar gostando disso.
Ela conseguiu, com dificuldade, fazer a gargalhada se transformar em uma
espcie de ronco.
- Civis! - foi tudo o que falou.
A sala do noticirio estava cheia e barulhenta. Pelo menos metade dos
reprteres de planto estava ligada em tele-links, fones de ouvido ou computadores.
Teles exibiam o que estava sendo transmitido. Vrias conversas pararam na
mesma hora, quando Eve e Roarke saram do elevador. Ento, como em uma
matilha em que todos os ces farejaram algo ao mesmo tempo, os reprteres se
embolaram para chegar perto.
- Para trs! - ordenou Eve com tanta energia que um dos vidos reprteres deu
um passo brusco para trs e pisou no p de um colega. - Ningum vai receber
nenhum comentrio. Ningum vai ter nada at eu estar pronta.
- Se eu realmente comprar este lugar - disse Roarke a Eve com a voz na altura
exata para ser ouvida pelos mais prximos - vou ter de fazer alguns cortes de
pessoal.
Esta frase causou uma sensao de desconforto quase palpvel. Eve olhou em
volta e parou diante de um rosto que conseguiu reconhecer.
- Rigley - perguntou ela - onde est Nadine Furst?
- Oi, tenente. - O reprter, de repente, se transformou todo em dentes, cabelos
e ambio. - Se a senhorita quiser esperar na minha mesa - convidou ele,
gesticulando para o seu espao de trabalho.
- Nadine Furst - repetiu, com a voz rpida como uma bala.
- Onde est ela?
- Eu no a vi o dia todo. Apresentei o noticirio da manh, no lugar dela.
- Nadine ligou. - Distribuindo sorrisos, Morse veio chegando devagar. - Est
dando um tempo - explicou ele, e seu rosto mutante assumiu feies mais sombrias.
- Ela est muito arrasada, por causa de Louise. Todos ns estamos.
- Ela est em casa?
- Disse apenas que precisava dar um tempo,  tudo o que eu sei. O diretor lhe
adiantou alguns dias de folga. Ela tinha duas semanas de frias vencendo. Estou
assumindo o lugar dela. - Seu sorriso se iluminou novamente. - Portanto, Dallas, se
estiver precisando aparecer na TV  s falar comigo.
- J apareci demais no seu programa, Morse.
- Tudo bem ento. - Ele a dispensou e fixou o olhar em Roarke. Seu sorriso se
escancarou ainda mais. -  um prazer conhec-lo. Voc  um homem muito difcil de
se contatar.
Disposto a insult-lo abertamente, Roarke ignorou a mo que Morse lhe
estendeu.
- Eu dou retorno apenas s pessoas que considero interessantes. Morse
abaixou a mo, mas manteve o sorriso.
- Pois eu estou certo de que, se me concedesse alguns minutos, eu poderia
encontrar vrias reas de interesse para voc.
O sorriso de Roarke apareceu rpido e letal.
- Morse, voc  realmente um idiota, no ?
- Calma, rapaz - murmurou Eve, dando um tapinha no brao de Roarke. -
Quem  que lhe passou dados confidenciais?
Morse estava obviamente lutando para recuperar a dignidade. Ele olhou
diretamente para Eve, e quase conseguiu exibir um ar de desdm.
- Ora, ora, tenente, nossas fontes so protegidas. No vamos nos esquecer da
Constituio. - Patrioticamente, espalmou a mo sobre o corao. - Agora, se voc
quiser comentar, desmentir ou adicionar alguma informao nova, ficarei mais do
que feliz em escut-la.
- Ento, por que no tentamos isto... - disse ela mudando de assunto. - Voc
encontrou o corpo de Louise Kirski enquanto ele ainda estava quente.
- Exato. - Ele fechou a boca e assumiu um ar amargo. - J lhe dei a minha
declarao.
- Voc estava bastante abalado, no estava? Apavorado. Chegou a despejar
todo o jantar nos arbustos. Est se sentindo melhor agora?
- Aquilo foi algo que eu jamais esquecerei, mas, sim, estou me sentindo
melhor. Obrigado por perguntar.
Eve andou na direo dele, fazendo-o recuar.
- Voc se sentiu melhor bem depressa, rpido o bastante para entrar no ar
alguns minutos depois, certificando-se de que havia uma cmera bem posicionada
para pegar um lindo close de sua colega morta.
- Agir com rapidez  parte do meu trabalho. Fiz o que fui treinado a fazer. Isto
no significa que eu no tenha sentido. - Sua voz estremeceu e foi habilmente
controlada. - Isto no significa que eu no veja o rosto dela, os seus olhos, a cada
momento em que tento dormir  noite.
- J parou para pensar no que teria acontecido se voc tivesse chegado cinco
minutos mais cedo?
Isto o deixou chocado, e embora Eve soubesse que era cruel, uma coisa
pessoal, aquilo a deixava satisfeita.
- Sim, j pensei nisso - disse ele com dignidade. - Eu poderia ter visto o
assassino, ou t-lo impedido. Louise poderia estar viva se eu no tivesse ficado
preso no trnsito. S que isto no muda os fatos. Ela est morta, assim como as
outras duas. E voc ainda no tem ningum preso.
- Talvez no tenha lhe ocorrido, Morse, que  voc que o est alimentando. 
voc que est oferecendo exatamente o que ele deseja. - Eve desviou o olhar de
Morse, e olhou em volta da sala, para todas as pessoas que estavam ouvindo,
vidas. - Ele deve adorar assistir a todas aquelas reportagens, saber de todos os
detalhes, das especulaes. Voc o transformou no maior astro da TV.
- A nossa responsabilidade  relatar... - comeou Morse.
- Morse, voc no sabe nada sobre responsabilidade. Tudo o que voc sabe 
contar os minutos que ficou no ar, bem na frente e no centro da tela. Quanto mais
pessoas morrerem, maior vai ser o seu ibope. Pode falar no seu noticirio que eu
disse exatamente estas palavras - e girou o corpo para ir embora.
- Est se sentindo melhor? - perguntou Roarke quando eles j estavam
novamente do lado de fora.
- No tanto assim. Quais as suas impresses?
- A sala de noticirio est tumultuada, com gente demais fazendo coisas
demais. Esto todos assustados. E aquele sujeito com quem voc falou no incio,
sobre Nadine?
- Rigley. Ele  peixe pequeno. Acho que o contrataram por causa dos dentes.
- Ele anda muito nervoso. Vrios deles pareceram envergonhados quando voc
fez o seu pequeno discurso. Viraram para o outro lado, e tentaram parecer
ocupados, mas no estavam fazendo nada. Outros me pareceram um pouco
satisfeitos quando voc descascou o Morse. Acho que ele no  muito querido.
- Grande surpresa!
- Ele  melhor do que eu pensava - avaliou Roarke.
- Morse? Melhor em qu? Em falar merda?
- Em trabalhar a imagem - corrigiu Roarke. - O que , muitas vezes, a mesma
coisa. Ele extrai todas aquelas emoes. No sente nenhuma delas, mas sabe como
faz-las aparecer em seu rosto e na sua voz. Ele est no emprego certo e,
definitivamente, vai subir depressa.
- Que Deus nos ajude! - Ela se encostou no carro de Roarke.
- Voc acha que ele sabe mais coisas do que jogou no ar?
- Acho que isso  possvel. Altamente possvel. Ele est adorando esticar ao
mximo este caso, especialmente agora que est  frente da histria. E ele odeia
voc, profundamente.
- Ai, agora eu fiquei triste! - Ela comeou a abrir a porta e depois se virou de
novo. - Ele me odeia?
- Vai arruin-la, se conseguir. Tenha cuidado.
- Ele pode me fazer de boba, mas no pode me arruinar - e escancarou a
porta. - Onde  que a Nadine se enfiou, Roarke? Isso no  do feitio dela.
Compreendo o que ela est sentindo, por causa de Louise, mas no faz o tipo dela
sumir assim, sem me avisar, e deixar uma matria importante como esta para aquele
canalha.
- As pessoas reagem de formas diferentes ao choque e ao pesar.
- Isso  burrice. Ela era um alvo. Pode, muito bem, continuar sendo. Tenho de
encontr-la.
- Esse  o seu jeito de escapar da pera? Eve entrou no carro e esticou as
pernas.
- No. Escapar da pera  apenas um benefcio secundrio. Vamos dar uma
passada na casa dela, est bem? Ela mora na Rua Dezoito, entre a Segunda e a
Terceira Avenidas.
- Tudo bem. Mas voc no vai ter desculpas para escapar do coquetel que eu
vou oferecer amanh  noite.
- Coquetel? Que coquetel?
- Aquele que eu j marquei h mais de um ms - lembrou ele enquanto entrava
no carro, ao lado dela. - Para dar a partida na arrecadao de fundos para o Instituto
de Artes da Estao Grimaldi, em Mnaco. Do qual voc concordou em participar e
servir de anfitri.
Eve se lembrava, claro. Ele at trouxera para casa um vestido sofisticado que
ela deveria usar.
- Voc tem certeza de que eu no estava bbada quando concordei com isso?
Palavra de bbado no vale nada.
- No, voc no estava bbada - e sorriu enquanto dirigia o carro para fora do
estacionamento. - Entretanto, voc estava nua, ofegante, e quase implorando por
alguma coisa, segundo me pareceu.
- Isso  mentira! - Na verdade, pensou, cruzando os braos, talvez ele
estivesse com a razo. Os detalhes no estavam muito claros. - Tudo bem, voc
venceu, vou estar l, vou estar l com um sorriso idiota, usando um vestido todo
enfeitado, que deve ter custado muito dinheiro para pouco material. A no ser... que
alguma coisa aparea.
- Alguma coisa?
Ela suspirou. Ele s pedia para que ela participasse de um daqueles shows
tolos quando era importante para ele.
- Algum assunto da polcia. S se for algum assunto da polcia, e muito
importante. Tirando isto, prometo que vou ficar colada em voc, aturando a
lengalenga toda.
- Acho que voc no vai nem tentar curtir a noite, no ?
- Talvez eu tente. - Ela virou a cabea e, em um impulso, levou a mo
carinhosamente at a bochecha dele. - S um pouquinho.
CAPTULO DEZOITO
Ningum atendeu  campainha na casa de Nadine. A gravao pedia
simplesmente que o visitante deixasse uma mensagem, que seria respondida o mais
depressa possvel.
- Ela pode estar l dentro, remoendo as ideias - ponderou Eve, girando sobre
os calcanhares, enquanto considerava a situao.
- Ou pode ser que tenha ido para algum resort da moda. Ela se deixou ficar
muito vulnervel nos ltimos dias. E  escorregadia a nossa Nadine.
- E voc se sentiria muito melhor se soubesse dela.
- ... - Com o cenho franzido, as sobrancelhas unidas, Eve pensava em usar o
seu cdigo de emergncia da polcia para desligar o sistema de segurana da casa
e entrar. S que ela no tinha um motivo suficientemente forte para isto, e enfiou as
mos nos bolsos.
- tica - disse Roarke. -  sempre uma aula de cidadania ver voc lutar contra
ela. Deixe-me ajud-la. - Ele pegou um pequeno canivete e cutucou at abrir o
painel eletrnico ao lado da porta.
- Meu Deus, Roarke, mexer com a segurana da casa dos outros pode lhe
custar seis meses de priso domiciliar!
- Hum-hum... - Calmamente, ele estudava os circuitos. Estou um pouco fora de
forma. Ns  que fabricamos este modelo, sabia?
- Coloque esta droga no lugar, do jeito que estava, e no... Mas ele j havia
passado pelo circuito principal, trabalhando com tanta rapidez e eficincia que ela
franziu a testa.
- Fora de forma, n? Eu sei!... - resmungou ela quando a luzinha da fechadura
mudou de vermelha para verde.
- Eu sempre tive jeito para essas coisas. - A porta se abriu e ele a empurrou
para dentro.
- Adulterao de sistema de segurana alheio, arrombamento, entrada ilegal
em domiclio, invaso de propriedade privada. Olhe s, a lista est aumentando.
- Mas voc vai ficar me esperando sair da cadeia, no vai? Com uma das mos
ainda no brao de Eve, ele avaliou a sala de estar. Estava limpa, fria, tinha pouca
moblia, exibia um estilo minimalista, mas caro.
- Ela mora bem - comentou ele, notando o brilho do piso vitrificado, os poucos
objetos de arte colocados em destaque sobre pedestais estreitos. - S que ela no
passa muito tempo aqui.
Eve sabia que ele tinha um bom olho para aquelas coisas, e concordou.
- No - completou Eve - ela na verdade no vive aqui, simplesmente vem
dormir s vezes. No tem nada fora do lugar, no tem sequer uma dobra ou uma
ponta amarrotada nas almofadas. - Ela passou ao lado dele, indo para a cozinha que
dava para a sala, e apertou o boto da lista de alimentos disponveis no AutoChef. -
No tem muita comida em casa tambm. Basicamente s queijos e frutas.
Eve se lembrou de que estava de estmago vazio, ficou tentada, mas resistiu.
Saiu pela sala larga em direo a um quarto.
- Aqui  o escritrio - afirmou, olhando para o equipamento, a mesa e o telo
que estavam diante dela. Neste lugar h vestgios dela. Os sapatos esto embaixo
da mesa, tem um brinco ao lado do tele-link, uma xcara vazia, provavelmente de
caf.
O segundo quarto era maior, e os lenis da cama, que no havia sido feita,
estavam amarrotados, como se algum tivesse se virado de um lado para outro a
noite inteira, tentando dormir.
Eve avistou a roupa que Nadine estava usando na noite em que Louise fora
morta. Estava no cho, chutada para baixo de uma mesinha, onde um vaso exibia
margaridas que estavam comeando a murchar.
Aqueles eram sinais de dor que ela ficou triste de ver. Foi at o closet, e
apertou o boto que o abria.
- Nossa, como  que a gente pode saber se ela fez alguma mala? Ela tem mais
roupas do que uma trupe de dez top-models.
Mesmo assim, deu uma olhada nelas enquanto Roarke ia at o tele-link ao lado
da cama e colocava o disco para passar as mensagens. Eve virou a cabea,
olhando por cima dos ombros, e viu o que ele ia fazer. Simplesmente encolheu os
ombros.
- J que estamos aqui,  melhor invadir a privacidade dela de vez.
Eve continuava a procurar algum sinal de que Nadine tivesse sado em viagem.
Enquanto isso, as chamadas e mensagens passavam na tela.
Ouviu, com uma ponta de diverso, um papo brincalho, de fundo abertamente
sexual, entre Nadine e um homem chamado Ralph. Houve muitas insinuaes,
sugestes abertas e risos antes que a transmisso acabasse, com a promessa de
os dois se encontrarem quando ele estivesse na cidade.
Outras ligaes passaram: algumas ligadas ao trabalho, uma chamada para
um restaurante prximo, pedindo uma entrega. Chamadas comuns, cotidianas. E,
ento, o tom mudou.
Nadine estava falando com a famlia de Louise Kirski, no dia seguinte ao
assassinato dela. Todos estavam chorando. Talvez houvesse conforto naquilo,
pensou Eve enquanto ia em direo  tela. Talvez compartilhar as lgrimas e o
choque ajudasse.
No sei se isso tem importncia neste momento, mas gostaria que vocs
soubessem que a investigadora principal do caso, Dallas, tenente Dallas... Ela no
vai sossegar at achar quem fez isso com Louise. Ela no vai sossegar.
- Ah, Deus! - Eve fechou os olhos quando a transmisso acabou. Depois disso
no havia mais nada, s espao ainda no gravado no disco, e ela abriu os olhos
novamente. - Onde est a ligao que ela fez para a emissora? - quis saber. - Cad
a ligao? Morse disse que ela tinha ligado, pedindo autorizao para passar uns
dias fora.
- Pode ser que ela tenha ligado do carro, de um tele-link porttil. Ou foi at l,
em pessoa.
- J vamos descobrir! - Ela abriu o comunicador. - Feeney, eu preciso da marca
do carro de Nadine Furst, com modelo e nmero da placa.
No levou muito tempo para acessar os dados, ler o registro da garagem e
descobrir que o carro tinha sado na vspera e ainda no voltara.
- No estou gostando disso. - Eve estava irritada ao se recostar no banco do
carro de Roarke. - Ela teria deixado uma mensagem para mim. Teria deixado algum
aviso. Preciso conversar com um dos chefes da emissora para descobrir quem 
que pegou o recado dela. - Comeou a ligar para l, do tele-link do carro de Roarke,
e ento parou. - Tem mais uma coisa. - Consultando a agenda eletrnica, ela pediu
um nmero diferente. - Ligue para a famlia Kirski, Deborah e James, em Portland,
no Estado do Maine.
O aparelho comeou a chamar e ela transferiu a ligao para o tele-link.
Algum atendeu bem depressa. Uma mulher de cabelos grisalhos, com olhos
exaustos.
- Senhora Kirski, aqui fala a tenente Dallas, do Departamento de Polcia do
Estado de Nova York.
- Sim, tenente, eu me lembro da senhorita. Alguma novidade?
- Nada que eu possa lhe adiantar no momento. Sinto muito.
- Droga! Ela tinha de dar alguma esperana para a mulher. - Estamos atrs de
novas informaes. Estamos esperanosos, senhora Kirski.
- Ns nos despedimos de Louise hoje. - Ela lutou para dar um sorriso. - Foi
reconfortante ver a quantidade de pessoas que gostavam dela. Havia tantos colegas
antigos, do tempo de escola, e havia muitas flores e mensagens de todos os que
trabalharam com ela em Nova York.
- Ela no vai ser esquecida, senhora Kirski. Poderia me informar se Nadine
Furst compareceu aos funerais hoje?
- Ns estvamos esperando por ela. - Os olhos inchados pareceram perdidos
por um momento. - Estive com ela, em seu trabalho, h poucos dias, para inform-la
da data e do horrio do funeral. Ela me disse que viria, mas deve ter acontecido
algum imprevisto.
- Ela no foi ento? - Uma sensao amarga comeou a se espalhar no
estmago de Eve. - A senhora teve notcias dela?
- No, no sei dela h vrios dias. Ela  uma mulher muito ocupada, eu
compreendo. Tem de seguir com a vida dela,  claro. O que mais poderia fazer?
Eve no podia oferecer mais nenhum conforto sem acabar trazendo novas
preocupaes.
- Sinto muito pela sua perda, senhora Kirski. Se tiver mais alguma pergunta, ou
precisar conversar comigo, por favor, pode ligar. A qualquer hora.
-  muita gentileza sua. Nadine disse que a senhorita no ia descansar
enquanto no encontrasse o homem que fez isso com a minha menininha. Voc no
vai descansar, mesmo, no , tenente Dallas?
- No, senhora. Garanto-lhe que no. - Ela desligou, deixou a cabea pender
para trs e fechou os olhos. - Eu no sou uma pessoa gentil. No liguei para dizer
que eu sentia muito, s liguei porque ela podia me informar alguma coisa sobre
Nadine.
- Mas voc estava sentindo muito - Roarke cobriu as mos dela gentilmente
com as dele - e foi muito gentil.
- Posso contar nos dedos de uma s mo as pessoas que tm alguma
importncia para mim. E isto vale para as pessoas para quem eu significo alguma
coisa. Se ele tivesse vindo atrs de mim, como era de esperar, eu teria conseguido
lidar com ele. E se no conseguisse...
- Cale a boca. - A mo dele apertou a dela com tanta fora que Eve teve de
engolir o grito, e viu que os olhos dele se tornaram ferozes e zangados. -
Simplesmente cale a boca.
De forma distrada, ela massageou a mo enquanto ele dirigia como louco
pelas ruas.
- Voc est certo, Roarke. Eu estou agindo de forma errada. Estou me
responsabilizando pelo problema, e isto no ajuda nada. H muita emoo no caso -
murmurou ela, lembrando-se do aviso do chefe. - Hoje eu comecei o dia pensando
com clareza, e  isto que tenho de continuar fazendo. O prximo passo  encontrar
Nadine.
Ela ligou para a emergncia e ordenou uma busca em todos os lugares pela
mulher e seu veculo.
Mais calmo, embora ainda sentindo o eco das palavras que ela dissera em sua
barriga, Roarke diminuiu a velocidade e olhou para ela.
- Voc tomou as dores de quantas vtimas de homicdio em sua ilustre carreira
tenente?
- Tomei as dores?  um jeito estranho de descrever isto. Ela mexeu com os
ombros, tentando formar a imagem de um homem de casaco preto comprido e carro
novo. - No sei. Centenas. Assassinato nunca sai de moda.
Ento eu diria que voc tem muito mais pessoas ligadas a voc, e voc a elas,
do que os dedos das mos. Voc precisa comer alguma coisa.
Ela estava com fome demais para argumentar com ele.
- O problema com o cruzamento dos dados  a agenda de Yvonne Metcalf -
explicou Feeney. - Est cheia de pequenos cdigos, e smbolos engraadinhos. E
ela vivia trocando-os, de modo que no d para formar um padro. Temos nomes
como Docinho, Traseiro Sexy, Bundo. Temos iniciais, estrelas, coraes, carinhas
sorridentes ou chateadas. Vai levar tempo, muito tempo, para cruzar tudo isto com a
agenda de Nadine, ou com a da promotora.
- Ento, o que voc est querendo me dizer  que no vai dar para fazer.
- No disse que no vai dar. - Ele pareceu insultado.
- Certo, desculpe. Sei que voc est arrebentando seus processadores neste
trabalho, mas no sei quanto tempo ainda temos. Ele deve estar indo atrs de mais
algum. At acharmos Nadine...
- Voc acha que ele a apanhou, no acha? - Feeney coou o nariz, o queixo, e
pegou o saco de amndoas com cobertura doce. Isso quebra o padro, Dallas. Nas
trs vtimas que pegou, ele deixou o corpo onde algum ia acabar tropeando nele
logo depois.
- Tudo bem, e se ele est com um novo padro? - Eve se sentou na beira da
mesa e logo mudou de posio, muito nervosa para ficar parada. - Escute, ele est
pau da vida. Errou o alvo. Tudo estava indo do jeito dele, ento ele estragou tudo,
apagando a mulher errada. Segundo a doutora Mira, ele conseguiu ateno, muitas
horas de noticirio na TV, mas falhou.  uma questo de poder.
Eve foi at a sua janela minscula, olhou para fora, viu um nibus areo
passar, fazendo barulho, na altura do andar em que estava, como um pssaro
esquisito e pesado demais. L embaixo, as pessoas se espalhavam como formigas,
andando apressadas nas caladas, nas rampas e esteiras deslizantes, para onde
quer que seus negcios urgentes as levassem.
Havia tantas pessoas, pensou Eve. Tantos alvos.
-  uma questo de poder - repetiu Eve, franzindo a testa enquanto olhava para
os pedestres que passavam. - Uma mulher est atraindo toda a ateno, toda a
glria. A ateno que  dele, a glria que  dele. Quando ele a elimina, tem a
emoo do ato, e consegue toda a publicidade. A mulher j era, e isto  bom. Ela
estava querendo levar as coisas do jeito dela. Agora, o pblico est focado nele.
Quem  ele? O que ele ? Onde est?
- Voc est parecendo a doutora Mira - comentou Feeney.
- S que sem o salrio alto.
- Talvez uma mulher o tenha machucado. Pelo menos o que ele . Uma mulher
que pensa como homem,  independente. Porque as mulheres  que so o grande
problema para ele. No o deixam dar a ltima palavra, como a sua me fazia, talvez,
ou a figura feminina mais importante em sua vida. Ele conseguiu um pouco de
sucesso, mas no o bastante. Ele no consegue chegar no topo. Talvez porque uma
mulher esteja no caminho. Ou vrias mulheres.
Eve franziu o cenho e fechou os olhos.
- Mulheres que falam - continuou, murmurando. - Mulheres que usam a palavra
para exercer poder.
- Esta frase  nova - disse Feeney.
-  da minha autoria - replicou Eve, virando-se para trs. Ele corta a garganta
delas. Ele no as molesta, no as assalta sexualmente, nem mutila. No se trata de
poder sexual, embora a base seja sexo, no sentido de gnero. H inmeras
maneiras de matar, Feeney.
- Eu que o diga. Algum est sempre encontrando um jeito novo e criativo de
descartar o outro.
- Ele usa uma faca, e isto  uma extenso do corpo. Uma arma pessoal. Ele
poderia esfaque-las no corao, ou rasgar-lhes a barriga para colocar as tripas
para fora...
- T, t bom. - Ele engoliu uma amndoa, com coragem, e balanou a mo. -
No precisa descrever em detalhes.
- Cicely Towers deixou a marca de sua passagem pelos tribunais, e sua voz
era uma ferramenta poderosa. Yvonne Metcalf era atriz, trabalhava com dilogos.
Nadine Furst fala para milhes de telespectadores. Talvez seja por isso que ele no
veio atrs de mim
- murmurou ela. - Falar no  a fonte do meu poder.
- Voc est indo muito bem, garota.
- No fundo nada disso importa - disse Eve, balanando a cabea. - O que
temos  um homem  solta, trabalhando em uma carreira onde ele no  capaz de
deixar uma marca importante, um homem que sofreu influncia de uma mulher bemsucedida.
- Isso combina com David Angelini.
- ... E o pai dele, se acrescentarmos o fato de que os seus negcios vo mal.
Slade tambm. Mirina Angelini no  a mocinha frgil que eu pensei que fosse. E h
George Hammett. Ele estava apaixonado por Cicely Towers, mas ela no o estava
levando muito a srio. Ai! Isso  um chute no saco!
Feeney gemeu e mudou de posio.
- Ou ser que tem uns dois mil homens l fora, frustrados, zangados e com
tendncias  violncia? - Eve expirou por entre os dentes. - Mas, em que raio de
lugar Nadine est?
- Olhe, eles ainda no localizaram o carro dela. Ela no sumiu h tanto tempo,
afinal.
- Algum registro de uso das fichas de crdito dela nas ltimas vinte e quatro
horas?
- No. - Feeney suspirou. - De qualquer modo, se ela resolveu sair do planeta,
leva mais tempo para rastrear.
- Ela no saiu do planeta, ia querer ficar por perto. Droga, eu devia saber que
ela ia fazer alguma coisa idiota. Dava para ver como ela estava atormentada. Dava
para ver nos olhos dela.
Frustrada, Eve enfiou as mos por dentro dos cabelos. Ento, seus dedos se
curvaram, tensos.
- Dava para ver nos olhos dela - repetiu devagar. - Oh, meu Deus! Os olhos.
- O qu? O qu?
- Os olhos. Ele viu os olhos dela. - Eve pulou em direo ao tele-link. - Ligueme
com a policial Peabody - ordenou. Ela  oficial de rua na... droga, droga, qual 
mesmo? Seo 402.
- O que descobriu, Dallas?
- Vamos esperar. - Ela passou a mo na boca. Vamos s esperar.
- Aqui fala a policial Peabody. - Seu rosto apareceu na tela, com um pouco de
irritao aparecendo nos cantos da boca. Havia uma confuso de rudos ao fundo,
vozes, e msica.
- Nossa, Peabody, onde  que voc est?
- Servio de controle de multido - sua irritao beirava o desdm. - Parada na
Avenida Lexington.  uma comemorao irlandesa.
-  o Dia da Liberdade dos Seis Condados - explicou Feeney com uma pontada
de orgulho. - No v estragar a festa.
- D para voc sair de perto do barulho? - gritou Eve.
- Claro.  s sair do meu posto e me afastar trs quarteires, em direo ao
outro lado da cidade - e se lembrou de acrescentar:
- Senhora.
- Droga! - resmungou Eve e resolveu falar assim mesmo: O homicdio de
Louise Kirski, Peabody. Vou lhe transmitir uma foto do corpo. Quero que d uma
olhada.
Eve acessou o arquivo, transferiu-o para o tele-link e enviou a foto de Louise
Kirski esparramada na chuva.
- Foi desse jeito que voc a encontrou? Era exatamente nessa posio que ela
estava? - perguntou Eve usando apenas o udio.
- Sim, senhora. Exatamente.
Eve diminuiu a imagem e a deixou no canto inferior da tela.
- E o capuz que cobria o rosto dela? Ningum mexeu no capuz?
- No, senhora. Conforme declarei em meu relatrio, a equipe de TV estava
gravando e tirando fotos. Eu os mandei de volta para dentro e lacrei a porta. O rosto
dela estava coberto at a boca. Ela ainda no tinha sido identificada no momento em
que eu cheguei  cena do crime. A declarao da testemunha que encontrou o
corpo foi quase intil. Ele estava histrico. Est tudo registrado.
- Sim, eu tenho os registros. Obrigada, Peabody.
- Ento - comeou Feeney, assim que ela desligou a transmisso - o que  que
isso lhe diz?
- Vamos procurar no registro mais uma vez. Quero a declarao inicial de
Morse. Eve se recostou para deixar Feeney procurar o arquivo. Juntos, eles
analisaram Morse. Seu rosto estava molhado, de chuva e suor, provavelmente
lgrimas. Estava com os lbios brancos e os olhos assustados.
- O cara est em choque - comentou Feeney. - Cadveres fazem isso com
algumas pessoas. Peabody  muito boa. Vai devagar e no deixa escapar nada.
- ... Ela vai subir rpido na carreira - comentou Eve, distrada.
Ento, eu vi que era uma pessoa. Um corpo. Meu Deus, todo aquele sangue!
Havia tanto sangue! Em toda parte. E a garganta dela... Eu passei mal. Dava para
sentir o cheiro... Eu passei mal e vomitei. No pude evitar. Ento, corri para dentro,
para buscar ajuda.
- Esse  o resumo do que aconteceu. - Eve juntou as mos e ficou
tamborilando com elas no maxilar. - Certo, agora passe para a parte em que eu
conversei com ele, depois que interrompemos o noticirio naquela noite.
Ele ainda estava plido, Eve notou, mas tinha aquele arzinho de superioridade
no rosto. Ela repassara todos os detalhes, como Peabody j dissera, e recebeu
basicamente as mesmas respostas. Ele estava mais calmo nessa hora. Isso era
esperado, era o normal.
Voc tocou no corpo?
No, acho que... No. Ela estava cada ali, e sua garganta estava aberta. Os
olhos. No, eu no toquei nela. Passei mal. Voc provavelmente no compreende
isto, Dallas. Algumas pessoas tm reaes humanas bsicas. Todo aquele sangue,
os olhos dela. Deus!
- Ele me disse quase a mesma coisa ontem - murmurou Eve.
- Que jamais vai se esquecer do rosto dela. Dos olhos dela.
- Os olhos de um morto so fantasmagricos. Eles podem ficar na sua cabea.
- Eu sei, os dela esto na minha cabea. - Ela virou o rosto e olhou para
Feeney. - Mas ningum havia visto os olhos dela at eu chegar l naquela noite,
Feeney. O capuz cara sobre o rosto dela. Ningum viu o rosto dela antes de mim.
Exceto o assassino.
- Meu Deus, Dallas! Voc est achando que um idiota da TV como Morse anda
rasgando gargantas no seu tempo livre? Ele provavelmente falou isso para dar
impacto, para se tornar mais importante.
Naquele instante, os lbios dela se curvaram, s um pouco, formando um
sorriso mais de crueldade do que de diverso.
- Sim, ele gosta de se fazer de importante, no ? Gosta de ficar em foco. O
que voc faz quando  um reprter ambicioso, sem tica, de segunda categoria,
Feeney, e no consegue achar uma histria quente?
- Voc cria uma - e soltou um assobio, baixinho.
- Vamos pesquisar o passado dele. Descobrir de onde veio o nosso amigo.
No levou muito tempo para Feeney conseguir uma folha com os dados
bsicos.
C. J. Morse havia nascido em Stamford, Connecticut, h trinta e trs anos. Esta
foi a primeira surpresa. Eve achava que ele era vrios anos mais novo. Sua me,
falecida, tinha chefiado a rea de cincia da computao na Universidade Carnegie
Melon, onde seu filho se formara em teledifuso e tambm em informtica.
- O cara  inteligente - comentou Feeney. - Foi o vigsimo da turma.
- Estou pensando se isso foi o suficiente.
Seus registros de empregos eram variados. Ele pulara de uma emissora para
outra. Ficou um ano em uma pequena emissora afiliada a uma grande rede, perto de
sua cidade natal. Depois, seis meses em uma emissora via-satlite na Pensilvnia.
Quase dois anos em um canal importante de Nova Los Angeles, depois uma parada
rpida em uma emissora independente do Arizona, antes de vir para o leste. Mais
um cargo em Detroit, at chegar em Nova York. Ele trabalhara na emissora de
notcias Ali News 60, e depois fez a transferncia para o Canal 75, primeiro fazendo
notas sociais, e depois indo para a seo de noticirio mais srio.
- Nosso rapaz no fica muito tempo no mesmo emprego disse Eve. - O Canal
75  o recorde dele, com trs anos. E no h meno ao pai nos dados da famlia.
- S a mame - concordou Feeney. - Uma mame bemsucedida, com uma
posio elevada.
Uma me morta, pensou ela. Eles iam ter de pesquisar para descobrir como foi
que ela morrera.
- Vamos ver a ficha criminal.
- Est sem registros - disse Feeney, franzindo a testa para a tela. - Um rapaz
de vida limpa.
- V para os dados da adolescncia. Ora, ora - disse ela, lendo o relatrio. -
Temos aqui um registro que est bloqueado, Feeney. O que  que voc acha que o
nosso rapaz de vida limpa fez, em sua juventude perdida, que era ruim o bastante
para que algum mexesse os pauzinhos, a fim de bloquear o registro?
- No vou levar muito tempo para descobrir. - Ele estava se empolgando, com
os dedos vidos para comear. - Vou precisar trabalhar no meu equipamento, e
temos de conseguir um sinal verde do comandante.
- Pode ir em frente. E cave bem em cada um daqueles empregos. Vamos ver
se houve algum problema. Acho que vou dar uma passada no Canal 75 para bater
um papo agradvel com o nosso garoto.
- Para enquadr-lo, ns vamos precisar de mais do que um perfil psicolgico
que combine.
- Ento vamos conseguir isso. - Ela fez um alongamento com o ombro, que
estava retesado. - Sabe, se eu no tivesse um problema pessoal com ele, bem que
podia ter enxergado antes. Quem  que se beneficiou das mortes? A mdia. - Ela
fechou o coldre. - E o primeiro assassinato aconteceu quando Nadine estava,
convenientemente, fazendo uma matria fora do planeta. Morse sabia que ia pegar a
histria sozinho.
- E Yvonne Metcalf?
- O palhao quase chegou na cena do crime antes de mim. Fiquei revoltada,
mas a ficha no caiu. Ele estava to frio! E ento, quem  que encontra o corpo de
Louise Kirski? Quem  que j estava no ar, poucos minutos depois, fazendo um
relato pessoal?
- Nada disto o transforma em assassino.  isto que a promotoria vai
argumentar.
- Eles querem uma conexo. Ibope - disse ela enquanto se encaminhava para
a porta. - Esta  a conexo.
CAPTULO DEZENOVE
EvE deu uma passada rpida na sala do noticirio e olhou em todas as telas.
No havia sinal de Morse, mas isto no a preocupou. Era um complexo muito
grande de prdios.
ele no tinha motivos para se esconder, no tinha razo para se preocupar.
Ela no ia dar uma razo a ele.
O plano que formulara pelo caminho era simples. No era to satisfatrio
quanto o de levant-lo pelos cabelos impecveis, prontos para a cmera, e trancafilo,
mas era mais simples.
Ela conversaria com ele a respeito de Nadine, deixando escapar que ela estava
preocupada. A partir dali seria muito natural levar o assunto na direo de Louise
Kirski. Ela ia bancar a boa policial, por uma boa causa. Ela ia se mostrar solidria
com o trauma dele, acrescentar uma histria brava do primeiro encontro que ela teve
com uma pessoa morta para envolv-lo. Ela poderia at pedir que ele ajudasse na
divulgao da foto de Nadine, de seu carro, e concordar em trabalhar com ele.
No podia parecer muito amigvel, decidiu. Devia mostrar um pouco de
ressentimento e reforar a urgncia. Se ela estava certa a respeito dele, ele adoraria
o fato de que ela precisava dele, e que ele poderia us-la para aumentar o seu
prprio tempo no ar.
Por outro lado, se ela estava certa a respeito dele, podia ser que Nadine j
estivesse morta.
Eve bloqueou esta ideia. Fosse o que fosse, no poderia ser mudado, e os
arrependimentos podiam ficar para depois.
- A senhorita deseja alguma coisa?
Eve olhou um pouco para baixo. A mulher que estava sentada  sua frente era
to perfeita que fazia lembrar uma esttua grega. Seu rosto parecia ter sido
entalhado em mrmore, seus olhos pintados com esmeralda lquida e os lbios com
rubi. Era fato conhecido que os talentos da TV costumavam gastar o salrio inteiro,
nos seus trs primeiros anos de profisso, em melhorias cosmticas.
Eve avaliou que, a no ser que aquela ali tivesse nascido com muita sorte, ia
acabar gastando os primeiros cinco anos de salrio nisso. Seus cabelos tinham um
tom de bronze nas pontas e estavam presos no alto da cabea para realar os
traos estonteantes. Tinha a voz treinada para parecer um ronronar vindo do fundo
da garganta, que transmitia um ar de sexo bem-feito.
- Voc trabalha na seo de fofocas, certo?
- Informaes Meu  Mars. a mo perfeita, com dedos longos e unhas
escarlate. - E a senhorita  a tenente Dallas.
- Mars. O seu nome me soa familiar.
- Deve ser. - Se Larinda ficou irritada por Eve no t-la reconhecido de
imediato, escondeu o sentimento muito bem por trs de um brilhante sorriso com
dentes brancos e perfeitos e uma voz que exibia o leve sotaque britnico de uma
pessoa da alta classe. Estou tentando marcar uma entrevista com a senhorita e seu
fascinante companheiro h vrias semanas. A senhorita no tem dado retorno s
minhas mensagens.
-  um pssimo hbito meu. Outro hbito  achar que a minha vida pessoal 
assunto particular.
- Quando uma mulher est envolvida com um homem como Roarke, a sua vida
pessoal cai em domnio pblico. - Seu olhar baixou do rosto dela e foi fisgado como
que por um anzol, parando em um ponto localizado entre os seios de Eve. - Minha
nossa! Esse brilhante no  nenhuma bagatela! Foi um presente de Roarke?
Eve engoliu a vontade de praguejar e fechou a mo sobre o diamante. Ela
adquirira o hbito de brincar com ele enquanto pensava, e se esquecera de enfi-lo
de volta dentro da blusa.
- Estou  procura de Morse.
- Humm... - Larinda j tinha calculado o tamanho e o valor da pedra. Seria um
comentrio interessante para a sua matria. Policial usa um diamante dado por
bilionrio. - Eu posso ajud-la com relao a isso. E gostaria que voc me
retribusse o favor. Vai haver uma pequena recepo, um coquetel, na casa de
Roarke, hoje  noite - e balanou suas incrveis pestanas, que tinham duas camadas
e dois tons diferentes. - Devo ter perdido o meu convite.
- Isso  assunto do Roarke. Fale com ele.
- Oh... - Especialista em tocar na ferida, Larinda recuou. Ento  ele quem
manda, por l, no ? Imagino que, quando um homem est to acostumado a
tomar decises, no consulta a namoradinha para nada.
- Eu no sou namoradinha de ningum - reagiu Eve, sem conseguir evitar.
Respirou fundo para se controlar e reavaliou o lindo rosto  sua frente. - Esse golpe
foi muito bom, Larinda.
- Sim, foi mesmo. E, ento, que tal um convite para hoje  noite? Eu posso
economizar um bocado de tempo em sua busca por Morse - acrescentou quando
Eve lanou novamente o olhar estreito em torno de toda a sala.
- Prove isso e ns vamos ver a respeito do convite.
- Ele saiu cinco minutos antes de voc entrar. - Sem olhar para o aparelho,
Larinda apertou um boto, colocando a chamada que estava entrando em seu telelink
em modo de espera. Por ser mais prtico, ela usava um cilindro fino bem
apontado para apertar os botes em vez das unhas bem tratadas. - Ele estava
morrendo de pressa, eu diria, porque quase me atropelou na sada do elevador.
Parecia muito doente. Pobrezinho.
O veneno que sentiu na voz de Larinda fez com que Eve se sentisse mais
sintonizada com ela.
- Voc no gosta de Morse, no ?
- Ele  um baba-ovo - afirmou Larinda com sua voz melodiosa. - Esta aqui 
uma profisso muito competitiva, querida, e eu no sou contra passar por cima de
algum para ir em frente de vez em quando. Morse, porm,  daquele tipo que 
capaz de pisar em um cara, depois dar um chute no saco dele e ir em frente sem
desmanchar o cabelo. Tentou fazer isto comigo quando trabalhvamos juntos no
departamento de notas sociais.
- E como foi que voc lidou com ele? Ela rolou os ombros com sensualidade.
- Querida, eu devoro pequenos vermes como ele no caf da manh, e consegui
tirar de letra. Mesmo assim, reconheo que ele no era assim to mau.  um
demnio para fazer pesquisas, e tem uma boa presena diante da cmera. O
problema  que ele se achava macho demais para trabalhar na rea de fofocas.
- Informaes sociais - corrigiu Eve com um sorriso discreto.
- Certo. Enfim, eu no fiquei muito triste quando ele foi para o departamento de
notcias mais srias. E ele tambm no fez muitos amigos por l tambm. E
conseguiu cortar Nadine.
- O qu? - Um sino tocou dentro da cabea de Eve.
- Ele quer ser o ncora do noticirio, e quer ser ncora sozinho. Todas as
vezes que est no ar com ela, ele puxa um pouco o tapete. Fala na frente dela,
acrescenta alguns segundos no texto, na parte dele, por conta prpria. Mexe no
resumo dela. Por uma ou duas vezes, o tele-prompter tambm deu problemas na
hora de passar o texto de Nadine. Ningum conseguiu provar isso, mas todos
sabem que Morse  um gnio da eletrnica.
-  mesmo?
- Todos ns o detestamos - disse ela com alegria. - S l em cima, na direo,
 que no. O chefo acha que ele d um bom ibope, e gosta do seu instinto
predatrio.
- Fico me perguntando se eles realmente apreciam - murmurou Eve. - Para
onde ele foi?
- Ns no paramos para bater papo, mas, pelo jeito que ele estava, eu diria que
foi para casa, direto para a cama. Estava muito cado. - Mexeu de novo com os
ombros curvilneos, fazendo com que uma suave fragrncia enchesse o ar. - Talvez
ele ainda esteja se sentindo abalado por ter encontrado Louise, e eu devia ter mais
um pouco de pena dele, s que isto  difcil em se tratando de Morse. E agora, e
quanto ao convite?
- Onde fica a mesa dele?
Larinda suspirou, colocou a chamada para ser gravada pelo aparelho e se
levantou.
- Venha comigo,  por aqui. - Ela deslizou entre as divisrias, mostrando que o
seu corpo era to impressionante quanto o rosto. - O que quer que esteja
procurando, no vai achar nada e lanou um sorriso cruel por cima dos ombros. -
Ele fez algo errado? Ser que finalmente conseguiram passar alguma lei que
transforme as tendncias para babar ovo em crime?
- Eu apenas preciso conversar com ele. Por que disse que eu no vou achar
nada?
Larinda parou em um cubculo no canto da sala, com a mesa puxada para a
frente, de modo que qualquer pessoa sentada ali ficava de costas para a parede e
com os olhos na sala. Um pequeno sinal de parania, pensou Eve.
- Ele no deixa nada do lado de fora, nem o menor memorando, nem a notinha
mais ridcula. Mesmo que ele se levante s para dar uma coadinha na bunda,
tranca o computador. Diz que, certa vez, algum roubou uma das pesquisas que
estava fazendo para uma de suas matrias. Ele at mesmo usa um amplificador
telefnico para poder falar sussurrando, nas ligaes que recebe, sem ningum
conseguir ouvir. Como se todos ns estivssemos loucos para ouvir as palavras
douradas que saem da sua garganta.
- E como foi que voc descobriu que ele usa amplificador de udio?
- Essa foi boa, tenente. - Larinda sorriu. - A mesa dele vive trancada tambm -
acrescentou. - Os discos ficam em segurana
- e lanou um olhar por trs das pestanas com pontas douradas.
- Como voc  detetive, provavelmente j sacou como  que eu sei disso.
Agora, com relao ao convite?
A baia de trabalho estava arrumada, pensou Eve. Impecvel demais para
algum que estava trabalhando muito e de repente sara passando mal.
- Ele tem uma fonte na Central de Polcia?
- Deve ter, embora eu no consiga imaginar um ser humano de verdade se
relacionando com Morse.
- Ele fala a respeito disso, fica se gabando por ter essa fonte?
- Ei, pelo evangelho segundo Morse, ele sempre tem as mais importantes
fontes nos quatro cantos do universo. - Sua voz perdeu um pouco da sofisticao
com a pressa e denunciou um leve sotaque da regio de Queens, em Nova York. -
S que ele jamais conseguiu apagar Nadine. Bem, pelo menos at o assassinato de
Cicely Towers, mas ele no ficou por cima por muito tempo.
O corao de Eve estava martelando dentro do peito naquele instante, firme e
forte. Ela concordou e se virou para ir embora.
- Ei - gritou Larinda em sua direo. - E sobre hoje  noite?  toma l, d c,
Dallas.
- Sem cmeras, seno voc sai antes de entrar - avisou Eve, e continuou
andando.
Por se lembrar dos seus dias de policial de rua, e da sua ambio, Eve
requisitou Peabody para acompanh-la.
- Ele vai se lembrar da sua cara. - Eve esperou, impaciente, enquanto o
elevador subia at o trigsimo terceiro andar do prdio de Morse. - Ele  bom com
rostos. No quero que voc diga nada, a no ser que eu lhe d uma abertura, e
ento mantenha o papo bem lacnico e em nvel oficial. E aparente um ar austero.
- Eu j nasci com um ar austero.
- Pode ficar brincando com o cabo da sua arma de atordoar de vez em quando.
Talvez voc possa parecer um pouco... ansiosa.
Os cantos da boca de Paebody se retraram, em um sorriso.
- Como se eu estivesse a fim de us-la, mas no posso, em presena de um
oficial superior.
-  isso a! - Eve saiu do elevador e virou para a esquerda. Feeney ainda est
trabalhando nos dados, portanto eu ainda no tenho tantas coisas para pression-lo
como gostaria. O fato  que eu posso estar errada.
- Mas a senhora no acha que esteja errada.
- No, no acho. S que eu estava errada no caso de David Angelini.
- A senhora construiu um bom caso circunstancial, e ele parecia totalmente
culpado no interrogatrio. - Diante do olhar casual de Eve, Peabody ficou vermelha. -
 que os policiais envolvidos em um caso tm o direito de fazer uma reviso de
todos os dados que se refiram a tal caso.
- Eu sei como funciona, Peabody. - De modo muito profissional e oficial, Eve se
fez anunciar pelo intercomunicador da entrada. - Voc est em busca de um
distintivo de detetive, policial?
- Sim, senhora - respondeu Peabody, esticando os ombros. Eve simplesmente
concordou, se fez anunciar mais uma vez e esperou.
- V at o fim do corredor, Peabody, para ver se a sada de emergncia est
bem trancada.
- Como, senhora?
- V at o fim do corredor - repetiu Eve, fixando o olhar desorientado de
Peabody. - Isso  uma ordem!
- Sim, senhora.
No instante em que Peabody virou as costas, Eve pegou o seu carto-mestre
para liberar cdigos e destrancou a fechadura. Fez a porta deslizar alguns
centmetros e j colocara o carto de cdigos de volta na sacola quando Peabody
voltou.
- A sada est bem fechada, senhora.
- timo. Parece que ele no est em casa, a no ser que... Ora, veja s
Peabody, a porta no est bem fechada.
Peabody olhou para a porta, e depois de volta para Eve, e apertou os lbios.
- Considero isso incomum, senhora. Pode ser que estejamos diante de um
caso de arrombamento, tenente. O senhor Morse pode estar em perigo.
- Tem razo, Peabody. Vamos deixar isto registrado. Enquanto Peabody ligava
o gravador, Eve acabou de abrir a porta e pegou na arma. - Morse? Aqui  a tenente
Dallas, do Departamento de Polcia da Cidade de Nova York. A porta de sua casa
no estava trancada. Ns suspeitamos que tenha havido um arrombamento, e
estamos entrando no apartamento. - Ela entrou e fez sinal para que Peabody ficasse
junto dela.
Eve entrou no quarto, verificou o closet e deu uma olhada no centro de
comunicaes, que ocupava mais espao do que a cama.
- No h sinal de intrusos - disse a Peabody, e ento entrou na cozinha. - Para
onde ser que o nosso passarinho voou? - quis saber. Pegando o comunicador,
entrou em contato com Feeney: Passe-me tudo o que conseguiu at agora. Estou
dentro do apartamento dele, e ele no est aqui.
- S estou no meio da pesquisa, mas acho que voc vai gostar. Primeiro, o
registro dos tempos de juventude, que estava lacrado; eu tive de suar a camisa para
conseguir acessar esse, garota. O pequeno C. J. teve problemas com a instrutora de
cincias sociais quando tinha dez anos. Ela no deu conceito A em um trabalho.
- Ora, que megera!
- Bem, foi isso o que ele achou tambm, aparentemente. Invadiu a casa dela,
destruiu tudo. E matou o cachorrinho dela.
- Nossa! Matou o cachorro?
- Cortou a garganta dele, Dallas, de uma orelha a outra. Ele acabou condenado
a terapia obrigatria e obteve liberdade, sob a condio de prestar servios
comunitrios.
- Isso  bom. - Eve sentiu que as peas comeavam a se encaixar. - V em
frente.
- Certo, estou aqui para servir. Nosso amigo dirige um Rocket, de dois
passageiros, novo em folha.
- Deus o abenoe, Feeney.
- E tem mais - disse ele envaidecendo-se. - Seu primeiro emprego, depois que
ficou adulto, foi na seo de planto para situaes de emergncia em uma pequena
emissora de sua cidade natal. Ele se demitiu quando outra reprter passou na frente
dele para conseguir uma apresentao ao vivo. Uma mulher.
- No pare agora. Acho que eu amo voc, Feeney.
- Todas as detetives me amam.  por causa do meu rostinho lindo. Conseguiu
ir para o ar no emprego seguinte, trabalhando s nos fins de semana, substituindo
os reprteres de primeira e segunda linha. Saiu do emprego correndo, reclamando
de discriminao. A editora de matrias era uma mulher.
- Est ficando cada vez melhor.
- Mas agora  que vem a grande. Uma emissora onde ele trabalhou, na
Califrnia. Estava indo muito bem l; veio subindo desde a terceira linha, at que
conseguiu um cargo regular, apresentando o noticirio de meio-dia como co-ncora.
- Com uma mulher?
- Foi, mas isto no  o melhor, Dallas. Espere s. Tinha uma mocinha que
apresentava a previso do tempo, e ela comeou a receber um monte de cartas do
pblico. Os chefes da emissora gostavam tanto dela que a deixaram fazer algumas
das matrias mais simples do noticirio do meio-dia. Os ndices de audincia
subiram quando ela estava no ar, e ela comeou a ter um espao na mdia s para
ela. Morse se demitiu, alegando que ele se recusava a trabalhar com uma
profissional no qualificada. Isto tudo aconteceu pouco antes de a mocinha do
tempo conseguir dar seu primeiro grande passo. Um papel regular em um seriado de
TV. Quer tentar adivinhar o nome dela?
Eve fechou os olhos.
- Diga-me que foi Yvonne Metcalf, Feeney.
- O grande prmio vai para a tenente! Na agenda dela havia uma nota a
respeito de um encontro com o Bundo dos antigos dias nublados. Eu aposto que o
nosso rapaz a procurou em nossa agradvel cidade. Engraado ele jamais ter
mencionado em suas reportagens que eles eram velhos amigos. Isto daria um certo
brilho s matrias.
- Eu realmente amo voc, Feeney, desesperadamente. Vou at beijar seu rosto
feio!
- Ei, ele j tem dona!  isto que a minha mulher sempre me diz.
- Sim, certo. Preciso de um mandado de busca, Feeney, e preciso que voc
venha at aqui na casa de Morse para tentar entrar no computador.
- J pedi o mandado. Vou transmiti-lo para voc assim que chegar. Depois vou
direto para a.
s vezes as coisas avanavam com suavidade. Eve estava com o mandado
nas mos e Feeney no apartamento, em menos de trinta minutos. Ela realmente o
beijou, de forma to entusiasmada que o fez ficar vermelho como uma beterraba
hbrida.
- Fique de guarda na porta, Peabody, e depois vistorie a sala de estar. No se
preocupe por desarrumar as coisas.
Eve entrou no quarto, dois passos na frente de Feeney. Ele j estava
esfregando as mos.
- Esse  um sistema maravilhoso - disse ele. - Apesar dos defeitos do rapaz,
temos de reconhecer que o idiota manja de computadores. Olhe s que mquina!
Vai ser um prazer brincar com ela. Ele se sentou enquanto Eve comeava a
vasculhar as gavetas.
- Ele anda na moda, de forma obsessiva - comentou ela. No tem nada que
mostre muitos sinais de uso exagerado, nem nada muito caro.
- Ele gasta todo o dinheiro dele nos brinquedos. - Feeney se debruou sobre o
computador, com o cenho franzido. - Esse cara respeita o equipamento e 
cuidadoso. Tem bloqueios por cdigo em toda parte. Caramba! Ele tem um sistema
de segurana contra invasores!
- O qu? - Eve esticou as costas. - Em um computador domstico?
- Tem um aqui, sim. - Cuidadosamente, Feeney se recostou na cadeira. - Se eu
no usar os cdigos certos, os dados vo para o espao. E tem uma grande
possibilidade de ser liberado por controle de voz. No vou conseguir entrar assim
to fcil, Dallas. Vou ter de trazer alguns equipamentos para c, e vai levar algum
tempo.
- Ele fugiu. Eu sei que ele fugiu. Ele j sabia que a gente vinha atrs dele.
Balanando-se para a frente e para trs sobre os calcanhares, ela considerava
as possibilidades de vazamento de informaes; vazamentos humanos ou
eletrnicos.
- Chame seu melhor homem para vir at aqui. Voc pode pegar o computador
dele na emissora. Era l que ele estava quando fugiu.
- Vamos ter uma longa noite.
- Tenente. - Era Peabody que chamava da porta. Seu rosto estava impassvel,
a no ser pelos olhos. E os olhos estavam em fogo. - Acho que  melhor a senhora
ver isto aqui.
Ao chegar  sala, Peabody gesticulou na direo da plataforma macia sobre a
qual ficava o sof.
- Eu estava revistando toda a sala. Provavelmente teria perdido o detalhe. O
caso, porm,  que o meu pai gosta de construir coisas. Estava sempre embutindo
gavetas secretas e alapes. Ns curtamos muito aquilo. Costumvamos brincar de
tesouro escondido. Fiquei curiosa quando vi um puxador ao lado do sof. Parece um
aparato de decorao, para simular um daqueles ferrolhos antigos. - Ela deu a volta
pela frente do sof e apontou.
Eve quase podia sentir as vibraes que subiam de sua pele. A voz de
Peabody ficou ligeiramente mais aguda.
- Tesouro escondido.
Eve sentiu o corao dar uma batida rpida e mais forte. Ali, em uma gaveta
comprida e profunda que entrava por baixo das almofadas, havia um guarda-chuva
roxo e um sapato de salto alto, listrado de vermelho e branco.
- Ns o pegamos! - Eve se virou para Peabody com um sorriso feroz e
poderoso. - Policial, voc acaba de dar um passo gigantesco na direo do seu
distintivo de detetive!
- Meu funcionrio me disse que voc o est perturbando.
Eve olhou de cara feia para Feeney no comunicador.
- S estou pedindo para que ele me d atualizaes peridicas.
- Ela se afastou dos tcnicos que estavam varrendo eletronicamente a sala de
estar do apartamento de Morse. Eles estavam com as luzes acesas, todas muito
fortes. O sol estava se pondo.
- Mas voc est interrompendo o trabalho dele, Dallas. Eu lhe avisei que isso ia
ser demorado. Morse  um perito em computao. Conhece todos os truques.
- Ele deve ter deixado tudo por escrito, Feeney. Como uma droga de matria
jornalstica. E se ele pegou Nadine, isto tambm deve estar em um daqueles discos.
- Concordo com voc nisso, garota, mas respirar atrs da nuca do meu tcnico
no vai fazer com que ele consiga os dados mais depressa. D espao para a gente
trabalhar em paz, pelo amor de Deus! Voc no tinha um programa elegante para ir
hoje  noite?
- O qu? - Ela fez uma careta. - Ai, cacete!
- V logo colocar o seu vestido de festa e nos deixe em paz.
- No vou ficar toda vestida como uma idiota sem crebro, comendo canaps,
enquanto ele est l fora,  solta.
- Ele vai estar  solta no importa a roupa que estiver usando. Oua bem, j
montamos uma rede em toda a cidade. Esto de olho nele, e no carro. O
apartamento dele est sob vigilncia pesada, e a emissora tambm. Voc no pode
nos ajudar ficando aqui. Esta parte  trabalho meu.
- Eu posso...
- Atrasar ainda mais as coisas, me fazendo ficar aqui, conversando com voc -
atacou. - V embora, Dallas! No minuto em que eu conseguir algo, a primeira
mordida no anzol, ligo para voc.
- Ns o pegamos, Feeney. Temos quem foi e temos o porqu.
- Ento deixe-me tentar descobrir o onde. Se Nadine Furst ainda estiver viva,
cada minuto  importante.
Era isso que a estava assombrando. Ela queria discutir, mas no havia
munio.
- Tudo bem, eu vou ento, mas...
- No me ligue - interrompeu Feeney. - Eu ligo para voc
- e desligou a transmisso antes que ela pudesse xing-lo.
Eve estava tentando compreender os relacionamentos, a importncia de
equilibrar as vidas com as obrigaes, o valor do compromisso. O que ela tinha com
Roarke ainda era novo demais para encaixar com conforto; era como um sapato
ligeiramente desconfortvel, mas que era lindo demais para anim-la a continuar
com ele no p at amaci-lo.
Ento ela entrou correndo no quarto, o viu em p no closet e resolveu usar a
estratgia de atacar primeiro.
- No me venha com esse papo de que eu estou atrasada. Summerset j me
empentelhou com isso. - Despiu seus equipamentos e os jogou sobre uma cadeira.
Roarke estava acabando de prender uma abotoadura de ouro com as mos
elegantes e firmes.
- Voc no tem satisfaes a dar a Summerset. - Ele olhou para ela, ento, e
deu um rpido piscar de olhos quando ela despiu a blusa. - Nem a mim.
- Olhe, eu tive trabalho. - Nua da cintura para cima, ela se sentou em uma
cadeira para tirar as botas. - Eu disse que estaria aqui e estou aqui. Sei que os
convidados vo comear a chegar em dez minutos. - Jogou uma das botas de lado
enquanto as palavras abrasivas de Summerset reverberavam em sua cabea. - Vou
estar pronta. No levo horas para entrar em um vestido e depois tascar um punhado
de maquiagem melada na cara.
J sem as botas, ela arqueou os quadris e rebolou para puxar os jeans. Antes
de eles atingirem o cho, ela j estava correndo para o banheiro da sute. Sorrindo
por causa de sua sada, Roarke a seguiu.
- No h pressa, Eve. Voc no tem uma hora marcada para chegar em um
coquetel, nem ser barrada por estar atrasada.
- Eu disse que estaria pronta. - Ela ficou em p entre os vrios chuveiros
embutidos nas paredes, espalhando um lquido verde-claro nos cabelos. A espuma
escorreu sobre seus olhos. Vou estar pronta.
- Certo, mas ningum vai se sentir ofendido se voc descer em vinte minutos,
ou trinta, se for o caso. Estava esperando que eu fosse ficar aborrecido com voc
por ter uma outra vida?
Ela esfregou os olhos, que estavam ardendo, e tentou v-lo por entre a espuma
e o vapor.
- Talvez.
- Ento voc est fadada ao desapontamento. Se voc se lembrar, eu a
conheci por causa desta outra vida. E eu tambm tenho inmeras outras obrigaes.
- Ele a observou enxaguar o cabelo. Era agradvel ver a maneira com que ela
jogava a cabea para trs, o jeito com que a gua e a espuma escorriam pela sua
pele. - No estou tentando prender voc. Estou apenas tentando viver com voc.
Ela tirou os cabelos molhados dos olhos enquanto ele abria o secador de corpo
para ela. Ela saiu, andando em direo a ele, dando pulinhos. Ento surpreendeu
Roarke agarrando o rosto dele com as duas mos e dando-lhe um beijo com uma
exploso de entusiasmo.
- No deve ser fcil. - Ela entrou no cilindro e apertou a tecla que liberava ar
quente e seco, em torvelinho, por todo o corpo. - Eu mal consigo viver comigo
mesma. s vezes fico pensando por que  que voc no me joga no cho quando
eu comeo a perturbar voc.
- J tive essa ideia, mas muitas vezes voc est armada.
Seca e perfumada pelo sabonete, ela saiu do secador.
- No estou armada agora.
Ele a agarrou pela cintura, e ento veio descendo as mos at agarrar o seu
traseiro firme e musculoso.
- Outras coisas passam pela minha cabea quando voc est nua.
- ? - Ela envolveu-lhe o pescoo com as mos, apreciando o fato de que,
ficando levemente na ponta dos ps, eles j estavam no mesmo nvel, olho no olho,
boca na boca. - Como o qu, por exemplo?
Com um pouco de arrependimento, ele a afastou ligeiramente com os dois
braos.
- Por que no me conta o motivo de voc estar to empolgada?
- Talvez porque eu goste de ver voc em uma camisa elegante.
- Ela se afastou e pegou um robe curto em um cabide. - Ou talvez seja porque
eu me sinta estimulada com a ideia de usar sapatos que vo fazer as solas dos
meus ps gritarem pelas prximas duas horas.
Deu uma olhada no espelho e imaginou que ia ter de colocar um pouco da
pintura que Mavis estava sempre empurrando para que ela usasse. Chegando mais
perto, firmou o escurecedor de clios e delineador automtico, apertou-o com firmeza
sobre a plpebra do olho esquerdo e apertou o boto.
- Ou talvez - continuou ela, olhando em volta - seja porque a policial Peabody
encontrou um tesouro escondido.
- Que bom para a policial Peabody! E que tesouro escondido era esse?
Eve acabou de preparar o olho direito, e ento piscou repetidamente para
experimentar.
- Um guarda-chuva e um sapato.
- Voc o pegou! - Abraando-a pelos ombros, Roarke beijou-lhe a nuca. - Meus
parabns!
- Ns quase o pegamos - ela o corrigiu. Tentou se lembrar do que vinha depois,
e escolheu o batom. Mavis vivia apregoando as maravilhas de se aplicar tintura nos
lbios, mas Eve tinha desconfiana de um compromisso com a cor que podia durar
at trs semanas. - Conseguimos as provas. Os tcnicos confirmaram as
impresses digitais dele nos suvenires. S os dele e os da vtima, no caso do
guarda-chuva. Encontramos outras impresses no sapato, mas j espervamos
encontr-las de vendedores e outras compradoras. Eram sapatos novos, quase sem
arranhes nas solas, e ela comprara vrios pares na Saks pouco antes de morrer.
Ela voltou para o quarto, se lembrou de usar o creme perfumado que Roarke
trouxera para ela de Paris, e arrancou fora o robe para poder espalh-lo sobre a
pele.
- O problema  que ns ainda no pegamos o assassino. De algum modo ele
recebeu a dica de que eu estava chegando, e deu no p. Feeney est trabalhando
neste instante no equipamento dele, para ver se a gente consegue descobrir algum
dado que possa nos levar at onde ele est. As ruas esto todas cercadas, mas ele
pode j ter sado da cidade. Eu nem ia conseguir chegar para a festa, mas Feeney
me deu um chute na bunda. Disse que eu estava perturbando o tcnico dele.
Ela abriu o closet, apertou o boto que fazia girar os cabides e viu o minsculo
vestido cor de cobre. Ela o tirou do cabide e o colocou na frente do corpo. As
mangas eram compridas e desciam, soltas, a partir de um pescoo alto. O
comprimento do vestido era mnimo e ele acabava um pouco abaixo do que era
permitido pela lei.
- Vou ter de usar alguma coisa por baixo?
Ele abriu a gaveta de cima e pegou um minsculo tringulo de pano que
combinava com o vestido e podia ser ridiculamente chamado de calcinha.
- S isto j deve servir.
Ela a pegou de sua mo abaixada e girou o corpo para entrar nela.
- Meu Deus! - disse depois de dar uma rpida olhada no espelho. - Bem, deixa
pra l. - J que estava muito tarde para argumentar, entrou no vestido e comeou a
puxar o material colante para cima.
-  sempre uma distrao ficar apreciando enquanto voc se arruma, mas eu
estou meio distrado no momento.
- Eu sei, eu sei. Pode descer que eu j vou.
- No, Eve. Quero saber quem  o assassino.
- Quem ? - Ela puxou os ombros baixos do vestido e os colocou no lugar. Eu
no falei?
- No - disse Roarke com admirvel pacincia. - Voc no falou.
- Morse. - E se enfiou no closet  procura dos sapatos.
- Voc est brincando!
- C. J. Morse. - Ela segurou os sapatos como se estivesse segurando uma
arma, e seu olhar se tornou sombrio e fixo. - E quando eu acabar com aquele filho
da me, ele vai conseguir mais tempo de TV do que jamais imaginou ter na vida.
O circuito de tele-link interno da casa apitou. A voz de desaprovao de
Summerset flutuou pelo ar.
- Os primeiros convidados j esto chegando, senhor.
- Certo. Quer dizer que foi o Morse? - perguntou ele a Eve.
- Isso mesmo. Vou lhe contar tudo entre os canaps. Ela passou uma das
mos pelo cabelo. - Eu lhe falei que estaria pronta. E... Roarke! - Ela entrelaou os
dedos nos dele enquanto se dirigiam para a sala. - Preciso que voc autorize a
entrada de uma convidada de ltima hora para mim. Larinda Mars.
CAPTULO VINTE
Eve imaginava que devia haver meios piores de aguardar as ltimas etapas de
uma investigao. A atmosfera ali estava muito mais agradvel do que a da sua sala
apertada na Central de Polcia, e a comida era certamente muito superior  da
lanchonete.
Roarke abrira a sua sala de recepo com teto em forma de domo, o piso de
madeira brilhante, as paredes espelhadas e as luzes oFUscantes. Mesas compridas
e curvas acompanhavam as paredes redondas e estavam artisticamente enfeitadas
com canaps exticos.
Ovos pequeninos e coloridos, colhidos da criao de pombos anes na
fazenda da Lua, delicados camares rosados do mar do Japo, elegantes espirais
de queijo que derretiam na boca, massas recheadas com pats ou cremes em uma
infinidade de formatos, o brilho do caviar empilhado sobre raspas de gelo e a riqueza
das frutas frescas com cobertura de acar cristalizado.
Havia mais. A mesa de pratos quentes, do outro lado da sala, estava envolta
em uma nuvem de calor e temperos. Uma rea inteira era um tesouro para os
vegetarianos convictos, enquanto outra, a uma distncia discreta, estava preparada
para os carnvoros.
Roarke optara por msica ao vivo em vez de simulao, e a banda que estava
do lado de fora, no terrao anexo, executava melodias que convidavam 
conversao. Mais tarde, conforme a noite fosse esquentando, eles aqueceriam o
ritmo para seduzir as pessoas que quisessem danar.
Atravs do carrossel de cores, perfumes, brilhos e luzes, garons vestidos de
um preto austero circulavam com bandejas de prata lotadas de taas de cristal
cheias de champanhe.
- Isso  mais que demais! - Mavis atirou um champignon preto na boca. Ela se
vestira conservadoramente para a ocasio, o que significa que uma boa parte de
sua pele estava coberta, e seus cabelos eram uma juba de vermelho discreto. E,
como se tratava de Mavis, as ris dos seus olhos eram da mesma cor. - No posso
acreditar que Roarke me convidou, de verdade.
- Voc  minha amiga.
- ... Ei, voc acha que, mais tarde, depois de todo mundo estar meio alto, eu
posso pedir  banda para me deixar cantar um nmero?
Eve olhou para os ricos, para a multido de privilegiados que brilhava em ouro
de verdade e pedras preciosas e sorriu.
- Acho que ia ser timo.
- Grande! - Mavis apertou ligeiramente a mo de Eve. Vou l conversar um
pouco com a banda, agora mesmo, para, assim, tentar me enturmar e conquistar o
corao deles.
- Tenente.
Eve desviou o olhar das formas exuberantes de Mavis que saam de junto dela
e levantou a cabea para olhar para o rosto do secretrio Tibble.
- Como vai, senhor?
- Voc est parecendo... Pouco profissional esta noite. Quando ela se mostrou
ligeiramente embaraada, ele riu. - Isso foi um elogio. Roarke sabe como preparar
um show.
- Sim, senhor, sabe mesmo. E  por uma grande causa. - Mas ela, na verdade,
no conseguia se lembrar muito bem que causa era.
- Eu tambm acho. Minha esposa est muito envolvida com isto. - Ele pegou
uma taa de uma bandeja que passava e tomou um gole. - Minha nica tristeza 
que estas camisas-de fora-jamais saem de moda. - Com a mo livre, enfiou o dedo
no colarinho.
Isso a fez sorrir.
- Ento o senhor deveria experimentar usar um destes sapatos.
- Andar na moda custa muito caro.
- Eu prefiro andar fora da moda e  vontade. - Mas ela resistiu  tentao de
puxar a saia que estava agarrada em seu traseiro.
- Bem. - Ele a pegou pelo brao e foi conduzindo-a na direo de um arbusto
discreto. - Agora que j batemos o papo-furado obrigatrio, gostaria de lhe dizer que
voc fez um trabalho excelente na investigao.
- Mas eu pisei na bola com os Angelini.
- No, voc seguiu uma linha de pensamento que era lgica e depois voltou
atrs e descobriu peas que outros haviam deixado passar.
- A viciada albina foi puro acaso, s um golpe de sorte.
- A sorte  importante. Bem como a tenacidade e a ateno aos detalhes. Voc
o encurralou, Dallas.
- Mas ele ainda est  solta.
- No vai muito longe. Sua prpria ambio vai nos ajudar a encontr-lo. Seu
rosto  conhecido.
Eve contava com isso.
- Senhor, a policial Peabody fez um timo trabalho. Ela tem um olho atento e
bons instintos.
- E voc ressaltou isso em seu relatrio. No vou me esquecer dela. - Quando
o viu olhar para o relgio, Eve percebeu que ele estava to nervoso quanto ela. -
Prometi a Feeney uma garrafa de usque escocs se ele conseguisse entrar no
computador antes de meia-noite.
- Se essa promessa no conseguir apress-lo, nada mais o far.
- Ele deu um sorriso. No adiantava nada lembrar ao secretrio que eles no
haviam encontrado a arma do crime no apartamento de Morse. Ele j sabia.
No momento em que Eve avistou Marco Angelini entrando na sala, seus
ombros se retesaram.
- Desculpe-me, secretrio Tibble. H algum com quem eu preciso conversar.
- No  necessrio, Dallas - ele colocou a mo sobre o brao dela.
-  sim, senhor.  necessrio.
Ela percebeu o instante exato em que ele notou a presena dela pelo levantar
rpido do queixo. Ele parou, colocou as mos atrs das costas e esperou.
- Senhor Angelini.
- Tenente Dallas.
- Sinto muito pelas dificuldades que causei ao senhor e  sua famlia durante
as investigaes.
- Sente? - Seus olhos estavam frios, e no piscavam. - Por acusar meu filho de
assassinato, por submet-lo ao terror e  humilhao, por acrescentar dor a uma
quantidade de dor j incrivelmente grande, por coloc-lo atrs das grades quando
seu nico crime foi o de testemunhar violncia?
Ela poderia ter justificado cada uma daquelas aes. Poderia ter lembrado a
ele que o seu filho havia no somente testemunhado violncia, mas tambm dera as
costas para ela sem um momento de reflexo, pensando apenas na sua prpria
sobrevivncia, e ainda piorara o seu crime ao tentar usar suborno para ficar fora do
caso.
- Sinto muito por piorar o trauma emocional de sua famlia.
- Tenho dvidas de que a senhorita compreenda esta frase. Ele passou os
olhos nela, olhando para baixo. - E fico me perguntando se, caso a senhorita no
estivesse to ocupada desfrutando a posio de seu namorado, j no poderia ter
capturado o verdadeiro assassino.  muito fcil de ver o que a senhorita .  uma
oportunista, uma alpinista social em busca de holofotes.
- Marco! - disse Roarke com suavidade enquanto colocava uma das mos
sobre o ombro de Eve.
- No. - Ela ficou rgida sob o toque. - No me defenda. Deixe-o terminar.
- No posso fazer isso. Marco, estou disposto a levar o seu estado mental em
considerao como razo de seu ataque a Eve em sua prpria casa. Se voc no
quiser ficar aqui - disse em um tom duro e frio como ao, que mostrava que ele no
estava levando nada em considerao - posso lhe mostrar a sada.
- Eu conheo a sada. - Os olhos de Marco pareciam esfaquear Eve. - Vou dar
um fim a nossos negcios em comum o mais rpido possvel, Roarke. J no confio
na sua capacidade de julgamento.
Com as mos fechadas ao lado do corpo, Eve tremeu de fria enquanto Marco
ia embora.
- Por que fez isso? Eu sabia como lidar com ele.
- Pode ser que sim - concordou Roarke, e girou o corpo dela em direo a ele -
mas isso era pessoal. Ningum, absolutamente ningum entra em nossa casa e fala
com voc daquela forma.
- Summerset fala - ela tentou fazer um gesto de indiferena. Roarke sorriu e
tocou os lbios dela com os dele.
- Esta  a exceo, por motivos complicados demais para explicar. - E
massageou com o polegar a ruga de preocupao que havia entre as sobrancelhas
dela.
- Tudo bem. Acho que no vou precisar trocar cartes de Natal com os
Angelini.
- Voc vai conseguir superar isso. Quer um pouco de champanhe?
- Em um minuto. Vou retocar a maquiagem. - Ela tocou o rosto dele. Estava
ficando a cada dia mais fcil fazer isto, toc-lo, quando eles no estavam a ss. -
Acho que  melhor avis-lo de que Larinda Mars est com um gravador dentro da
bolsa.
Roarke passou o dedo na covinha do queixo de Eve.
- Estava. Ele est no meu bolso agora, depois que a deixei se aproximar de
mim na mesa vegetariana.
- Muito esperto. Voc nunca mencionou que dedos leves eram um dos seus
atributos.
- Voc nunca perguntou.
- Lembre-me de perguntar, e perguntar muito. J volto.
Ela no estava preocupada com a maquiagem. Queria alguns minutos a ss, e
talvez mais alguns para ligar para Feeney, embora ela imaginasse que ele ia querer
arrancar a cabea dela fora por interromper as suas tentativas com o computador.
Ele ainda tinha uma hora de prazo antes de perder a garrafa de usque. Ela
achava que no ia fazer mal lembr-lo disso. Ela j estava na porta da biblioteca,
preparando-se para digitar o cdigo de acesso ao cmodo, quando Summerset
materializou-se das sombras atrs dela.
- Tenente, a senhorita tem uma ligao que me parece pessoal e urgente.
-  o Feeney?
- Ele no me informou o seu nome - disse Summerset baixinho.
- Vou atender daqui - e teve a pequena mas valiosa satisfao de deixar a
porta bater direto na cara dele. - Luzes! - ordenou, e o quarto se iluminou.
Ela j estava quase acostumada com as paredes forradas de livros
encadernados em couro, cheios de pginas que farfalhavam quando eram
folheadas. Naquele momento ela no lhes lanou mais do que um olhar rpido antes
de seguir, apressada, at o telelink que Roarke tinha sobre a mesa da biblioteca.
Transferiu a ligao para ali, e congelou.
- Surpresa, surpresa! - Morse estava sorrindo para ela. Aposto que voc jamais
imaginou que fosse eu. Est toda vestida para a festa, pelo que vejo. Voc est um
arraso!
- Andei procurando por voc, C. J.
- Ah, sim, eu sei. Voc andou procurando por uma poro de coisas. Eu sei
que isto est sendo gravado, e no me importo. Mas oua bem uma coisa.  melhor
que isto fique s entre ns dois, ou eu vou comear a fatiar uma amiga nossa em
pequenos pedaos. Diga ol para a Dallas, Nadine.
Ele estendeu o brao e o rosto de Nadine apareceu na tela. Eve, que j vira o
terror demasiadas vezes, encarava-o mais uma vez.
- Ele feriu voc, Nadine?
- Eu... - Ela choramingou quando ele puxou a cabea dela para trs pelos
cabelos e encostou uma lmina fina e comprida na garganta dela.
- Vamos, diga a ela que eu estou sendo muito legal com voc. Diga! - E passou
a parte achatada da lmina pelo pescoo dela. Piranha!
- Eu estou tima, estou bem. - Ela fechou os olhos e. uma lgrima ameaou
escorrer. - Sinto muito.
- Ela sente muito - disse Morse com os lbios firmes, e apertou o seu rosto ao
de Nadine para que os dois aparecessem na tela.
- Ela sente muito por ter estado com tanta nsia de ser a piranha principal que
acabou se descuidando da guarda que voc tinha colocado em volta dela, e caiu
bem nos meus braos que a aguardavam. No , Nadine?
- Sim.
- E agora eu vou mat-la, mas no to depressa quanto as outras. Vou mat-la
lentamente, e com muita dor, a no ser que a sua amiguinha, a tenente, faa tudo o
que eu disser. No ? Diga para ela, Nadine.
- Ele vai me matar. - Ela apertou os lbios com fora, mas nada fazia a
tremedeira parar. - Ele vai me matar, Dallas.
-  isso a. Voc no quer que ela morra, quer, Dallas? Foi culpa sua Louise ter
morrido. Sua e de Nadine. Ela no merecia aquilo. Ela conhecia o lugar dela. No
estava querendo ser a piranha superstar.  culpa de vocs, ela estar morta. Agora
voc no quer que aquilo acontea de novo.
Morse continuava com a faca encostada na garganta de Nadine e Eve notou
que as mos dele tremiam.
- O que quer, Morse? - Lembrando-se do perfil da doutora Mira, ela usou as
palavras certas, com cuidado. - Voc est no comando. Voc  quem manda.
-  isso mesmo. - Seu sorriso se abriu de todo. -  exatamente isso. Voc j
est vendo, pela tela, o lugar em que eu estou. Pode notar que  um lugar bem
sossegado em um parque, o Greenpeace Park, onde ningum vai nos incomodar.
Todos aqueles amantes do verde plantaram estas lindas rvores.  um lugar lindo. E
claro que ningum passa por aqui depois que anoitece. A no ser que eles sejam
inteligentes o bastante para descobrir como desligar o campo eletrnico que assusta
os vagabundos e os viciados. Voc tem exatamente seis minutos para chegar aqui,
para que possamos dar incio s nossas negociaes.
- Seis minutos. Mal d para chegar at a, mesmo que eu v a toda velocidade.
Se eu ficar presa no trfego...
- Ento no fique - respondeu ele com rispidez. - Seis minutos a partir do final
da transmisso, Dallas. Se o tempo estourar em dez segundos, dez segundos que
voc possa usar para dar o alarme, contactar algum, ou simplesmente pensar em
pedir reforo, e eu comeo a rasgar a garganta de Nadine. Venha sozinha. Se eu
sentir o cheiro de outro policial, vou acabar com ela. Voc quer que ela venha
sozinha, no quer, Nadine? - Para convenc-la, ele virou a ponta da lmina e cortou
um pedacinho da lateral de sua garganta.
- Por favor... - Ela tentava arquear o corpo enquanto um filete de sangue
escorria. - Por favor...
- Se voc a cortar mais uma vez, no tem acordo, Morse.
- Voc vem negociar sim - disse Morse. - Seis minutos. Comea agora!
A tela se apagou. O dedo de Eve ficou parado sobre os botes, pensando na
emergncia, nas dezenas de carros que estariam cercando o parque em minutos.
Pensou em grampos, em possveis grampos eletrnicos.
E pensou no sangue que vira escorrendo do pescoo de Nadine. Saiu em
disparada pela sala e apertou o boto do elevador sem parar de correr. Ela
precisava de sua arma.
C. J. Morse estava se divertindo como nunca. Comeara a compreender que
ele se vendera muito barato, matando depressa. Havia muito mais emoo em
cortejar o medo, seduzi-lo, v-lo ir aumentado de intensidade at atingir o clmax.
Ele viu o medo nos olhos de Nadine. Eles estavam vidrados, agora, com as
pupilas dilatadas, lisas e pretas, com uma pequena borda de cor em volta. Ele
estava, compreendeu com grande prazer, dando-lhe um susto mortal, literalmente.
Ela no a cortara novamente. Ah, bem que ele queria, e fazia questo de
mostrar-lhe a faca o tempo todo para que ela no perdesse o medo e soubesse que
ele poderia fazer isso. Mas parte dele se preocupava com a tenente piranha.
No que ele no conseguisse lidar com ela, avaliou Morse. Ele poderia muito
bem lidar com ela do nico jeito que as mulheres entendiam. Matando-a. Mas no
queria fazer isto depressa, como fizera com as outras. Ela tentara ser mais esperta
do que ele, e isto era um insulto que ele no poderia tolerar.
As mulheres sempre tentavam comandar o espetculo, sempre entravam no
caminho bem na hora em que ele estava para colocar a mo no prmio. Acontecera
com ele a vida toda. A droga de sua vida inteira, a comear pela me, a megera
exigente.
Voc no deu o melhor de si, C. J. Use o crebro, pelo amor de Deus! Voc
no vai conseguir se dar bem na vida s com boa aparncia e charme. Voc no
tem nenhum dos dois. Esperava mais de voc. Se voc no puder ser o melhor, no
ser nada.
Ele aguentou muito, no foi? Sorrindo para si mesmo, comeou a sacudir os
cabelos de Nadine enquanto ela tremia de medo. Aguentou aquilo durante anos
bancando o bonzinho, o filho devotado, enquanto  noite ele pensava em formas de
mat-la. Sonhos maravilhosos, suados e doces, nos quais ele finalmente conseguia
silenciar aquela vozinha irritante e exigente.
- E foi o que eu fiz - disse em tom de conversa, encostando a ponta da faca na
artria que pulsava no pescoo de Nadine. - E foi to fcil! Ela estava sozinha
naquela casa grande e importante, ocupada com seus negcios grandes e
importantes. E foi quando eu entrei. C. J., disse ela, O que est fazendo aqui?
No me diga que perdeu o emprego novamente? Voc jamais vai conseguir se dar
bem na vida, a no ser que se concentre nisso. E simplesmente sorriu. E eu disse:
Cale a boca, me, cale a porcaria dessa boca! E cortei-lhe a garganta.
Para demonstrar, ele fez a lmina passar pela garganta de Nadine mais uma
vez, de leve, com fora suficiente apenas para arranhar a pele.
- O sangue esguichou e ela revirou os olhos, mas fechou a matraca. Sabe,
Nadine, eu aprendi uma coisa com a velha megera. J estava na hora de eu me
concentrar. Precisava de um objetivo na vida. E decidi que esse objetivo seria livrar
o mundo das mulheres bem falantes e exigentes, as estraga-prazeres que andam
por a. Como Cicely Towers e Yvonne Metcalf. Como voc, Nadine. - E se inclinou,
beijando-lhe o centro da testa. - Exatamente como voc.
Ela estava reduzida a choramingos. Sua cabea estava bloqueada. Ela parara
de tentar soltar os pulsos, que estavam amarrados, desistira de tudo. Estava
sentada ali, dcil como uma boneca, com um tremor ocasional que de vez em
quando lhe quebrava a imobilidade.
- Voc vivia tentando me jogar para o lado. Chegou at mesmo a ir at o diretor
para tentar me tirar do lugar de apresentador do noticirio. Disse para eles que eu
era um... - e bateu com a faca contra o pescoo dela, para dar nfase - ...p-nosaco.
Voc sabia que aquela piranha da promotora Towers no queria nem mesmo
me dar uma entrevista. Ela me deixava envergonhado, Nadine. Fingia que no me
conhecia nas entrevistas coletivas. Mas eu dei um jeito nela. Um bom reprter cava
as suas informaes, certo, Nadine? E eu cavei e descobri aquela histria boa, bem
suculenta a respeito do amante idiota da filha dela. Ah, mas eu guardei aquilo, e
guardei bem, enquanto a mame feliz da futura noiva fazia todos os planos para o
casamento! Poderia t-la chantageado, mas este no era o meu objetivo, era? Ela
ficou toda agitada naquela noite quando eu lhe joguei tudo na cara.
Ele franziu o cenho. Seus olhos brilhavam.
- Ela ia falar comigo, afinal, Nadine. Ah, pode apostar que ia falar! Ela tentaria
me arruinar, apesar de saber que eu ia apenas fazer uma reportagem sobre os
fatos. Mas Towers era uma tremenda negociadora e ia tentar me esmagar como a
um inseto. Foi exatamente isto que ela me disse naquela noite pelo tele-link. S que
fez exatamente o que eu mandei. E quando eu caminhei em direo a ela naquela
ruazinha imunda, ela olhou com desprezo para mim. Olhou com desprezo e me
disse: Voc est atrasado. Agora, seu canalha, vamos acertar as coisas.
Ele comeou a rir com tanta fora que teve de colocar a mo no estmago.
- Ah, e eu a acertei mesmo, direitinho! O sangue esguichou e ela revirou os
olhos, exatamente igual  minha velha e querida me.
Ele deu um ligeiro tapa na testa de Nadine, se levantou e olhou para a cmera
que tinha preparado.
- Aqui fala C. J. Morse, transmitindo as ltimas notcias. Enquanto os segundos
se esvaem, parece que a herica tenente Xereca no vai conseguir chegar a tempo
de livrar sua amiguinha piranha da execuo. Embora isto sempre tenha sido
considerado um clich machista, esta experincia nos provou que as mulheres
sempre se atrasam.
Ele gargalhou sem conseguir parar, de forma selvagem, e deu um tapa
descuidado com as costas da mo no rosto de Nadine, que a jogou para trs de
encontro ao encosto do banco de praa onde a colocara. Depois de uma ltima
risada aguda, ele se controlou e franziu a testa, de modo sbrio, olhando para a
lente.
- A transmisso pblica de execues foi banida em todo o pas, em 2012,
cinco anos antes de a Suprema Corte mais uma vez decidir que a pena capital era
inconstitucional. Evidentemente, a Corte foi forada a tomar esta deciso por cinco
mulheres idiotas e faladeiras, portanto este reprter considera este veto nulo, sem
valor legal.
Ele pegou um pequeno transmissor no bolso do casaco antes de se virar para
Nadine.
- Agora, eu vou me conectar com a emissora, Nadine. No ar em vinte
segundos. - Com ar pensativo, jogou a cabea para o lado. - Sabe, Nadine, voc
est precisando de um pouco de maquiagem.  uma pena que no tenhamos tempo
para isso. Estou certo de que voc gostaria de parecer mais bonita do que nunca,
para a sua ltima transmisso.
Ele caminhou at ela, colocou a faca posicionada em sua garganta e olhou
para a cmera.
- Em dez, nove, oito... - e olhou para trs ao ouvir o som de passos sobre o
piso de p de pedra. - Ora, ora, ela chegou! E com alguns segundos de folga!
Eve parou de andar no caminho que levava at onde eles estavam e ficou
olhando. Ela j vira de tudo em mais de dez anos de polcia. Muita coisa ela gostaria
que fosse apagada de sua memria. Mas jamais vira algo que se comparasse
quilo.
Ela seguira a luz, uma nica lmpada que formava um crculo luminoso em
volta do ponto onde eles estavam. O banco de parque onde Nadine estava sentada,
passivamente, com o sangue escorrendo pela pele e uma faca encostada na
garganta. C. J. Morse estava por trs dela, elegantemente vestido com uma camisa
de gola redonda e um casaco em uma cor que combinava, olhando para a cmera
que havia sido montada em um trip alto. A luz vermelha da cmera brilhava de
forma constante, como se fosse um olho que tudo julgasse.
- Que diabo voc est fazendo, Morse?
- Uma transmisso ao vivo - disse ele alegremente. - Por favor, venha para a
luz, tenente, para que nossos telespectadores possam v-la.
Mantendo o olhar colado nele, Eve entrou no crculo de luz.
Ela j sara h muito tempo, pensou Roarke, e se viu irritado pelos bate-papos
da festa. Obviamente, ela estava mais aborrecida do que demonstrara e ele se
arrependeu de no ter tratado Marco Angelini de forma mais eficaz.
De jeito nenhum ele ia deix-la ficar remoendo aquilo ou permitir que ela
levasse a culpa. O nico jeito de ter certeza de que ela no ia ficar assim era divertila,
ou espalhar o ar chateado de seu rosto. Ele saiu silenciosamente da sala, para
longe da msica, das luzes e das vozes. A casa era grande demais para que ele
fosse procur-la, mas ele poderia descobrir sua localizao exata com uma nica
pergunta.
- Eve? - perguntou ele no momento em que Summerset saiu de uma sala 
direita.
- Ela saiu.
- O que quer dizer saiu? Saiu para onde?
Pelo fato de que conversar sobre aquela mulher sempre incomodava
Summerset, ele deu de ombros.
- No sei dizer, ela simplesmente saiu da casa, entrou em seu veculo e partiu.
No se dignou a me informar sobre os seus planos.
O n que Roarke sentiu na boca do estmago deixou sua voz mais agressiva:
- No fique de sacanagem comigo, Summerset. Por que motivo ela saiu?
Sentindo-se insultado, Summerset enrijeceu os maxilares.
- Talvez sua partida tenha relao com a ligao que recebeu h poucos
minutos. Ela atendeu da biblioteca.
Girando o corpo, Roarke foi correndo at a porta da biblioteca e digitou o
cdigo para abri-la. Com Summerset nos calcanhares, foi direto at a mesa.
- Apresentar a gravao da ltima ligao.
Enquanto assistia e ouvia, o n em seu estmago se transformou em uma
queimao que era feita de medo.
- Meu Cristo, Jesus, ela foi se encontrar com ele! E foi sozinha. Ele j estava do
lado de fora da porta, movendo-se com rapidez,
quando lanou a ordem por cima dos ombros, como um laser.
- Repasse esta informao para o secretrio Tibble... Discretamente.
- Embora estejamos com pouco tempo, tenente, estou certo de que nossos
telespectadores ficariam fascinados pelo processo investigativo. Morse mantinha no
rosto o sorriso agradvel, feito para a cmera, e a faca encostada na garganta de
Nadine. - Voc, tenente, chegou a seguir uma pista falsa durante algum tempo, e
chegou, acredito, a acusar um homem inocente.
- Por que voc as matou, Morse?
- Ah, eu j deixei isto extensamente documentado para futuras transmisses.
Vamos falar de voc.
- Voc deve ter-se sentido pssimo quando viu que tinha matado Louise Kirski
em vez de Nadine.
- Eu me senti muito mal com aquilo, passei mal. Louise era uma mulher boa e
calma, com uma atitude apropriada. S que no foi culpa minha. Foi culpa sua e de
Nadine por tentarem me jogar uma isca.
- Voc queria ser visto - e lanou um olhar para a cmera. Agora est
conseguindo isso, com certeza. S que isso est colocando voc no centro das
atenes, Morse. No vai conseguir escapar deste parque agora.
- Ah, eu tenho um plano, no se preocupe comigo! E temos apenas alguns
minutos antes de terminarmos com isto. O pblico tem o direito de saber. Quero que
eles assistam a esta execuo. Mas voc, eu queria que assistisse pessoalmente.
Para ver o que provocou.
Eve olhou para Nadine, no viria ajuda, ela notou. A mulher estava em choque
profundo, possivelmente drogada.
- Eu no vou ser assim to fcil de agarrar - avisou Eve.
- Vai ser ainda mais divertido.
- Como pegou Nadine? - Eve foi chegando mais perto, mantendo o olhar no
dele e suas mos  vista. - Voc deve ter usado de muita esperteza.
- Eu sou muito esperto. As pessoas, em particular as mulheres, no me do
muito crdito. Simplesmente dei uma dica a ela a respeito dos assassinatos. Uma
mensagem de uma testemunha que queria falar com ela a ss. Eu sabia que ela ia
baixar a guarda, ambiciosa como era, sempre  procura da grande histria. Eu a
peguei no estacionamento. Foi simples assim. Dei-lhe uma dose de um
tranquilizante forte, coloquei-a no prprio porta-malas e sa dirigindo. Deixei o carro
em um pequeno estacionamento de aluguel l no Centro.
- Muito esperto mesmo. - Ela chegou mais perto, parando quando ele levantou
as sobrancelhas e apertou a faca com mais firmeza. - Realmente esperto - repetiu
levantando as mos. Voc sabia que eu estava indo para a sua casa. Como
descobriu isto?
- Voc acha que o seu amigo amarrotado, o Feeney, sabe de tudo sobre
computadores? Bem, eu posso controlar os sistemas tambm. Estou conectado com
todo o seu sistema h semanas. Sabia de cada transmisso, cada plano, cada
passo que voc dava. Estava sempre  frente de voc, Dallas.
- ... Voc estava sempre  minha frente. Voc no quer matla, Morse. Voc
quer  a mim. Eu sou a mulher que perturbou voc o tempo todo, fui eu que lhe
causei todo o sufoco. Por que no a deixa ir? Ela est toda zonza, mesmo. Pegueme
no lugar dela.
Ele lanou o seu sorriso rpido e maroto.
- E por que eu no a mato primeiro e depois acabo com voc? Eve deu de
ombros.
- Pensei que voc gostasse de um desafio. Acho que me enganei. Cicely
Towers era um desafio. Voc teve de gastar um bocado de saliva para convenc-la
a ir onde voc queria que ela fosse. Yvonne Metcalf foi moleza.
- Est falando srio? Ela pensava que eu era idiota. - Ele rangeu os dentes e
soprou o ar entre eles. - Ela ainda ia estar apresentando a previso do tempo at
hoje se no tivesse aqueles peitos, e eles estavam dando a ela o tempo no ar que
era meu. A droga do meu tempo no ar! Tive de fingir que eu era um grande f dela,
tive de falar que ia fazer uma matria de vinte minutos sobre ela. S sobre ela.
Disse-lhe que tinha conseguido um lance em uma rede internacional, via satlite, e
ela caiu direitinho.
- Ento voc a encontrou naquela noite, nos fundos do prdio dela.
- Foi... Ela se arrumou toda, estava cheia de sorrisos, e sem ressentimentos.
Tentou me dizer que ficou feliz por eu ter encontrado o meu caminho. Meu cantinho!
Bem, eu fechei a matraca dela.
- Foi mesmo. Acho que voc foi muito esperto com ela tambm. Mas Nadine,
ela no est dizendo nada. Ela no consegue nem pensar direito neste instante. Ela
nem vai saber que voc est lhe dando o troco.
- Eu vou saber. O tempo acabou!  melhor sair um pouco para o lado, Dallas,
seno o sangue vai respingar em todo o seu vestido de festa.
- Espere. - Ela deu um passo e, pulando para o lado, colocou a mo na parte
de trs da roupa, onde pegou a arma. - Pisque, seu canalha, e eu acabo com voc!
Ele piscou, diversas vezes. Parecia a ele que a arma surgira do nada.
- Se voc atirar em mim, minha mo vai tremer. Ela vai estar morta antes de
mim.
- Talvez sim... - disse Eve com firmeza - talvez no... De qualquer modo, voc
vai estar morto. Jogue a faca no cho, Morse, e saia de perto dela, seno o seu
sistema nervoso vai ficar muito sobrecarregado por causa disso.
- Piranha! Voc acha que pode me vencer? - Ele puxou Nadine, obrigando-a a
ficar em p e usando-a como escudo para evitar um tiro direto, e ento a empurrou
para a frente.
Eve segurou Nadine com um dos braos enquanto mirava com a outra mo,
mas ele j se escondera entre as rvores. Sem ter outra opo, Eve bateu no rosto
de Nadine com fora, com a palma da mo, e depois com as costas.
- Acorde, Nadine! Mas que droga!
- Ele est querendo me matar. - Os olhos de Nadine rolaram para cima e
depois para baixo quando Eve bateu nela novamente.
- V andando, escutou? V andando, v buscar ajuda! Agora!
- Buscar ajuda...
- Por ali. - Eve deu um empurro em Nadine, na direo do caminho por onde
ela viera, com a esperana de que ela conseguisse se manter em p, e ento correu
para trs das rvores.
Ele falou que tinha um plano, e ela no tinha dvidas sobre isso. Mesmo que
ele conseguisse sair do parque, eles iam acabar encontrando-o. Mas ele estava
disposto a matar naquele instante... Talvez uma mulher passeando com o cachorro
ou algum chegando de um encontro.
Ele era capaz de usar a faca em qualquer um porque falhara novamente.
Ela parou entre os arbustos, com os ouvidos atentos em busca de algum som,
a respirao totalmente sob controle. Ao longe ela conseguia ouvir os barulhos da
rua e do trfego areo e podia ver as luzes da cidade por trs da massa de rvores.
Uma dezena de caminhos se espalhava diante dela, saindo da pequena
clareira e dos jardins to cuidadosamente tratados e projetados.
Ela ouviu algo. Talvez passos, talvez um arbusto agitado por um animal de
pequeno porte. Com a arma apontada, pronta, ela avanou por entre as folhas.
Havia uma fonte, mas suas guas estavam em silncio, no escuro. Havia um
pequeno parque infantil com balanos, escorregas em espiral e uma pequena selva
feita de espuma prensada que evitava que os pequenos alpinistas arranhassem as
canelas ou os cotovelos.
Eve olhou em volta de toda a rea, se xingando por no ter trazido uma
lanterna com ela. Havia pontos escuros demais que escorriam perigosamente das
rvores. E silncio demais estava suspenso no ar, como uma mortalha.
Ento, ela ouviu o grito.
Ele tinha dado a volta, pensou. O canalha tinha dado a volta por trs e fora
buscar Nadine, afinal Eve girou o corpo, e o seu instinto para se proteger foi o que
lhe salvou a vida.
A faca a atingiu na clavcula, fazendo um corte comprido e superficial que lhe
provocou uma dor ridcula, em fisgada. Ela bloqueara o golpe com o cotovelo, deulhe
um soco no maxilar e o desviou do objetivo. Mas a lmina voou, atingindo-a um
pouco acima do pulso. Sua arma voou longe, pulando da mo ferida.
- Voc achou que eu ia fugir! - Seus olhos brilhavam de forma doentia na
escurido enquanto ele andava em crculos em volta dela. - As mulheres sempre me
subestimam, Dallas. Vou cortar voc em pedaos. Vou rasgar a sua garganta. - E
avanou um passo, fazendo-a recuar. - Vou colocar suas tripas para fora. - Deu um
golpe no ar, mais uma vez, e ela sentiu o vento que veio da lmina. - Sou eu que
estou no comando agora, no ?
- Voc  que pensa! - Seu chute foi bem calculado, o ltimo recurso de uma
mulher. Ele se dobrou no cho, com o ar saindo de sua boca como o de um balo
que murchava. A faca caiu, fazendo barulho, sobre uma pedra. E ela estava em
cima dele.
Ele lutou como o louco que era. Seus dedos avanaram nela, os dentes
bateram uns contra os outros, como se estivessem  procura de carne onde
pudessem se enterrar. O brao ferido de Eve estava todo gosmento por causa do
sangue, e tentava escorregar por cima dele, enquanto ela lutava para encontrar o
ponto em seu pescoo que o deixaria imobilizado.
Eles rolaram um sobre o outro, sobre o p de pedra do cho e o gramado que
o margeava. Estavam em silncio, a no ser pelos gemidos e a respirao ofegante.
Sua mo apalpava em torno, em busca do cabo da faca, e a mo dela apertava a
dele. Ento, estrelas explodiram em sua cabea quando ele deu um soco em seu
rosto.
Ela ficou atordoada apenas por um instante, mas sentiu que estava morta. Viu
a faca, viu o seu fim e inspirou com fora para encontr-lo.
Mais tarde, ela se lembraria daquele som como se fosse o de um lobo; aquele
rugido de dio, um grito sangrento. O peso de Morse desapareceu de cima dela e o
seu corpo foi atirado longe. Ela rolou e ficou de quatro, balanando a cabea.
A faca, pensou, frentica, a maldita faca. Mas ela no conseguia ach-la e
caminhava de gatinhas em direo ao brilho difuso de sua arma.
Ela j estava em sua mo, posicionada, quando sua mente ficou clara o
bastante para que compreendesse. Dois homens estavam lutando no cho,
engalfinhados como ces sobre o lindo parque infantil. E um deles era Roarke.
- Saia de cima dele, Roarke! - Ela tentou se equilibrar em p, cambaleou e se
segurou. - Saia de cima dele para que eu possa mirar e atirar!
Eles rolaram no cho novamente, um por cima do outro. A mo de Roarke
tinha prendido a de Morse, mas era Morse que segurava a faca. Atravs do dio, do
dever e do instinto, veio uma titnica e trmula sensao de medo.
Fraca, ainda perdendo sangue, ela se encostou nas barras acolchoadas do
pequeno ringue do parque e firmou a mo da arma, segurando-a com a outra. Sob a
plida luz do luar, ela podia ver o punho de Roarke descendo sem piedade e o som
do choque de osso contra osso. A faca fez presso, com a lmina mudando o
ngulo.
Ento Eve notou que a arma desceu e penetrou na carne, e a viu tremer
enquanto alcanava seu destino final na garganta de Morse.
Algum estava rezando. Quando Roarke se levantou, Eve compreendeu que
era ela mesma. Olhando para ele, abaixou a arma. Seu rosto estava feroz, e seus
olhos estavam to quentes que pareciam queimar. Havia sangue empapando o seu
elegante smoking.
- Voc est em pssimo estado - conseguiu ela dizer.
- Devia ver como voc est. - Sua respirao estava ofegante, e ele sabia, por
experincia, que mais tarde ia sentir cada um daqueles machucados e arranhes. -
No sabia que  falta de educao sair de uma festa sem se desculpar?
Com as pernas tremendo pela reao, ela deu um passo na direo dele e
ento parou, engolindo o soluo que estava preso na garganta.
- Desculpe. Sinto muito. Meu Deus, voc est ferido?
Ela se atirou em cima dele, s faltando revist-lo quando ele a trouxe para junto
de si.
- Ele cortou voc? Ele o atingiu? - continuou ela, afastando-se e comeando a
apalpar as roupas dele.
- Eve. - Ele levantou o queixo dela e o firmou. - Voc est sangrando muito.
- Ele me atingiu em dois lugares - e esfregou a mo sob o nariz. - No foi to
mau. - Mas Roarke j estava usando um leno de linho irlands que pegara no bolso
para estancar e enfaixar a ferida do brao. - E esse  o meu trabalho. - Ela soltou
um longo suspiro e sentiu as sombras escuras que estavam em volta do seu campo
de viso comearem a desaparecer, at que conseguiu ver tudo claramente. - Onde
foi que ele cortou voc?
- Esse sangue  o dele - disse Roarke com calma. - No  meu.
- Sangue dele? - Ela quase desabou de novo, firmando os joelhos. - Voc no
est ferido?
- Nada de mais. - Preocupado, ele puxou a cabea dela para trs para poder
examinar o corte superficial ao longo de sua clavcula e o olho que estava
comeando a inchar. - Voc precisa de um mdico, tenente.
- S um minuto. Deixe-me perguntar uma coisa a voc.
- Pode mandar. - Sem ter mais nada  mo, ele acabou de rasgar parte da
manga da camisa para aplic-la sobre o sangue no ombro dela.
- Eu entro com toda carga em uma das suas reunies de diretoria quando voc
est tendo problemas para resolver um assunto de trabalho?
Ele olhou de relance para ela. Um pouco da ferocidade havia se dissolvido,
transformando-se em algo que era quase um sorriso.
- No, Eve, voc nunca fez isso. No sei o que deu em mim.
- Tudo bem. - J que no havia nenhum outro lugar onde coloc-la, Eve enfiou
a arma no mesmo lugar, na parte de baixo de suas costas, onde ela a havia
prendido quando saiu de casa, com fita adesiva. - Por essa vez passa - murmurou
ela, e pegou o rosto dele com as mos. Est bem, est bem. Fiquei apavorada
quando vi que no estava conseguindo mirar em volta de voc para atingi-lo. Achei
que ele ia mat-lo, antes que eu pudesse impedir.
- Ento d para voc entender o sentimento. - Colocando o brao em volta da
cintura dela, para apoi-la, eles comearam a mancar. Depois de um instante Eve
reparou que estava mancando, porque perdera um sapato. Sem perder o ritmo da
caminhada, tirou o outro sapato do p. Ento viu luzes diante deles.
- Policiais?
- Imagino que sim. Passei por Nadine quando ela veio andando cambaleante
pelo caminho, em direo ao porto principal. Ele a fez passar por um sufoco muito
grande, mas ela estava ainda com fora bastante e me mostrou para que direo
vocs tinham ido.
- Eu provavelmente poderia ter dado conta do canalha sozinha - murmurou
Eve, recuperando-se o suficiente para se preocupar com aquilo. - Mas vi que voc
sabe se defender muito bem, Roarke. Voc realmente leva jeito para sair no brao.
Nenhum dos dois mencionou como foi que a faca tinha ido parar no pescoo de
Morse.
Ela viu Feeney no crculo de luz, junto da cmera, com dez policiais em volta.
Simplesmente balanou a cabea e sinalizou para a equipe mdica. Nadine j
estava na maca, branca como vela.
- Dallas. - Ela levantou a mo e a deixou cair. - Eu estraguei tudo.
Eve se inclinou enquanto um dos paramdicos atendia o brao dela e a seguir
passou para o de Roarke.
- Ele encheu voc de tranquilizantes.
- Estraguei tudo - repetia Nadine, enquanto a maca era levada para uma
ambulncia. - Obrigada pelo resto da minha vida.
- Certo. - Ela se virou e se deixou cair sentada sobre um apoio acolchoado
prximo da central de atendimento. - Tem alguma coisa a para colocar no meu
olho? - perguntou. - Est latejando demais!
- Vai ficar roxo - algum avisou, com tranquilidade, enquanto uma pequena
bolsa de gelo era colocada sobre ele.
- Essa  uma boa notcia. No vou para o hospital - disse com firmeza. - O
paramdico simplesmente estalou a lngua e comeou a trabalhar na limpeza e a
enfaixar as feridas.
- Desculpe pelo vestido. - Ela sorriu para Roarke e apalpou uma das mangas,
que estava despencando. - Ele no aguentou muito. - Ficando em p, ela afastou o
paramdico que continuava a atend-la para o lado. - Tenho de voltar em casa para
trocar de roupa e depois tenho de preparar o meu relatrio. - Ela olhou firme nos
olhos dele. - Foi uma pena que Morse tenha rolado por cima da faca. A promotoria ia
adorar lev-lo a julgamento. - Ela estendeu a mo, examinou os ns dos dedos de
Roarke, que estavam esfolados, e balanou a cabea. - Foi voc que uivou?
- Como disse?
Ela deu uma risada e se encostou nele enquanto saam do parque.
- Considerando-se tudo, foi uma tremenda festa.
- Humm... Vamos ter outras. Mas tem uma coisa.
- Que ? - Ela abriu e fechou os dedos, aliviada por sentir que eles tinham
voltado a funcionar perfeitamente. A equipe de paramdicos tinha muita
competncia.
- Quero que voc se case comigo, Eve.
- H-h... Bem, ns vamos... - Ela parou e quase tropeou, ento ficou
boquiaberta, olhando para ele com a vista boa. - Voc quer o qu?
- Quero que voc se case comigo.
Ele estava com uma marca roxa no queixo, sangue no palet e brilho nos
olhos. Ela ficou imaginando se ele havia pirado.
- Ns estamos aqui arrebentados, saindo da cena de um crime, da qual cada
um de ns, ou os dois, poderia ter morrido, e voc est me pedindo para me casar
com voc?
Ele enlaou a cintura dela com o brao novamente e a empurrou ligeiramente
para a frente.
- Isso  que  ter noo do momento certo.
Fim
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